{"id":76422,"date":"2025-09-18T11:55:25","date_gmt":"2025-09-18T11:55:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/76422\/"},"modified":"2025-09-18T11:55:25","modified_gmt":"2025-09-18T11:55:25","slug":"como-o-ambiente-influencia-o-risco-de-dermatoses-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/76422\/","title":{"rendered":"Como o ambiente influencia o risco de dermatoses no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Ainda \u00e9 dif\u00edcil quantificar com exatid\u00e3o os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e ambientais na pele, mas indicadores mostram que esses fatores devem aumentar o risco de dermatoses. Segundo a <a href=\"https:\/\/sistema.adaptabrasil.mcti.gov.br\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">plataforma<\/a> AdaptaBrasil, atualmente cerca de 34% das cidades brasileiras enfrentam riscos relacionados \u00e0 leishmaniose tegumentar americana. No cen\u00e1rio mais pessimista, o n\u00famero pode chegar a 41% munic\u00edpios at\u00e9 2050.\u00a0<\/p>\n<p>O tema foi discutido no simp\u00f3sio \u201cA pele e o mundo\u201d, realizado durante o 78\u00ba Congresso da Sociedade Brasileira de Dermatologia, que aconteceu de 3 a 6 de setembro no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u201cO aumento da temperatura leva a novas doen\u00e7as e altera\u00e7\u00f5es naquelas j\u00e1 existentes. Os dermatologistas devem estar atentos a isso\u201d, ressaltou o Dr. Vidal Haddad J\u00fanior, que \u00e9 m\u00e9dico e professor do Departamento de Sa\u00fade P\u00fablica da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu. \u201cA pele \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o que mais interage com o ambiente e, portanto, padr\u00f5es de preval\u00eancia das dermatoses podem refletir mudan\u00e7as ambientais. Tudo entra em contato primeiro com ela\u201d, explicou ele ao Medscape.<\/p>\n<p>Em sua apresenta\u00e7\u00e3o, o m\u00e9dico abordou aspectos relacionados ao desmatamento, \u00e0 urbaniza\u00e7\u00e3o e ao aumento da temperatura global e falou sobre como esses problemas influenciam a epidemiologia das doen\u00e7as cut\u00e2neas.\u00a0<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao desmatamento, ele explicou que, \u00e0 medida que se reduzem (ou se desequilibram) os biomas e ocorre a extin\u00e7\u00e3o dos reservat\u00f3rios naturais de certas doen\u00e7as, o ser humano passa a ser envolvido em novos ciclos de pat\u00f3genos e vetores. Como exemplos de epidemias que emergiram por conta desse desequil\u00edbrio, ele citou a de mal\u00e1ria no Brasil ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o de ferrovias na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>Outro exemplo \u00e9 a leishmaniose tegumentar americana. A descri\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a ocorreu durante a constru\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, que visava o escoamento da produ\u00e7\u00e3o cafeeira do interior de S\u00e3o Paulo e Mato Grosso. \u201cToda essa \u00e1rea \u00e9 rica em flebotom\u00edneos, e a doen\u00e7a recebeu a denomina\u00e7\u00e3o de \u2018\u00falcera de Bauru\u2019\u201d, contou o Dr. Vidal.<\/p>\n<p>A incid\u00eancia de leishmaniose tegumentar americana vem aumentando nos \u00faltimos 30 anos. <a href=\"https:\/\/leishmanioses.aids.gov.br\/app\/dashboards?auth_provider_hint=anonymous1#\/view\/5fc3a7ec-22b9-4402-9a52-a5001ca659ad?embed=true&amp;_g=()&amp;show-top-menu=false\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Dados<\/a> de 2024 do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostram que, apesar de Par\u00e1 (54.567 casos), Bahia (38.739), Mato Grosso (35.947), Maranh\u00e3o (26.821), Amazonas (26.099) e Minas Gerais (20.517) serem os estados onde h\u00e1 maior incid\u00eancia, a doen\u00e7a est\u00e1 presente em todos os estados brasileiros, com surtos no Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e regi\u00e3o Amaz\u00f4nica.\u00a0<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro aparecem com alto \u00edndice de risco para a ocorr\u00eancia da doen\u00e7a, de acordo com a <a href=\"https:\/\/sistema.adaptabrasil.mcti.gov.br\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">plataforma<\/a> AdaptaBrasil, recurso criado pelo Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o que indica os n\u00edveis de amea\u00e7a clim\u00e1tica e vulnerabilidade dos munic\u00edpios em rela\u00e7\u00e3o a doen\u00e7as sens\u00edveis ao clima, como mal\u00e1ria, dengue e as leishmanioses (tegumentar e visceral).