{"id":69977,"date":"2025-09-13T17:26:08","date_gmt":"2025-09-13T17:26:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/69977\/"},"modified":"2025-09-13T17:26:08","modified_gmt":"2025-09-13T17:26:08","slug":"a-alma-aberta-a-vida-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/69977\/","title":{"rendered":"&#8220;A alma aberta \u00e0 vida&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 como iludi-lo: \u00e9 angustiante que este extraordin\u00e1rio documento epistolar seja divulgado 35 anos ap\u00f3s a morte de Ernesto Veiga de Oliveira, figura decisiva \u2014 pelo exemplo do trabalho feito \u2014 para que uma nova gera\u00e7\u00e3o de pr\u00e9-universit\u00e1rios se interessasse pela antropologia portuguesa; e \u00e9 escandaloso que a editora Etnogr\u00e1fica Press n\u00e3o tenha sido capaz de captar recursos (2500 \u20ac bastavam) para produzir um livro f\u00edsico, ainda que de tiragem reduzida. A mem\u00f3ria de Jorge Dias e de Veiga de Oliveira merecem muito mais do que isto, e o caso tamb\u00e9m revela o desprezo com que o Museu Nacional de Etnologia \u2014 e a sua admir\u00e1vel equipa hist\u00f3rica, que instituiu ali uma verdadeira idade de ouro da investiga\u00e7\u00e3o e da museologia \u2014 foi tratado durante d\u00e9cadas, continua a ser tratado e, pior ainda, aceita ser tratado: acolheu este ano, como institui\u00e7\u00e3o desfigurada, subalternizada e de recurso, uma mostra da Cole\u00e7\u00e3o de Arte Contempor\u00e2nea do Estado (!) que durou quatro meses, sem que o seu diretor tenha tido a hombridade e a dignidade de se demitir. Pior ainda: tendo co-editado em 2022, em apoio da mesma Etnogr\u00e1fica Press, Cartas do Brasil. Correspond\u00eancia de Antrop\u00f3logos e Folcloristas Brasileiros para Jorge Dias (1949-1972), <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2022\/06\/12\/jorge-dias-e-o-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">que aqui recense\u00e1mos com merecida acidez<\/a>, o Museu negou-se agora a id\u00eantica presta\u00e7\u00e3o, muito mais justificada do que aquela. \u00c9 o que temos e quem temos. Bater no fundo \u00e9 sempre bater no fundo, com estrondo ou sem ele. Joaquim Pais de Brito conseguiu tudo o que queria.<\/p>\n<p>Em 2008 Jo\u00e3o Leal recebeu de Benjamin Pereira 131 cartas e postais de Dias para Veiga de Oliveira, e em 2020, dois anos depois da morte de Pereira, foram encontradas no seu esp\u00f3lio as cartas do seu discreto companheiro para Jorge, que correspondem \u00e0quelas. Pelo menos uma parte destes catorze anos podia ter sido poupada se outro contexto e um evidente dinamismo prevalecessem na cena acad\u00e9mica destas disciplinas, ou se o impulso dado pela edi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios epistol\u00e1rios liter\u00e1rios e art\u00edsticos (Sena, Pomar, Lemos, Sophia, Cesariny, Menez, R\u00e9gio, Agustina, Pascoaes, etc.) tivesse criado um m\u00f3dico de interesse cultural digno desse nome, alargado com lucidez a este ramo das ci\u00eancias sociais e a estas t\u00e3o relevantes figuras dele.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o desta Correspond\u00eancia (1935-1964) \u00e9, todavia, exemplar. As cartas foram arrumadas em cap\u00edtulos que assinalam cinco fases espec\u00edficas da vida de Jorge Dias: \u201cAnos sombrios e revoltados (1935-38)\u201d; \u201cCartas alem\u00e3es (1939-43)\u201d; \u201cEntre os EUA e a Europa (1950-54)\u201d; \u201cCartas de \u00c1frica (1957-59)\u201d; \u201cO pa\u00eds todo e um museu (1960-64)\u201d, cada um deles exaustivamente apresentados e comentados por Jo\u00e3o Leal e Catarina Belo, sua ex-aluna. A \u201cmuito estreita e s\u00f3lida amizade\u201d entre Jorge e Ernesto fica documentada neste epistol\u00e1rio \u201cdescont\u00ednuo\u201d, que o ilustra de forma \u201csimultaneamente perempt\u00f3ria e comovente\u201d (p. 15) para um per\u00edodo de 30 anos, depois do qual trabalharam juntos e a necessidade de se corresponderem praticamente acabou. Mas \u00e9 tamb\u00e9m, ou \u00e9 sobretudo, \u201cum contributo para um melhor conhecimento da actividade de Jorge Dias e da sua equipa. E \u00e9, simultaneamente, uma contribui\u00e7\u00e3o relevante para entendermos os percursos e os estados de esp\u00edrito que \u2014 entre 1935 e 1944 \u2014 ir\u00e3o conduzir Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira \u00e0 antropologia\u201d (pp. 17-18).