{"id":66359,"date":"2025-09-10T22:52:07","date_gmt":"2025-09-10T22:52:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/66359\/"},"modified":"2025-09-10T22:52:07","modified_gmt":"2025-09-10T22:52:07","slug":"drones-russos-na-polonia-e-papel-da-ucrania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/66359\/","title":{"rendered":"Drones Russos na Pol\u00f3nia e Papel da Ucr\u00e2nia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Que leitura faz deste &#8220;incidente&#8221; com os drones russos na Pol\u00f3nia? O que \u00e9 que est\u00e1 em causa?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 grave por dois motivos. Entre as v\u00e1rias possibilidades, aqui ficam essencialmente duas: ou foi intencional \u2014 uma mensagem, eventualmente enquadrada num exerc\u00edcio que se sabe que a R\u00fassia est\u00e1 a preparar \u2014, ou resultou de efeitos de guerra eletr\u00f3nica.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 hip\u00f3tese de mensagem: come\u00e7a depois de amanh\u00e3 um exerc\u00edcio (os russos usam frequentemente esses momentos para demonstra\u00e7\u00f5es). <\/p>\n<p>Na doutrina militar russa, antes de uma a\u00e7\u00e3o efetiva h\u00e1 sempre uma a\u00e7\u00e3o de demonstra\u00e7\u00e3o \u2014 foi assim em 2022. N\u00e3o creio que haja inten\u00e7\u00e3o de \u201cinvadir a Europa\u201d, mas pode haver vontade de mandar um sinal duro, de testar a decis\u00e3o e a coes\u00e3o da NATO, uma organiza\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o foi efetivamente testada neste tipo de cen\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>E a segunda?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a que me parece mais prov\u00e1vel: a dos efeitos de guerra eletr\u00f3nica. Os ucranianos, com apoio ocidental, t\u00eam desenvolvido capacidades significativas e, por exemplo, h\u00e1 dois dias lan\u00e7aram um grande ataque sobre Donetsk com mais de 200 drones e m\u00edsseis, incluindo novos vetores propulsados a jato, mais pr\u00f3ximos de m\u00edsseis de cruzeiro do que de drones. Olhamos muito para as capacidades russas, mas os ucranianos n\u00e3o t\u00eam estado parados.<\/p>\n<p>Ou seja, pode ter sido uma interfer\u00eancia eletr\u00f3nica, guerra eletr\u00f3nica da Ucr\u00e2nia a explicar os drones russos na Pol\u00f3nia. Digo isto por dois ind\u00edcios: a profundidade atingida e a aparente aus\u00eancia de alvos definidos. <\/p>\n<p>Alguns drones chegaram a entrar pela Bielorr\u00fassia; e, ao contr\u00e1rio do padr\u00e3o sobre a Ucr\u00e2nia \u2014 onde as trajet\u00f3rias s\u00e3o coerentes com objetivos militares \u2014, aqui v\u00ea-se aparelhos \u201c\u00e0s voltas\u201d, sem coer\u00eancia de rota. Os pr\u00f3prios ucranianos costumam difundir mapas ap\u00f3s a\u00e7\u00f5es desta natureza; nesse material nota-se bem essa diferen\u00e7a de padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou seja, admito duas leituras: a primeira (a que atribuo cerca de 30% de probabilidade) \u00e9 intencional: antes de uma determina\u00e7\u00e3o formal da NATO, testar as suas capacidades de defesa a\u00e9rea na Pol\u00f3nia.<\/p>\n<p>A segunda (a que atribuo 70% de probabilidade) prende-se com os efeitos de guerra eletr\u00f3nica: ao interferir com sistemas russos, a Ucr\u00e2nia acabou por for\u00e7ar drones a entrar em territ\u00f3rio polaco, sem alvos claros. <\/p>\n<p><strong>E qual o objetivo?