\u00a0<\/p>\n<p>A maioria dos casos est\u00e1 associada a constru\u00e7\u00e3o de estradas, cria\u00e7\u00e3o de novos n\u00facleos populacionais e amplia\u00e7\u00e3o de atividades agr\u00edcolas e de pastagens. \u201cO desflorestamento pode causar migra\u00e7\u00e3o de agentes infecciosos para vetores e hospedeiros silvestres em \u00e1reas urbanas, favorecendo o aparecimento de doen\u00e7as\u201d, observou o Dr. Vidal.\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da doen\u00e7a de Lyme. No Brasil, ela acomete cerv\u00eddeos e capivaras que, ao se aproximarem de centros urbanos, podem transmitir a doen\u00e7a para animais dom\u00e9sticos e seres humanos.\u00a0<\/p>\n<p>O desmatamento tamb\u00e9m modifica o regime de chuvas, favorecendo a dissemina\u00e7\u00e3o de focos de inc\u00eandio \u2014 como aconteceu recentemente no Pantanal \u2014 e a migra\u00e7\u00e3o de animais selvagens e de vetores de doen\u00e7as. \u201cAssim, aumentam as chances da transmiss\u00e3o de zoonoses em \u00e1reas urbanas pr\u00f3ximas \u00e0s regi\u00f5es incendiadas\u201d, ressaltou o Dr. Vidal.<\/p>\n<p>Como consequ\u00eancias das m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de urbaniza\u00e7\u00e3o, o m\u00e9dico relatou o aumento da incid\u00eancia do p\u00eanfigo foli\u00e1ceo end\u00eamico (ou fogo selvagem) \u2014 doen\u00e7a associada \u00e0 picada de borrachudos \u2014 nas regi\u00f5es Sudeste e Centro-Oeste, al\u00e9m das ectoparasitoses no Nordeste. \u201cA preval\u00eancia da escabiose nas favelas da regi\u00e3o atinge at\u00e9 9% dos moradores, enquanto a pediculose pode afetar 43%\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Segundo ele, entre os fatores diretamente implicados nas altera\u00e7\u00f5es da sa\u00fade cut\u00e2nea est\u00e3o o aumento das temperaturas globais e a intensifica\u00e7\u00e3o de eventos clim\u00e1ticos extremos, como ondas de calor, enchentes e inc\u00eandios florestais.\u00a0<\/p>\n<p>De acordo com o Dr. Vidal, h\u00e1 clara sazonalidade nas doen\u00e7as dermatol\u00f3gicas como a psor\u00edase e a dermatite at\u00f3pica, que variam suas taxas de acordo com a temperatura. \u201cA psor\u00edase apresenta menor preval\u00eancia no ver\u00e3o, devido \u00e0 radia\u00e7\u00e3o ultravioleta. No inverno, ocorrem mais desbalan\u00e7os imunol\u00f3gicos\u201d, completou.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as bruscas nas condi\u00e7\u00f5es ambientais tamb\u00e9m s\u00e3o agravantes para a dermatite at\u00f3pica, que pode piorar com o frio e a baixa umidade, embora o calor extremo tamb\u00e9m possa intensific\u00e1-la, principalmente devido ao suor.<\/p>\n<p><strong>Dermatoses de viajantes<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Uma ferroada na nuca seguida de dor intensa marcou a mem\u00f3ria do dermatologista Dr. Gustavo Uzeda Machado em sua passagem pela cidade de Poitier, na Fran\u00e7a, onde havia sido convidado para apresentar um trabalho. Ao tocar a regi\u00e3o da dor, n\u00e3o encontrou nada, apenas sentiu o incha\u00e7o. Um amigo franc\u00eas o alertou que ele havia sido picado por uma vespa.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA dor foi pior do que quando tive apendicite. Na mesma hora tomei quatro comprimidos de desloratadina, preocupado com a possibilidade de ter uma anafilaxia. Depois comecei a sentir dor de cabe\u00e7a e ent\u00e3o iniciei o paracetamol, que tomei por uns dois dias\u201d, relatou ele durante sua palestra sobre dermatologia do viajante.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam provocado aumento na ocorr\u00eancia de vespas na Europa. O clima mais quente, especialmente invernos mais amenos, permite que esp\u00e9cies invasoras \u2014 como a vespa asi\u00e1tica \u2014 se estabele\u00e7am e se espalhem com mais facilidade pelo continente, o que representa uma amea\u00e7a \u00e0s popula\u00e7\u00f5es de vespas locais. Al\u00e9m disso, as esp\u00e9cies nativas t\u00eam se tornado mais agressivas devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es do clima.<\/p>\n<p>O Dr. Gustavo afirmou que problemas dermatol\u00f3gicos \u2014 como as rea\u00e7\u00f5es inflamat\u00f3rias na pele devido a picadas \u2014 est\u00e3o entre os acometimentos mais comuns de viajantes: representam 40% deles, seguidos das s\u00edndromes diarreicas (25%) e das s\u00edndromes febris (19%). Os relatos incluem n\u00e3o s\u00f3 viagens a pa\u00edses tropicais.