{"id":69897,"date":"2025-09-13T16:01:07","date_gmt":"2025-09-13T16:01:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/69897\/"},"modified":"2025-09-13T16:01:07","modified_gmt":"2025-09-13T16:01:07","slug":"eua-democracia-ferida-de-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/69897\/","title":{"rendered":"EUA. Democracia ferida de morte"},"content":{"rendered":"<p>Desde 2017 que o Washington Post, um dos mais importantes jornais norte-americanos, adotou a frase \u00abDemocracy Dies in Darkness\u00bb (A democracia morre na escurid\u00e3o) como slogan. A frase, como explicou o ex-CEO do peri\u00f3dico \u00e0 Global Mentor Network em 2020, foi escolhida porque \u00abse n\u00e3o se fizer luz sobre o governo, o nosso processo, os nossos decisores e os nossos representantes eleitos, a democracia pode morrer\u00bb. Partindo do pressuposto que o jornalismo \u00e9 um dos pilares dos sistemas democr\u00e1ticos, o slogan parece fazer todo o sentido. Mas ser\u00e1 que o processo de eros\u00e3o democr\u00e1tica est\u00e1, realmente, a acontecer na escurid\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>O assassinato de Iryna Zarutska<\/strong><\/p>\n<p>Uma das grandes hist\u00f3rias que nos chegaram da outra margem do Atl\u00e2ntico durante esta semana foi o assassinato da jovem ucraniana Iryna Zarutska. No ver\u00e3o de 2022, poucos meses ap\u00f3s Vladimir Putin ter lan\u00e7ado a ofensiva russa sobre o territ\u00f3rio ucraniano, Zarutska, ent\u00e3o com vinte anos, procurou ref\u00fagio nos Estados Unidos da Am\u00e9rica. Tr\u00eas anos depois, durante uma viagem de metro \u2013 que, ao que tudo indica, seria rotineira \u2013 em Charlotte, Carolina do Norte, ao sair do trabalho, a jovem foi esfaqueada at\u00e9 \u00e0 morte por Decarlos Brown Jr.<\/p>\n<p>As imagens, que podem ferir suscetibilidades, foram partilhadas na rede social X ao longo desta semana, ainda que o homic\u00eddio tenha ocorrido no passado dia 22 de agosto. \u00c9 poss\u00edvel ver-se Zarutska sentada, a olhar para o telem\u00f3vel, no momento em que entra o homicida na carruagem. Sem qualquer troca de palavras, Brown senta-se imediatamente atr\u00e1s da v\u00edtima, empunha uma faca e desfere tr\u00eas golpes no pesco\u00e7o da jovem ucraniana. Naturalmente em estado de choque, Iryna Zarutska leva as m\u00e3os \u00e0 cara e o assassino desloca-se pela carruagem, com o sangue a escorrer da faca. Os outros passageiros, que inicialmente n\u00e3o mostraram qualquer rea\u00e7\u00e3o aparente, tentaram ajudar a jovem depois de Brown ter abandonado o metro. Mas foi tarde demais.\u00a0<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o nas redes sociais foi imediata e a indigna\u00e7\u00e3o foi o sentimento de ordem. Muitos canalizaram os seus protestos na dire\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a, e de alguns ju\u00edzes em espec\u00edfico, que libertou Decarlos Brown mesmo apresentando cadastro, para a presidente da C\u00e2mara de Charlotte, Vi Lyles, e para os \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social tradicionais pelo tempo demorado em reportar o caso (e depois de reportado, foram criticados pela forma como o fizeram). Tamb\u00e9m o movimento woke e o multiculturalismo que esta doutrina apregoa foram alvo de duras cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Quanto ao cadastro do homicida, a CNN americana explicou-o de forma clara, tendo ainda contactado a fam\u00edlia, em alguns par\u00e1grafos que merecem ser citados na \u00edntegra: \u00abBrown tem um longo hist\u00f3rico criminal, incluindo condena\u00e7\u00f5es por assalto \u00e0 m\u00e3o armada, roubo qualificado e invas\u00e3o de propriedade. Familiares disseram \u00e0 CNN que ele tem um