{"id":565210,"date":"2026-10-24T23:02:27","date_gmt":"2026-10-24T23:02:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/565210\/"},"modified":"2026-10-24T23:02:27","modified_gmt":"2026-10-24T23:02:27","slug":"zelito-viana-faz-documentario-sobre-zuenir-ventura-22-10-2026-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/565210\/","title":{"rendered":"Zelito Viana faz document\u00e1rio sobre Zuenir Ventura &#8211; 22\/10\/2026 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>O cineasta Zelito Viana fez em &#8220;Mestre Zu&#8221;, que estreia nesta quinta nos cinemas, um document\u00e1rio de amigo \u2014desses que s\u00e3o de quase irm\u00e3os\u2014 sobre <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/09\/morre-zuenir-ventura-referencia-no-jornalismo-e-membro-da-abl-aos-95-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Zuenir Ventura<\/a>, talvez o grande expoente do jornalismo liter\u00e1rio no Brasil.<\/p>\n<p>Foi Elisa Ventura, filha de Zuenir, quem idealizou o projeto. Viana a conhecia porque ele e Zuenir foram amigos por d\u00e9cadas, desde os <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/mais\/fs0405200805.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">anos 1960<\/a>: os filhos tinham sido criados juntos, as fam\u00edlias viajavam unidas nos feriados. &#8220;A Elisa teve vontade de fazer um filme [sobre o pai], e a\u00ed me perguntou se eu queria dirigir&#8221;, conta o cineasta.<\/p>\n<p>Zuenir Ventura j\u00e1 estava com problemas de mobilidade, mas nunca deixou de estar l\u00facido, nos meses em que o document\u00e1rio foi rodado, segundo o documentarista. O jornalista, que <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/09\/morre-zuenir-ventura-referencia-no-jornalismo-e-membro-da-abl-aos-95-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">morreu no dia 22 de setembro<\/a>, aos 95 anos, teve tempo de ver a obra pronta. &#8220;Adorou, viu duas vezes&#8221;, conta o amigo, orgulhoso.<\/p>\n<p>Antes, Viana havia consultado Zuenir para saber como ele imaginava que o filme deveria come\u00e7ar. Com que cena? &#8220;Ele me falou assim: \u2018Tem que come\u00e7ar com a cuidadora me dando um banho\u2019.&#8221;<\/p>\n<p>A sugest\u00e3o, mesmo que em tom de brincadeira, diz muito sobre Zuenir. Podia n\u00e3o ser a cena mais edificante do mundo, mas era a verdade dele, naquele momento da vida. O filme, amoroso e delicado, n\u00e3o tentou reproduzir o duro <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2025\/10\/como-vladimir-herzog-e-zuenir-ventura-explicaram-vazio-cultural-apos-ai-5.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">rigor jornal\u00edstico<\/a> do homenageado.<\/p>\n<p>Na cena de abertura que sobreviveu \u00e0 edi\u00e7\u00e3o, um grupo de amigos de Zuenir, quase todos jornalistas da Zona Sul do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/rio-de-janeiro\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Rio de Janeiro<\/a>, se re\u00fane em uma sala de estar da classe m\u00e9dia alta carioca para falar de maneira \u00edntima e cordial sobre Mestre Zu, definido desde o in\u00edcio como uma &#8220;unanimidade&#8221; e tratado, pelo cineasta, como uma esp\u00e9cie de santo.<\/p>\n<p>A pessoa teria que ser muito desalmada \u2014ou jornalista\u2014 para fazer diferente. Ainda mais com um personagem como Zuenir.<\/p>\n<p>Filho de um pintor de paredes e de uma m\u00e3e que lavava batinas para poder mant\u00ea-lo no col\u00e9gio de padres, Zuenir trabalhou desde a adolesc\u00eancia. Depois cursou letras e, por falar franc\u00eas, batucou um texto muito bem feito sobre o escritor argelino Albert Camus para a Tribuna da Imprensa, o di\u00e1rio de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2026\/08\/biografia-de-carlos-lacerda-narra-virulencia-com-que-defendeu-do-comunismo-ao-golpismo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Carlos Lacerda<\/a>.<\/p>\n<p>O artigo o promoveu do arquivo, onde trabalhava, para a reda\u00e7\u00e3o do jornal. Ainda jovem ganhou uma bolsa de estudos do governo franc\u00eas e, j\u00e1 na Europa, virou correspondente em Paris da Tribuna.<\/p>\n<p>Na volta, dirigiu reda\u00e7\u00f5es e abriu as portas do jornalismo para gera\u00e7\u00f5es de rep\u00f3rteres e editores. Aquilo de que todo mundo se lembra, quando fala de Zuenir, \u00e9 da do\u00e7ura e da bondade. Tra\u00e7os que apareciam na voz baixa, no ritmo calmo da conversa, no olhar acolhedor \u2014e que est\u00e3o l\u00e1, no filme. &#8220;Eu nunca o vi falar mal de ningu\u00e9m&#8221;, acrescenta Viana.<\/p>\n<p>Embora apare\u00e7a no filme como uma figura pura e sem arestas, lembrada com direito a choro e embargo na voz dos entrevistados, Zuenir era um ex\u00edmio observador de contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Seu best-seller &#8220;1968 \u2013 O Ano que N\u00e3o Terminou&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma ode \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de que ele pr\u00f3prio fez parte. Antes, tem olhar atento para as contradi\u00e7\u00f5es daqueles jovens idealistas.