{"id":68453,"date":"2025-09-12T13:45:37","date_gmt":"2025-09-12T13:45:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/68453\/"},"modified":"2025-09-12T13:45:37","modified_gmt":"2025-09-12T13:45:37","slug":"cientistas-ligam-ondas-de-calor-as-emissoes-de-160-empresas-de-combustiveis-e-cimento-clima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/68453\/","title":{"rendered":"Cientistas ligam ondas de calor \u00e0s emiss\u00f5es de 160 empresas de combust\u00edveis e cimento | Clima"},"content":{"rendered":"<p>Uma nova investiga\u00e7\u00e3o liderada pela ETH Zurich estabeleceu, pela primeira vez, liga\u00e7\u00f5es causais directas e quantificadas entre as emiss\u00f5es dos maiores produtores de combust\u00edveis f\u00f3sseis e cimento, referidas no estudo como \u201c\u200bcarbon majors\u201d, e o agravamento de mais de 200 ondas de calor globais nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>O estudo, publicado na quarta-feira na revista <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-025-09450-9\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Nature<\/a>, marca um avan\u00e7o significativo na compreens\u00e3o de quem \u00e9 respons\u00e1vel pelos extremos clim\u00e1ticos \u2014 e poder\u00e1 ter repercuss\u00f5es em mat\u00e9ria de litig\u00e2ncia clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Os investigadores trabalharam em v\u00e1rias etapas: identificar o contributo exacto dos 160 maiores emissores do mundo para as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas; analisar as 213 ondas de calor mais extremas das \u00faltimas d\u00e9cadas para identificar a influ\u00eancia das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas nas mesmas; e, por fim, identificar em que medida cada uma das empresas ter\u00e1 sido respons\u00e1vel, com as suas emiss\u00f5es, para tornar mais graves aqueles fen\u00f3menos de calor extremo.<\/p>\n<p>Impacto das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas<\/p>\n<p>A equipa de investiga\u00e7\u00e3o, liderada pela ETH Zurich, analisou 213 ondas de calor que ocorreram por todo o mundo entre 2000 e 2023. O estudo incluiu fen\u00f3menos classificados como \u201cgrandes desastres\u201d que resultaram em mortes, perdas econ\u00f3micas ou pedidos de ajuda internacional, de acordo com a base de dados EM-DAT. Os autores notam que a \u00c1frica e a Am\u00e9rica do Sul est\u00e3o sub-representadas devido \u00e0 falta de dados, j\u00e1 que a notifica\u00e7\u00e3o de ondas de calor \u00e9 \u201caltamente desigual\u201d.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o utilizou uma an\u00e1lise de atribui\u00e7\u00e3o de eventos extremos para determinar como as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas causadas pela ac\u00e7\u00e3o humana afectaram a probabilidade e a intensidade de cada onda de calor, explica Yann Quilcaille, primeiro autor do estudo, citado num comunicado da <a href=\"https:\/\/www.eurekalert.org\/news-releases\/1097341\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">ETH Zurich<\/a>. Para isso, os cientistas compararam os dados reais durante a ocorr\u00eancia das ondas de calor com um cen\u00e1rio que representa o clima entre 1850-1900, um per\u00edodo anterior \u00e0 influ\u00eancia humana no clima.<\/p>\n<p>Os resultados s\u00e3o inequ\u00edvocos: \u201cAs altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas tornaram cada uma destas ondas de calor mais prov\u00e1vel e mais intensa, e a situa\u00e7\u00e3o tem vindo a piorar ao longo do tempo\u201d, afirma Yann Quilcaille.<\/p>\n<p>As ondas de calor registadas entre 2000 e 2009 foram, em m\u00e9dia, 20 vezes mais prov\u00e1veis devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, enquanto as registadas entre 2010 e 2019 foram aproximadamente 200 vezes mais prov\u00e1veis. Em termos de intensidade, as ondas de calor de 2000-09 foram, em m\u00e9dia, 1,4\u00b0C mais quentes, e as de 2010-19 foram 1,7\u00b0C mais quentes devido ao aquecimento global. O estudo revelou ainda que 55 das ondas de calor teriam sido \u201cpraticamente imposs\u00edveis\u201d sem a influ\u00eancia humana.