{"id":67776,"date":"2025-09-11T23:19:14","date_gmt":"2025-09-11T23:19:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/67776\/"},"modified":"2025-09-11T23:19:14","modified_gmt":"2025-09-11T23:19:14","slug":"nossos-indios-nossos-mortos-hoje-sobrevivem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/67776\/","title":{"rendered":"Nossos \u00edndios, nossos mortos. Hoje, sobrevivem?"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"994\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/kalapalo-men-xingu-brazil-2006-martin-ruetschi-art-photographer0A-1536x1018-1-1500x994.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3113795\"  \/>Kalapalo Men \u2013 Martin R\u00fctschi<\/p>\n<p>          Boletim Outras Palavras<\/p>\n<p>Receba por email, diariamente, todas as publica\u00e7\u00f5es do site<\/p>\n<p>          Agradecemos!<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 inscrito e come\u00e7ar\u00e1 a receber os boletins em breve. Boa leitura!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/track.mailerlite.com\/webforms\/o\/5648451\/z3h6l4?v1693074564\" width=\"1\" height=\"1\" style=\"max-width:1px;max-height:1px;visibility:hidden;padding:0;margin:0;display:block\" alt=\".\" border=\"0\"\/><\/p>\n<p>Por <strong>Edilson Martins, <\/strong>no <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Le Monde Diplomatique Brasil<\/a><\/p>\n<p>Jorge Lu\u00eds Borges, um dos fundadores da literatura latino-americana do s\u00e9culo XX, costumava dizer que um livro s\u00f3 pode ser avaliado, decorridos pelo menos 50 anos. Antes disso n\u00e3o h\u00e1 distanciamento, independ\u00eancia para avalia\u00e7\u00e3o.\u00a0<a href=\"https:\/\/letracapital.com.br\/produto\/nossos-indios-nossos-mortos\/?srsltid=AfmBOor4Wft_DADSnULBhbTuYx5WG4GCZtCdZ9SNfj8eToqfrEUDbBA9\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Nossos \u00edndios nossos mortos<\/a>, lan\u00e7ado na primeira metade dos anos 70, n\u00e3o cabe na categoria, vamos supor, das obras liter\u00e1rias a que se refere Borges.\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"998\" height=\"1500\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Capa_Frente-Nossos-indios-nossos-mortos-1362x2048-1-998x1500.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3113792\"  \/>Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>E, no entanto, pelo impacto produzido h\u00e1 50 anos na opini\u00e3o p\u00fablica brasileira, trazendo a trag\u00e9dia \u2013 exterm\u00ednio ou subjuga\u00e7\u00e3o \u2013 pela den\u00fancia oral, presencial, dos pr\u00f3prios povos origin\u00e1rios, o livro impactou.\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apoia.se\/outraspalavras\" aria-label=\"MAT\u00c9RIA-5\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/MATERIA-5.png\" alt=\"\"   width=\"681\" height=\"171\"\/><\/a><\/p>\n<p>Mal articulando a l\u00edngua dominante, portuguesa, das chamadas frentes civilizat\u00f3rias, o Brasil dos anos 70, dos governos militares, tinha nesses povos uma quest\u00e3o delicada.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Um her\u00f3i nacional<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>A esse tempo havia um her\u00f3i nacional, militar, marechal Rondon, nitidamente \u00edndio.\u00a0<\/p>\n<p>Devassara o pa\u00eds de Sul a Norte, instalando linhas telegr\u00e1ficas, penetrara na Amaz\u00f4nia e, em uma de suas incurs\u00f5es, levara consigo o ex-presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, pouco antes da Primeira Guerra Mundial.\u00a0<\/p>\n<p>Humanista, positivista, com um profundo amor e respeito sobre os povos origin\u00e1rios, dos quais procedia, aconselhou ao ex-presidente a n\u00e3o disparar contra os animais da selva.\u00a0<\/p>\n<p>Era o tempo em que Europa e Estados Unidos \u2013 seus homens vitoriosos \u2013 tinham por lazer, entretenimento, visitar terras africanas, principalmente, onde abatiam alegremente os animais da grande fauna do Continente.