{"id":58955,"date":"2025-09-04T20:07:07","date_gmt":"2025-09-04T20:07:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/58955\/"},"modified":"2025-09-04T20:07:07","modified_gmt":"2025-09-04T20:07:07","slug":"livro-postumo-de-joan-didion-reune-dialogos-com-psiquiatra-04-09-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/58955\/","title":{"rendered":"Livro p\u00f3stumo de Joan Didion re\u00fane di\u00e1logos com psiquiatra &#8211; 04\/09\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Aos f\u00e3s antigos de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2021\/12\/morre-joan-didion-escritora-pioneira-do-jornalismo-literario-aos-87-anos.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Joan Didion<\/a>, &#8220;Para John&#8221; pode soar como o material bruto que deu origem aos seus dois livros de mem\u00f3rias: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/ilustrada\/ult90u60243.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;O Ano do Pensamento M\u00e1gico&#8221;,<\/a> de 2005, sobre a morte de seu marido, e &#8220;Noites Azuis&#8221;, de 2011, uma reflex\u00e3o sobre a vida e a morte de sua filha.<\/p>\n<p>&#8220;Para John&#8221; \u00e9 um compilado de pouco mais de 150 p\u00e1ginas escritas por Didion, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/04\/diario-secreto-de-joan-didion-revela-cancer-desconhecido-e-relacionamento-abusivo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">encontradas logo ap\u00f3s sua morte<\/a>. S\u00e3o transcri\u00e7\u00f5es de sess\u00f5es com seu psiquiatra Roger MacKinnon, feitas ao longo de tr\u00eas anos e endere\u00e7adas ao seu marido, o escritor John Dunne.<\/p>\n<p>A autora come\u00e7ou a se consultar por sugest\u00e3o do doutor Kass, o terapeuta de Quintana Roo, sua filha que lidava com a depress\u00e3o e o alcoolismo. Roo havia dito ao seu m\u00e9dico que suspeitava que a m\u00e3e tamb\u00e9m estivesse depressiva.<\/p>\n<p>Kass acreditava que a doen\u00e7a de Quintana tivesse como causa a rela\u00e7\u00e3o de codepend\u00eancia com a m\u00e3e. Tamb\u00e9m considerava ben\u00e9fico para a fam\u00edlia que m\u00e3e e filha se tratassem, al\u00e9m de valorizar a troca de informa\u00e7\u00f5es com MacKinnon sobre suas respectivas pacientes.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 repleto de relatos interessantes, como quando Didion conta a seu psiquiatra sobre a noite em que assistiu com sua filha, na \u00e9poca com sete anos, ao filme &#8220;A Noite dos Mortos-Vivos&#8221;. MacKinnon consegue extrair desse epis\u00f3dio, a princ\u00edpio banal, camadas de complexidade na rela\u00e7\u00e3o das duas.<\/p>\n<p>Ou quando Didion, em momento de autoconsci\u00eancia cortante, reflete: &#8220;Percebi que talvez parte da situa\u00e7\u00e3o em que me encontro agora resulte do fato de que nunca me preparei \u2014de alguma forma, nunca consegui me preparar\u2014 para a idade que tenho e para a situa\u00e7\u00e3o em que me encontro agora. E comecei a me perguntar se, de alguma forma, n\u00e3o teria sido necess\u00e1rio \u2014para preservar a imagem de mim mesma como algu\u00e9m jovem e poderosa\u2014 manter Quintana como um beb\u00ea, dependente de mim&#8221;.<\/p>\n<p>Quando &#8220;Para John&#8221; foi publicado, houve quem defendesse a exposi\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma da autora e argumentasse que essa seria uma forma interessante de compreender o seu processo criativo. Apontavam, com alguma raz\u00e3o, que sua biografia sempre havia informado a sua escrita, e vice-versa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m houve quem afirmasse que a identidade de Didion era o seu estilo, uma depura\u00e7\u00e3o da mistura de concis\u00e3o e musicalidade de Hemingway, de quem era f\u00e3. &#8220;Para John&#8221;, de acordo com eles, n\u00e3o era uma obra acabada, mas a sombra de um esbo\u00e7o.<\/p>\n<p>Martin Amis uma vez definiu a escrita da autora como &#8220;composta de \u00eanfases, repeti\u00e7\u00f5es e reitera\u00e7\u00f5es. Um estilo de quem aprecia olhar as mesmas coisas sob \u00e2ngulos diferentes e gosta de come\u00e7ar e de terminar frases sucessivas de modo semelhante&#8221;. \u00c9 um estilo enumerativo, com modula\u00e7\u00e3o e cad\u00eancia pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>Ela escrevia as cenas de seus romances como quem criava o roteiro de um filme. Nunca teve muita paci\u00eancia com descri\u00e7\u00f5es. O que movia a a\u00e7\u00e3o eram os di\u00e1logos e as elipses entre esses di\u00e1logos. &#8220;Para John&#8221; pode ser lido como a elabora\u00e7\u00e3o dessa t\u00e9cnica.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 registrado \u00e9, em primeiro lugar, a lembran\u00e7a do que disse ao terapeuta. Depois, o recorte das confid\u00eancias dirigidas ao marido. Importa tanto o que foi revelado quanto o porqu\u00ea da revela\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m, \u00e9 claro, da maneira escolhida para narrar.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Em ensaio antigo sobre Hemingway, Didion condenou a publica\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma de material inacabado do autor. Editar um escritor morto era uma atividade repleta de seus pr\u00f3prios dilemas \u00e9ticos, refletia.<\/p>\n<p>Didion achava que o estilo liter\u00e1rio de algu\u00e9m tinha menos a ver com ornamento e muito mais com precis\u00e3o. Voc\u00ea at\u00e9 pode ler &#8220;Para John&#8221; e consider\u00e1-lo uma obra crua e verdadeira, mas talvez seja mais adequado argumentar o oposto.<\/p>\n<p>Quer dizer, a verdadeira Joan Didion \u00e9 a perfeccionista que submetia cada senten\u00e7a a revis\u00f5es exaustivas. A obcecada com a precis\u00e3o de sua escrita e a esteta que redefiniu a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a> e o jornalismo nos Estados Unidos. No fim, a sua verdade jamais foi &#8220;crua&#8221;, mas sempre fruto de elabora\u00e7\u00e3o, rigor e m\u00e9todo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Aos f\u00e3s antigos de Joan Didion, &#8220;Para John&#8221; pode soar como o material bruto que deu origem aos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":58956,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[207,169,114,115,1907,236,16623,864,237,170,32,33],"class_list":{"0":"post-58955","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-arte","9":"tag-books","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-escritores","13":"tag-folha","14":"tag-joan-didion","15":"tag-literatura","16":"tag-livro","17":"tag-livros","18":"tag-portugal","19":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58955","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58955"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58955\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/58956"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58955"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58955"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58955"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}