{"id":61868,"date":"2025-09-07T08:20:08","date_gmt":"2025-09-07T08:20:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/61868\/"},"modified":"2025-09-07T08:20:08","modified_gmt":"2025-09-07T08:20:08","slug":"jovens-trocam-o-celular-por-livros-de-annie-ernaux-vencedora-do-nobel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/61868\/","title":{"rendered":"Jovens trocam o celular por livros de Annie Ernaux, vencedora do Nobel"},"content":{"rendered":"<p>      CARLOS HEL\u00cd DE ALMEIDA<br \/>\nEspecial para o Estado de Minas<\/p>\n<p class=\"texto\"><a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/pensar\/2022\/10\/07\/interna_pensar,1404071\/nobel-para-annie-ernaux-premia-autora-que-evitou-armadilhas-da-autoficcao.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Annie Ernaux<\/strong> <\/a>n\u00e3o frequenta as redes sociais. Mas a escritora francesa de 85 anos n\u00e3o precisa mais das plataformas virtuais para tomar conhecimento do alcance de sua obra, que supera 20 t\u00edtulos, entre os jovens da Fran\u00e7a.\u00a0<\/p>\n<p class=\"texto\">No document\u00e1rio \u201c\u00c9crire la vie\u201d, que estreou na mostra \u201cGiornate degli autori\u201d do Festival de Veneza, encerrado neste s\u00e1bado (6\/9), a diretora Claire Simon registra discuss\u00f5es entre alunos de escolas secundaristas de diferentes regi\u00f5es da Fran\u00e7a e da Guiana Francesa em torno dos textos da autora de romances como \u201cO acontecimento\u201d (2000) e \u201cOs anos\u201d (2008), e de como eles se conectam com suas pr\u00f3prias vidas.\u00a0<\/p>\n<p class=\"texto\">A escritora, ganhadora do Pr\u00eamio Nobel de Literatura de 2022, n\u00e3o aparece em nenhum frame do document\u00e1rio. Mas sua presen\u00e7a se faz nas refer\u00eancias a seus textos, que ela mesma descreveu como \u201csimples, diretos e despojados de floreios dram\u00e1ticos\u201d, e de como estes, que falam de fam\u00edlias problem\u00e1ticas, experi\u00eancias sexuais e maternidade, espelham a viv\u00eancia de seus jovens leitores.<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cMinha experi\u00eancia com a leitura sempre foi solit\u00e1ria. N\u00e3o tive a oportunidade de discutir os livros que lia com outros adultos. Fiquei fascinada com a espontaneidade com que os jovens discutem no document\u00e1rio os temas de meus livros\u201d, diz Annie, em rara apari\u00e7\u00e3o p\u00fablica, nesta entrevista.<\/p>\n<p>O que mais a surpreendeu no filme, que mostra jovens refletindo sobre as pr\u00f3prias experi\u00eancias a partir de sua obra?<\/p>\n<p class=\"texto\">N\u00e3o uso redes sociais, mas sei que os jovens usam muito as redes para mostrar coisas sobre eles mesmos, criando uma imagem que \u00e9 completamente diferente da que eles realmente t\u00eam. No filme da Claire, voc\u00ea tem a impress\u00e3o de que as redes sociais n\u00e3o existem para eles, mesmo que n\u00e3o tenham sido for\u00e7ados a ignor\u00e1-las ou n\u00e3o terem dado raz\u00e3o para us\u00e1-las. Eles conversam e citam trechos dos meus livros, tudo sem a presen\u00e7a de um celular, como que procurando algo dentro de si que n\u00e3o sabiam que existia. Tive a sensa\u00e7\u00e3o de que esses jovens n\u00e3o conhecem tudo sobre si mesmos.<\/p>\n<p>Eles demonstram intimidade com toda a sua obra, e n\u00e3o apenas seus livros mais famosos&#8230;<\/p>\n<p class=\"texto\">Fiquei surpresa como os jovens do document\u00e1rio s\u00e3o espont\u00e2neos em suas d\u00favidas e na troca de ideias com os colegas. Sei que, de certa forma, eles foram orientados por seus professores a criar essas discuss\u00f5es a partir dos meus livros, mas algo de novo, muito especial, aconteceu ali, que nunca tinha visto em outro campo: eles foram incentivados a levantar quest\u00f5es, a pensar nos temas com os quais se identificavam, a partir das hist\u00f3rias de meus romances, mas sem receber perguntas diretas. Todas as intera\u00e7\u00f5es entre eles e as quest\u00f5es que levantam s\u00e3o geradas de forma org\u00e2nica.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#13;<br \/>\n    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/ecrirelaviefilme-59011571.jpg\" alt=\"Garota l\u00ea livro e sorri, ladeada por dois adolescentes, em cena do filme Ecrire la vie \" title=\" No filme '\u00c9crire la vie', jovens estudantes conectam a pr\u00f3pria vida \u00e0 literatura de Annie Ernaux, escritora que ganhou o Pr\u00eamio Nobel em 2022\" loading=\"lazy\" width=\"775\" height=\"470\"\/>&#13;<br \/>\n    &#13;<br \/>\n         No filme &#8216;\u00c9crire la vie&#8217;, jovens estudantes conectam a pr\u00f3pria vida \u00e0 literatura de Annie Ernaux, escritora que ganhou o Pr\u00eamio Nobel em 2022 Be For Films\/divulga\u00e7\u00e3o&#13;<br \/>\n    &#13;\n<\/p>\n<p>Com quem a senhora conversava sobre os livros que admirava, quando jovem?