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A ditadura militar, como quase toda ditadura, era nacionalista, e Rondon um de seus \u00edcones. Hoje n\u00e3o \u00e9 mais, Rondon foi apagado da mem\u00f3ria nacional, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-48290603\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">principalmente a partir do governo passado de Jair Bolsonaro.<\/a>\u00a0<\/p>\n<p>Portanto, o livro, ao trazer a trag\u00e9dia dos povos origin\u00e1rios, pela pr\u00f3pria voz dessas na\u00e7\u00f5es, transformou-se num best-seller, vendendo apenas nas edi\u00e7\u00f5es da editora Codecri, do folhetim O Pasquim, cerca de 350 mil exemplares.\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.fosforoeditora.com.br\/produto\/nihonjin-70416\" aria-label=\"banner outras palavras_ 02257\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/banner-outras-palavras_-02257.jpg\" alt=\"\"   width=\"728\" height=\"90\" style=\"display: inline-block;\"\/><\/a><\/p>\n<p>A quest\u00e3o ind\u00edgena, exceto em obras ficcionais, nunca mobilizara tanto o leitor brasileiro. De t\u00e3o vendido, foi editado pela editora Abril, a maior empresa de edi\u00e7\u00e3o de revistas do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1015\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Captura-de-tela-de-2025-09-11-14-58-47.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3113793\"  \/>Cr\u00e9dito: Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p><strong>Brasil sob censura\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Viv\u00edamos os anos dos Governos militares \u2013 1964\/1985 \u2013 onde a liberdade de imprensa havia colapsado, a censura implantada, principalmente nos principais \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o, a grande m\u00eddia impressa.\u00a0<\/p>\n<p>O livro, ao fugir dos agentes tradicionais, onde os indigenistas e estudiosos narravam a trag\u00e9dia desses povos, e reproduzir a cru a narrativa dos pr\u00f3prios \u00edndios, mal dominando o portugu\u00eas, trope\u00e7ando na l\u00edngua dominante, comunica\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, revelou-se a rota de fuga, a alternativa para escapar da censura.\u00a0<\/p>\n<p>Ficaria muito est\u00fapido tir\u00e1-lo do mercado onde os povos formadores da etnia brasileira passassem pelo crivo da censura.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o era mais o antrop\u00f3logo, o estudioso, o indigenista, o sertanista que vocalizavam o processo de exterm\u00ednio e subjuga\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Prova de sua penetra\u00e7\u00e3o pode ser mostrada com o \u00edndio Aritana, Ywaulapiti, vivendo com seu povo no Parque Nacional do Xingu.\u00a0<\/p>\n<p>Tornado famoso, naqueles anos, sempre por um vi\u00e9s folclorizado \u2013 beleza f\u00edsica e vis\u00edvel lideran\u00e7a entre as 9 na\u00e7\u00f5es do parque do Xingu \u2013 uma novela televisiva foi exibida a partir de sua lenda.\u00a0<\/p>\n<p>Numa de minhas visitas ao seu povo, e foram dezenas, entre os anos 1975 e 1976, lhe dei um dos exemplares.\u00a0<\/p>\n<p>Aritana me revelou posteriormente que o livro estava sendo lido entre seu povo por um enfermeiro paulista que falava um pouco a l\u00edngua Ywaulapiti.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cEst\u00e3o gostando muito, disse Aritana, espero que meu povo aprenda a l\u00edngua de voc\u00eas. Seremos menos enganados. Principalmente aprendendo a fazer contas.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca de seu lan\u00e7amento a popula\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios n\u00e3o ultrapassava as 100 mil pessoas, hoje alcan\u00e7am mais de um milh\u00e3o de indiv\u00edduos.