{"id":61901,"date":"2025-09-07T09:00:37","date_gmt":"2025-09-07T09:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/61901\/"},"modified":"2025-09-07T09:00:37","modified_gmt":"2025-09-07T09:00:37","slug":"em-veneza-mata-hari-mostra-obsessao-de-david-carradine-06-09-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/61901\/","title":{"rendered":"Em Veneza, &#8216;Mata Hari&#8217; mostra obsess\u00e3o de David Carradine &#8211; 06\/09\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Alguns pais levam suas filhas <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/adolescente\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">adolescentes <\/a>a<a href=\"https:\/\/guia.folha.uol.com.br\/shows\/2025\/09\/the-town-coala-e-palco-brasil-sao-paulo-recebe-tres-festivais-no-fim-de-semana.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> festivais de m\u00fasica<\/a>, outros a praias isoladas, alguns v\u00e3o \u00e0s compras e tem ainda os que preferem tentar o<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrio\/2025\/07\/dar-espaco-para-o-adolescente-encontrar-identidade-propria-melhora-relacao-entre-pais-e-filhos.shtmlhttps:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2025\/07\/aquele-filho-antes-tao-familiar-comeca-a-se-tornar-um-estrangeiro-na-adolescencia.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\"> di\u00e1logo aberto<\/a> como forma de se conectar com <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2025\/07\/aquele-filho-antes-tao-familiar-comeca-a-se-tornar-um-estrangeiro-na-adolescencia.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">esses seres estranhos <\/a>e cheios de opini\u00f5es que \u00e0s vezes berram por e \u00e0s vezes repelem a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso do ator David Carradine, que nos anos 1970 era rico, famoso, bonit\u00e3o e ultra hippie, estrela da s\u00e9rie de TV &#8220;Kung Fu&#8221;, em que interpretava um monge sino-americano que ia ao velho oeste dos Estados Unidos em busca de sabedoria e conex\u00e3o com seu pai e seu irm\u00e3o, a escolha de como se conectar com a filha adolescente foi bem mais ousada, trabalhosa, desordenada, criativa.<\/p>\n<p>Para controlar Calista, sua filha rebelde, e mant\u00ea-la por perto, prometeu dar a ela o que tinha de mais precioso: o sucesso e uma carreira de artista. Concebeu um longa-metragem sobre a vida da dan\u00e7arina e cortes\u00e3 Mata Hari, morta por fuzilamento em 1917, na Fran\u00e7a, acusada de espionagem e trai\u00e7\u00e3o, que ele dirigiria e Calista seria a protagonista.<\/p>\n<p>O <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/documentario\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">document\u00e1rio<\/a> &#8220;Mata Hari&#8221;, que teve sua premi\u00e8re mundial em<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/festival-de-veneza\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"> Veneza<\/a> e foi premiado no festival neste s\u00e1bado, 6, conta a hist\u00f3ria do filme inacabado de Carradine, mas vai muito al\u00e9m. Com um material de arquivo riqu\u00edssimo, o pr\u00f3prio filme inacabado, entrevistas de bastidores com todos os envolvidos ainda vivos \u2013Carradine morreu em 2006, de asfixia acidental, em Bangkok, na Tail\u00e2ndia, aos 72 anos\u2013, o document\u00e1rio \u00e9 um dos estudos mais complexos e cheios de camadas e revela\u00e7\u00f5es sobre o relacionamento peculiar entre um pai e uma filha.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m est\u00e1 l\u00e1 muito sobre a famosa cortes\u00e3 e suposta espi\u00e3 holandesa, mas o que realmente surpreende nessa grande e desordenada trama \u00e9 como a presen\u00e7a daquele ser, uma menina, sua filha querida, \u00e9 a coisa mais disruptiva que poderia acontecer na vida daquele homem.<\/p>\n<p>O filme tamb\u00e9m se distingue pela disposi\u00e7\u00e3o de abra\u00e7ar a incompletude, tratando as lacunas e aus\u00eancias n\u00e3o como obst\u00e1culos, mas como componentes essenciais da hist\u00f3ria. \u00c9 um document\u00e1rio que se coloca numa estranha tr\u00edplice fronteira entre arte, educa\u00e7\u00e3o e mitologia.<\/p>\n<p>David Carradine havia abandonado seu primeiro casamento com a dan\u00e7arina Donna Lee Becht, m\u00e3e de Calista, nascida em 1967, no come\u00e7o da carreira de ambos, quando come\u00e7ou a se destacar como ator e decidiu voltar para sua Hollywood natal e tentar a sorte no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/cinema\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">cinema<\/a>, como seu pai, John Carradine, e seus irm\u00e3os, Keith e Robert.<\/p>\n<p>Calista foi criada pela m\u00e3e no norte do Estado de Nova York, onde Donna dava aulas de dan\u00e7a. Mais tarde, a m\u00e3e virou core\u00f3grafa de pe\u00e7as da Broadway e as duas voltaram a viver em Nova York. Calista era uma menina linda, carism\u00e1tica e indom\u00e1vel, e, quando a adolesc\u00eancia bateu \u00e0 sua porta, o relacionamento com a m\u00e3e ficou imposs\u00edvel e ela foi morar com o pai.