{"id":58335,"date":"2025-09-04T10:38:15","date_gmt":"2025-09-04T10:38:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/58335\/"},"modified":"2025-09-04T10:38:15","modified_gmt":"2025-09-04T10:38:15","slug":"a-saga-de-salvador-silver-nos-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/58335\/","title":{"rendered":"A Saga de Salvador Silver nos EUA"},"content":{"rendered":"<p>A refer\u00eancia constante pelas personagens portuguesas do livro aos A\u00e7ores, uma saudade permanente apesar da pobreza das ilhas de onde tinham sa\u00eddo, tamb\u00e9m \u00e9 uma regra nos emigrantes? <\/p>\n<p>Tenho privado com emigrantes a\u00e7orianos e, se pudesse apontar um fator comum na rela\u00e7\u00e3o com as suas origens, seria a facilidade com que deixam verter uma l\u00e1grima quando se fala do lugar de onde v\u00eam. \u00c9 o chamado long-distance nationalism, que dificilmente sucede quando nunca tivemos de abandonar a p\u00e1tria. A minha experi\u00eancia de pseudo-emigrante na Irlanda pode tamb\u00e9m ter servido como catalisador para conseguir descrever esse saudosismo emigrante. <\/p>\n<p>Para construir a personagem Salvador Silver, contou com literatura da \u00e9poca? Um jovem gangster luso-americano teria de ser daquela maneira? <\/p>\n<p>Falei com especialistas, li dezenas de livros (do John dos Passos ao Os Portugueses no Faroeste: Terra a Perder de Vista), vi document\u00e1rios e filmes, procurei mapas e jornais americanos, incluindo edi\u00e7\u00f5es antigas do Boston Globe. Tamb\u00e9m viajei aos EUA em 2023, consultei arquivos, pris\u00f5es e museus. Montei um puzzle intricado e preenchi os vazios. Por exemplo, para escrever sobre a fuga do protagonista com a rapariga circense, tive de me aprofundar no mundo do circo, no tempo em que Chaplin fazia sucesso no cinema e Houdini fascinava com o escapismo. <\/p>\n<p>Era a \u00e9poca da Lei Seca nos Estados Unidos. Conseguiu retrat\u00e1-la muito bem no romance. Tamb\u00e9m os emigrantes portugueses foram afetados, alguns deles com destilarias ilegais ou traficantes mesmo. O algarvio Manuel Zorra, ou Many Zorra, tamb\u00e9m dava um romance? <\/p>\n<p>Sim, havia a\u00e7orianos que produziam bebidas espirituosas em alambiques clandestinos nas suas caves. Dizia-se \u201cgin de banheira\u201d, express\u00e3o que ficou conhecida na resist\u00eancia \u00e0 Lei Seca. Creio que a hist\u00f3ria de Manuel Zorra deu mesmo origem a um romance, mas escrito em ingl\u00eas e publicado nos EUA. Em Portugal, s\u00e3o hist\u00f3rias desconhecidas ou que acabam abandonadas. Mas h\u00e1 in\u00fameras, muitas envolvendo portugueses. Devo confessar que tive d\u00favidas em avan\u00e7ar com a escrita deste livro: entrar na mente de um criminoso pode mexer connosco, mesmo tendo a psicologia como aliada. Al\u00e9m disso, pela primeira vez abordei a hist\u00f3ria de um anti-her\u00f3i, ainda por cima introvertido. Felizmente, os meus livros t\u00eam sido bem recebidos pela cr\u00edtica liter\u00e1ria e pelos leitores, mas admito que escrever sobre protagonistas densos e pouco consensuais \u00e9 sempre um risco. <\/p>\n<p>Sacco e Vanzetti s\u00e3o importantes na narrativa. Foi mesmo um esc\u00e2ndalo na Am\u00e9rica, e fora dela, a condena\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p>Hoje \u00e9 incontest\u00e1vel que Sacco e Vanzetti n\u00e3o foram os autores dos crimes que os levaram a tribunal. O caso teve tal repercuss\u00e3o que inspirou filmes, document\u00e1rios, pe\u00e7as de teatro, m\u00fasicas, pinturas e at\u00e9 desencadeou greves e manifesta\u00e7\u00f5es em massa, algumas delas marcadas por grande viol\u00eancia, em v\u00e1rias partes do mundo, em defesa da absolvi\u00e7\u00e3o. O funeral deles teve uma assist\u00eancia de mais de cem mil pessoas. \u00c9 um dos casos legais mais estudados nos EUA, pelos piores motivos: levou inocentes \u00e0 cadeira el\u00e9trica (e a pena de morte continua a ser aplicada nalguns contextos). O que quase ningu\u00e9m