hist\u00f3rico de problemas de sa\u00fade mental\u00bb. \u00abEle passou mais de cinco anos atr\u00e1s das grades por assalto com arma perigosa, segundo registos estaduais\u00bb, acrescentou a CNN, dizendo ainda que os \u00abregistos do estado da Carolina do Norte elencam 14 casos envolvendo Brown, al\u00e9m daqueles relacionados ao homic\u00eddio. Remontam a 2011 e incluem pris\u00f5es por delitos menores, como excesso de velocidade e roubo em lojas. N\u00e3o est\u00e1 claro quantos deles foram levados a julgamento\u00bb. Quanto aos problemas de foro psicol\u00f3gico, a sua irm\u00e3 disse \u00e0 CNN que depois de cumprir uma pena de pris\u00e3o de cinco anos em 2020, Brown \u00abn\u00e3o parecia ele mesmo\u00bb e tinha dificuldade em manter conversas e empregos. Diagnosticado com esquizofrenia, sofria de alucina\u00e7\u00f5es e paranoia. Tornou-se agressivo e chegou a atacar a irm\u00e3 em 2022. \u00abEmbora tenha sido preso naquela noite, ela decidiu retirar as acusa\u00e7\u00f5es por preocupa\u00e7\u00e3o com os problemas de sa\u00fade mental do irm\u00e3o\u00bb. E, ainda de acordo com a testemunho de Tracey Brown dado \u00e0 CNN, a justifica\u00e7\u00e3o dada pelo assassino para cometer o crime foi a de que a jovem ucraniana estaria a ler a sua mente.\u00a0<\/p>\n<p>Donald Trump, na sua conta oficial da rede social Truth, pediu a pena de morte: \u00abO ANIMAL que matou t\u00e3o violentamente a bela jovem ucraniana, que veio para os Estados Unidos em busca de paz e seguran\u00e7a, deve ter um julgamento \u2018r\u00e1pido\u2019 (n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas!) e receber apenas a PENA DE MORTE. N\u00e3o pode haver outra op\u00e7\u00e3o!!!\u00bb. A procuradora-geral dos Estados Unidos j\u00e1 declarou que a pena de morte est\u00e1 \u00abclaramente em cima da mesa\u00bb.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Charlie Kirk morto a tiro<\/strong><\/p>\n<p>Ainda as imagens do assass\u00ednio de Zarutska que nos chegaram de Charlotte estavam a provocar uma forte onda de indigna\u00e7\u00e3o, mais uma trag\u00e9dia abalou o pa\u00eds e chocou o mundo. Desta vez em Utah. Charlie Kirk, uma figura p\u00fablica conservadora, parte integrante do c\u00edrculo \u00edntimo de Donald Trump e com uma influ\u00eancia consider\u00e1vel sobre os jovens, foi morto com um tiro no pesco\u00e7o num campus universit\u00e1rio. O homic\u00eddio aconteceu na Universidade de Utah, enquanto Kirk falava com alunos num modelo de debate pelo qual ficou tamb\u00e9m conhecido. Chamava-se The American Comeback Tour e, sob o slogan Prove Me Wrong (prova que estou errado), Kirk debatia com estudantes que discordavam intensamente com a suas vis\u00f5es pol\u00edticas. O momento em que o jovem \u00e9 atingido no pesco\u00e7o, alegadamente a uma dist\u00e2ncia de cerca de 180 metros, ficou registado num v\u00eddeo que tamb\u00e9m poder\u00e1 ferir suscetibilidades. Ao in\u00edcio, um suspeito foi detido, mas concluiu-se que n\u00e3o teria sido o autor do crime. Foi montada uma ca\u00e7a ao homem e, de acordo com a MSNBC, as autoridades j\u00e1 conseguiram recuperar a arma e a pegada do assassino, que dizem ser jovem.<\/p>\n<p>Kirk, um dos principais rostos do movimento MAGA (Make America Great Again) jovem, publicou seis livros e fundou, em 2012, a Turning Point USA, cujo objetivo passa fundamentalmente pela dissemina\u00e7\u00e3o das ideias conservadoras nos campi universit\u00e1rios. Era um homem de f\u00e9, casado e deixa dois filhos \u2013 a mais velha com tr\u00eas anos, o mais novo com apenas um.