{"id":66101,"date":"2025-09-10T19:13:13","date_gmt":"2025-09-10T19:13:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/66101\/"},"modified":"2025-09-10T19:13:13","modified_gmt":"2025-09-10T19:13:13","slug":"monica-ojeda-da-salto-ambicioso-em-livro-de-terror-em-rave-10-09-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/66101\/","title":{"rendered":"M\u00f3nica Ojeda d\u00e1 salto ambicioso em livro de terror em rave &#8211; 10\/09\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Os <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha\/turismo\/noticias\/ult338u5147.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">vulc\u00f5es do Equador<\/a> j\u00e1 inspiraram muitos escritores, como se n\u00e3o fosse poss\u00edvel evitar sua beleza, sua simbologia para os povos ancestrais dos <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/cordilheira-dos-andes\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Andes<\/a>, sua impon\u00eancia num pa\u00eds hoje t\u00e3o conturbado pela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O brasileiro <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2020\/01\/escrevo-como-quem-constroi-uma-casa-disse-joao-cabral-de-melo-neto-a-folha-em-1997-leia-mais.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto<\/a>, em sua passagem como embaixador em Quito de 1979 a 1981, escreveu poemas em que o ar rarefeito e a vis\u00e3o do Cotopaxi e do Chimborazo se tornavam met\u00e1foras de destino e resist\u00eancia. Na colet\u00e2nea &#8220;Vivir en Los Andes&#8221;, o poeta recifense fala do &#8220;cone perfeito de neve&#8221; ou do &#8220;alto colosso&#8221; que parecia sufocar os habitantes locais.<\/p>\n<p>Essa presen\u00e7a grandiosa e \u00e0s vezes opressiva da geografia tamb\u00e9m \u00e9 central na obra da equatoriana <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/11\/medo-me-interessa-mais-que-o-terror-diz-monica-ojeda-ao-trazer-suas-bruxas-a-flip.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">M\u00f3nica Ojeda<\/a>, uma das vozes mais originais da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a> latino-americana atual.<\/p>\n<p>No novo romance &#8220;Xam\u00e3s El\u00e9tricos na Festa do Sol&#8221;, Ojeda parte de um cen\u00e1rio vulc\u00e2nico \u2014o Chimborazo\u2013 para ambientar uma narrativa em que m\u00fasica, rito e del\u00edrio se confundem.<\/p>\n<p>Jovens se re\u00fanem para celebrar o <a href=\"https:\/\/estudio.folha.uol.com.br\/latamrotaperu\/2019\/12\/1988541-heranca-inca-e-revivida-na-festa-do-sol-em-cusco.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Inti Raymi, a festa do Sol<\/a>. Drogas, batidas eletr\u00f4nicas e rituais ancestrais criam um espa\u00e7o de transe coletivo, marcado pelo ritmo do tambor e pela respira\u00e7\u00e3o da montanha.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se mesclam na narrativa as hist\u00f3rias de pessoas que se refugiam na paisagem montanhosa para escapar das altas taxas de homic\u00eddio num pais que virou, nos \u00faltimos anos, um &#8220;hub&#8221; internacional do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2024\/01\/como-cocaina-tornou-equador-um-dos-paises-mais-violentos-da-america-latina.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">narcotr\u00e1fico<\/a>.<\/p>\n<p>Neste livro, o vulc\u00e3o aparece como uma m\u00e3e assustadora e acolhedora ao mesmo tempo, s\u00edmbolo de uma natureza que n\u00e3o \u00e9 contemplada de longe, mas vivida por todos os equatorianos.<\/p>\n<p>A narrativa come\u00e7a com uma frase de Nietzsche: &#8220;O ouvido \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o do medo&#8221;, algo que funciona como chave para a leitura. Para Ojeda, a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 um objeto que se escuta, mas uma for\u00e7a que pode desmontar a racionalidade.<\/p>\n<p>O medo dos jovens que se aproximam dos vulc\u00f5es n\u00e3o \u00e9 negativo, mas inici\u00e1tico: condi\u00e7\u00e3o de passagem para que os personagens ultrapassem seus pr\u00f3prios limites.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Enquanto eles rumam ao vulc\u00e3o para celebrar a festa do Sol ind\u00edgena, o romance dialoga diretamente com o modo de ver o mundo dos povos ancestrais andinos. A hist\u00f3ria \u00e9 contada em coro, cada cap\u00edtulo d\u00e1 voz a um dos personagens.<\/p>\n<p>Entre eles est\u00e1 Nicole, resistente aos encantos da m\u00fasica; Mario, transformado em Diabo sob a m\u00e1scara de Diabluma; Pamela, jovem gr\u00e1vida e te\u00f3rica musical; Pedro, capaz de ouvir nas pedras o ritmo do universo; e as Cantoras, que funcionam como corifeus de uma trag\u00e9dia andina.<\/p>\n<p>No centro, est\u00e1 Noa, que procura o pai ermit\u00e3o para lhe fazer perguntas. As vozes reproduzem a sensa\u00e7\u00e3o de um ritual coletivo, t\u00edpico daqueles realizados na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ojeda retoma aqui temas que j\u00e1 percorrem seus livros anteriores \u2014a viol\u00eancia urbana, a fam\u00edlia em crise, o poder exercido por seitas ou coletivos. Mas faz isso com um salto de ambi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Se em &#8220;Mand\u00edbula&#8221; o horror vinha da intimidade das rela\u00e7\u00f5es adolescentes e em &#8220;Nefando&#8221; do labirinto digital, em &#8220;Xam\u00e3s&#8221; o terror \u00e9 c\u00f3smico: um medo que vem da natureza, da dissolu\u00e7\u00e3o de fronteiras entre corpo e mundo.<\/p>\n<p>A prosa de Ojeda tem ritmo de mantra, mas a escritora tamb\u00e9m dedica aten\u00e7\u00e3o aos detalhes realistas. A metamorfose de Noa em uma \u00e9gua el\u00e9trica pode ser lida tanto como mito quanto como del\u00edrio de uma rave regada a drogas.<\/p>\n<p>Com esse romance, Ojeda se inscreve de vez na tradi\u00e7\u00e3o do g\u00f3tico latino-americano feminino, ao lado de escritoras como as argentinas <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/02\/quem-e-samanta-schweblin-que-escreve-como-se-dancasse-no-fio-da-navalha.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Samanta Schweblin<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/07\/como-mariana-enriquez-aborda-traumas-da-ditadura-aterrorizando-o-mundo-todo.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Mariana Enriquez<\/a>. Mas vai al\u00e9m: sua escrita \u00e9 um ritual, uma possess\u00e3o.<\/p>\n<p>Se Jo\u00e3o Cabral via nos vulc\u00f5es do Equador uma tribuna para Bol\u00edvar condenar quem fecha a Am\u00e9rica ao fermento, Ojeda transforma o Chimborazo em palco para uma outra revolu\u00e7\u00e3o \u2013a do corpo que se relaciona de modo visceral \u00e0 geografia e \u00e0 hist\u00f3ria do Equador, ao mesmo tempo em que dialoga com os tempos que vivemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Os vulc\u00f5es do Equador j\u00e1 inspiraram muitos escritores, como se n\u00e3o fosse poss\u00edvel evitar sua beleza, sua simbologia&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":66102,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[1028,169,114,115,6792,1907,236,864,237,170,32,33],"class_list":{"0":"post-66101","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-america-latina","9":"tag-books","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-equador","13":"tag-escritores","14":"tag-folha","15":"tag-literatura","16":"tag-livro","17":"tag-livros","18":"tag-portugal","19":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66101","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66101"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66101\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/66102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}