{"id":59602,"date":"2025-09-05T09:56:34","date_gmt":"2025-09-05T09:56:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/59602\/"},"modified":"2025-09-05T09:56:34","modified_gmt":"2025-09-05T09:56:34","slug":"a-palavra-a-poetica-e-um-pais-cartacapital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/59602\/","title":{"rendered":"A palavra, a po\u00e9tica e um pa\u00eds \u2013 CartaCapital"},"content":{"rendered":"<p>Um livro sobre m\u00fasica brasileira que come\u00e7a com um longo ensaio sobre <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/cultura\/morre-arthur-moreira-lima-pianista-que-rompeu-barreiras-entre-o-erudito-e-o-popular\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Chopin<\/a>. Esta n\u00e3o ser\u00e1 uma das menores ironias de Viagem do Recado: M\u00fasica e Literatura, de <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/augusto-diniz\/wisnik-o-tempo-da-pandemia-coincide-com-o-tempo-da-insensatez-negacionista\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Jos\u00e9 Miguel Wisnik<\/a>. Ela, no entanto, explicita bem o projeto desse escritor a um s\u00f3 tempo rigoroso e surpreendente, que defende duas teses complementares.\n<\/p>\n<p>Uma das teses tem como ponto de partida a reflex\u00e3o sobre o lugar da literatura em modernidades perif\u00e9ricas como a nossa, passando pelo problema do estatuto da can\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s, da permeabilidade entre a dita alta cultura e a produ\u00e7\u00e3o popular para terminar na defesa da especificidade do modo de o Pa\u00eds pensar a si mesmo servindo-se da articula\u00e7\u00e3o singular entre m\u00fasica e literatura.\n<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento que encontramos no livro a ideia de o Brasil realizar uma esp\u00e9cie de gaia ci\u00eancia, para falar como <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/mundo\/cunhado-de-nietzsche-criou-colonia-no-paraguai-para-preservar-raca-ariana-7786\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Nietzsche<\/a>, ou seja, um saber po\u00e9tico-musical afirmativo que implica uma refinada educa\u00e7\u00e3o sentimental.\n<\/p>\n<p>Nesse saber, as vicissitudes do \u00adPa\u00eds n\u00e3o se resolvem apenas nas estiliza\u00e7\u00f5es de seus impasses ou na consci\u00eancia do fracasso de suas tentativas de forma\u00e7\u00e3o, mas na concilia\u00e7\u00e3o entre a palavra do \u00adpoema \u2013 que sempre for\u00e7a os limites da comunica\u00e7\u00e3o e do sentido \u2013 e a circula\u00e7\u00e3o estendida da forma-can\u00e7\u00e3o.\n<\/p>\n<p>Essa primeira tese j\u00e1 daria, por si s\u00f3, muito o que pensar. A forma com que Wisnik a defende, come\u00e7ando por retornar a Machado de Assis e seus m\u00fasicos que sonham em compor sinfonias para poucos e acabam sempre por compor polcas e maxixes de sucesso para terminar encontrando <a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/cultura\/guimaraes-rosa-levado-a-periferia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Guimar\u00e3es Rosa<\/a> e sua natureza que mais parece uma \u00adphysis da qual a linguagem \u00e9 extra\u00edda ainda em estado bruto, demonstra por que ele \u00e9 simplesmente o \u00fanico entre n\u00f3s que sabe atualmente mobilizar o que a forma ensaio tem de mais profundo e criador.\n<\/p>\n<p>Como escreveu Adorno, o ensaio guarda essa confian\u00e7a de quem entra em err\u00e2ncia sabendo ser tal err\u00e2ncia a forma mais adequada de encontrar rela\u00e7\u00f5es cuja for\u00e7a explanat\u00f3ria \u00e9 maior que qualquer constru\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de totalidades.\n<\/p>\n<p>No ensaio que d\u00e1 nome ao volume, Viagem do Recado, por exemplo, come\u00e7amos pelas min\u00facias da interpreta\u00e7\u00e3o de Recado\u00ad do Morro, de Guimar\u00e3es Rosa, para de repente sermos levados ao relat\u00f3rio escrito pelo pr\u00f3prio Guimar\u00e3es, na fun\u00e7\u00e3o de diplomata, sobre a constru\u00e7\u00e3o de Itaipu.\n<\/p>\n<p>Em seguida, passamos \u00e0 antropologia reversa de A Queda do C\u00e9u, livro de \u00adDavid Kopenawa e Bruce Albert, para terminarmos em uma mesa de restaurante onde Tom Jobim explica a Bernie Krause como, em sua inf\u00e2ncia, a floresta e seus sons ainda chegavam \u00e0s raias da cidade do Rio de Janeiro. Uma escrita que se deixa conduzir dessa forma diz muito sobre o que gaia ci\u00eancia pode efetivamente significar.