<\/p>\n<p>Tanto um como o outro estavam, em jovens, muito longe desse interesse e dessa voca\u00e7\u00e3o. Nascidos em fam\u00edlias de prest\u00edgio do Porto (Vasco Nogueira de Oliveira, pai de Ernesto, foi presidente da c\u00e2mara e da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia da cidade; Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Dias, pai de Jorge, empres\u00e1rio e negociante, fundou as Tintas CIN e foi s\u00f3cio de dois cinemas, um dos quais o Batalha), os seus come\u00e7os n\u00e3o foram auspiciosos. Dias foi caixeiro-viajante de sabonetes e cabos de chap\u00e9u de chuva, antes de voltar \u00e0 escola, que decidira abandonar ainda na quarta classe. Veiga de Oliveira via a sua vida andar para tr\u00e1s como gerente duma garagem em Lisboa, fun\u00e7\u00e3o imposta pela fam\u00edlia para a qual n\u00e3o se sentia competente, nem de todo o satisfazia. Nas cartas do primeiro ciclo, escritas num inescap\u00e1vel \u201ctom sombrio e revoltado\u201d (p. 26), encontramos express\u00f5es muito fortes como \u201cindol\u00eancia medonha\u201d, \u201cinutilidade absoluta\u201d, \u201cesterilidade viciosa\u201d, \u201cquim\u00e9ricos desesperos\u201d, \u201cmorbidez sedent\u00e1ria\u201d, \u201cmundo hostil\u201d, \u201cmiser\u00e1vel expectativa\u201d, \u201cperp\u00e9tua e insol\u00favel hesita\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cdesordem espiritual\u201d, \u201cp\u00e1rias miser\u00e1veis\u201d, \u201cm\u00f3rbidas tristezas\u201d, \u201cmediocridade incomensur\u00e1vel\u201d, \u201cdolorosa ansiedade\u201d, \u201cvida absurda\u201d, \u201ca chaga pobre da sedent\u00e1ria humanidade\u201d, \u201catoleiro\u201d. Um e outro sonham com uma vida ao ar livre, que pusesse de lado \u201ccomodidades e considera\u00e7\u00e3o social\u201d, e ainda assim fosse \u201cum caminho\u201d. \u201cSe bem que n\u00e3o seja a estrada alcatroada e plana por onde segue o resto da humanidade, \u00e9 pelo menos um carreirinho tortuoso e alcantilado, mas que nos deixa ver horizontes mais largos\u201d (Dias, p. 109).<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/capa-jorge-dias-veiga-oliveira.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"427\" height=\"662\"\/>    <\/p>\n<p>\n<strong>T\u00edtulo:<\/strong> \u201cCorrespond\u00eancia (1935-1964). Ant\u00f3nio Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira\u201d<br \/>\n<strong>Organiza\u00e7\u00e3o:<\/strong> Jo\u00e3o Leal e Catarina Belo<br \/>\n<strong>Editora:<\/strong> Etnogr\u00e1fica Press<br \/>\n<strong>P\u00e1ginas:<\/strong> 366. Edi\u00e7\u00e3o digital<\/p>\n<p>A \u201cagreste solid\u00e3o da liberdade\u201d encontram-na em inesquec\u00edveis passeios pelas serras nortenhas, com amigos, numa vagabundagem feliz, \u201ca \u00fanica vida verdadeira e boa\u201d, como dir\u00e1 mais tarde (Maio de 1939; p. 159). A dada altura, surge a pergunta: \u201cA vida ser\u00e1 s\u00f3 contabilidade?\u201d (p. 45). Em fevereiro de 1937, Ernesto \u2014 tinha ent\u00e3o 26 anos \u2014 comunica: \u201cA vida aqui [em Sagres] devia ser maravilhosa. Sou amigo de toda esta gente simples, que gosta imenso de me ver pintar; podia ir com eles \u00e0 pesca, na solid\u00e3o do mar, entre almas inocentes e selvagens. Ir \u00e0 pesca, num destes barcos pobres, de vela al\u00e7ada, de noite, al\u00e9m da estupenda penedia!