{"id":63793,"date":"2025-09-09T02:17:22","date_gmt":"2025-09-09T02:17:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/63793\/"},"modified":"2025-09-09T02:17:22","modified_gmt":"2025-09-09T02:17:22","slug":"estamos-a-ficar-infelizes-cada-vez-mais-cedo-saude-mental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/63793\/","title":{"rendered":"Estamos a ficar infelizes cada vez mais cedo? | Sa\u00fade mental"},"content":{"rendered":"<p>Era um padr\u00e3o bem definido at\u00e9 agora: quando se chegava \u00e0 meia-idade, muitas eram as pessoas que sentiam um aumento dos n\u00edveis de stress, de ansiedade ou depress\u00e3o. Os cientistas chamam-lhe a \u201clomba da infelicidade\u201d: ia havendo um aumento da sensa\u00e7\u00e3o de desespero com a idade, que atingia o seu pico na meia-idade (entre os 40 e os 60 anos) e depois melhorava com o passar dos anos. Mas essa tend\u00eancia est\u00e1 a desaparecer e a sensa\u00e7\u00e3o de infelicidade surge cada vez mais cedo.<\/p>\n<p>E n\u00e3o est\u00e1 a desaparecer porque as pessoas na meia-idade se sentem melhor, mas porque h\u00e1 uma deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade mental das gera\u00e7\u00f5es mais novas que faz com que estes sintomas surjam cada vez mais cedo. \u201cEsta \u00e9 uma grande mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao passado, em que o mal-estar mental atingia o seu pico na meia-idade\u201d, explicam os autores do estudo em que s\u00e3o apresentadas estas conclus\u00f5es, publicado recentemente na revista <a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosone\/article?id=10.1371\/journal.pone.0327858\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Plos One<\/a>. \u201cA nossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que, hoje, existe uma crise de sa\u00fade mental s\u00e9ria entre os mais novos que precisa de ser resolvida.\u201d<\/p>\n<p>\u201cDev\u00edamos agir agora para prevenir as gera\u00e7\u00f5es futuras de jovens de sofrerem desta forma\u201d, diz ainda ao P3 um dos tr\u00eas autores do estudo, Alex Bryson, que \u00e9 investigador no Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o Social da University College London.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<blockquote><p>&#13;<\/p>\n<p>Se tem havido uma maior exposi\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de sa\u00fade mental e redu\u00e7\u00e3o do estigma, a verdade \u00e9 que n\u00e3o houve um grande aumento naquilo que \u00e9 o acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade mental<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\nMiguel Ricou                &#13;\n            <\/p><\/blockquote>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p>Pela primeira vez, este estudo mostra que \u201ca lomba da infelicidade desapareceu por todo o mundo\u201d e que o aumento desta sensa\u00e7\u00e3o de mal-estar mental nos mais novos significa que \u201ca infelicidade est\u00e1 agora a aumentar de forma mon\u00f3tona ao longo da vida\u201d.<\/p>\n<p>O estudo foi feito com base nas respostas de mais de dez milh\u00f5es de adultos nos Estados Unidos (inquiridos entre 1993 e 2024), de mais de 40 mil fam\u00edlias no Reino Unido (entre 2009 e 2023) e ainda atrav\u00e9s dos dados de quase dois milh\u00f5es de pessoas de 44 pa\u00edses por todo o mundo (Portugal n\u00e3o est\u00e1 inclu\u00eddo).<\/p>\n<p>            &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<\/p>\n<p>Ainda assim, Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Cl\u00ednica e da Sa\u00fade da Ordem dos Psic\u00f3logos Portugueses, diz que esta \u201clomba\u201d tamb\u00e9m se verificava em Portugal.<\/p>\n<p><strong>Quais as raz\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante percebermos que estas gera\u00e7\u00f5es mais recentes t\u00eam vivido em crises sucessivas\u201d, afirma o psic\u00f3logo Miguel Ricou, que n\u00e3o esteve envolvido no estudo. E d\u00e1 como exemplo a crise que come\u00e7ou em 2008, \u201cque no fundo nunca ultrapass\u00e1mos de forma total e absoluta porque depois v\u00e3o surgindo outras crises, como a pandemia e agora a guerra\u201d.<\/p>\n<p>No caso de Portugal, h\u00e1 ainda \u201cdificuldade em termos de acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o e sal\u00e1rios baixos\u201d. As expectativas de que conseguiriam alcan\u00e7ar os bens e marcos conseguidos por gera\u00e7\u00f5es anteriores podem fazer surgir sentimentos de culpa, incapacidade ou insufici\u00eancia \u2013 al\u00e9m de expectativas goradas.