{"id":79018,"date":"2025-09-20T07:23:08","date_gmt":"2025-09-20T07:23:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/79018\/"},"modified":"2025-09-20T07:23:08","modified_gmt":"2025-09-20T07:23:08","slug":"livro-de-daniela-catrileo-faz-retrato-dos-contrastes-latinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/79018\/","title":{"rendered":"Livro de Daniela Catrileo faz retrato dos contrastes latinos"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\"><strong>Maria Fernanda Vomero<\/strong><br \/>Especial para o <strong>EM<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Quando tudo desaba literal e metaforicamente na cidade Capital, soterrando promessas de futuro e reinven\u00e7\u00e3o, o casal Mari e Pascale empreende uma jornada com repercuss\u00f5es importantes para ambos. No caso dele, trata-se do retorno ao territ\u00f3rio de origem, a ilha Chilco, contrariando a dire\u00e7\u00e3o do fluxo migrat\u00f3rio que encaminha os jovens insulanos ao continente em busca de trabalho e l\u00e1 os mant\u00e9m, mesmo em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria. No caso dela, trata-se da descoberta de um espa\u00e7o de resist\u00eancia, bastante desafiador ao in\u00edcio, onde o sentido de comunidade se vincula \u00e0 terra e \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es ind\u00f4mitas da natureza.<\/p>\n<p class=\"texto\">Enquanto Pascale se adapta rapidamente \u00e0 rotina insular, Mari, a narradora, n\u00e3o consegue deixar de se sentir forasteira. Ora \u00e9 o cheiro da casa na qual os dois passam a morar \u2013 inc\u00f4modo, t\u00e3o diferente dos odores da cidade com os quais estava acostumada \u2013, ora \u00e9 a desconex\u00e3o com os h\u00e1bitos e pensamentos que orientam os nativos da ilha. Sem que se d\u00ea conta, a protagonista experimenta uma esp\u00e9cie de luto pela ru\u00edna de uma ideia de cidade (e de convivialidade) que a sustentava.<\/p>\n<p class=\"texto\">Por meio da trajet\u00f3ria do casal, a poeta e escritora mapuche-chilena Daniela Catrileo consegue, em seu romance \u201cChilco\u201d (DBA), compor um retrato v\u00edvido e pulsante dos contrastes e contradi\u00e7\u00f5es que permeiam os pa\u00edses latino-americanos, de suas popula\u00e7\u00f5es miscigenadas e das feridas ainda abertas do colonialismo. A por\u00e7\u00e3o continental nunca \u00e9 nomeada, a n\u00e3o ser pelo gen\u00e9rico \u201ccidade Capital\u201d, embora seja poss\u00edvel deduzir que a hist\u00f3ria se passe no Chile contempor\u00e2neo. Chilco, por sua vez, talvez n\u00e3o conste dos mapas oficiais, mas se revela bastante real na narrativa \u2013 h\u00e1 todo um \u201carquivo port\u00e1til\u201d dedicado \u00e0 ilha, com detalhes extra\u00eddos de cr\u00f4nicas coloniais, l\u00e2minas bot\u00e2nicas e at\u00e9 fragmentos de um di\u00e1rio de viagem.<\/p>\n<p class=\"texto\">A ilha emerge com destino poss\u00edvel para o casal depois que a cidade Capital foi chacoalhada por abalos c\u00edvicos e s\u00edsmicos. O estopim foi o desabamento de um conjunto de torres da Grande Avenida, provavelmente em raz\u00e3o do \u201cdesign ruim\u201d e da \u201cfadiga do material\u201d, causando muitas mortes. A revolta pela trag\u00e9dia somou-se \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o latente contra a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Explodiu, ent\u00e3o, uma insurrei\u00e7\u00e3o popular, cujos contornos fazem lembrar o \u201cestalido social\u201d que tomou conta do Chile entre outubro de 2019 e mar\u00e7o de 2020. Em seguida, vieram sucessivos tremores de terra \u2013 e, ent\u00e3o, o p\u00f3 e a ru\u00edna.