{"id":75236,"date":"2025-09-17T14:56:12","date_gmt":"2025-09-17T14:56:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/75236\/"},"modified":"2025-09-17T14:56:12","modified_gmt":"2025-09-17T14:56:12","slug":"luta-de-classes-novo-de-spike-lee-e-thriller-trepidante-mas-lhe-falta-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/75236\/","title":{"rendered":"\u2018Luta de Classes\u2019, novo de Spike Lee, \u00e9 thriller trepidante, mas lhe falta alma"},"content":{"rendered":"<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">A primeira coisa a fazer com <strong>Luta de Classes<\/strong>, o novo filme de <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/spike-lee\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer nofollow noopener\" title=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/spike-lee\/\"><strong>Spike Lee<\/strong><\/a>, talvez seja refletir sobre esse seu t\u00edtulo em portugu\u00eas. Para come\u00e7ar, ele nada tem a ver com o t\u00edtulo original (Highest 2 Lowest) e muito menos com o famoso conceito marxista que seria o \u201cmotor da Hist\u00f3ria\u201d. Tanto o filme de Kurosawa quanto o de Spike Lee t\u00eam origem comum &#8211; o romance do norte-americano Ed McBain, King\u2019s Ransom (1959).<\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">Lee faz uma vers\u00e3o imaginada, ou reinventada como ele diz, de um dos cl\u00e1ssicos de Akira Kurosawa, um primor de obra em preto-e-branco que aqui levou o t\u00edtulo de C\u00e9u e Inferno (1963) e, nos Estados Unidos, de High and Low. Sim, no centro da hist\u00f3ria temos algo que sugere a quest\u00e3o da diferen\u00e7a entre classes sociais. <\/p>\n<p>Na contram\u00e3o da sobriedade de Kurosawa, Lee joga muita cor e som em sua leitura da obra de McBain. O filme come\u00e7a com um passeio a\u00e9reo sobre uma Manhattan de sonho, ao som da can\u00e7\u00e3o Oh, What a Beautiful Mornin\u2019, que vai dar na magn\u00edfica cobertura de um rei do pop, convenientemente chamado David King, e vivido por <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/denzel-washington\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer nofollow noopener\" title=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tudo-sobre\/denzel-washington\/\"><strong>Denzel Washington<\/strong><\/a>. \u00c9 o quinto filme de Denzel com Spike &#8211; os mais not\u00e1veis, a meu ver, s\u00e3o Malcolm X e Mais e Melhores Blues. <\/p>\n<p>Em sua cobertura, saudando a manh\u00e3 e desfrutando da vista que dela se descortina, King discute neg\u00f3cios. Talvez vender sua parte na gravadora que domina para se dedicar ao que sempre gostou e soube fazer &#8211; descobrir novos e lucrativos talentos para o pop. Ele \u00e9 considerado o \u201couvido de ouro\u201d do mercado, abrindo caminho e lucrando muito com iniciantes de futuro brilhante. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">O, digamos assim, pr\u00f3logo do filme, dedica-se \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o de King e sua fam\u00edlia. A bela e inteligente mulher, Pam (Ilfenesh Hadera), o filho amoroso e paparicado, Trey (Aubrey Joseph). A penthouse maravilhosa, a fam\u00edlia ideal, o amigo, hoje seu motorista e colaborador fiel, Paul (Jeffrey Wright). Os filhos de ambos s\u00e3o melhores amigos e jogam basquete na mesma escola. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">O motor da trama reside num equ\u00edvoco, quando um dos rapazes \u00e9 confundido com o outro por sequestradores. Um resgate milion\u00e1rio \u00e9 exigido. O pai rico j\u00e1 tinha se conformado em pagar uma fortuna para resgatar o filho quando descobre que o sequestrado \u00e9, na verdade, Kyle (Elijah Wright), o filho do motorista. Vai pagar (e arruinar-se) para salvar o filho do outro? Estabelece-se um dilema moral. E dilemas morais costumam render boas hist\u00f3rias, desde que bem aprofundados. \u00c9 o que acontece no filme de Kurosawa, mas menos no de Spike Lee. