{"id":5418,"date":"2025-07-28T14:10:32","date_gmt":"2025-07-28T14:10:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/5418\/"},"modified":"2025-07-28T14:10:32","modified_gmt":"2025-07-28T14:10:32","slug":"escritora-ana-guadalupe-fala-sobre-o-processo-da-traducao-a-ia-na-literatura-e-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/5418\/","title":{"rendered":"Escritora Ana Guadalupe fala sobre o processo da tradu\u00e7\u00e3o, a IA na literatura e mais"},"content":{"rendered":"<p>Leitores da l\u00edngua portuguesa, ao abrir a primeira p\u00e1gina de uma nova aventura liter\u00e1ria, j\u00e1 podem ter se deparado com as seguintes frases: \u201cMrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores\u201d ou \u201cTodas as fam\u00edlias felizes s\u00e3o parecidas, cada fam\u00edlia infeliz \u00e9 infeliz ao seu pr\u00f3prio modo\u201d.<\/p>\n<p>Duas primeiras frases de grandes romances da literatura mundial, marcantes em ingl\u00eas e russo, mas que tamb\u00e9m t\u00eam impacto em portugu\u00eas gra\u00e7as \u00e0s escolhas de tradu\u00e7\u00e3o de Claudio Alves Marcondes, na edi\u00e7\u00e3o da Penguin Companhia de \u2018Mrs. Dolloway\u2019, e Irineu Franco Perp\u00e9tuo, tradutor de \u2018Anna Kari\u00eanina\u2019 para a Editora 34.<\/p>\n<p>Nenhuma obra em l\u00edngua estrangeira \u00e9 passada para o nosso portugu\u00eas sem o processo fundamental da tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Um trabalho subjetivo, n\u00e3o muito notado pelos leitores, mas que torna qualquer obra um trabalho feito a muitas m\u00e3os: as do autor que concebeu a hist\u00f3ria e as de quem a traduziu.<\/p>\n<p>Formada em Letras pela Universidade Estadual de Maring\u00e1 (UEM), Ana Guadalupe j\u00e1 trouxe para o portugu\u00eas livros como o cl\u00e1ssico \u2018A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath; \u2018Klara e o Sol\u2019, do ganhador do pr\u00eamio Nobel de literatura Kazuo Ishiguro; e \u2018Ao Para\u00edso\u2019, best-seller do New York Times escrito por Hanya Yanagihara.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cA tradu\u00e7\u00e3o me deu mais paci\u00eancia, mais disciplina e principalmente conhecimentos que eu n\u00e3o teria encontrado por outras vias\u201d, explicou por e-mail ao Maringa.Com<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m de tradutora, Ana tamb\u00e9m \u00e9 poeta com tr\u00eas livros j\u00e1 publicados (&#8216;Rel\u00f3gio de Pulso&#8217;, \u2018N\u00e3o Conhe\u00e7o Ningu\u00e9m Que N\u00e3o Seja Artista\u2019 e \u2018Preocupa\u00e7\u00f5es\u2019). O pr\u00f3ximo sai ano que vem pela editora Companhia das Letras, inspirado na tradu\u00e7\u00e3o e nos anos que viveu em Buenos Aires.<\/p>\n<p>Abaixo, confira nossa entrevista na \u00edntegra:<\/p>\n<p><strong>Maringa.Com: A tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria tem um car\u00e1ter quase fantasmag\u00f3rico e muitas vezes \u00e9 entendida como, simplesmente, a tradu\u00e7\u00e3o literal das palavras. Como voc\u00ea define e encara esse of\u00edcio?<\/strong><br \/>Ana Guadalupe: Encaro a tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria como um jogo, uma esp\u00e9cie de quebra-cabe\u00e7a, em que o texto vai se abrindo aos poucos e voc\u00ea vai decifrando o segredo de uma obra. Essa sensa\u00e7\u00e3o sempre se repete.<\/p>\n<p><strong>Em &#8216;Viver e Traduzir&#8217;, Laura Wittner (traduzida por Maria Cec\u00edlia Brandi e Paloma Vidal) explica que &#8220;metade das buscas relacionadas a uma tradu\u00e7\u00e3o nos leva a um lugar que n\u00e3o procur\u00e1vamos, mas que, no entanto, nos \u00e9 muito pr\u00f3ximo&#8221;.  Para quais caminhos inesperados a tradu\u00e7\u00e3o j\u00e1 te levou?<\/strong><br \/>\u00c9 verdade que a pesquisa \u00e9 muito importante, uma &#8220;segunda aba&#8221; constante no processo de tradu\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o me considero uma grande pesquisadora, sou um pouco afobada, mas a tradu\u00e7\u00e3o me deu mais paci\u00eancia, mais disciplina e principalmente conhecimentos que eu n\u00e3o teria encontrado por outras vias.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea mergulha em um novo livro a ser traduzido? Procura inspira\u00e7\u00e3o em livros, filmes, s\u00e9ries, m\u00fasica? Em outras obras do mesmo autor traduzidas por outras pessoas?<\/strong><br \/>O que sinto que faz mais diferen\u00e7a \u00e9 o contato com o texto, mesmo. E \u00e0s vezes o texto aponta pra outros lugares, cita outras fontes, menciona cidades, etc. Em alguns trabalhos busquei ler outros livros, ou no original ou traduzidos, do mesmo autor, mas em geral tento estar atenta ao texto.<\/p>\n<p><strong>Como o processo da tradu\u00e7\u00e3o alimenta e interfere em sua escrita?<\/strong><br \/>Senti que traduzir me deu um olhar mais atento e mais &#8220;treinado&#8221;. Hoje em dia, quando escrevo, sinto que tenho mais controle das diferentes maneiras de dizer a mesma coisa, por exemplo. Acho que esse &#8220;antes e depois&#8221; \u00e9 vis\u00edvel nas coisas que escrevo.