\u201d (p. 100). Duas semanas antes, Jorge escrevera-lhe isto: \u201cH\u00e1 duas condi\u00e7\u00f5es sem as quais a vida \u00e9 para n\u00f3s imposs\u00edvel: contacto com a natureza e liberdade de corrermos para onde quisermos, quando sentirmos necessidade disso\u201d (p. 88). Numa das cartas, l\u00ea-se este conselho a Ernesto: \u201cDeixe tudo! N\u00e3o fa\u00e7a caso de nada e siga o seu destino. Aproveite a felicidade imensa de ser como \u00e9 e poder dar largas \u00e0 sua tend\u00eancia. N\u00e3o se meta em escrit\u00f3rios, nem neg\u00f3cios, nem advocacias, nem nada. Aproveite os rendimentos de seu Pai, e viva a sua verdadeira vida. Pelo menos, n\u00e3o se meta em nada que lhe tire inteiramente a liberdade\u201d (p. 152). \u201cA vida s\u00f3 \u00e9 grande quando nos sabemos desencaro\u00e7ar!\u201d, advogar\u00e1 anos mais tarde (p. 212). A empolgante amizade juvenil entre Jorge Dias e Ernesto Veiga de Oliveira, que este feixe de cartas permite conhecer, surpreende certamente quem deles apenas sabe a obra fundamental que, cada um a seu lado, mais tarde nos deixariam.<\/p>\n<p>Em 1939 Jorge Dias vai para a Alemanha como leitor a servi\u00e7o do Instituto de Alta Cultura. Primeiro em Rostock, depois em Munique, at\u00e9 1942, e por fim Berlim, at\u00e9 Abril de 1944, \u201cquando os bombardeamentos aliados tornaram insuport\u00e1vel a vida na capital alem\u00e3\u201d (Leal, p. 124). Tudo mudaria em cinco anos. O encontro com o fil\u00f3logo Gerhard Rohfls (1892-1986) e o incentivo de Margot Schmidt \u2014 \u201cuma conselheira excepcional\u201d (p. 187), que conheceu no in\u00edcio de 1940 \u2014 para o estudo de Etnologia fizeram Jorge Dias preterir outras \u00e1reas de conhecimento, a Psicologia entre elas, e conceber a tese de doutoramento que o celebraria. O tema Vilarinho das Furnas j\u00e1 estaria decidido no ver\u00e3o de 1941, e a Etnologia \u2014 ent\u00e3o Geografia Humana, Wolkskunde \u2014 apresentava-se, como escreve Jo\u00e3o Leal, \u201ccomo uma maneira de obter um enquadramento institucional para o gosto de ambos pelas \u201cvagabundagens\u201d nas serras do Norte do pa\u00eds\u201d, \u201ccom a vantagem \u2014 aponta Dias \u2014 de termos uma recomenda\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio e um ordenado todos os meses\u201d (p. 136). Foi, todavia, o relacionamento amoroso com Margot a trazer-lhe a paz: \u201cPosso discutir com ela todos os assuntos e vejo \u00e0s vezes coisas que s\u00f3 n\u00e3o era capaz de ver. De resto sou livre, livre como nunca fui\u201d (p. 189).<\/p>\n<p>Ainda em 1941, perante algum des\u00e2nimo de Ernesto, escrevera-lhe: \u201cVoc\u00ea tem de seguir o seu destino d\u00ea para onde der! [\u2026] Imponha-se, e limite os direitos dos outros sobre si. [\u2026] Voc\u00ea tem dentro de si mundos que t\u00eam de tomar uma forma qualquer e n\u00e3o podem morrer misturados com consumi\u00e7\u00f5es. Rebente com as amarras e seja livre\u201d (p. 179), porquanto \u201cn\u00f3s somos, no fundo, dois grandes vagabundos de olhos extasiados perante o mist\u00e9rio da vida\u201d (p. 206). A cont\u00ednua refer\u00eancia \u00e0 liberdade pessoal acima de tudo permanece, mesmo quando Jorge Dias j\u00e1 se sente o \u201cgigante\u201d (p. 188) que Margot fez dele. Por exemplo, descreve em setembro de 1941 uma excurs\u00e3o de 100 km a p\u00e9 pela Su\u00ed\u00e7a-Frac\u00f3nia, com acad\u00e9micos de v\u00e1rias nacionalidades, \u201cuma paisagem lind\u00edssima ora por vales cortados a pique em rochas calc\u00e1rias, ora por florestas \u00e9brias de colorido e luz\u201d, admitindo que esses cen\u00e1rios \u201cduma beleza incontest\u00e1vel e o sol, o ar livre e a vagabundagem deram-me uma frescura \u00e0 alma, que at\u00e9 me apetecia cantar\u201d (pp. 190-91). Mas o sucesso da \u201ccorrente el\u00e9trica a correr em mim\u201d, a que Dias se refere a 11 de mar\u00e7o de 1942, contrasta a par e passo com a \u201cmonotonia portuense\u201d (p. 202) a que a in\u00e9rcia de Veiga de Oliveira parece estar submetida. Em Novembro, de volta a Bernau, depois dumas f\u00e9rias em Portugal, confirma: \u201cEsta paisagem grande e fria, esta gente ponderada e rom\u00e2ntica, idealista e culta obrigam-me a tomar perante a vida uma nova atitude: mais reflectida, mais l\u00facida e ordenada, mais positiva e activa e decididamente mais \u00fatil\u201d (p. 206).