{"id":71790,"date":"2025-09-15T01:52:15","date_gmt":"2025-09-15T01:52:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/71790\/"},"modified":"2025-09-15T01:52:15","modified_gmt":"2025-09-15T01:52:15","slug":"fumar-mata-dar-jobs-a-boys-tambem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/71790\/","title":{"rendered":"Fumar mata? Dar \u2018jobs\u2019 a \u2018boys\u2019 tamb\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 tristes e tr\u00e1gicas ironias do destino que dispensam legendas e moral da hist\u00f3ria: bastam-se a si pr\u00f3prias, num enredo de que s\u00f3 a realidade \u00e9 capaz. A composi\u00e7\u00e3o do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Carris \u00e9 um belo exemplo de como o Estado portugu\u00eas, geridos por Governos de quadrantes indistintos, quando decide ser patr\u00e3o, o faz com aquela fleuma paternalista que nos leva a acreditar que o m\u00e9rito \u00e9 uma moeda fora de circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vejamos, neste contexto, quem s\u00e3o os cinco administradores da Carris, a empresa municipal que gere os ascensores hist\u00f3ricos de Lisboa. <a href=\"https:\/\/srv700518.hstgr.cloud\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/cv-pedro-bogas.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Pedro Bogas<\/a>, presidente, \u00e9 advogado e passou grande parte da sua vida profissional entre gabinetes ministeriais, assessorias jur\u00eddicas e cargos de administra\u00e7\u00e3o em empresas p\u00fablicas. N\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que se tenha distinguido por dirigir frotas de autocarros ou garantir a seguran\u00e7a de funiculares, mas sim por conhecer os meandros dos corredores do poder.<\/p>\n<p><img alt=\"\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" decoding=\"async\" data-nimg=\"1\" class=\"rounded-lg my-6\" style=\"color:transparent;height:auto;max-width:100%\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/image\"\/>Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Carris (da esquerda para a direita): Eva Favila Vieira, Maria Albuquerque, Pedro Bogas, Ana Coelho e  Fernando Pedro Moutinho.<\/p>\n<p>A sua vice, <a href=\"https:\/\/srv700518.hstgr.cloud\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/cv-ana-coelho.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Ana Coelho<\/a>, licenciada em Economia, fez praticamente toda a carreira na CP \u2014 mas n\u00e3o na opera\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria, onde se respiram hor\u00e1rios, acidentes e redund\u00e2ncias de seguran\u00e7a, mas antes na contabilidade e controlo or\u00e7amental. Era na CP, podia ser noutra qualquer empresa p\u00fablica: n\u00fameros s\u00e3o n\u00fameros, folhas de Excel n\u00e3o distinguem se o activo \u00e9 um comboio ou um autocarro ou um parafuso. Ou um cabo que pode colapsar. \u2193<\/p>\n<p class=\"font-serif text-lg text-white\">\n              O jornalismo independente (s\u00f3) depende dos leitores.\n            <\/p>\n<p class=\"text-lg text-white\">\n              N\u00e3o dependemos de grupos econ\u00f3micos nem do Estado. N\u00e3o fazemos<br \/>\n              fretes. Fazemos jornalismo para os leitores,<br \/>\n              <strong class=\"\"><br \/>\n                mas s\u00f3 sobreviveremos com o seu apoio financeiro.<br \/>\n              <\/strong>\n            <\/p>\n<p>A outra vice, <a href=\"https:\/\/srv700518.hstgr.cloud\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/cv-maria-albuquerque_1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Maria Albuquerque<\/a>, engenheira civil com mestrado em planeamento territorial e ambiente, \u00e9 um produto t\u00edpico da tecnocracia ministerial: carreira feita em gabinetes, programas comunit\u00e1rios e, mais recentemente, na estrutura de gest\u00e3o do IFRRU 2020 \u2014 o Instrumento Financeiro para a Reabilita\u00e7\u00e3o e Revitaliza\u00e7\u00e3o Urbanas \u2014, onde se gere dinheiro, n\u00e3o se gerem equipamentos que transportam pessoas em carris de ferro.<\/p>\n<p>J\u00e1 <a href=\"https:\/\/srv700518.hstgr.cloud\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/cv-emafavilavieira-29abr.