<\/p>\n<p>A casa de David Carradine ficava no lend\u00e1rio bairro Laurel Canyon, onde moravam v\u00e1rios m\u00fasicos que viviam como se numa comunidade sem lei. Calista abra\u00e7ou de cara aquele estilo de vida sem regras, sem limites, sem explica\u00e7\u00f5es. David nunca nem cogitou a ideia de ser uma autoridade em sua vida, e o relacionamento entre os dois foi se desgastando rapidamente. Da\u00ed a ideia de fazer o filme. Pelo menos em um set de filmagem, sua filha, a protagonista da trama, teria que ficar por perto e fazer como ele dissesse.<\/p>\n<p>O longa-metragem seria filmado algumas semanas por ano, acompanhando a transforma\u00e7\u00e3o da filha, enquanto sua personagem tamb\u00e9m se transformava nas v\u00e1rias vers\u00f5es de sua curta exist\u00eancia. Mata Hari tinha 41 anos quando morreu, Calista, 13 quando come\u00e7aram as filmagens.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o passou pela \u00cdndia, por Amsterd\u00e3, pela Alemanha, por Los Angeles e se arrastou por 15 anos, toda bancada por Carradine, que no processo foi \u00e0 fal\u00eancia algumas vezes. Envolveu produtores alem\u00e3es, assistentes holandeses, figurantes e coadjuvantes de todos os pa\u00edses. Todo mundo na produ\u00e7\u00e3o, ca\u00f3tica desde o in\u00edcio, acabava fazendo um papel secund\u00e1rio. Foram horas e horas de filmes, de celulose, de 35 ml que n\u00e3o tinha nem previs\u00e3o de fim, muito menos data de lan\u00e7amento.<\/p>\n<p>E, apesar de ser um plano lindo e rom\u00e2ntico, o filme, desde o come\u00e7o, esbarrou em dois obst\u00e1culos. O primeiro era o estilo de vida de Carradine, um maluc\u00e3o que andava descal\u00e7o, fumava maconha e bebia sem distin\u00e7\u00e3o entre hora de trabalho e hora de lazer. A segunda, bem mais complexa, \u00e9 como uma adolescente traduz para si uma ideia de seu pai.<\/p>\n<p>Calista Carradine encarnou Mata Hari sem nenhum m\u00e9todo, se entregou completamente \u00e0 personagem. Ela sabia que, enquanto estava vivendo como a dan\u00e7arina ex\u00f3tica dos pa\u00edses baixos, tinha 100% da aten\u00e7\u00e3o de seu pai. Com sua sexualidade \u00e0 flor da pele e exaltada pelo projeto, Calista se envolve com seus coadjuvantes, e conforme trocava de romance, o pai adaptava na fic\u00e7\u00e3o o que a filha fazia na vida real.<\/p>\n<p>Fora o tempo em que passavam juntos no set, David e Calista viviam como se fossem colegas, em casa n\u00e3o tinha a autoridade do set, e, mesmo em situa\u00e7\u00f5es em que ela implorava implicitamente por sua interven\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o vinha. Como quando se envolveu com um homem abusivo e que circulava na turma de Charles Manson, l\u00edder do grupo que assassinou a atriz Sharon Tate, gr\u00e1vida de nove meses, em 1969.<\/p>\n<p>Os diretores Joe Beshenkovsky e James A. Smith conduzem &#8220;Mata Hari&#8221; como um caleidosc\u00f3pio em que v\u00e1rios temas surgem e se misturam a outros, se transformando em uma terceira coisa, talvez n\u00e3o em sua forma final. \u00c9 um filme sobre um filme, mas tamb\u00e9m uma investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, um drama familiar e uma medita\u00e7\u00e3o a respeito da fragilidade, tanto da vida quanto da arte.<\/p>\n<p>Carradine surge em diversos momentos comentando seu projeto, com suas falhas e sucessos, por meio de uma recria\u00e7\u00e3o vocal autorizada pela fam\u00edlia. Suas palavras, ditas d\u00e9cadas depois das grava\u00e7\u00f5es originais, d\u00e3o um tom fantasmag\u00f3rico ao document\u00e1rio, ao mesmo tempo em que refor\u00e7am uma ideia que est\u00e1 sempre por ali, de como a arte pode tanto preservar quanto distorcer a mem\u00f3ria. O recurso, pol\u00eamico, n\u00e3o \u00e9 disfar\u00e7ado pelos diretores, ao contr\u00e1rio, \u00e9 refor\u00e7ado o uso dele, afinal qualquer narra\u00e7\u00e3o, qualquer conclus\u00e3o a que se chegue depois de uma coisa vivida, \u00e9 tamb\u00e9m um ato de inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Alguns pais levam suas filhas adolescentes a festivais de m\u00fasica, outros a praias isoladas, alguns v\u00e3o \u00e0s compras&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":61902,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[145],"tags":[211,210,470,1414,114,115,1203,14554,236,5267,32,33],"class_list":{"0":"post-61901","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-celebridades","8":"tag-celebridades","9":"tag-celebrities","10":"tag-cinema","11":"tag-documentario","12":"tag-entertainment","13":"tag-entretenimento","14":"tag-festival-de-cinema","15":"tag-festival-de-veneza","16":"tag-folha","17":"tag-mostra-de-cinema","18":"tag-portugal","19":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61901"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61901\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61902"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}