{"id":59266,"date":"2025-09-05T02:08:14","date_gmt":"2025-09-05T02:08:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/59266\/"},"modified":"2025-09-05T02:08:14","modified_gmt":"2025-09-05T02:08:14","slug":"livros-conversas-e-um-amigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/59266\/","title":{"rendered":"livros, conversas e um amigo"},"content":{"rendered":"<p>Um amigo meu, professor e ensa\u00edsta que muito respeito e admiro, diz que, de futuro n\u00e3o contem com ele para estar, seja em que papel for (autor, moderador), em feiras do livro. \u00c9 pena, pois esse meu amigo \u00e9 respeitado pelos seus pares, tem uma obra relevant\u00edssima no que diz respeito ao ensaio e as suas interven\u00e7\u00f5es t\u00eam sempre interesse. Perdemos n\u00f3s, mas perdem sobretudo os que organizam feiras. Perdem os editores que, porventura, quisessem ter esse meu amigo como autor nos seus cat\u00e1logos. Compreende-se, no entanto, que este amigo meu n\u00e3o queira mais ir a feiras. S\u00e3o, quase todas, lugares onde o livro, apesar de ser o pretexto para que se realizem, \u00e9 o parente pobre do que, na verdade, nas feiras acontece. Vejamos por partes.<\/p>\n<p>Portugal \u00e9 um pa\u00eds onde, como todos sabemos, se l\u00ea pouco. Inquisi\u00e7\u00e3o que durou quase 300 anos; 48 anos de ditadura salazarista-marcelista; regime liberal oitocentista interrompido por per\u00edodos de repress\u00e3o; uma democracia que, reconquistada em 1974, tem dado nos \u00faltimos anos sinais de retrocesso a v\u00e1rios n\u00edveis \u2013 com especial \u00eanfase no campo educativo onde, verdade seja dita, n\u00e3o fizemos leitores de qualidade de h\u00e1 25 anos para c\u00e1 \u2013; uma tend\u00eancia cong\u00e9nita do portugu\u00eas para desconfiar sempre daqueles que sentem porque pensam e pensam porque sentem (o portugu\u00eas adora a mediania, o tudo-igual que garante a paz podre das rela\u00e7\u00f5es humanas e o adormecimento da puls\u00e3o vital), ler \u00e9 um verbo que incomoda. E no entanto, quer a leitura, quer o objeto \u2018livro\u2019 s\u00e3o, n\u00e3o raro, sinais de distin\u00e7\u00e3o social que muitos apreciam e cultivam. Nada contra. Mas as feiras do livro, visando o lucro, tornaram-se nos \u00faltimos dez, quinze, vinte anos \u2013 em concord\u00e2ncia com o que aconteceu no mercado editorial e as apostas desse mercado em autores e obras que literariamente pouco ou nada valem \u2013 inimigas do pr\u00f3prio livro. Melhor: da literatura.<\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que muitos de n\u00f3s apreciam estar em feiras do livro \u2013 e a do Porto \u00e9 o melhor exemplo do que afirmo \u2013 onde h\u00e1 alfarrabistas com livros rar\u00edssimos, bel\u00edssimas edi\u00e7\u00f5es e conversas sempre ricas atrav\u00e9s das quais mostram que sabem de livros e de leituras, certo \u00e9 tamb\u00e9m que se vem instalando aceleradamente uma forma de se falar do livro e da leitura que, no fundo, superficializa, ou banaliza, a pr\u00f3pria ideia de feira, de livro e, claro, de literatura. Talvez o amigo de quem falo (n\u00e3o revelo a sua identidade porque, tal como este meu amigo, muitos outros h\u00e1 que pensam o mesmo) sinta, experiente que \u00e9, que ir a uma feira do livro j\u00e1 pouco tem que ver com o pensar a literatura, qual o seu lugar numa sociedade encapsulada nas redes sociais, desritualizada e sem no\u00e7\u00e3o do que seja \u2018literatura\u2019. Se andarmos pelos stands das feiras do livro que se realizam no Ver\u00e3o, que vemos? Que o que se patrocina \u00e9 o livro de leitura