<\/p>\n<p>\u201cCarbon majors\u201d<\/p>\n<p>O foco da investiga\u00e7\u00e3o incidiu em seguida nas emiss\u00f5es facilitadas pelos 180 maiores produtores de combust\u00edveis f\u00f3sseis e cimento do mundo \u2014 os chamados \u201ccarbon majors\u201d. Segundo o estudo, estas empresas s\u00e3o respons\u00e1veis por 60% das emiss\u00f5es totais acumuladas de CO2 da humanidade entre 1850 e 2023.<\/p>\n<p>Os autores continuaram a aplicar modelos para calcular a influ\u00eancia destes grandes produtores em fen\u00f3menos espec\u00edficos. \u201cCerca de metade da mudan\u00e7a na temperatura m\u00e9dia global da superf\u00edcie em 2023 pode ser explicada pelas emiss\u00f5es dos carbon majors\u201d, explica Quilcaille, citado em comunicado.<\/p>\n<p>\u201cPara cada onda de calor, calcul\u00e1mos como as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas afectaram a sua intensidade e probabilidade\u201d, descreve o investigador. \u201cIdentific\u00e1mos tanto o impacto de cada empresa individualmente quanto os efeitos combinados de outros factores humanos e naturais.\u201d<\/p>\n<p>Outro dos autores do estudo, Richard Heede, membro do Climate Accountability Institute, afirmou \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2025\/09\/10\/climate\/heat-waves-fossil-fuel-majors\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">CNN<\/a> que estudos futuros poderiam analisar outros tipos de fen\u00f3menos meteorol\u00f3gicos extremos, como inunda\u00e7\u00f5es e inc\u00eandios florestais. A investiga\u00e7\u00e3o, explica, \u201cfornece as primeiras pistas sobre o impacto de empresas individuais de combust\u00edveis f\u00f3sseis ao longo da sua cadeia de valor, desde a extrac\u00e7\u00e3o, processamento, distribui\u00e7\u00e3o e combust\u00e3o final de combust\u00edveis de carbono, algo que tem sido exigido pelos consumidores por todo o mundo\u201d.<\/p>\n<p>De quem \u00e9 a culpa?<\/p>\n<p>Entre as 180 empresas analisadas, h\u00e1 14 que se destacam, contribuindo para as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas tanto quanto as restantes 166 organiza\u00e7\u00f5es juntas. As contribui\u00e7\u00f5es individuais de cada uma destas 14 maiores empresas s\u00e3o suficientes para causar mais de 50 ondas de calor que seriam quase imposs\u00edveis sem as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>De acordo com o estudo, entre os maiores produtores de combust\u00edveis f\u00f3sseis est\u00e3o entidades estatais ou empresas privadas da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, da Rep\u00fablica Popular da China (em particular devido \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o) e exportadores de petr\u00f3leo e\/ou g\u00e1s como a Saudi Aramco, Gazprom e ExxonMobil.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o conseguiu quantificar o impacto de empresas individuais. Por exemplo, as emiss\u00f5es ligadas \u00e0 Saudi Aramco e \u00e0 ExxonMobil tornaram 51 ondas de calor pelo menos dez mil vezes mais prov\u00e1veis. Em m\u00e9dia, as emiss\u00f5es da Saudi Aramco tornaram as 213 ondas de calor 0,04\u00b0C mais quentes.<\/p>\n<p>Mesmo, tamb\u00e9m, os \u201cprodutores de carbono de menor dimens\u00e3o desempenham um papel significativo\u201d, explica Quilcaille: as emiss\u00f5es do menor dos 180 gigantes de carbono, a produtora russa de carv\u00e3o Elgaugol, \u201cainda s\u00e3o suficientes para causar 16 ondas de calor\u201d, de acordo com os c\u00e1lculos da equipa.<\/p>\n<p>Justi\u00e7a clim\u00e1tica?