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Perplexidade\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em meio s\u00e9culo \u2013 1970\/2020 \u2013 as mudan\u00e7as foram profundas para essas popula\u00e7\u00f5es. Se para a dita civiliza\u00e7\u00e3o foram chocantes, estarrecedoras, um Deus nos acuda, imaginemos para povos, alguns ainda inteiramente isolados, sem nenhum contato com o denominado mundo dos homens brancos, vivendo no meio da Selva, afastados, ignorando as mais simples formas de conquistas tecnol\u00f3gicas.\u00a0<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, o Brasil, assim como o Peru, Venezuela e Col\u00f4mbia, ainda conta com povos origin\u00e1rios isolados, \u00e0 margem da civiliza\u00e7\u00e3o. Desconhecem o ferro, vivem de coletas, em pequenos grupos, n\u00f4mades, sem agricultura estabelecida, fixada, n\u00e3o conhecem a p\u00f3lvora, suas armas s\u00e3o arcos e flechas. N\u00e3o refletem, as refer\u00eancias m\u00edticas s\u00e3o o Sol, a Lua, os trov\u00f5es, os her\u00f3is culturais da Selva, invis\u00edveis, mas que regulam e norteiam a vida desses povos.\u00a0<\/p>\n<p>Participei, durante os anos 1970, per\u00edodo em que os militares descartaram o inocente extrativismo da Amaz\u00f4nia e impuseram o devassamento brutal da regi\u00e3o, com a implanta\u00e7\u00e3o de projetos multinacionais, grandes fazendas, extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios e abertura de rodovias nacionais, de quatro expedi\u00e7\u00f5es de primeiro contato com povos origin\u00e1rios.\u00a0<\/p>\n<p>Sem nenhum contato continuado com a chamada civiliza\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Experi\u00eancia indescrit\u00edvel.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Novos tempos\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o tudo vai no melhor dos mundos.\u00a0<\/p>\n<p>Crescimento vertiginoso da popula\u00e7\u00e3o, novas reservas, visibilidade nacional.\u00a0<\/p>\n<p>Ingressaram na universidade, alguns, ganharam um minist\u00e9rio para chamar de seu, presentes em diferentes atividades da chamada vida civilizada.\u00a0<\/p>\n<p>Formam dezenas de cooperativas, e j\u00e1 se encontram at\u00e9 na Academia Brasileira de Letras.\u00a0<\/p>\n<p>Est\u00e3o imortalizados, portanto.\u00a0<\/p>\n<p>Engano, profundo engano.\u00a0<\/p>\n<p>Houve avan\u00e7os, ineg\u00e1veis.\u00a0<\/p>\n<p>E, no entanto, com a penetra\u00e7\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas, do agroneg\u00f3cio, da generaliza\u00e7\u00e3o dos garimpos, invadindo impiedosamente as reservas ind\u00edgenas, e n\u00e3o menos as fazendas de gado, a primeira e mais contundente cunha na Amaz\u00f4nia at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o devassada, a situa\u00e7\u00e3o hoje dessas popula\u00e7\u00f5es \u00e9 dram\u00e1tica.\u00a0<\/p>\n<p>Nunca me esque\u00e7o do que me disse o sertanista Orlando Villas B\u00f4as, ao lado de alguns \u00edndios xinguanos, durante uma expedi\u00e7\u00e3o na selva tentando resgatar os isolados Krenhakarore.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s civilizados, n\u00f3s ditos brancos, n\u00e3o gostamos de \u00edndios. N\u00e3o h\u00e1 lugar para eles entre n\u00f3s.\u201d\u00a0<\/p>\n<p><strong>Edilson Martins<\/strong>\u202f\u00e9 jornalista, escritor e documentarista. Foi preso pol\u00edtico no final dos anos 1960. Viveu e reportou de perto os conflitos da Amaz\u00f4nia e a luta dos povos ind\u00edgenas, seringueiros e camponeses. \u00c9 autor de obras como\u202fNossos \u00edndios, nossos mortos;\u202fN\u00f3s, do Araguaia;\u202fChico Mendes: Um povo da floresta;\u202fAmaz\u00f4nia \u2013 a \u00faltima fronteira; P\u00e1ginas Verdes e Bediai \u2013 O Selvagem. Como documentarista, dirigiu\u202fChico Mendes \u2013 Um povo da floresta, premiado com o Vladimir Herzog.\u00a0<\/p>\n<p>Outras Palavras \u00e9 feito por muitas m\u00e3os. 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