conhecia era a figura de um criminoso a\u00e7oriano que chegou a tentar assumir parte da responsabilidade para os ilibar. <\/p>\n<p>Esta \u00e9poca do romance \u00e9 tamb\u00e9m uma \u00e9poca em que os estrangeiros s\u00e3o malvistos na Am\u00e9rica. Percebe porqu\u00ea? <\/p>\n<p>Os estrangeiros eram vistos com desconfian\u00e7a porque aceitavam sal\u00e1rios baixos, havia grandes diferen\u00e7as culturais, preconceitos \u00e9tnicos e medos pol\u00edticos, sendo muitas vezes associados a ideias radicais ou atividades il\u00edcitas, o que gerava hostilidade e segrega\u00e7\u00e3o. Enfim, eram os Loucos Anos Vinte. Mas \u00e9 importante pensar se n\u00e3o estamos n\u00f3s a viver outros loucos anos vinte, embora num novo s\u00e9culo. <\/p>\n<p>Os A\u00e7ores e os a\u00e7orianos s\u00e3o um manancial para um romancista? <\/p>\n<p>Trago os A\u00e7ores para a escrita por afeto \u00e0 terra onde nasci, n\u00e3o por imposi\u00e7\u00e3o. Tenho muitos outros temas liter\u00e1rios que gostaria de explorar e que n\u00e3o se ligam diretamente aos A\u00e7ores, preciso de refletir sobre o que vou escrever a seguir. Nos contos que tenho vindo a escrever, o tema da ilha \u00e9 mais raro, por exemplo. Ainda assim, acredito que o arquip\u00e9lago continuar\u00e1 a aparecer, ainda que sob outras formas e perspetivas. Creio que existe uma m\u00edstica muito pr\u00f3pria que rodeia esta parcela atl\u00e2ntica. <\/p>\n<p>Como v\u00ea hoje a comunidade portuguesa nos Estados Unidos, sobretudo a que \u00e9 de origem a\u00e7oriana? <\/p>\n<p>Com respeito e admira\u00e7\u00e3o. Na sua maioria, pessoas de bem e com grandes capacidades. Uma boa parte da minha fam\u00edlia emigrou, e respeito-os pela coragem que tiveram e a pertin\u00e1cia de refazer a vida noutro lugar. Por vezes, sinto que tamb\u00e9m deveria ter arriscado noutro pa\u00eds, e isso est\u00e1 patente nos meus livros. Mas tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1ria coragem para ficar, sobretudo quando parece que estamos numa luta por uma sociedade melhor que podemos nunca vencer. <\/p>\n<p>Est\u00e1 a caminho a edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas deste Condena\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p>Para o mercado dos EUA, j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel em eBook, mas na vers\u00e3o portuguesa. O romance Ilha-Am\u00e9rica est\u00e1 em vias de ser traduzido por Scott Edward Anderson e A Escrava A\u00e7oriana j\u00e1 est\u00e1 traduzido para ingl\u00eas por Diniz Borges, mas ainda estou em busca de agenciamento ou editora com distribui\u00e7\u00e3o al\u00e9m-fronteiras. Creio que este Condena\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m re\u00fane todas as condi\u00e7\u00f5es para ser publicado em ingl\u00eas, espero poder dizer em breve que tal vai mesmo acontecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A refer\u00eancia constante pelas personagens portuguesas do livro aos A\u00e7ores, uma saudade permanente apesar da pobreza das ilhas&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":58336,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[85],"tags":[351,993,315,306,114,115,413,16483,237,32,33],"class_list":{"0":"post-58335","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-entretenimento","8":"tag-acores","9":"tag-america","10":"tag-cultura","11":"tag-edicao-impressa","12":"tag-entertainment","13":"tag-entretenimento","14":"tag-eua","15":"tag-gangster","16":"tag-livro","17":"tag-portugal","18":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58335","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58335"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58335\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58336"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58335"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58335"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58335"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}