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Eva Favila Vieira<\/a>, promovida este ano a vogal, tem um percurso sui generis: advogada de forma\u00e7\u00e3o, era desde 2018 secret\u00e1ria-geral da Carris e, depois, directora jur\u00eddica, mas antes tinha feito carreira no que se poderia chamar cultura pol\u00edtica \u2014 foi chefe de gabinete da vereadora da Cultura da C\u00e2mara de Lisboa, passou pelo Instituto do Cinema, Audiovisual e Multim\u00e9dia (ICAM) e tamb\u00e9m por gabinetes ministeriais na Defesa.<\/p>\n<p><img alt=\"\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" decoding=\"async\" data-nimg=\"1\" class=\"rounded-lg my-6\" style=\"color:transparent;height:auto;max-width:100%\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1757901134_425_image\"\/><\/p>\n<p>Por fim, <a href=\"https:\/\/srv700518.hstgr.cloud\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/cv-fernando-moutinho.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Fernando Pedro Moutinho<\/a>, vogal n\u00e3o executivo, \u00e9 arquitecto paisagista e, sobretudo, um homem pol\u00edtico: foi deputado do PSD nos per\u00edodos 1995-1999 e 2002-2005, e desde ent\u00e3o foi vivendo \u00e0 sombra de cargos p\u00fablicos de nomea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, incluindo vice-presidente da Autoridade Nacional de Seguran\u00e7a Rodovi\u00e1ria (2013-2019) e, actualmente, \u00e9 director municipal da Higiene Urbana de Lisboa, respons\u00e1vel pela frota municipal e recolha de res\u00edduos.<\/p>\n<p>Olhando para este ramalhete, percebemos o que em Portugal se institucionalizou como \u201cboys\u201d e \u201cgirls\u201d para \u201cjobs\u201d p\u00fablicos. S\u00e3o tachos, no sentido mais cru do termo, ou se quisermos recorrer a um l\u00e9xico mais arcaico e erudito: sinecuras \u2014 esses cargos que, na velha acep\u00e7\u00e3o latina, eram remunerados mas dispensavam trabalho \u00e1rduo ou risco. H\u00e1 quem passe a vida aos saltos de gabinete em gabinete, de nomea\u00e7\u00e3o em nomea\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que l\u00e1 pelos cinquenta e poucos anos se encontra uma cadeira mais confort\u00e1vel, com sal\u00e1rio generoso, viatura de servi\u00e7o, cart\u00e3o de combust\u00edvel e direito a convites para inaugura\u00e7\u00f5es. \u00c9 a vida, dir\u00e3o alguns: a pol\u00edtica sempre foi o palco onde se distribuem recompensas aos fi\u00e9is.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 \u00e1reas onde o pre\u00e7o das sinecuras \u00e9 demasiado alto. H\u00e1 fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e empresas p\u00fablicas que n\u00e3o podem ser transformadas em prateleiras douradas para quem foi leal ao partido certo ou esteve no gabinete certo na hora certa. A trag\u00e9dia recente do Elevador da Gl\u00f3ria prova-o de forma dolorosa. <\/p>\n<p><img alt=\"\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"561\" decoding=\"async\" data-nimg=\"1\" class=\"rounded-lg my-6\" style=\"color:transparent;height:auto;max-width:100%\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1757901135_706_image\"\/><\/p>\n<p>N\u00e3o estamos apenas perante um acidente: estamos perante o paradigma de uma trag\u00e9dia anunciada. O desastre n\u00e3o foi o rompimento do cabo, nem a morte e ferimento dos passageiros: o verdadeiro desastre foi pol\u00edtico, come\u00e7ou anos antes, quando algu\u00e9m na C\u00e2mara Municipal de Lisboa decidiu nomear para a administra\u00e7\u00e3o da Carris uma equipa de cinco pessoas sem conhecimento operacional nem sensibilidade para a seguran\u00e7a de ascensores centen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, ningu\u00e9m \u2014 sublinho, ningu\u00e9m \u2014 pareceu ter o discernimento para abrir o caderno de encargos da manuten\u00e7\u00e3o e <a href=\"https:\/\/paginaum.pt\/2025\/09\/06\/elevador-da-gloria-caderno-de-encargos-da-manutencao-nao-exigia-qualquer-ensaio-mecanico-ao-cabo-que-colapsou\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">questionar se aquelas exig\u00eancias minimalistas eram suficientes<\/a> para proteger a vida dos passageiros. Ningu\u00e9m achou estranho que a poupan\u00e7a em custos de manuten\u00e7\u00e3o fosse esmagada at\u00e9 ao osso. Ningu\u00e9m se deu ao trabalho de ler a legisla\u00e7\u00e3o com aten\u00e7\u00e3o e perceber que a substitui\u00e7\u00e3o de um cabo num equipamento hist\u00f3rico <a href=\"https:\/\/paginaum.pt\/2025\/09\/11\/lei-exigia-que-a-substituicao-do-cabo-do-elevador-da-gloria-tivesse-autorizacao-e-concordancia-do-instituto-da-mobilidade-e-dos-transportes\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">necessitava de autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do Instituto da Mobilidade e dos Transportes<\/a> (IMT), de ensaios, de testes, de documenta\u00e7\u00e3o formal.