<\/p>\n<p>Sobre a revolu\u00e7\u00e3o sexual dos anos 1960 e 1970, por exemplo, Zuenir escreveu: &#8220;Provavelmente, falava-se e escrevia-se mais do que se fazia sexo. Como em geral s\u00f3 se fala de liberdade na sua aus\u00eancia, a libera\u00e7\u00e3o era mais aparente do que real&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o texto de Zuenir se assemelha ao clima de uma sossegada conversa entre amigos na sala de casa. A prosa \u00e9 relaxada, dando a impress\u00e3o de que o narrador se acomoda em uma poltrona mole, com a janela aberta \u00e0 altura da copa das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Mas o que o texto relata cria desconforto, como se o leitor viajasse em um apertado trem de sub\u00farbio (&#8220;Cidade Partida&#8221;) ou em uma estrada esburacada no Acre (&#8220;Chico Mendes: Crime e Castigo&#8221;).<\/p>\n<p>&#8220;O Zuenir escrevia leve sem ser superficial&#8221;, afirma Viana. O ponto alto desse seu talento talvez apare\u00e7a no cap\u00edtulo de abertura de &#8220;1968&#8221;.<\/p>\n<p>Ali, ele relata uma festa na passagem de 1967 para 1968. O &#8220;r\u00e9veillon da casa da Hel\u00f4&#8221; reuniu em uma mans\u00e3o do bairro do Jardim Bot\u00e2nico gente da cultura e do dinheiro do Rio de Janeiro, o pessoal do teatro e do cinema, de um lado, e &#8220;grupos de jovens assessores lacerdistas&#8221;, de outro.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio \u00e9 narrado a princ\u00edpio dentro do registro da cordialidade, da alegria de pertencimento que as rela\u00e7\u00f5es pessoais criam. Zuenir reproduz no texto a satisfa\u00e7\u00e3o de fazer parte de um grupo. Havia esperan\u00e7a tamb\u00e9m, na festa \u2014quem sabe o Brasil n\u00e3o caminhasse, nos meses seguintes, para algum tipo de abertura democr\u00e1tica?<\/p>\n<p>O tom de coluna social, que de certa forma permanece at\u00e9 o fim do cap\u00edtulo, n\u00e3o obscurece a tens\u00e3o que contamina a festa, e que cresce \u00e0 medida que as pessoas se embriagam. Em certo momento, explode uma pancadaria generalizada. Na sala da casa.<\/p>\n<p>&#8220;Eu entrei no sal\u00e3o feito um trator, batendo em todo mundo e apanhando de todo mundo&#8221;, relata o produtor <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2026\/07\/morre-luiz-carlos-barreto-um-dos-maiores-produtores-de-cinema-do-brasil-aos-98.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Luiz Carlos Barreto<\/a>, no livro. &#8220;N\u00e3o sei em quem bati, nem quem me bateu.&#8221; Sob a cordialidade, em um ambiente cheio de notinhas para a coluna de Ibrahim Sued, a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1 um momento an\u00e1logo a esse, mas tratado com muito menos destaque, no filme de Viana. \u00c9 quando ele narra o que diz ser &#8220;um ponto fora da curva&#8221; de Zuenir.<\/p>\n<p>Zuenir havia sido ofendido por <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2021\/03\/morre-aos-100-anos-o-jornalista-helio-fernandes-perseguido-e-preso-pela-ditadura-militar.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">H\u00e9lio Fernandes<\/a>, no final dos anos 1980, na Tribuna da Imprensa. Fernandes, \u00e0 \u00e9poca dono do jornal, fazia isso a torto e a direito, criava in\u00fameros desafetos e era agressivo com seus advers\u00e1rios, nas p\u00e1ginas da Tribuna. Em 1987, sobrou para Zuenir, que resolveu se vingar.<\/p>\n<p>O futuro autor de &#8220;Cidade Partida&#8221; comprou uma lata de tinta marrom. Ele sabia que Fernandes costumava caminhar ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio. Zuenir esperou que o desafeto passasse pelo trecho habitual e atirou a tinta, cobrindo Fernandes com um melado brilhante e amarronzado.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio aparece de forma breve, sem muito contexto nem maiores explica\u00e7\u00f5es, no filme. Segundo Viana, at\u00e9 nessa rea\u00e7\u00e3o indignada Zuenir foi elegante. &#8220;N\u00e3o era para fazer mal&#8221;, afirma. &#8220;Foi s\u00f3 para encher o saco&#8221; do H\u00e9lio Fernandes.<\/p>\n<p>A reportagem quis saber se Viana imaginava como o pr\u00f3prio Zuenir trataria esse epis\u00f3dio, se fosse ele a dirigir o filme.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 poss\u00edvel que ele, como jornalista, fosse investigar mais a fundo o que foi aquilo&#8221;, diz o cineasta. &#8220;Se bem que, tamb\u00e9m, \u00e9 uma coisa t\u00e3o fora da curva da exist\u00eancia dele que d\u00e1 para ele me perdoar.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O cineasta Zelito Viana fez em &#8220;Mestre Zu&#8221;, que estreia nesta quinta nos cinemas, um document\u00e1rio de amigo&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":565211,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_share_on_mastodon":"0"},"categories":[140],"tags":[207,470,1414,114,115,147,148,236,3804,1428,170,146,32,33,2326,600],"class_list":["post-565210","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-filmes","tag-arte","tag-cinema","tag-documentario","tag-entertainment","tag-entretenimento","tag-film","tag-filmes","tag-folha","tag-imprensa","tag-jornalismo","tag-livros","tag-movies","tag-portugal","tag-pt","tag-rio-de-janeiro","tag-veja-video"],"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/117498383380083001","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/565210","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=565210"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/565210\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/565211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=565210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=565210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=565210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}