{"id":68101,"date":"2025-09-12T07:34:11","date_gmt":"2025-09-12T07:34:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/68101\/"},"modified":"2025-09-12T07:34:11","modified_gmt":"2025-09-12T07:34:11","slug":"no-motelx-tina-romero-e-julie-pacino-nao-quiseram-matar-os-pais-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/68101\/","title":{"rendered":"No MotelX, Tina Romero e Julie Pacino n\u00e3o quiseram matar os pais | Cinema"},"content":{"rendered":"<p>De um lado, Tina Romero, filha de George A. Romero, apropria-se da heran\u00e7a familiar, ao co-escrever e dirigir Queens of the Dead (s\u00e1bado, 00h00), reinven\u00e7\u00e3o em tom s\u00e9rio-c\u00f3mico do apocalipse zombie que o pai definiu com o seminal A Noite dos Mortos Vivos.<\/p>\n<p>Do outro, Julie Pacino, filha de Al Pacino, prefere ficar por tr\u00e1s da c\u00e2mara, escrevendo e dirigindo I Live Here Now (domingo, 16h05), exerc\u00edcio de surrealismo paran\u00f3ico feminista que revisita as \u201cfugas psicog\u00e9nicas\u201d de <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/01\/16\/culturaipsilon\/noticia\/morreu-david-lynch-buracos-donuts-espalhamse-universo-2119069\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">David Lynch<\/a>. Em nenhum dos casos estamos perante grandes filmes, mas, tratando-se das primeiras longas das suas autoras, sente-se j\u00e1 nelas suficiente personalidade para as demarcar dos ilustres progenitores.<\/p>\n<p>        &#13;<br \/>\n             <a class=\"embedly-card\" data-card-controls=\"0\" href=\"https:\/\/youtu.be\/ABHHHDC574U?si=0yBuRc0zZom7sXg5\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">&#13;<\/p>\n<p>Queens of the Dead \u00e9 um caso bastante curioso, ali\u00e1s, porque Tina Romero n\u00e3o se quis minimamente afastar da obra do pai. Em vez disso, trata de actualizar a l\u00f3gica de <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2017\/07\/17\/culturaipsilon\/noticia\/george-romero-em-cinco-filmes-essenciais-1779394\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">A Noite dos Mortos Vivos<\/a> de acordo com as novas coordenadas contempor\u00e2neas: o ref\u00fagio dos sobreviventes \u00e9 aqui um clube nocturno onde um espect\u00e1culo de drag queens \u00e9 interrompido antes mesmo de come\u00e7ar; e os \u201cdefensores\u201d s\u00e3o um grupo heter\u00f3clito de gente LGBTQI+ que inclui a organizadora da festa (Katy O\u2019Brian, de Amor em Sangue), o seu cunhado canalizador, tr\u00eas travestis com vontade de se esgatanharem umas \u00e0s outras, e uma advogada l\u00e9sbica bruta como as casas (a comediante Margaret Cho).<\/p>\n<p>Os zombies, acreditem, s\u00e3o o menor dos problemas nesta com\u00e9dia queer que Tina Romero escreveu com a comediante Erin Judge, e que quase parece uma vers\u00e3o de A Gaiola das Malucas com mortos-vivos e sangue. Ali\u00e1s, os zombies s\u00e3o simples pretexto para a filha erguer um espelho distorcido \u00e0 sociedade americana, cheia de piscadelas de olho aos filmes do pai (desde o slogan publicit\u00e1rio de Zombie &#8211; a Maldi\u00e7\u00e3o dos Mortos Vivos usado nos di\u00e1logos a refer\u00eancias de passagem \u00e0 Pittsburgh nativa, mais a presen\u00e7a do mestre das maquilhagens prost\u00e9ticas Tom Savini no papel do presidente da c\u00e2mara).<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 sangue e v\u00edsceras e mordidelas e mortes her\u00f3icas, mas h\u00e1 tamb\u00e9m zombies ao telem\u00f3vel a fazerem like e repost, e se calhar os zombies j\u00e1 andam por a\u00ed e somos n\u00f3s. Tina Romero tem consci\u00eancia que a roda n\u00e3o se reinventa, mas pode dar-lhe um novo look sem a trair e \u00e9 a isso que se dedica, com assinal\u00e1vel gra\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 Julie Pacino prefere seguir nas pegadas de David Lynch, sem hesitar em ir buscar a presen\u00e7a tutelar de Sheryl Lee (a imortal Laura Palmer, aqui no papel de uma m\u00e3e tirana), para uma viagem ao interior de uma aspirante a actriz cuja vida parece ruir em 24 horas. No exacto momento em que uma agente de casting lhe acena com o papel que a pode lan\u00e7ar, Rose (Lucy Fry) descobre-se gr\u00e1vida, apesar de uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica quando era crian\u00e7a a ter tornado inf\u00e9rtil. Refugiando-se num bizarro hotel nas colinas californianas em chamas, Rose perde-se num labirinto indecifr\u00e1vel onde o que \u00e9 real e o que est\u00e1 na sua cabe\u00e7a s\u00e3o indissoci\u00e1veis.<\/p>\n<p>Lynch \u00e9 a refer\u00eancia m\u00e1xima de I Live Here Now, mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica: nas paletas de cores dos cen\u00e1rios e da fotografia, \u00e9 inevit\u00e1vel pensar no psicadelismo difuso e n\u00e9on do <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2017\/04\/05\/culturaipsilon\/noticia\/suspiria-1767768\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Suspiria de Dario Argento<\/a>. E no constante ir e vir entre realidade e ilus\u00e3o, a americana parece-nos ter ido beber muito \u00e0s fantasmagorias surreais do brit\u00e2nico Peter Strickland (com o qual, ali\u00e1s, partilha o montador M\u00e1ty\u00e1s Fekete). \u00c9 um filme que se define, tamb\u00e9m, pela sua propositada recusa das gavetas, com um p\u00e9 no fant\u00e1stico e outro no cinema de autor \u2014 ali\u00e1s, \u00e9 sintom\u00e1tico que tenha estado, quase em simult\u00e2neo, no festival de g\u00e9nero canadiano Fantasia, em Montr\u00e9al, e fora de concurso em Locarno.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Mas onde ele est\u00e1 por inteiro \u00e9 na vontade de lan\u00e7ar um olhar assumida e resolutamente feminino sobre a impot\u00eancia perante a rigidez social e o papel subserviente que as mulheres ainda t\u00eam de desempenhar em muitas situa\u00e7\u00f5es. Pode-se dizer que est\u00e3o aqui dois filmes que n\u00e3o sofrem de complexos de \u00c9dipo: nem Tina Romero nem Julie Pacino sentiram a necessidade de matar os pais, os seus filmes ganham com isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"De um lado, Tina Romero, filha de George A. 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