<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m, sobretudo, fez a pergunta fundamental: estamos a gerir patrim\u00f3nio hist\u00f3rico, a assegurar a seguran\u00e7a das passageiros ou estamos apenas a fechar or\u00e7amentos?<\/p>\n<p><img alt=\"\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" decoding=\"async\" data-nimg=\"1\" class=\"rounded-lg my-6\" style=\"color:transparent;height:auto;max-width:100%\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1757901135_64_image\"\/><\/p>\n<p>O resultado est\u00e1 \u00e0 vista: um equipamento que deveria ser s\u00edmbolo de Lisboa transformou-se em not\u00edcia internacional pelos piores motivos. E com 16 mortes e duas dezenas de feridos. Foi no dia 3 de Setembro de 2025, mas poderia ter sido em qualquer altura \u2013 quando qualquer um dos leitores estivesse \u00e0 hora errada no local errado para um acidente certo.<\/p>\n<p>A responsabilidade do desastre do Elevador da Gl\u00f3ria n\u00e3o se dilui no nevoeiro burocr\u00e1tico: est\u00e1 na escolha das pessoas. Escolher administradores que nunca respiraram manuten\u00e7\u00e3o, opera\u00e7\u00e3o ou seguran\u00e7a para gerir uma empresa de transporte \u00e9 como p\u00f4r um poeta a pilotar um avi\u00e3o: pode at\u00e9 ser uma viagem inspiradora, mas o risco de cair \u00e9 real.<\/p>\n<p>O acidente do Elevador da Gl\u00f3ria \u00e9, por isso, mais do que um acidente: \u00e9 o corol\u00e1rio de uma cadeia de decis\u00f5es pol\u00edticas e administrativas. E deve ser lido como aviso s\u00e9rio: dar \u201cjobs\u201d a \u201cboys\u201d e \u201cgirls\u201d pode ser t\u00e3o perigoso quanto fumar. Tal como o cigarro, pode dar algum prazer no momento, o conforto de satisfazer clientelas pol\u00edticas ou de recompensar carreiras de fidelidade. Mas tal como o cigarro, tem efeitos secund\u00e1rios fatais. Por\u00e9m, neste caso, mata inocentes, n\u00e3o o pr\u00f3prio fumador.<\/p>\n<p><img alt=\"\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" decoding=\"async\" data-nimg=\"1\" class=\"rounded-lg my-6\" style=\"color:transparent;height:auto;max-width:100%\"   src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1757901135_856_image\"\/><\/p>\n<p>Por isso, aquilo que est\u00e1 em causa n\u00e3o \u00e9 apenas a responsabilidade civil ou criminal de quem falhou \u2014 \u00e9 a responsabilidade pol\u00edtica de quem escolheu estas pessoas para estes lugares. Quando a incompet\u00eancia institucional se alia \u00e0 indiferen\u00e7a operacional, o resultado \u00e9 sempre o mesmo: trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Concluindo, \u00e9 tempo de compreender que h\u00e1 lugares na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica que n\u00e3o podem ser ocupados por profissionais de carreira pol\u00edtica, mas sim por quem detenha compet\u00eancia t\u00e9cnica para assegurar o funcionamento dos equipamentos e infraestruturas, garantir a integridade das pessoas e impedir que os erros do passado se repitam. Caso contr\u00e1rio, preparemo-nos: depois do Elevador da Gl\u00f3ria, a pr\u00f3xima trag\u00e9dia estar\u00e1 ao virar da esquina \u2014 e quando ela acontecer, n\u00e3o haver\u00e1 desculpa, apenas mais uma l\u00e1pide a lembrar que o v\u00edcio de distribuir cargos aos apaniguados mata.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 tristes e tr\u00e1gicas ironias do destino que dispensam legendas e moral da hist\u00f3ria: bastam-se a si pr\u00f3prias,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":71791,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-71790","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-news","18":"tag-noticias","19":"tag-noticias-principais","20":"tag-noticiasprincipais","21":"tag-portugal","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-pt","25":"tag-top-stories","26":"tag-topstories","27":"tag-ultimas","28":"tag-ultimas-noticias","29":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71790"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71790\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71791"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}