{"id":73659,"date":"2025-09-16T11:33:30","date_gmt":"2025-09-16T11:33:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/73659\/"},"modified":"2025-09-16T11:33:30","modified_gmt":"2025-09-16T11:33:30","slug":"o-coracao-ainda-bate-os-amores-improvaveis-cronica-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/73659\/","title":{"rendered":"O Cora\u00e7\u00e3o Ainda Bate. Os amores improv\u00e1veis | Cr\u00f3nica"},"content":{"rendered":"<p>Decidi rever Olive Kitteridge, a miniss\u00e9rie de quatro epis\u00f3dios, baseada no romance de Elizabeth Strout. Quando a vi, h\u00e1 uns anos, apenas me debati com a diversidade de sentimentos que a personagem principal, a austera professora de matem\u00e1tica, desencadeou em mim. Este &#8216;apenas&#8217; \u00e9 muito; Olive \u00e9 uma mulher sagaz, seca, com um humor negro que a alimenta e a consome. O humor corrosivo pode ser autof\u00e1gico, mas quem o pratica tamb\u00e9m n\u00e3o lhe resiste.<\/p>\n<p>Olive \u00e9 de uma complexidade que nos obriga a v\u00e1rias leituras. Em algum momento todos nos encontramos com ela, mas a maior parte do tempo andamos a perguntar-lhe \u201cporqu\u00ea?\u201d. \u201cPorqu\u00ea\u201d \u00e9 a pergunta inconsciente mais repetida ao longo das nossas vidas. At\u00e9 quando n\u00e3o \u00e9 dita ou escrita. Porqu\u00ea a guerra? Porqu\u00ea a viol\u00eancia? Porqu\u00ea os homens? Porqu\u00ea a morte? E, num desespero, porqu\u00ea nascer?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 sobre Olive, ou Henry, o marido, os atores Frances McDormand e Richard Jenkins, de que vos queria falar. A estranha din\u00e2mica dos dois tamb\u00e9m permite muitas leituras. J\u00e1 agora, analisando superficialmente a rela\u00e7\u00e3o do casal dir\u00edamos que Olive, a dominadora e castigadora mulher que castra Henry, det\u00e9m nela o poder da rela\u00e7\u00e3o. Mas a abnega\u00e7\u00e3o de Henry pode muito bem ser a chave deste casamento. \u00c9 perigoso dizer isto, quando tantos vivem amorda\u00e7ados, mas \u00e9 diferente quando se escolhe relativizar e amar o outro acima de muitas coisas. Secund\u00e1ria em Olive Kitteridge, mas protagonista desta cr\u00f3nica, \u00e9 Denise, a mi\u00fada doce que vai parar \u00e0 farm\u00e1cia de Henry. \u00c9 nela que ainda penso agora. Denise, apesar da sucess\u00e3o de trag\u00e9dias na vida precoce, \u00e9 uma mi\u00fada terna e doce, com uma vis\u00e3o ing\u00e9nua sobre o mundo. Talvez as coisas boas ainda lhe possam acontecer \u2013 pensar\u00e1 o leitor e espectador. Um dia, Denise acaba casada com o ajudante da farm\u00e1cia. As pessoas, independentemente do seu meio ou condi\u00e7\u00e3o, deixam que o amor as encontre em vez de o procurarem. A press\u00e3o social, muitas vezes, ganha \u00e0 paix\u00e3o. \u00c9 assim que uma vida depois alguns dir\u00e3o: \u201cdeixei que acontecesse. N\u00e3o me apaixonei\u201d. O amor pode ser como os sapatos que escolhemos: h\u00e1 pares que nos ficam mesmo bem, e que potenciam o que j\u00e1 somos, e outros que s\u00e3o apenas confort\u00e1veis. Que cada um escolha o seu modelo.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso perder Denise, j\u00e1 que foi ela que me trouxe aqui, atrav\u00e9s de Olive Kitteridge. Denise acaba casada com o ab\u00falico rapaz da farm\u00e1cia, por falta de melhor escolha. Anos mais tarde, o casal improv\u00e1vel visita Olive e Henry e os anfitri\u00f5es, como o espectador, ficam perplexos com o que ali se passou: o ajudante da farm\u00e1cia \u00e9 agora um idiota galvanizado que ganha poder ao destratar publicamente a doce Denise, que perdeu todo o seu brilho, at\u00e9 mesmo quando fala dos filhos. Denise n\u00e3o \u00e9 a mesma. Deixou-se apagar pela escolha f\u00e1cil, que se desenhou numa hora de vulnerabilidade. N\u00e3o \u00e9 amor a rela\u00e7\u00e3o que nos embacia em vez de nos fazer vibrantes. O amor tem de ser alegria e cumplicidade, mesmo que a vida nos reserve partidas infinitas. Quando algu\u00e9m teima em apagar o nosso brilho natural n\u00e3o \u00e9 amor o que estamos a viver.<\/p>\n<p>Em poucos minutos, numa personagem ficcional e secund\u00e1ria, vi retratada a vida de muitas pessoas: o lugar \u00e0 resigna\u00e7\u00e3o e ao desconforto permanentes. Uma tentativa de existirmos mas na sombra. O amor pode ser um descuido que nos rouba a identidade para sempre.<\/p>\n<p>Ali atr\u00e1s, falei da din\u00e2mica de Olive e Henry, acautelando a abnega\u00e7\u00e3o de Henry. A rela\u00e7\u00e3o deles, mesmo que n\u00e3o tivesse chama e Olive teimasse, por vezes, em apouca-lo, vivia de uma estranha cumplicidade tecida no olhar. O amor pode estar escrito nesse olhar, que nunca \u00e9 de medo mas de admira\u00e7\u00e3o e orgulho. Henry achava gra\u00e7a \u00e0 ironia tortuosa de Olive e ela, provavelmente, n\u00e3o percebia como algu\u00e9m podia ser t\u00e3o bondoso como ele. H\u00e1 um momento em que Olive est\u00e1 a tratar das flores, ia dizer torturar &#8211; mas elas florescem bonitas -, e Henry chega a casa e diz a Olive: \u201cn\u00e3o me vais deixar, pois n\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>S\u00e3o m\u00faltiplas as din\u00e2micas do amor e nem sempre as compreendemos bem, mas o amor nunca \u00e9 medo ou sombra. Um deslize pouco calculado e algu\u00e9m nos fica com a alegria.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o ainda bate.<\/p>\n<p>*Olive Kitteridge \u00e9 uma miniss\u00e9rie que pode ser vista na plataforma Max<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Decidi rever Olive Kitteridge, a miniss\u00e9rie de quatro epis\u00f3dios, baseada no romance de Elizabeth Strout. Quando a vi,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":73031,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,1404,114,115,708,170,19299,19298,11531,32,33],"class_list":{"0":"post-73659","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-cronica","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-impar","13":"tag-livros","14":"tag-o-coracao-ainda-bate","15":"tag-podcast-o-coracao-ainda-bate","16":"tag-podcasts-publico","17":"tag-portugal","18":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73659","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=73659"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/73659\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/73031"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=73659"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=73659"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=73659"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}