<\/strong><\/p>\n<p>Esse precedente pode pressionar a NATO a refor\u00e7ar a defesa a\u00e9rea, sobretudo ao longo da fronteira ucraniana, ou mesmo a considerar uma zona de exclus\u00e3o a\u00e9rea parcial no ocidente da Ucr\u00e2nia, onde est\u00e3o a log\u00edstica e os dep\u00f3sitos.<\/p>\n<p>Isto at\u00e9 \u00e9 coerente com declara\u00e7\u00f5es recentes do antigo Presidente Andrzej Sebastian Duda, que disse que a Ucr\u00e2nia tenta sistematicamente arrastar a Pol\u00f3nia para uma a\u00e7\u00e3o direta \u2014 o que \u00e9 compreens\u00edvel do ponto de vista ucraniano. <\/p>\n<p>Por outro lado, serve tamb\u00e9m a Vars\u00f3via para pressionar a UE a financiar a Pol\u00f3nia como \u201cbasti\u00e3o\u201d europeu: est\u00e3o a orientar dezenas de milhar de milh\u00f5es de euros para infraestruturas e defesa; \u00e9 o pa\u00eds da NATO que mais tem investido e tamb\u00e9m quem mais tem suportado custos. <\/p>\n<p><strong>Os EUA tamb\u00e9m beneficiam com mais encomendas de defesa\u2026<\/strong><\/p>\n<p>O \u201ccinismo\u201d existe. Mas n\u00e3o tem comprado apenas aos EUA \u2014 h\u00e1 compras significativas \u00e0 Coreia (avi\u00f5es semelhantes ao F-16, carros de combate, etc.). <\/p>\n<p>Sem desvalorizar que subimos um degrau na escalada \u2014 o que ningu\u00e9m deseja \u2014, h\u00e1 benefici\u00e1rios: a Pol\u00f3nia, pela consolida\u00e7\u00e3o do papel de basti\u00e3o e pelo financiamento; a Ucr\u00e2nia, porque espera ver a sua defesa a\u00e9rea refor\u00e7ada a partir do exterior; e os EUA, pela dinamiza\u00e7\u00e3o da sua base tecnol\u00f3gica e industrial de defesa.<\/p>\n<p>Entretanto, em paralelo, Washington pressiona a Europa para impor tarifas muito elevadas (100%) \u00e0 China e \u00e0 \u00cdndia em certas \u00e1reas \u2014 energia inclu\u00edda.<\/p>\n<p>Do lado russo, h\u00e1 li\u00e7\u00f5es duras: um drone entrou mais de 300 quil\u00f3metros, um deles ter\u00e1 aterrado por prov\u00e1vel falta de combust\u00edvel a sudoeste de Vars\u00f3via. Moscovo ter\u00e1 de retificar sistemas de navega\u00e7\u00e3o. E a Europa sente o custo pol\u00edtico: quanto mais se afasta do seu foco inicial (desenvolvimento, bem-estar e com\u00e9rcio), mais exp\u00f5e fragilidades \u2014 veja-se a agita\u00e7\u00e3o social em Fran\u00e7a, as dificuldades no Reino Unido e na Alemanha.<\/p>\n<p>Em suma: quem est\u00e1 realmente preocupado s\u00e3o os ucranianos \u2014 que podem ver parte dos recursos redirecionados para a defesa europeia imediata se a UE\/NATO se sentirem diretamente amea\u00e7adas.<\/p>\n<p><strong>A R\u00fassia quer escalar a guerra? Tem interesse numa confronta\u00e7\u00e3o com a NATO?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o creio. O objetivo russo imediato \u00e9 operacional: concentrar for\u00e7as para tomar a \u00faltima linha na frente de Donetsk. Os ucranianos, atrav\u00e9s da sua intelig\u00eancia, detetaram a concentra\u00e7\u00e3o, avan\u00e7aram e atacaram quart\u00e9is-generais nessa zona.<\/p>\n<p>Moscovo n\u00e3o tem interesse numa guerra com a NATO: uma confronta\u00e7\u00e3o direta provocaria danos profundos e arriscaria escalada nuclear \u2014 algo que os EUA tamb\u00e9m n\u00e3o querem. O mais prov\u00e1vel \u00e9 manterem a guerra \u201cem lume brando\u201d, com esfor\u00e7o militar e econ\u00f3mico calibrado para se auto-sustentar.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma \u201cdistopia\u201d europeia: Viktor Orb\u00e1n comparou a UE aos EUA antes da Guerra Civil, aludindo \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de d\u00edvida comum como motor de integra\u00e7\u00e3o. Par\u00eantesis \u00e0 parte, a verdade \u00e9 que o conflito ucraniano tem sido um acelerador de integra\u00e7\u00e3o europeia \u2014 por necessidade, mais do que por lideran\u00e7a inspiradora. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 desajustes: a Su\u00e9cia, por exemplo, tem ret\u00f3rica firme, uma ind\u00fastria relevante, mas for\u00e7as armadas de pequena dimens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>E Portugal? Esta situa\u00e7\u00e3o justifica antecipar mais metas de investimento em defesa?<\/strong><\/p>\n<p>Portugal beneficia da sua geografia. Mesmo num cen\u00e1rio de escalada, n\u00e3o estar\u00edamos na \u201czona de combate\u201d, mas sim na zona de comunica\u00e7\u00f5es (portos e aeroportos de desembarque para refor\u00e7os e log\u00edstica). A nossa mais-valia para a Alian\u00e7a est\u00e1 nas rotas do Atl\u00e2ntico e no \u201ctri\u00e2ngulo estrat\u00e9gico\u201d portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Da\u00ed duas prioridades:<\/p>\n<p>Infraestruturas de apoio \u2014 ferrovia capaz de movimentar meios pesados, contentores e material; revaloriza\u00e7\u00e3o do Atl\u00e2ntico como teatro estrat\u00e9gico; capacidade de acolher e escoar refor\u00e7os.<\/p>\n<p>Capacita\u00e7\u00e3o log\u00edstica e de base \u2014 como na Primeira Guerra Fria: bases e pistas de rece\u00e7\u00e3o\/desdobramento (recordo a import\u00e2ncia hist\u00f3rica de Ovar\/Maceda, por exemplo).<\/p>\n<p>N\u00e3o vale a pena \u201clan\u00e7ar dinheiro\u201d onde n\u00e3o faz diferen\u00e7a. O que temos projetado para leste s\u00e3o companhias \u2014 militarmente irrelevantes por si. Os nossos F-16 n\u00e3o mudam o equil\u00edbrio regional. O ganho marginal est\u00e1 na resili\u00eancia log\u00edstica e na seguran\u00e7a das linhas mar\u00edtimas.<\/p>\n<p><strong>Estamos sempre sujeito a ciber-ataques&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Claro que guerra h\u00edbrida \u00e9 um risco transversal e pode atingir-nos. Estamos \u201ccom os dois p\u00e9s\u201d numa das partes do conflito; por isso, a pol\u00edtica de defesa tem de seguir a pol\u00edtica externa \u2014 que deve servir os interesses do povo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Deixo um reparo: na recente visita \u00e0 China, teria sido prefer\u00edvel ver o Primeiro-Ministro a defender investimentos concretos em Portugal (por exemplo, uma f\u00e1brica autom\u00f3vel de um grande fabricante como a BYD, aproveitando o nosso cluster e a presen\u00e7a da Volkswagen), em vez de apelos gen\u00e9ricos \u00e0 media\u00e7\u00e3o na guerra \u2014 algo que pouco muda a posi\u00e7\u00e3o de Moscovo e de Pequim. \u00c9 uma opini\u00e3o, n\u00e3o uma cr\u00edtica pessoal.<\/p>\n<p><strong>Em suma, Portugal deve priorizar capacidade militar \u201cde ponta\u201d ou infraestruturas e log\u00edstica?<\/strong><\/p>\n<p>Infraestruturas e log\u00edstica, claramente \u2014 para cumprir as responsabilidades na NATO como \u201czona de comunica\u00e7\u00f5es\u201d segura e eficiente. Isso n\u00e3o exclui refor\u00e7os seletivos (ciber, defesa a\u00e9rea de pontos cr\u00edticos, prote\u00e7\u00e3o de infraestruturas), mas a nossa diferen\u00e7a faz-se no que podemos receber, movimentar e sustentar para apoiar o esfor\u00e7o aliado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Que leitura faz deste &#8220;incidente&#8221; com os drones russos na Pol\u00f3nia? 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