<\/p>\n<p class=\"texto\">Nunca tive esse tipo de experi\u00eancia quando adolescente, nunca fui convidada a falar sobre os livros que lia. Claro, algumas das minhas leituras tiveram impacto forte, profundo, em mim, mas nunca tive a oportunidade de discuti-las com um adulto. E isso \u00e9 algo muito espec\u00edfico na minha viv\u00eancia. Minha experi\u00eancia de leitura sempre foi solit\u00e1ria. Talvez isso se deva \u00e0 \u00e9poca em que cresci e ao meio social ao qual eu pertencia. Eu n\u00e3o tinha ningu\u00e9m com quem conversar sobre minhas leituras. Eu n\u00e3o falava sobre isso com minha m\u00e3e, por exemplo, que tamb\u00e9m lia muito. Simplesmente diz\u00edamos uma \u00e0 outra algo como: \u201cEste livro \u00e9 \u00f3timo, mesmo\u201d. E ficava por isso mesmo.<\/p>\n<p>Que sentimento lhe ocorre quando percebe que algo que a senhora escreveu e compartilhou em forma de livros tem impacto na forma de ver o mundo de outras pessoas, como os adolescentes do filme?<\/p>\n<p class=\"texto\">Quando escrevo, ou quando penso em escrever um livro, n\u00e3o tenho ideia de como ele ser\u00e1. Fico realmente procurando por algo que seja \u201ccerto\u201d, \u201capropriado\u201d. \u201cCerto\u201d \u00e9 uma palavra muito importante para mim. As palavras s\u00e3o importantes porque elas devem mostrar o que sinto, o que vejo, e me guio por elas e ent\u00e3o, de repente, o livro est\u00e1 terminado. \u00c9 tudo muito estranho, muito bizarro para mim. A\u00ed fico me perguntando: como isso aconteceu? Agora, o livro \u00e9 um objeto que est\u00e1 fora de mim, ele est\u00e1 l\u00e1 e ser\u00e1 lido por homens e mulheres, e isso \u00e9 algo maravilhoso. Sinto como se tivesse dado essas minhas experi\u00eancias a outras pessoas. Mas, mesmo que reconhe\u00e7a o que escrevi e que est\u00e1 sendo discutido no filme da Claire, eu imediatamente me pergunto como tudo isso, essas experi\u00eancias, esses livros, aconteceram. Pode parecer meio esot\u00e9rico, mas \u00e9 isso o que acontece, mesmo que sejam hist\u00f3rias de carne, de sangue e sentimentos.<\/p>\n<p>A senhora j\u00e1 teve alguns livros adaptados por filmes. Chegou a codirigir um (o document\u00e1rio \u201cLes ann\u00e9es super-8\u201d, com o filho David Ernaux-Briot, em 2022). Qual a import\u00e2ncia do cinema em sua vida?<\/p>\n<p class=\"texto\">Sou fascinada por filmes desde muito jovem. Mas n\u00e3o podia frequentar cinemas com frequ\u00eancia, por causa das condi\u00e7\u00f5es financeiras da fam\u00edlia. Era mais f\u00e1cil ler livros. Mas sempre gostei de filmes. Lembro-me de ter visto \u201cOs amantes\u201d (1958), de Louis Malle, e todos os filmes da Nouvelle Vague, filmes que capturavam o tempo em que vivia quando era estudante. Lembro-me muito tamb\u00e9m de \u201cHiroshima, mon amour\u201d (1959, de Alain Resnais). Percebia, \u00e0 \u00e9poca, que havia um novo cinema, e pensava que deveria haver tamb\u00e9m uma nova literatura, e o \u201cNouveau roman\u201d estava l\u00e1! Queria criar algo nesse contexto, quando jovem, mas n\u00e3o tive sucesso. Cheguei a escrever alguma coisa inspirada nessa corrente, mas foi rejeitado. Mas o cinema sempre foi muito importante para mim.<\/p>\n<p>Importante a ponto de inspirar seus textos?<\/p>\n<p class=\"texto\">Sempre vejo alguma rela\u00e7\u00e3o entre o que vejo em um filme e o que escrevo. Quando comecei a escrever \u201cO lugar\u201d, voltei a assistir a \u201cLa strada\u201d (1954) com meus filhos, porque descobri que havia uma forte rela\u00e7\u00e3o entre o filme de Federico Fellini com a hist\u00f3ria que eu estava prestes a desenvolver. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de realismo, de arg\u00facia, nessa minha inspira\u00e7\u00e3o que acho interessante. J\u00e1 estive muito interessada em \u201cO baile\u201d (1983), do Ettore Scola, porque \u00e9 um filme que fala muito sobre a Segunda Guerra Mundial. Comecei a escrever meus livros falando de minha experi\u00eancia pessoal naquele per\u00edodo. Ent\u00e3o, tanto o cinema quanto a escrita s\u00e3o, para mim, duas formas, dois meios de express\u00e3o, muito importantes, embora sejam muito diferentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"CARLOS HEL\u00cd DE ALMEIDA Especial para o Estado de Minas Annie Ernaux n\u00e3o frequenta as redes sociais. 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