<\/p>\n<p>Nesta mesma carta, e pela primeira vez neste epistol\u00e1rio, vislumbra-se o que viriam a ser estes dois, e a consci\u00eancia do muito que estava por fazer no pa\u00eds e a breve prazo. \u201cA \u00e9poca \u00e9 a melhor para estes estudos, pois o que se n\u00e3o fizer nestes dec\u00e9nios nunca mais se far\u00e1, porque desaparecer\u00e3o todos os restos das velhas tradi\u00e7\u00f5es. Estas f\u00e9rias j\u00e1 dev\u00edamos vaguear muito por serras do Norte, para possivelmente publicarmos qualquer coisa juntos antes da sua licenciatura, e depois, meu caro Ernesto, a nossa vida ser\u00e1 lado a lado, por serras e vales, pelas praias cheias de sol, pelas romarias coloridas e barrulhentas e pelos grandes planaltos silenciosos e desertos em que velhos pastores perpetuam costumes milen\u00e1rios\u201d (p. 208; it\u00e1lico meu). N\u00e3o sucedeu desta maneira linear, como sabemos, pois antes teve de acontecer \u201ca extraordin\u00e1ria internacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d de Jorge Dias, com participa\u00e7\u00e3o em congressos e confer\u00eancias pela Europa e Am\u00e9ricas, contactos com pares acad\u00e9micos (caso especial ser\u00e1 o de Charles Wagley, 1913-91), num ritmo acelerado que lhe proporcionou prest\u00edgio e certamente acesso a um outro patamar de conhecimentos, com visitas a centros de ensino e investiga\u00e7\u00e3o e a reservas ind\u00edgenas no Brasil e nos Estados Unidos. \u201c\u00c9 aqui \u2014 nos Estados Unidos da Am\u00e9rica \u2014 que a antropologia toma o seu verdadeiro significado\u201d, escrever\u00e1 a Ernesto a 16 de Dezembro de 1950.<\/p>\n<p>Em 1953, Dias conseguiu finalmente a contrata\u00e7\u00e3o de Veiga de Oliveira para a sua equipa no Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, mas o velho sonho de trabalharem juntos n\u00e3o se concretizou como previsto, pelos encargos extranacionais do primeiro (\u201cconsegui em cinco anos uma posi\u00e7\u00e3o internacional extraordin\u00e1ria\u201d, p. 226), ficando Ernesto, com Fernando Galhano, e a partir de 1959 com Benjamin Pereira, a \u201cassumir um papel cada vez mais preponderante na investiga\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio nacional\u201d (Leal, p. 228). Em consequ\u00eancia disso, o epistol\u00e1rio, agora muito menos abundante, passa a tratar dos trabalhos em curso, quer de um quer de outro, em campos claramente distintos: arquitetura popular e festividades c\u00edclicas para um, a \u00c1frica portuguesa para o outro \u2014 em particular os Macondes mo\u00e7ambicanos, trabalho com o qual Jorge Dias obteria em 1964 o primeiro doutoramento em antropologia cultural e social em Portugal. E embora admita \u201ctenho muitas vezes pena de vos ter abandonado para seguir t\u00e3o desvairados caminhos\u201d (carta de Joanesburgo, 15 Novembro de 1959; p. 263), a verdade \u00e9 que Jorge Dias foi acompanhando e comentando os trabalhos dos outros, com conselhos e recomenda\u00e7\u00f5es muito v\u00e1lidos, a ponto de escrever \u201cFelizmente que voc\u00eas seguiram os velhos trilhos etnogr\u00e1ficos que eu tinha come\u00e7ado a rasgar, com tanta seguran\u00e7a e \u00eaxito que eu j\u00e1 nada tenho a recear pelo futuro da nossa obra\u201d (idem), a ponto de poder escrever, a 5 de dezembro desse mesmo ano: \u201cOu n\u00e3o me engano muito ou daqui a uns dez anos o nosso Centro \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o not\u00e1vel no pa\u00eds, pela obra realizada. