{"id":55814,"date":"2025-09-02T16:10:08","date_gmt":"2025-09-02T16:10:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/55814\/"},"modified":"2025-09-02T16:10:08","modified_gmt":"2025-09-02T16:10:08","slug":"ferias-com-agatha-christie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/55814\/","title":{"rendered":"F\u00e9rias com Agatha Christie"},"content":{"rendered":"<p>Ambientados em pitorescas aldeias inglesas, mans\u00f5es isoladas, luxuosos comboios ou resorts em destinos ex\u00f3ticos, os romances e contos policiais de Agatha Christie s\u00e3o companheiros de elei\u00e7\u00e3o para as f\u00e9rias. Ricos em suspense, evitam, por\u00e9m, o dramatismo excessivo e mant\u00eam sempre um clima envolvente. Os desfechos, invariavelmente marcados pela revela\u00e7\u00e3o do criminoso, deixam ao leitor uma sensa\u00e7\u00e3o reconfortante de ordem\u00a0 e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Criadora das inesquec\u00edveis personagens de Hercule Poirot \u2013 o meticuloso, organizado e vaidoso detetive belga \u2013 e Miss Marple \u2013 uma astuta, intrometida e gentil velhinha inglesa \u2013, a escritora viu os seus livros serem traduzidos para mais de cem l\u00ednguas e figurar entre os mais publicados de sempre, apenas ultrapassados pela B\u00edblia e pelas obras de William Shakespeare.<\/p>\n<p>Christie viajou por todo o mundo, adquirindo um conhecimento direto de geografias e culturas diversas, que soube transpor para a sua obra com autenticidade. Os cen\u00e1rios dos seus enredos n\u00e3o s\u00e3o meros panos de fundo: s\u00e3o elementos estruturantes da narrativa, impregnando-a de atmosfera e densidade. Simultaneamente, oferecem ao leitor a sensa\u00e7\u00e3o de viajar sem sair do seu lugar.<\/p>\n<p>Outro elemento-chave para o \u00eaxito dos seus livros foi o conhecimento de toxicologia e qu\u00edmica que adquiriu durante a I Guerra Mundial: primeiro, como enfermeira volunt\u00e1ria no hospital da Cruz Vermelha em Torquay, a sua cidade natal, no sul de Inglaterra; depois, como assistente de farm\u00e1cia, na mesma institui\u00e7\u00e3o. Esse saber foi colocado ao servi\u00e7o dos enredos policiais que criou, como sublinha Kathryn Harkup em A is for Arsenic: The Poisons of Agatha Christie (2015). Os venenos surgem em 41 dos seus 66 romances detetivescos e em 24 das suas 148 curtas hist\u00f3rias,<\/p>\n<p>Em 1922, ano em que viajou dez meses \u00e0 volta do mundo, Christie hospedou-se no Moana Hotel, em Honolulu, no Havai, onde anos antes Jane Stanford, cofundadora da Universidade de Stanford, fora assassinada com estricnina. Este alcaloide extremamente t\u00f3xico, presente nas sementes da Strychnos nux-vomica, provoca convuls\u00f5es violentas e morte por asfixia. Embora outrora usado como pesticida, teve tamb\u00e9m aplica\u00e7\u00e3o terap\u00eautica: em doses m\u00ednimas e controladas, era administrado para estimular as contra\u00e7\u00f5es card\u00edacas e gastrointestinais.<\/p>\n<p>A estricnina \u00e9 precisamente a arma do crime em O Misterioso Caso de Styles (1920), o primeiro romance policial de Christie e tamb\u00e9m a obra que assinala a estreia de Poirot. Nesta hist\u00f3ria \u2013 que, para g\u00e1udio da autora, mereceu an\u00e1lise do The Pharmaceutical Journal \u2013 a v\u00edtima \u00e9 a Sra. Inglethorp, propriet\u00e1ria da Mans\u00e3o Styles. Recorrendo \u00e0s suas c\u00e9lebres \u2018c\u00e9lulas cinzentas\u2019 e a um manual de farm\u00e1cia, Poirot conclui que a morte se deveu \u00e0 adi\u00e7\u00e3o do sedativo da v\u00edtima \u2013 brometo de pot\u00e1ssio \u2013 a outro medicamento seu, um t\u00f3nico que continha sulfato de estricnina. Embora este composto seja bastante sol\u00favel em \u00e1gua, a presen\u00e7a do brometo de pot\u00e1ssio conduz \u00e0 sua convers\u00e3o em brometo de estricnina, muito menos sol\u00favel, que cristaliza e se deposita no fundo do frasco. Ao ingerir a \u00faltima por\u00e7\u00e3o do estimulante, a Sra. Inglethorp sofre uma overdose fatal.<\/p>\n<p>Valendo-se do fen\u00f3meno da cristaliza\u00e7\u00e3o do brometo de estricnina, o homicida planeou o crime de modo a estar ausente da mans\u00e3o na noite em que a v\u00edtima tomasse a dose letal, garantindo assim um \u00e1libi. Tratava-se, avant la lettre, de uma esp\u00e9cie de \u2018medicamento de liberta\u00e7\u00e3o retardada\u2019 \u2013 designa\u00e7\u00e3o dada a formula\u00e7\u00f5es farmac\u00eauticas que, em contexto leg\u00edtimo, libertam o princ\u00edpio ativo de forma gradual, prolongando o efeito, reduzindo a frequ\u00eancia das doses e mantendo n\u00edveis est\u00e1veis no organismo.<\/p>\n<p>Na grande viagem de 1922, iniciada em Southampton a bordo do R.M.S Kildonan Castle rumo \u00e0 Cidade do Cabo (na foto), Christie avistou a ilha da Madeira apenas do conv\u00e9s, pois o enjoo mar\u00edtimo impediu-a de desembarcar. A \u2018Rainha do Crime\u2019, como era por vezes chamada, s\u00f3 pisaria solo portugu\u00eas na d\u00e9cada de 1960, aquando de uma visita a Lisboa com o marido. Nessa ocasi\u00e3o, foi entrevistada para a RTP pelo conhecido criminologista e advogado Artur Varatojo, que lhe ofereceu um cesto de ma\u00e7\u00e3s \u2013 a sua fruta predileta. A escritora tinha o curioso h\u00e1bito de as comer durante o banho, alegando que a ajudavam a encontrar inspira\u00e7\u00e3o para as suas hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Qu\u00edmico<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ambientados em pitorescas aldeias inglesas, mans\u00f5es isoladas, luxuosos comboios ou resorts em destinos ex\u00f3ticos, os romances e contos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":55815,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,835,32,33,15923],"class_list":{"0":"post-55814","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-opiniao","13":"tag-portugal","14":"tag-pt","15":"tag-quintessencia"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55814\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}