f\u00e1cil, esse cujo texto jamais constituir\u00e1 um problema existencial para o leitor de grau-zero que \u00e9 quase toda a gente. Pretensiosismo meu? Seja. Leibniz pode ensinar a uns quantos o que \u00e9 verdadeiramente f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Ora, como a literatura que est\u00e1 nas feiras do livro \u00e9 muitas vezes um arremedo de literatura, assim como muitos que escrevem podem at\u00e9 escrever mas n\u00e3o ser\u00e3o nunca gente que tenha literatura dentro de si, talvez a algu\u00e9m que j\u00e1 deu para estes campeonatos (o das feiras do livro, o das mesas com livros a autografar para o leitor inexistente que comprar\u00e1 as bulas da moda, mas desconhece o c\u00f3digo liter\u00e1rio, o dos debates sem consequ\u00eancia alguma, o das apresenta\u00e7\u00f5es in\u00fateis), insistir em estar e falar em feiras do livro \u00e9 coisa a n\u00e3o repetir. Este meu amigo \u00e9 mais velho do que eu. Viu muito mundo. Ironia e bonomia, intelig\u00eancia e distanciamento s\u00e3o nele faces da sua rica e complexa personalidade. Mas eu, por enquanto, continuarei a ir a feiras do livro.<\/p>\n<p>Estive na do Porto onde comprei, por pre\u00e7o imbat\u00edvel, livros extraordinariamente belos \u2013 livros com literatura, claro. Desde logo a edi\u00e7\u00e3o de<strong> Lisboa<\/strong> <strong>Livro de Bordo <\/strong>de Cardoso Pires, a que tem a chancela da C\u00edrculo Leitores, de 1998. Um outro livro?<strong> A Gata Borralheira<\/strong>, romance de Tomaz de Figueiredo, um escritor hoje que poucos frequentam. Ler a sua prosa imp\u00f5e-se, como se imp\u00f5e ler (no meu caso, reler) outros dois livros do Cardoso Pires; livros estes que igualmente comprei ao meu amigo Marco, na Reler (\u00e9 esse o nome deste alfarr\u00e1bio de Vizela), stand onde encontrei o Presidente da Rep\u00fablica Marcelo Rebelo de Sousa e o presidente da C\u00e2mara do Porto. Com Marcelo estive \u00e0 conversa justamente sobre livros: <strong>\u00abEnt\u00e3o o que \u00e9 que o Ant\u00f3nio Carlos est\u00e1 a ler?\u00bb<\/strong>. E claro que a esta pergunta de Marcelo Rebelo de Sousa, assim \u00e0 queima-roupa, n\u00e3o tive outra hip\u00f3tese. Que lia os livros comprados ao meu amigo Marco, o sabedor alfarrabista. Uma edi\u00e7\u00e3o em especial afinou o olhar de lince do Sr. Presidente: a edi\u00e7\u00e3o das obras completas de Ferreira de Castro, em papel-b\u00edblia, ali, assim, por uns m\u00f3dicos 18 euros!! E vi o que Marcelo comprou: uma hist\u00f3rica edi\u00e7\u00e3o de <strong>Os Maias<\/strong>, talvez a 3\u00aa, com o proveito de, sob o atento olhar de Rui Moreira, falarmos da import\u00e2ncia destas feiras n\u00e3o s\u00f3 para o neg\u00f3cio do livro, mas para ouvir-se falar de livros\u2026 Suspeito que terei feito um esgar de d\u00favida assim que o nosso Presidente disse isso. Sim, as feiras s\u00e3o essenciais: s\u00e3o inclusivas, s\u00e3o momentos em que, ao ar livre, gera\u00e7\u00f5es v\u00e1rias se misturam, comprando livros!<\/p>\n<p>Satisfeito por me ter encontrado por acaso com Marcelo e com Rui Moreira, pensei, em todo o caso, no meu amigo que diz que n\u00e3o ir\u00e1 a mais feira nenhuma\u2026 Sim, posso concordar que nem sempre quem ali ouvimos a falar de livros, sejam seus ou de outros, sabe exatamente do que est\u00e1 a falar. Concordo que h\u00e1 um excesso de musica, de bandas, direis mesmo, de ru\u00eddo nestas feitas do livro. Igualmente me parece que h\u00e1 um injustificado deslumbramento (dos nov\u00edssimos autores, tantos deles imberbes em mat\u00e9ria de literatura) em torno destes