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de orientar bem o trabalho e de trabalhar com perseveran\u00e7a\u201d (p. 266; it\u00e1lico meu). N\u00e3o se enganou nem um pouco, de facto. Mas ao mesmo tempo p\u00f4de apontar que um raio de inquiri\u00e7\u00e3o demasiado concentrado no Norte haveria de comprometer o cr\u00e9dito do centro de estudos, servindo de advert\u00eancia o aviso de que o ge\u00f3grafo Orlando Ribeiro estava em Tavira a estudar os telhados de tesoura (v. pp. 267-68). E h\u00e1 tamb\u00e9m a muito l\u00facida ideia de \u201cuma distribui\u00e7\u00e3o internacional inteligente\u201d (p. 294) dos trabalhos que v\u00e3o sendo produzidos e impressos.<\/p>\n<p>Entre 1960 e 1965, Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira v\u00e3o estudar e inventariar \u2014 com dinheiro da Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian \u2014 os instrumentos musicais populares portugueses. N\u00e3o s\u00f3 a pesquisa \u00e9 feita \u201cem condi\u00e7\u00f5es excepcionais\u201d (cit. p. 275) que pela primeira vez os levou ao Sul e \u00e0 Madeira e A\u00e7ores, como todos os 486 instrumentos recolhidos nessa campanha ser\u00e3o doados ao Museu Nacional de Etnologia pela funda\u00e7\u00e3o dirigida por Azeredo Perdig\u00e3o, depois de em 1964 e 1966 ali terem sido expostos e divulgados num estudo impresso pela mesma institui\u00e7\u00e3o. Para entender a import\u00e2ncia da Gulbenkian no desenvolvimento destes inqu\u00e9ritos etnogr\u00e1ficos e antropol\u00f3gicos, estas cartas de Jorge Dias n\u00e3o podiam ser mais expl\u00edcitas, mas as de Veiga Oliveira, \u201cincorrig\u00edvel mel\u00f3mano, de cultura musical vasta e de gosto exigente\u201d (Leal e Belo, p. 281), n\u00e3o s\u00e3o menos que isso, e a perspectiva de que um trabalho bem feito assegurar\u00e1 financiamento generoso para campanhas futuras decorre em alguma desta correspond\u00eancia, agora dada a conhecer. Em maio de 1960, Jorge Dias poder\u00e1 dizer: \u201cV\u00f3s sois a minha fam\u00edlia etnogr\u00e1fica que, embora sem la\u00e7os de sangue, me prende por la\u00e7os de afei\u00e7\u00e3o igualmente estreitos\u201d (p. 308; it\u00e1lico meu) \u2014 numa carta em que tamb\u00e9m escreve \u201cLi o teu S\u00e3o Martinho! \u00c9s um homem formid\u00e1vel! Qualquer coisa que te pe\u00e7am e tu fazes logo um trabalho extraordin\u00e1rio!\u201d.<\/p>\n<p>Est\u00e1 bom de ver que uma fraternidade cient\u00edfica deste tipo e calibre humano haveria de deixar uma pegada indestrut\u00edvel na cena portuguesa, algo que depois deles jamais foi tentado da mesma maneira e com id\u00eantico alcance. Este livro e os que lhe seguir\u00e3o, pelo menos, conservar\u00e3o essa mem\u00f3ria, apontando-nos o fracasso de quem veio depois. N\u00e3o \u00e9 mau de todo, se servir de li\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>A 18 de Setembro, quinta-feira, pelas 18 horas, no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa, ser\u00e1 lan\u00e7ado o livro \u201cJorge Dias e Companheiros. A pesquisa etnogr\u00e1fica do Centro de Estudos de Etnologia Peninsular (1947-1968)\u201d, de Jo\u00e3o Leal.<\/p>\n<p>Apresenta o livro Clara Saraiva, do Instituto de Ci\u00eancias Sociais da Universidade de Lisboa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 como iludi-lo: \u00e9 angustiante que este extraordin\u00e1rio documento epistolar seja divulgado 35 anos ap\u00f3s a morte&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":69978,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,10392,315,114,115,864,170,32,33],"class_list":{"0":"post-69977","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-cru00edtica-de-livros","10":"tag-cultura","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-literatura","14":"tag-livros","15":"tag-portugal","16":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69977","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69977"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69977\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69978"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69977"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69977"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69977"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}