\n<\/p>\n<p>Mas o livro tem ainda uma segunda tese, perseguida com afinco. Ela explica algo da raz\u00e3o de toda essa viagem come\u00e7ar por Chopin. O que interessa a Wisnik \u00e9, entre outras coisas, entender como esse m\u00fasico t\u00e3o fundamental para a educa\u00e7\u00e3o sentimental da burguesia \u2013 surgido quando o piano se torna o primeiro div\u00e3 da era moderna \u2013 traz uma concep\u00e7\u00e3o de m\u00fasica como \u201cuma linguagem funda e sem palavras, ligada intensamente a zonas ps\u00edquicas insond\u00e1veis e radicalmente avessa aos impulsos program\u00e1ticos e descrit\u00edveis\u201d.\n<\/p>\n<p>O que Wisnik busca compreender \u00e9 como nasce essa linguagem avessa \u00e0 representa\u00e7\u00e3o que se vincula a um horizonte ps\u00edquico e libidinal que mais parece conectar-se \u00e0 dimens\u00e3o do que Freud um dia chamar\u00e1 de pensamento prim\u00e1rio, com seus deslocamentos, condensa\u00e7\u00f5es e figura\u00e7\u00f5es livres.\n<\/p>\n<p><img class=\"size-full wp-image-541434\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Viagem-768x307.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"307\"   loading=\"lazy\" decoding=\"async\"\/> Viagem do Recado: M\u00fasica e Literatura. Jos\u00e9 Miguel Wisnik. Companhia das Letras (368 p\u00e1gs., 99,90 reais)\n<\/p>\n<p>\u00c9 como se dela emergisse algo a violentar os esquemas pr\u00e9vios da imagina\u00e7\u00e3o e for\u00e7ar os limites expressivos do corpo. N\u00e3o por acaso, contempor\u00e2neos de Chopin, como Schumann, viram em sua cria\u00e7\u00e3o \u201calgo de doentio, de febril, de repulsivo\u201d.\n<\/p>\n<p>Merece medita\u00e7\u00e3o profunda o fato de Chopin sair \u00e0 procura de um povo explodindo a forma de suas dan\u00e7as, mazurcas, polonaises e de outras manifesta\u00e7\u00f5es populares. Irrompe-se assim a gram\u00e1tica de seus afetos, fazendo com que marchas militares terminem em dan\u00e7as de sal\u00e3o.\n<\/p>\n<p>Se Viagem do Recado \u00e9 t\u00e3o marcado pelo recurso cont\u00ednuo e pontual \u00e0 psican\u00e1lise \u00e9 porque sua segunda tese \u00e9 sobre de que forma a m\u00fasica, ao procurar por um povo, pode conectar-se aos fluxos libidinais que comp\u00f5em territ\u00f3rios em cont\u00ednua muta\u00e7\u00e3o. Essa tese \u00e9 ainda mais surpreendente que a primeira.\n<\/p>\n<p>Esse inconsciente pulsional a c\u00e9u aberto Wisnik encontra em Chopin, mas tamb\u00e9m em Villa-Lobos, quando, ao comentar o Choro n\u00ba 10, celebra o: \u201cdesrecalque de um fundo vital represado\u201d composto de um aglomerado fusional de revivesc\u00eancias musicais de toda ordem animados por uma \u201cenergia n\u00e3o ligada\u201d.\n<\/p>\n<p>Ele estar\u00e1 tamb\u00e9m nos brejos de Guimar\u00e3es Rosa e na liberdade formal da m\u00fasica popular brasileira que, numa can\u00e7\u00e3o como A Terceira Margem do Rio, de Milton Nascimento e Caetano Veloso, interroga a literatura em posi\u00e7\u00e3o altiva, invertendo lugares, decompondo familiaridades.\n<\/p>\n<p>Em momentos assim, a m\u00fasica popular consegue trazer uma \u201clinguagem po\u00e9t\u00adica n\u00e3o saturada, em estado nascente, cujo desenvolvimento ainda n\u00e3o se deteve\u201d. Trata-se de maneira original de se contrapor \u00e0s leituras deficit\u00e1rias da realidade nacional.\n<\/p>\n<p>Poder\u00edamos deixar aqui v\u00e1rias perguntas, como o que acontecer\u00e1 com essa capacidade da a m\u00fasica brasileira n\u00e3o s\u00f3 interpretar um povo em seu ponto de fundo vital represado, mas tentar construir um povo por vir.\n<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto essa hist\u00f3ria ainda \u00e9 a hist\u00f3ria de nosso presente? E, se n\u00e3o for, que contradi\u00e7\u00f5es internas nos levaram para fora desse projeto t\u00e3o audacioso? Porque talvez seja mesmo essa a fun\u00e7\u00e3o dos belos livros: nos permitir formular quest\u00f5es que nos inquietar\u00e3o por muito tempo. \u2022\n<\/p>\n<p><b>Publicado na edi\u00e7\u00e3o n\u00b0 1378 de CartaCapital, em 10 de setembro de 2025.<\/b>\n<\/p>\n<p><b>Este texto aparece na edi\u00e7\u00e3o impressa de CartaCapital sob o t\u00edtulo \u2018A palavra, a po\u00e9tica e um pa\u00eds\u2019<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um livro sobre m\u00fasica brasileira que come\u00e7a com um longo ensaio sobre Chopin. 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