<\/p>\n<p>\u201cSer capaz de rastrear a contribui\u00e7\u00e3o destes emissores \u00fanicos e quantificar a sua contribui\u00e7\u00e3o poderia ser muito \u00fatil para estabelecer responsabilidades potenciais\u201d, salienta Sonia Seneviratne, que liderou a equipa de investiga\u00e7\u00e3o, citada pelo <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2025\/sep\/10\/link-oil-giants-heatwaves-research-legal-liability\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Guardian<\/a>. Este estudo, afirmou Richard Heede ao site da <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2025\/09\/10\/climate\/heat-waves-fossil-fuel-majors\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">CNN<\/a>, poder\u00e1 ajudar a \u201cresolver as quest\u00f5es de quem \u00e9 o culpado por contribuir significativamente para uma determinada onda de calor\u201d, por exemplo, contribuindo para \u201clan\u00e7ar as bases de quem \u00e9 o culpado e como partilhar a responsabilidade\u201d.<\/p>\n<p>A investigadora de direito internacional Corina Heri, co-autora do estudo, observa que os tribunais t\u00eam demonstrado mais inclina\u00e7\u00e3o para responsabilizar estes grandes emissores, mas t\u00eam pedido mais certeza cient\u00edfica. Este estudo, explicou \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2025\/09\/10\/climate\/heat-waves-fossil-fuel-majors\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">CNN<\/a>, \u201cajuda a preencher parte dessa lacuna\u201d.<\/p>\n<p>A porta-voz da campanha Make Polluters Pay (Fa\u00e7am os poluidores pagar), Cassidy DiPaola, \u00e9 ainda mais contundente: \u201cAgora podemos apontar para ondas de calor espec\u00edficas e dizer: &#8216;A Saudi Aramco fez isto. A ExxonMobil fez aquilo.&#8217; As suas emiss\u00f5es, por si s\u00f3, est\u00e3o a desencadear ondas de calor que n\u00e3o teriam acontecido de outra forma.\u201d Em declara\u00e7\u00f5es ao <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2025\/sep\/10\/link-oil-giants-heatwaves-research-legal-liability\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Guardian<\/a>, a especialista em pol\u00edticas clim\u00e1ticas nota que \u201cestamos a falar de pessoas reais que morreram, culturas reais que falharam e comunidades reais que sofreram, tudo por causa de decis\u00f5es tomadas em conselhos de administra\u00e7\u00e3o de empresas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAqui est\u00e1 a prova que os tribunais esperavam\u201d, celebra. \u201cA conta est\u00e1 a chegar, e \u00e9 hora de estes poluidores pagarem pelos danos que causaram.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma nova investiga\u00e7\u00e3o liderada pela ETH Zurich estabeleceu, pela primeira vez, liga\u00e7\u00f5es causais directas e quantificadas entre as&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":68454,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[17718,2335,785,27,28,2271,11167,786,476,2270,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,4111,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-68453","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-acordo-de-paris","9":"tag-alteracoes-climaticas","10":"tag-azul","11":"tag-breaking-news","12":"tag-breakingnews","13":"tag-clima","14":"tag-co2","15":"tag-combustiveis-fosseis","16":"tag-economia","17":"tag-energia","18":"tag-featured-news","19":"tag-featurednews","20":"tag-headlines","21":"tag-latest-news","22":"tag-latestnews","23":"tag-main-news","24":"tag-mainnews","25":"tag-mundo","26":"tag-news","27":"tag-noticias","28":"tag-noticias-principais","29":"tag-noticiasprincipais","30":"tag-onda-de-calor","31":"tag-principais-noticias","32":"tag-principaisnoticias","33":"tag-top-stories","34":"tag-topstories","35":"tag-ultimas","36":"tag-ultimas-noticias","37":"tag-ultimasnoticias","38":"tag-world","39":"tag-world-news","40":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68453","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68453"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68453\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/68454"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}