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade mental dos mais novos, Miguel Ricou pede cuidado para n\u00e3o o afirmar de \u201cforma taxativa\u201d, j\u00e1 que h\u00e1 factores mais benignos e mais negativos para o explicar. Por exemplo: hoje, h\u00e1 uma maior facilidade em falar de quest\u00f5es de sa\u00fade mental, considera. \u201cAntes, talvez fosse mais dif\u00edcil dizer que se sentiam depressivos ou ansiosos. O discurso hoje \u00e9 muito mais claro, com muito menos estigma e muito menos dificuldade.\u201d<\/p>\n<p>Nos aspectos mais negativos, a pandemia \u201ccriou um grande isolamento social\u201d, a que se juntam os desafios da tecnologia, dos telem\u00f3veis e das redes sociais, que podem gerar mais isolamento, compara\u00e7\u00f5es, frustra\u00e7\u00f5es e at\u00e9 uma maior dificuldade de adapta\u00e7\u00e3o. E mais: \u201cSe tem havido uma maior exposi\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es de sa\u00fade mental e redu\u00e7\u00e3o do estigma, a verdade \u00e9 que n\u00e3o houve um grande aumento naquilo que \u00e9 o acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade mental\u201d, afirma o presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Cl\u00ednica e da Sa\u00fade da Ordem dos Psic\u00f3logos Portugueses.<\/p>\n<p>Os autores do estudo n\u00e3o conseguem identificar ao certo quais as raz\u00f5es para este decl\u00ednio da sa\u00fade mental, mas apontam algumas das mesmas justifica\u00e7\u00f5es: a pandemia \u00e9 uma delas, podendo ser apenas uma parte que \u201cpotenciou tend\u00eancias que j\u00e1 existiam\u201d. Este decl\u00ednio tamb\u00e9m pode estar associado \u00e0s expectativas dos mais novos, que enfrentam \u201ccondi\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis no acesso a habita\u00e7\u00e3o e ao mercado de trabalho\u201d, l\u00ea-se no estudo. Pode ainda haver marcas da ferida deixada pela Grande Recess\u00e3o.<\/p>\n<p>Os cientistas deixam ainda outras poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es: a escassez de recursos de sa\u00fade mental dispon\u00edveis para tratar estas condi\u00e7\u00f5es e o aumento do uso de smartphones e redes sociais, incluindo a forma como \u201ctiveram impacto nas percep\u00e7\u00f5es que os mais novos t\u00eam de si mesmos e das suas vidas\u201d. A compara\u00e7\u00e3o com outras pessoas pode resultar numa maior insatisfa\u00e7\u00e3o com a sua pr\u00f3pria vida, referem os autores, tal como ter conhecimento da desigualdade salarial pode levar a uma insatisfa\u00e7\u00e3o laboral.<\/p>\n<p><strong>Mulheres mais novas s\u00e3o as mais afectadas<\/strong><\/p>\n<p>Vamos a n\u00fameros. No caso dos Estados Unidos, o aumento da sensa\u00e7\u00e3o de desespero desde 1993 \u201cnos mais jovens e em geral, sobretudo entre jovens mulheres, \u00e9 not\u00e1vel\u201d, l\u00ea-se no estudo. No Reino Unido, a sensa\u00e7\u00e3o de desespero nas mulheres jovens passou de 4,4% em 2009 para 12,7% em 2021 (no caso dos homens passou de 2,3% para 6,4%). Estes n\u00edveis tamb\u00e9m aumentaram nas faixas et\u00e1rias mais avan\u00e7adas, \u201cmas o aumento era menor do que nos mais jovens\u201d.<\/p>\n<p>O sentimento de desespero era avaliado por perguntas que avaliavam os n\u00edveis de stress, depress\u00e3o, problemas com emo\u00e7\u00f5es ou relatos de que a sua sa\u00fade mental n\u00e3o estava boa nos \u00faltimos dias.<\/p>\n<p>Isto tamb\u00e9m \u00e9 vis\u00edvel quando se analisam os dados de ansiedade em espec\u00edfico. No Reino Unido, houve um \u201caumento geral de ansiedade de 2011 para 2021, assim como aumentos significativos para as jovens mulheres com menos de 25 anos\u201d.<\/p>\n<p>            &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;<\/p>\n<p>Os dados nos Estados Unidos foram recolhidos atrav\u00e9s do Sistema de Vigil\u00e2ncia de Factores de Risco Comportamentais (BRFSS) e do Centro de Controlo e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as (CDC), que faz mais de 400 mil entrevistas a adultos todos os anos. No caso do Reino Unido, foram analisados os dados da Sondagem Longitudinal de Fam\u00edlias (UKHLS).<\/p>\n<p>Os dados brit\u00e2nicos de 2009\/2010 mostravam que 4,6% dos inquiridos diziam sentir-se desesperados, havendo um aumento para 8,1% nos anos de 2022\/2023. J\u00e1 os dados de 44 pa\u00edses (incluindo Reino Unido e Estados Unidos) foram recolhidos no inqu\u00e9rito Global Minds, que analisava sensa\u00e7\u00f5es de desconforto, medo, ansiedade e pensamentos suicidas entre os anos de 2020 e 2025. Os cientistas usaram os dados de pa\u00edses que tinham mais de dez mil entradas, analisando os dados de pa\u00edses do M\u00e9dio Oriente, \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina, \u00c1sia, Europa e pa\u00edses angl\u00f3fonos.