{"id":63302,"date":"2025-09-08T19:17:13","date_gmt":"2025-09-08T19:17:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/63302\/"},"modified":"2025-09-08T19:17:13","modified_gmt":"2025-09-08T19:17:13","slug":"o-acesso-ao-ensino-superior-esta-infiltrado-com-privilegio-a-falacia-da-meritocracia-como-formula-regente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/63302\/","title":{"rendered":"O acesso ao Ensino Superior est\u00e1 infiltrado com privil\u00e9gio: a fal\u00e1cia da meritocracia como f\u00f3rmula regente"},"content":{"rendered":"<p><strong>A ret\u00f3rica clara mas problem\u00e1tica de Fernando Alexandre, Ministro da Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>  <\/p>\n<p class=\"p1\">No passado dia 2 de setembro, foi noticiado o futuro descongelamento das propinas, a come\u00e7ar no ano letivo de 2026\/2027. Embora o aumento esperado possa parecer reduzido, pelo menos nas licenciaturas \u2014 passa de um teto m\u00e1ximo de 697\u20ac para 710\u20ac \u2014, esta decis\u00e3o abre caminho para uma maior desigualdade social, para al\u00e9m da simbologia inerente de descongelar o teto das propinas. Gra\u00e7as ao discurso do Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Inova\u00e7\u00e3o, Fernando Alexandre, em entrevista na Sic Not\u00edcias, facilmente percebemos o racioc\u00ednio perigoso em termos sociais que levou a esta decis\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align:center;\">\u201cSe reduzirmos as <strong>propinas<\/strong>, estamos a colocar toda a sociedade a pagar o ensino daqueles que tiveram o privil\u00e9gio de frequentar o Ensino Superior, e isso \u00e9 altamente regressivo. (&#8230;) Estamos num mundo muito competitivo e n\u00f3s s\u00f3 vamos conseguir melhorar a nossa sociedade e transformar a nossa economia se n\u00f3s conseguirmos ter <strong>universidades <\/strong>de excel\u00eancia. Para termos universidade de excel\u00eancia, elas t\u00eam de competir a n\u00edvel internacional.<strong> E para competirem a n\u00edvel internacional, elas t\u00eam de ter os recursos.<\/strong> De que recursos \u00e9 que elas precisam? Para contratar os melhores professores, para contratar os melhores investigadores, <strong>elas n\u00e3o podem depender do Estado. <\/strong>(&#8230;) Se a propina que pode ser cobrada pelas institui\u00e7\u00f5es for limitada ou for diminu\u00edda, aquilo que financiar\u00e1 uma institui\u00e7\u00e3o de excel\u00eancia \u00e9 o qu\u00ea? S\u00e3o os impostos dos portugueses, atrav\u00e9s de uma transfer\u00eancia do Or\u00e7amento do Estado?\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">A resposta a esta pergunta seria: sim, mas avancemos. Esta ret\u00f3rica contorcida, embora clara no seu intuito, precisa de ser desmontada. Adianto que este tipo de discurso n\u00e3o \u00e9 surpreendente, vindo de um homem doutorado em economia, que v\u00ea aparentemente tudo como capital. <strong>O ponto central aqui \u00e9 que frequentar o Ensino Superior \u00e9 um privil\u00e9gio. Se olharmos para os modelos internacionais de educa\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e de Inglaterra que implicam propinas alt\u00edssimas que endividam as pessoas durante largos anos da sua vida, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de perceber que tais modelos s\u00f3 vincam ainda mais as desigualdades sociais. <\/strong>\u00c9 preciso nivelar as oportunidades, na busca de uma sociedade que nivela o acesso a oportunidades entre classes sociais. Antes de se preocupar com a possibilidade das universidades portuguesas conseguirem competir a n\u00edvel internacional, se calhar, deveria primeiramente preocupar-se com o panorama dos estudantes portugueses que n\u00e3o conseguem prosseguir com os seus estudos por falta de privil\u00e9gios econ\u00f3micos e sociais.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>O Sr. Ministro da Educa\u00e7\u00e3o esquece-se que deveria estar a centrar o seu discurso no direito social \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o no privil\u00e9gio capital de o poder frequentar.<\/strong> \u00c9 preciso saber fazer perguntas pertinentes para se alcan\u00e7ar respostas eficazes para a sociedade. Claro que, vivendo n\u00f3s num mundo capitalista, \u00e9 preciso gerir dinheiro, mas continuar com um percurso acad\u00e9mico que s\u00f3 vinca ainda mais as desigualdades sociais n\u00e3o \u00e9 um caminho que procura a equidade, \u00e9 um abismo onde s\u00f3 quem tem dinheiro \u00e9 que tem bilhete para passar a ponte para o outro lado.