<\/p>\n<p><strong>Entre as dezenas de obras que j\u00e1 traduziu, est\u00e3o alguns livros muito conhecidos e amplamente lidos. Alguns j\u00e1 chegam ao Brasil com leitores \u00e1vidos esperando pela tradu\u00e7\u00e3o. Tem algum trabalho que te intimida mais? A popularidade da Rupi Kaur ou o tamanho dos calhama\u00e7os da Hanya Yanagihara, por exemplo?<\/strong><br \/>Sim, tem trabalhos que intimidam bem mais. Os autores mais conhecidos com certeza t\u00eam esse efeito. Senti isso principalmente quando traduzi o Kazuo Ishiguro e a Sylvia Plath. Mas tamb\u00e9m tem alguns trabalhos que comecei sem grandes press\u00f5es e passaram a intimidar depois, quando percebi a complexidade do texto. Isso aconteceu com \u2018Caixa 19\u2019, da Claire Louise-Bennett, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Um dos in\u00fameros defeitos da intelig\u00eancia artificial \u00e9 a falta de car\u00e1ter humano e a subjetividade necess\u00e1rias para uma boa tradu\u00e7\u00e3o. No entanto, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua portuguesa, voc\u00ea considera as tradu\u00e7\u00f5es feitas com IA uma amea\u00e7a ao idioma escrito e falado no Brasil?<\/strong><br \/>N\u00e3o considero necessariamente uma amea\u00e7a ao idioma, mas sim, a tradu\u00e7\u00e3o feita por intelig\u00eancia artificial j\u00e1 \u00e9 uma amea\u00e7a ao trabalho de quem traduz. J\u00e1 t\u00ednhamos um mercado cheio de complexidades, e agora adicionamos mais essa. Ao mesmo tempo quero acreditar, sim, que principalmente a tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria vai continuar exigindo essa subjetividade do ser humano, uma capacidade de conciliar mais camadas de sentido e at\u00e9 um elemento inconsciente.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/walter-porto\/2025\/06\/tradutoras-fazem-manifesto-contra-condicoes-precarias-da-profissao-no-brasil.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>O manifesto do coletivo Quem Traduziu<\/strong><\/a><strong> exp\u00f5e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho adversas que os tradutores enfrentam no Brasil. A impress\u00e3o que tive lendo as reivindica\u00e7\u00f5es \u00e9 que mesmo quem, supostamente, deve entender do assunto \u2014 o mercado editorial \u2014 encara a tradu\u00e7\u00e3o como um &#8216;copia e cola&#8217; em uma l\u00edngua diferente e n\u00e3o valoriza o trabalho como algo totalmente novo e que pertence tamb\u00e9m a quem traduziu. Quais desafios voc\u00ea j\u00e1 encarou nessa profiss\u00e3o?<\/strong><br \/>N\u00e3o acho que o mercado editorial brasileiro encare a tradu\u00e7\u00e3o como um &#8220;copia e cola&#8221;, mas sim, a gente ainda lida com muitos desafios. A remunera\u00e7\u00e3o poderia ser melhor. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s as editoras e os ve\u00edculos que divulgavam os livros sequer mencionavam a pessoa que tinha traduzido, era como se o livro se traduzisse sozinho &#8212; isso parece estar mudando aos poucos. Quase n\u00e3o se fala em pagamento de royalties, como se faz em outros pa\u00edses. Eu j\u00e1 vivi todas essas quest\u00f5es, e logo percebi que viver s\u00f3 de tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil. A maioria dos profissionais da \u00e1rea precisa ter outras fontes de renda pra pagar as contas. Tamb\u00e9m \u00e9 um trabalho que exige muita energia e muita concentra\u00e7\u00e3o, porque o volume costuma ser muito grande.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea pode adiantar sobre o seu novo livro de poesias, que ser\u00e1 lan\u00e7ado ano que vem?<\/strong><br \/>Acho que \u00e9 um livro em que me arrisquei mais do que nos livros anteriores, tanto na forma quanto no conte\u00fado. E vejo dois pontos que foram centrais nessa mudan\u00e7a: a tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 um deles, outro \u00e9 o fato de eu ter morado quase quatro anos em Buenos Aires, onde aprendi a falar uma l\u00edngua nova.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Leitores da l\u00edngua portuguesa, ao abrir a primeira p\u00e1gina de uma nova aventura liter\u00e1ria, j\u00e1 podem ter se&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5419,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[2976,169,114,115,2980,2979,170,2984,2982,2981,2983,32,33,2978,2977],"class_list":{"0":"post-5418","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-ana-guadalupe","9":"tag-books","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-hanya-yanagihara","13":"tag-kazuo-ishiguro","14":"tag-livros","15":"tag-maringa","16":"tag-noticias-de-maringa","17":"tag-noticias-maringa","18":"tag-notiicas-de-maringa","19":"tag-portugal","20":"tag-pt","21":"tag-rupi-kaur","22":"tag-tradutora-ana-guadalupe"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5418"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5418\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5419"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}