<\/p>\n<p>Segundo ele, \u00e9 importante n\u00e3o falar apenas de doen\u00e7as do viajante relativas \u00e0s pessoas dos pa\u00edses desenvolvidos que v\u00e3o para zonas tropicais, mas coletar mais dados de viagens no sentido contr\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA maior preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 quando os viajantes v\u00eam de l\u00e1 para c\u00e1, j\u00e1 que t\u00eam medo de se contaminarem com doen\u00e7as tropicais. Mas precisamos ficar atentos, porque o contr\u00e1rio tamb\u00e9m acontece\u201d, afirmou o dermatologista ao Medscape. \u201cQuando aconteceu essa picada de vespa, fiquei preocupado com o risco de anafilaxia, porque eu nunca tinha sido exposto a isso, mas a maioria dos europeus j\u00e1 foram. E realmente o risco [de anafilaxia] existe.\u201d<\/p>\n<p>Cerca de 9% da popula\u00e7\u00e3o europeia j\u00e1 apresentou alguma rea\u00e7\u00e3o sist\u00eamica a picadas de insetos himen\u00f3pteros, como abelhas e vespas. Nos pa\u00edses europeus, as vespas s\u00e3o respons\u00e1veis por mais casos de anafilaxia do que as abelhas. A mortalidade por essas picadas varia de 0,03 a 0,48 mortes por milh\u00e3o de habitantes no continente. \u201c\u00c9 preciso lembrar que a primeira documenta\u00e7\u00e3o de [transmiss\u00e3o de] doen\u00e7as foi da Europa para o Brasil. Quando o brasileiro viaja ao exterior tamb\u00e9m h\u00e1 risco de contamina\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.\u00a0<\/p>\n<p>O Dr. Gustavo lembrou, contudo, dos riscos que o turista estrangeiro pode encontrar no Brasil. \u201cA leishmaniose, por exemplo, n\u00e3o deixa de ser um risco para os viajantes de fora, porque muitas vezes eles v\u00eam para fazer ecoturismo, trilhas e caminhadas, ent\u00e3o ficam mais expostos.\u201d<\/p>\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o, o dermatologista fez ainda um alerta para os perigos da esporotricose. Segundo dados do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, em 2023 foram atendidos 1.239 indiv\u00edduos diagnosticados com a infec\u00e7\u00e3o, que \u00e9 causada por fungos do g\u00eanero Sporothrix.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas impulsionaram a prolifera\u00e7\u00e3o do fungo, que encontrou no Brasil condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis a uma poss\u00edvel epidemia, de acordo com <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1186\/s12982-025-00598-3\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">artigo<\/a> assinado por pesquisadores brasileiros. A doen\u00e7a \u00e9 hoje a micose mais prevalente no mundo, sobretudo em zonas tropicais e subtropicais. Desde mar\u00e7o de 2025, foi inclu\u00edda na Lista de Notifica\u00e7\u00e3o Compuls\u00f3ria do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ainda \u00e9 dif\u00edcil quantificar com exatid\u00e3o os efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e ambientais na pele, mas indicadores mostram&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":76423,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[19989,19998,19993,4655,19988,19995,20006,6893,19996,116,19986,19999,19987,20005,20002,20004,32,20000,33,19997,117,19991,19990,19992,20003,14811,19994,7592,20001],"class_list":{"0":"post-76422","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-anafilaxia","9":"tag-dermatite","10":"tag-dermatoses","11":"tag-doenca-de-lyme","12":"tag-doenca-tropical","13":"tag-doencas-de-pele","14":"tag-dor-aguda","15":"tag-envenenamento","16":"tag-eritema-infeccioso","17":"tag-health","18":"tag-infeccao-de-pele-e-partes-moles","19":"tag-infeccao-fungica","20":"tag-infeccao-tropical","21":"tag-leishmaniose","22":"tag-pica","23":"tag-picada-de-vespa","24":"tag-portugal","25":"tag-psoriase","26":"tag-pt","27":"tag-quinta-doenca","28":"tag-saude","29":"tag-toxicidade","30":"tag-toxicologia","31":"tag-toxinas","32":"tag-transtorno-de-apetite-pica","33":"tag-transtornos-alimentares","34":"tag-transtornos-de-pele","35":"tag-tratamento-da-dor","36":"tag-tratamento-de-doenca"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76422"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76422\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/76423"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}