<\/p>\n<p class=\"p1\">O peso da Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve estar no estudante, mas sim no Estado. Ao dizer que a fonte de rendimento das faculdades para pagar aos professores e investigadores das universidades deve ter por base as propinas dos alunos e n\u00e3o ser uma das fun\u00e7\u00f5es do Estado Portugu\u00eas, <strong>parece que o Sr. Ministro Fernando Alexandre quer que Portugal deixe de ter alunos e passe a ter \u201cclientes da Educa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Ora, a verdade \u00e9 que o privil\u00e9gio de poder entrar no ensino superior e enveredar por uma carreira economicamente favor\u00e1vel \u00e9 um <strong>aut\u00eantico privil\u00e9gio com muitas camadas.<\/strong> Estas camadas podem ser explicadas de uma forma geral pela macro teoria social de Bourdieu que, embora com muitas falhas na sua fundamenta\u00e7\u00e3o, demonstra como o sistema educacional pode potenciar ainda mais as desigualdades sociais, especialmente pelo contexto em que as pessoas cresceram. Em vez de prosseguir o meu discurso dissecando o pensamento de Bourdieu, passo a explicar em quest\u00f5es pr\u00e1ticas alguns dos pontos fulcrais. Se for do interesse de quem me l\u00ea aprofundar os seus conhecimentos sobre a Teoria de Classe de Pierre Bourdieu, sugiro <a href=\"https:\/\/catalyst-journal.com\/2017\/11\/bourdieu-class-theory-riley\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">o artigo de Dylan Riley, de 2017, The Academic as Revolutionary<\/a>; e o artigo recente de Maria Keil, publicado a 11 de abril de 2025, partindo da teoria de Bourdieu, aliando-a a uma investiga\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, e consequente an\u00e1lise, intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09620214.2025.2494099?af=R\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Climbing the academic ladder: how social class and habitus mediate academic careers<\/a>.\u201d <\/p>\n<p>    <strong>De pequenino se torce o privil\u00e9gio: as diferentes realidades de poder entrar e frequentar o ensino superior<\/strong>  <\/p>\n<p class=\"p1\">Numa primeira inst\u00e2ncia de mais f\u00e1cil observa\u00e7\u00e3o, percebemos que as rendas altas s\u00e3o um grande entrave para os estudantes que entraram em faculdades distantes da sua resid\u00eancia familiar. Como noticiado pelo Expresso,<a href=\"https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2025-08-07-preco-dos-quartos-para-estudantes-sobe-33-em-tres-anos-e-ha-quem-desista-de-ir-estudar-para-longe-de-casa-4b47dfa4\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">o pre\u00e7o dos quartos para estudantes subiu 33% em tr\u00eas anos<\/a>. Consequentemente, h\u00e1 quem desista de estudar longe de casa. Ora, <strong>tendo em conta a centraliza\u00e7\u00e3o das faculdades mais privilegiadas nas cidades de Porto e Lisboa, encontramos aqui mais um obst\u00e1culo de desigualdade social entre quem consegue pagar uma vida estudantil nestas duas cidades e quem n\u00e3o tem capacidades econ\u00f3micas para isso.<\/strong> Atualmente, uma renda de um quarto em Lisboa ronda os 500\u20ac, podendo variar entre cerca de 400 e 600\u20ac, conforme a localiza\u00e7\u00e3o, tipologia e gan\u00e2ncia do senhorio; e um quarto no Porto pode ultrapassar os 500\u20ac, mas situa-se habitualmente entre os 350\u20ac e os 450\u20ac. Ainda dentro da quest\u00e3o do arrendamento, \u00e9 importante referir que muitas propostas de alojamento s\u00e3o sem contrato ou recibo, o que n\u00e3o s\u00f3 afeta a estabilidade da situa\u00e7\u00e3o habitacional da aluna ou aluno, como impede o seu acesso a apoios.<\/p>\n<p class=\"p1\">Al\u00e9m do privil\u00e9gio de poder pagar uma renda, \u00e9 importante referir outros por forma a pautar o panorama de desigualdade de oportunidades presente na sociedade: <\/p>\n<ul>\n<li><strong>Ser ou n\u00e3o ser trabalhador-estudante na licenciatura<\/strong>: ter de dividir o seu tempo entre faculdade e trabalho faz com que haja menos tempo para estudar e menos capacidade mental de foco. N\u00e3o ter de trabalhar enquanto se estuda para sustentar os seus gastos \u00e9 um privil\u00e9gio.<\/li>\n<li><strong>Acesso a explica\u00e7\u00f5es fora da escola ou faculdade<\/strong>: h\u00e1 alunos e alunas que, quando confrontadas com dificuldades de aprendizagem podem recorrer a explicadores sem limite de investimento, enquanto outras pessoas n\u00e3o, ainda por cima se forem trabalhadoras-estudantes. Ora, o n\u00e3o acesso a explica\u00e7\u00f5es extra pode mesmo impedir que alunos com dificuldades financeiras n\u00e3o entrem no curso que desejavam e mais prestigiado em termos de potencialidades de emprego ap\u00f3s t\u00e9rmino da licenciatura.<\/li>\n<li><strong>Pode escolher uma escola espec\u00edfica que prepare o aluno\/a aluna para o ensino superior:<\/strong> a possibilidade de escolher escolas privadas que tenham mais disponibilidade para preparar melhor os alunos para o ensino superior pode influenciar muito.<\/li>\n<li><strong>Os h\u00e1bitos culturais da fam\u00edlia em que se nasce:<\/strong> crescer com amplas bibliotecas, acesso a informa\u00e7\u00e3o leg\u00edtima, crescer a frequentar espa\u00e7os culturais com ampla oferta de qualidade, como teatro, concertos, col\u00f3quios, moldam muito o contexto e o contacto em que cada pessoa cresce e como consegue moldar a sua carreira. E, neste ponto, a teoria de Bourdieu n\u00e3o poupa um c\u00eantimo de descri\u00e7\u00e3o do problema.