<\/p>\n<p>Donald Trump avan\u00e7ou a not\u00edcia da morte de Charlie Kirk, quando ainda havia uma esperan\u00e7as de que o influenciador pudesse recuperar no hospital para o qual foi transportado: \u00abO grande, e at\u00e9 mesmo lend\u00e1rio, Charlie Kirk, est\u00e1 morto. Ningu\u00e9m compreendia ou tinha o cora\u00e7\u00e3o da juventude dos Estados Unidos da Am\u00e9rica melhor do que o Charlie. Era amado e admirado por TODOS, especialmente por mim, e agora j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 entre n\u00f3s\u00bb. Ap\u00f3s estender as suas condol\u00eancias \u00e0 vi\u00fava Erika, o Presidente finalizou com a seguinte frase: \u00abCharlie, n\u00f3s amamos-te!\u00bb.\u00a0<\/p>\n<p>Estes epis\u00f3dios traum\u00e1ticos e que deixam claras as consequ\u00eancias de uma polariza\u00e7\u00e3o e de sentimentos de \u00f3dio crescentes na cena pol\u00edtica, podem marcar um novo per\u00edodo nos Estados Unidos. Um per\u00edodo que, segundo especialistas, n\u00e3o aparenta ser risonho. Ao Nascer do SOL, Teresa Nogueira Pinto diz que \u00abn\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil restaurar formas de coes\u00e3o social, que gosto de definir como um ch\u00e3o comum, num futuro pr\u00f3ximo\u00bb. Numa an\u00e1lise mais profunda, a professora da Universidade Lus\u00f3fona explica que \u00abJohn Adams disse, e Charlie Kirk lembrava-o muitas vezes, que a Constitui\u00e7\u00e3o americana tinha sido escrita para um povo moral e religioso, e seria totalmente desadequada para o governo de um povo que n\u00e3o fosse assim. E de facto h\u00e1 uma fort\u00edssima correla\u00e7\u00e3o entre cristianismo e a democracia na modernidade. A liberdade carece de uma ordem\u00bb. Ainda assim, continua Teresa Nogueira Pinto, \u00abvimos de d\u00e9cadas muito marcadas pelo relativismo moral, at\u00e9 por um certo niilismo. E de hegemonia, cultural, mas tamb\u00e9m constitucional, de uma esquerda progressista que tem grande dificuldade em aceitar a liberdade, o contradit\u00f3rio, e o debate. E para quem o inimigo pol\u00edtico \u00e9 um inimigo moral e total\u00bb. \u00abE por isso\u00bb, acrescenta, \u00aba viol\u00eancia surge como justific\u00e1vel, uma forma de reden\u00e7\u00e3o. Isso, creio, ficou vis\u00edvel nos protestos que se seguiram \u00e0 morte de George Floyd. Ao mesmo tempo temos uma acelera\u00e7\u00e3o sem precedentes do tempo pol\u00edtico, que cria a sensa\u00e7\u00e3o de estarmos 24 sobre 24 horas numa campanha pol\u00edtica\u00bb.<\/p>\n<p>Assim, parece que a democracia n\u00e3o morre apenas na escurid\u00e3o. Est\u00e1 a morrer \u00e0 vista de todos. Nos transportes p\u00fablicos e nas universidades em plena luz do dia.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Desde 2017 que o Washington Post, um dos mais importantes jornais norte-americanos, adotou a frase \u00abDemocracy Dies in&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":69898,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,18223,413,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-69897","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-charlie-kirk","11":"tag-eua","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-latest-news","16":"tag-latestnews","17":"tag-main-news","18":"tag-mainnews","19":"tag-mundo","20":"tag-news","21":"tag-noticias","22":"tag-noticias-principais","23":"tag-noticiasprincipais","24":"tag-principais-noticias","25":"tag-principaisnoticias","26":"tag-top-stories","27":"tag-topstories","28":"tag-ultimas","29":"tag-ultimas-noticias","30":"tag-ultimasnoticias","31":"tag-world","32":"tag-world-news","33":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69897","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69897"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69897\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69898"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}