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">Com seu talento cinematogr\u00e1fico ineg\u00e1vel, Lee transforma seu Luta de Classes num thriller com momentos trepidantes. Cito uma sequ\u00eancia de f\u00f4lego, aquele momento crucial em sequestros, a troca do dinheiro do resgate pela pessoa sequestrada. Lee faz dela um tour de force, de arrepiar, um verdadeiro bal\u00e9 de oponentes, entre o metr\u00f4 e superf\u00edcie, entre a pol\u00edcia e uma gangue afinada como orquestra sinf\u00f4nica, tudo ao som de uma salsa fren\u00e9tica tocada por um grupo porto-riquenho. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">Parece alus\u00e3o a uma das sequ\u00eancias de persegui\u00e7\u00e3o mais famosas da hist\u00f3ria do cinema hollywoodiano, a de Opera\u00e7\u00e3o Fran\u00e7a, de William Friedkin. Filme, ali\u00e1s, citado mais de uma vez em Luta de Classes. <\/p>\n<p><img  loading=\"lazy\" class=\"lazy-load-img\"\/><\/p>\n<p>Cena de &#8216;Luta de Classes&#8217;, filme de Spike Lee estrelado por Denzel Washington\u00a0Foto:  Apple TV+\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">Se o ritmo pulsante expressa a arte de um mestre do cinema, seu lado, digamos, mais conceitual e formal deixa a desejar. Uma clara op\u00e7\u00e3o pelo exagero do tom e a entona\u00e7\u00e3o teatral dos di\u00e1logos deixa uma impress\u00e3o de artificialidade na trama. Esse tom chega ao \u00e1pice no tenso di\u00e1logo entre King e o rapper (A$AP Rocky), que vem sob a forma de versos e r\u00e9plicas. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">Por outro lado, a for\u00e7a do enredo, que viria do dilema moral do protagonista (\u201cdevo empenhar minha fortuna para salvar a vida do filho de um outro?\u201d) \u00e9 logo esgotada. Kurosawa, em sua leitura do romance, estende essa corda at\u00e9 o limite, dando-lhe tens\u00e3o m\u00e1xima. Lee logo se desembara\u00e7a da quest\u00e3o, como se ela o atrapalhasse. Vai concentrar-se na rela\u00e7\u00e3o com o sequestrador, e, agora sim, poder\u00edamos ter alguma coisa parecida com a velha luta de classes. Mas a maneira como essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 desenvolvida tamb\u00e9m deixa a desejar. <\/p>\n<p data-component-name=\"paragraph\" class=\"styles__ParagraphStyled-sc-6adecn-0 cWrRiu  \">Se no filme de Kurosawa, a rela\u00e7\u00e3o do patr\u00e3o (Toshiro Mifune) e seu motorista seria mesmo de soberba e abismo entre classes sociais, no de Lee, entre King e Paul, parece mais uma rela\u00e7\u00e3o entre amigos e parceiros de vida. \u00c9 um fator que atenua, mesmo quando entram em conflito de interesses. <\/p>\n<p>J\u00e1 o fato de King morar numa cobertura e o sequestrador num por\u00e3o, explica o t\u00edtulo ingl\u00eas que alude ao \u201calto\u201d e ao \u201cbaixo\u201d, no fundo ao desn\u00edvel na pir\u00e2mide social. Mas, neste caso, essa disparidade n\u00e3o d\u00e1 ensejo \u00e0 dial\u00e9tica da luta de classes mas a uma rela\u00e7\u00e3o de poder e ressentimento. E que se resolve de maneira apaziguadora, ao menos para uma das partes da hist\u00f3ria &#8211; justamente a mais forte. <\/p>\n<p>Esse filme de ineg\u00e1veis qualidades cinematogr\u00e1ficas parece sempre carente de alguma coisa, por mais que possamos nos envolver com ele em algumas de suas passagens. Brilha sem ter, de fato, uma alma a lhe insuflar vida. Ou uma intelig\u00eancia interna que inspire reflex\u00e3o. Suas contradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o dial\u00e9ticas, n\u00e3o d\u00e3o um salto adiante. S\u00e3o apenas oposi\u00e7\u00f5es, que podem ser resolvidas de uma maneira ou de outra e, no caso, pela aplica\u00e7\u00e3o de uma lei impessoal. <\/p>\n<p>Mas vale ser visto, justamente pelo que tem a apresentar &#8211; espasmos epis\u00f3dicos de grande cinema. O filme estreou no Festival de Cannes fora de concurso e encontra-se dispon\u00edvel no servi\u00e7o de streaming Apple TV+.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A primeira coisa a fazer com Luta de Classes, o novo filme de Spike Lee, talvez seja refletir&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":75237,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[114,115,147,148,146,32,33],"class_list":{"0":"post-75236","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-film","11":"tag-filmes","12":"tag-movies","13":"tag-portugal","14":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75236"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75236\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}