<\/p>\n<p>Nessa amostra global, os cientistas notaram a mesma tend\u00eancia, referindo que a \u201clomba da infelicidade\u201d tinha deixado de existir nos anos mais recentes e que \u201ca sa\u00fade mental das mulheres \u00e9 pior do que a dos homens\u201d. A \u201clomba da infelicidade\u201d tinha sido descrita em 2008 e mostrava que os mais novos e os mais velhos relatavam uma maior satisfa\u00e7\u00e3o com a vida, sendo menor na meia-idade \u2013 o que j\u00e1 n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>Ao P3, o autor Alex Bryson diz que j\u00e1 sabiam que a deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade mental estava a aumentar nos mais jovens no Reino Unido e nos EUA, mas ficaram \u201csurpreendidos\u201d com estas mudan\u00e7as no perfil de idade e por \u201cessas mudan\u00e7as serem evidentes em v\u00e1rios pa\u00edses\u201d. Ainda assim, ressalva que estas evid\u00eancias eram \u201cmais fortes em pa\u00edses angl\u00f3fonos desenvolvidos\u201d.<\/p>\n<p><strong>O que se pode fazer?<\/strong><\/p>\n<p>Para combater esta tend\u00eancia, Miguel Ricou defende que devemos continuar a fazer este \u201ccaminho de literacia em sa\u00fade mental\u201d e a diminuir o estigma e a procura de ajuda. Sem esquecer que, \u201cse n\u00e3o aumentarmos a resposta, teremos sempre maior dificuldade\u201d. \u00c9 importante discutir, trabalhar e compreender porque \u00e9 que as pessoas (e, sobretudo, os jovens) t\u00eam dificuldades e perceber como as podem ultrapassar. No fundo, \u201ctransformar isto a nosso favor, para conseguirmos que estas pessoas que passam estas dificuldades mais cedo tamb\u00e9m consigam desenvolver as compet\u00eancias necess\u00e1rias de resolu\u00e7\u00e3o de problemas para depois serem pessoas que at\u00e9 podem vir a estar mais preparadas para conseguir responder aos diferentes desafios que o mundo lhes vai trazendo\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que a literatura mostra \u00e9 que, conforme vamos envelhecendo, vamos ganhando maiores capacidades e estrat\u00e9gias de auto-regula\u00e7\u00e3o para conseguir lidar melhor com as dificuldades\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Miguel Ricou diz que n\u00e3o devemos olhar para estes dados de forma dram\u00e1tica. A juventude, diz, n\u00e3o est\u00e1 perdida, nem \u00e9 mais fr\u00e1gil. \u201cO que eu diria \u00e9 que o mundo \u00e9 bastante mais desafiante hoje em dia.\u201d Por isso, \u00e9 preciso \u201ccriar mecanismos que permitam que estas pessoas possam ter acesso a profissionais que estejam preparados para os conseguir compreender naquilo que s\u00e3o as suas particularidades.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Era um padr\u00e3o bem definido at\u00e9 agora: quando se chegava \u00e0 meia-idade, muitas eram as pessoas que sentiam&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":63794,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[538,27,28,2641,15,16,14,3176,25,26,21,22,62,12,13,19,20,534,5734,542,23,24,4740,117,1030,10382,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-63793","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-bem-estar","9":"tag-breaking-news","10":"tag-breakingnews","11":"tag-covid-19","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-jovens","16":"tag-latest-news","17":"tag-latestnews","18":"tag-main-news","19":"tag-mainnews","20":"tag-mundo","21":"tag-news","22":"tag-noticias","23":"tag-noticias-principais","24":"tag-noticiasprincipais","25":"tag-p3","26":"tag-pandemia","27":"tag-para-redes","28":"tag-principais-noticias","29":"tag-principaisnoticias","30":"tag-psicologia","31":"tag-saude","32":"tag-saude-mental","33":"tag-suicidio","34":"tag-top-stories","35":"tag-topstories","36":"tag-ultimas","37":"tag-ultimas-noticias","38":"tag-ultimasnoticias","39":"tag-world","40":"tag-world-news","41":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63793","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63793"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63793\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/63794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63793"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63793"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63793"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}