<\/li>\n<\/ul>\n<p>    <strong>A fal\u00e1cia da meritocracia como f\u00f3rmula regente<\/strong>  <\/p>\n<p class=\"p1\">Ora, imaginemos que no mundo em que vivemos, tendo em mente o que foi referido no \u00faltimo ponto, de repente, a educa\u00e7\u00e3o se tornava gratuita para toda a gente, desde a creche ao ensino superior. <strong>Ser\u00e1 que essa \u00fanica medida, sem ter em conta todas as camadas de privil\u00e9gio da sociedade, chegaria para igualar o acesso a oportunidades de constru\u00e7\u00e3o de uma carreira economicamente est\u00e1vel e confort\u00e1vel?<\/strong> De grosso modo, n\u00e3o, porque as desigualdades de base continuariam a n\u00e3o ser colmatadas: o diferente acesso a atividades culturais, os h\u00e1bitos e as redes de contacto continuariam a ser diferenciadas entre as classes mais baixas e as mais altas. \u00c9 por esta raz\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1rio analisar para l\u00e1 da superf\u00edcie e encontrar as perguntas de investiga\u00e7\u00e3o eficientes de forma a alcan\u00e7armos uma maior equidade social.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Claro que \u00e9 poss\u00edvel <\/strong>\u2014 embora se tratem de casos de exce\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de regra \u2014 que<strong> atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, da observa\u00e7\u00e3o e da proatividade, uma pessoa de classe m\u00e9dia-baixa possa conseguir colmatar a falta de contexto familiar em que tivesse sido potenciado o acesso a h\u00e1bitos culturais e a espa\u00e7os de <\/strong><strong>networking<\/strong><strong>, no sentido de tentar chegar ao mesmo n\u00edvel de oportunidades de algu\u00e9m que cresceu numa fam\u00edlia de classe m\u00e9dia-alta. No entanto, garantidamente, \u00e9 mais r\u00e1pido chegar a Braga partindo do Porto com um BMW do que partindo do Algarve com um Fiat Punto. <\/strong>E \u00e9 isto que faz da meritocracia uma fal\u00e1cia, porque os privil\u00e9gios n\u00e3o est\u00e3o a ser postos no c\u00e1lculo do estatuto social.<\/p>\n<p class=\"p1\">Aproveito para deixar a nota de que vale a pena observar <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/09620214.2025.2494099?af=R\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">a investiga\u00e7\u00e3o de Maria Keil<\/a>, especialmente porque diferencia tipos de apoio que a fam\u00edlia forneceu aos acad\u00e9micos do seu estudo \u2014 emocional, financeiro, aspiracional \u2014 e como isso influenciou a movimenta\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos entre classes sociais. Escusado dizer que quem nasceu com privil\u00e9gios movimentou-se mais rapidamente para cima na escala de classes, em vez de se movimentar meramente na horizontal (ou seja, com um estatuto social semelhante, mas numa \u00e1rea de trabalho distinta). <\/p>\n<p>    <strong>Uma nota conclusiva: mudar a lente do capital para o humano<\/strong>    <\/p>\n<p class=\"p1\">Dito isto, <strong>como resolver o problema da falta de equidade de oportunidades entre classes sociais? Garantidamente n\u00e3o \u00e9 ao descongelar as propinas e a ver os estudantes universit\u00e1rios como \u201cclientes do ensino superior\u201d<\/strong>. \u00c9 preciso pensar na quest\u00e3o de raiz. <\/p>\n<p class=\"p1\">Um sistema capitalista v\u00ea as pessoas meramente como capital, da mesma forma que um hospital privado, enquanto empresa, n\u00e3o v\u00ea pacientes, v\u00ea clientes. <strong>Se calhar, est\u00e1 na altura de ver as pessoas como pessoas e adaptar o capital \u00e0s suas necessidades, em vez de formular estrat\u00e9gias em como elas o podem servir.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A ret\u00f3rica clara mas problem\u00e1tica de Fernando Alexandre, Ministro da Educa\u00e7\u00e3o No passado dia 2 de setembro, foi&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":35442,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-63302","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-news","18":"tag-noticias","19":"tag-noticias-principais","20":"tag-noticiasprincipais","21":"tag-portugal","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-pt","25":"tag-top-stories","26":"tag-topstories","27":"tag-ultimas","28":"tag-ultimas-noticias","29":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63302","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63302"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63302\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63302"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63302"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63302"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}