encontros. Mas vi o rosto feliz do Carlos Vaz Marques, ouvi uma ou outra conversa que me enriqueceu. E, sobretudo, comprei em alfarrabistas coisas que me est\u00e3o no sangue \u2013 coisas antigas, da mem\u00f3ria, vindas da mem\u00f3ria das minhas primeiras idas a essa feira do livro de Lisboa de 1989\/90. Sim, h\u00e1 qualquer coisa de rom\u00e2ntico ainda nestas feiras: estar com um ou outro amigo, um ou outro editor. Ver livros que julg\u00e1vamos desaparecidos. Comprei uma edi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 tinha do Alexandra Alpha, e ainda a edi\u00e7\u00e3o da Moraes desse inescap\u00e1vel <strong>O H\u00f3spede de Job<\/strong>. E um livro raro das Guerrilla Girls, um livro que os desventurados deste mundo sexista em que vivemos deveriam ler. Soberbas fotografias! Terr\u00edvel s\u00e1tira!<\/p>\n<p>Este meu querido amigo que n\u00e3o quer ir a mais feiras ter\u00e1 a sua raz\u00e3o. Eu terei a minha. Por enquanto, e apesar do ru\u00eddo que cada vez mais cresce nestas feiras (ru\u00eddo mental, visual, al\u00e9m de outros), reservo-me o direito de ir onde mais importa: a esses alfarrabistas onde nos reencontramos com a literatura. Para\u00edso dos Livros (a BD esta ali toda!!), a Chamin\u00e9 da Costa, a Snob! Livros velhos, dos bons. E edi\u00e7\u00f5es novas, pouco frequentadas \u2013 isso est\u00e1 nas feiras! E se elogio os sebos, tal n\u00e3o quer dizer que nas editoras de agora o liter\u00e1rio esteja ausente, nada disso. A Flan\u00eaur \u00e9 excelente e na Exclama\u00e7\u00e3o h\u00e1 coisas a descobrir. E o mesmo se diga da conceituada Tinta-da-China, nas suas diversas cole\u00e7\u00f5es. Nesta comprei outros livros de enorme interesse sobre este nosso tempo. Livros de Hist\u00f3ria. Mas nos alfarrabistas h\u00e1, como disse, um qu\u00ea de gostoso tempo antigo\u2026<\/p>\n<p>E com isto deixo a esse meu amigo uma nota final: ler no Ver\u00e3o, ir a feiras do livro, isso deve ser ainda um modo de resistir a esta \u00e9poca de rasura cultural. Concordo: a literatura parece ser muitas vezes o que menos importa nessas feiras. Temos de ensinar a ler mais e melhor. Ensinar a reler. Meu amigo, e que tal ir a essas feiras para visitar os alfarr\u00e1bios? E j\u00e1 agora: longe da multid\u00e3o que se passeia, se fores ao Porto, a essa bel\u00edssima feira, lembra-te: tens um Tomaz de Figueiredo ou um Ferreira de Castro ali perdidos. Nem trezentos anos de atraso mental e meio s\u00e9culo de fascismo vencem os que amam os livros, as artes, a literatura \u2013 essa fiel dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 honra de estarmos vivos, n\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>Professor e cr\u00edtico liter\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um amigo meu, professor e ensa\u00edsta que muito respeito e admiro, diz que, de futuro n\u00e3o contem com&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":59267,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,835,32,33],"class_list":{"0":"post-59266","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-opiniao","13":"tag-portugal","14":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59266","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59266"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59266\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/59267"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59266"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59266"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59266"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}