<\/p>\n<p class=\"texto\">Em \u201cPi\u00f1en\u201d, livro de contos da autora publicado no Brasil pela Peabiru e traduzido por Ren\u00e9 Duarte, a quest\u00e3o da moradia urbana j\u00e1 aparecia como um eixo importante. Os tr\u00eas relatos se passam na periferia da metr\u00f3pole, em um cen\u00e1rio de \u201cblocks\u201d, como s\u00e3o chamados informalmente os conjuntos habitacionais constru\u00eddos pelo governo e destinados a fam\u00edlias de baixa renda. Em \u201cChilco\u201d, o espa\u00e7o em disputa \u00e9 o centro urbano sob amea\u00e7a de gentrifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"texto\">Os personagens criados por Daniela Catrileo s\u00e3o marcados por uma experi\u00eancia diasp\u00f3rica \u2013 como viv\u00eancia pr\u00f3pria ou como mem\u00f3ria herdada. Mari \u00e9 neta de uma imigrante peruana que, embora viva na cidade Capital desde muito jovem, ainda mant\u00e9m costumes marcadamente qu\u00e9chuas, andinos. Pascale, por sua vez, \u00e9 filho de um \u201clafkenche\u201d \u2013 mapuche da \u00e1rea costeira \u2013 e de uma mulher branca, continental. Leila, amiga e colega de trabalho da protagonista, \u00e9 uma imigrante haitiana que deixou seu pa\u00eds para estudar e, ao se mudar para a cidade Capital, conseguiu emprego no arquivo de um museu.<\/p>\n<p class=\"texto\">Daniela Catrileo cria, assim, uma narrativa \u201cchampurria\u201d. A palavra \u201cchampurria\u201d vem do mapudungun (l\u00edngua mapuche) e alude \u00e0 ideia de mistura, contamina\u00e7\u00e3o. Por muito tempo foi usada com conota\u00e7\u00e3o negativa para designar o mesti\u00e7o, aquele que n\u00e3o era \u201cpuramente\u201d mapuche ou espanhol. Hoje tem sido reivindicada para definir uma identidade fronteiri\u00e7a, heterog\u00eanea, m\u00faltipla, nada subalterna.<\/p>\n<p class=\"texto\">Essa caracter\u00edstica \u201cchampurria\u201d n\u00e3o aparece apenas no enredo, mas tamb\u00e9m na linguagem, um dos pontos altos do livro. Catrileo recorre a termos em mapudungun, qu\u00e9chua e criolo haitiano, permitindo que os idiomas se \u201ccontaminem\u201d \u2013 e aqui destaco a excelente tradu\u00e7\u00e3o de Elisa Menezes, que conseguiu combinar essa pujan\u00e7a lexical ao portugu\u00eas, mantendo a fluidez. Al\u00e9m disso, a verve de poeta da autora se revela no esmero com a cad\u00eancia do texto, \u00e0s vezes febril como na passagem sobre a insurrei\u00e7\u00e3o popular, quase um manifesto em prol das utopias. Em outros momentos, melanc\u00f3lico ou feroz, como a paisagem de \u201cChilco\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\">Poderia afirmar, em s\u00edntese, que \u201cChilco\u201d \u00e9 um romance contracolonial, mas assim ofuscaria suas in\u00fameras qualidades liter\u00e1rias. Digo, ent\u00e3o, que \u00e9 uma obra surpreendente, impregnada de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e \u201cnewen\u201d (for\u00e7a profunda, em mapudungun). Com esse livro, Daniela Catrileo se firma como uma das vozes mais interessantes da literatura contempor\u00e2nea da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>MARIA FERNANDA VOMERO<\/strong> \u00e9 jornalista e doutora em Artes C\u00eanicas (USP)<\/p>\n<p>Trechos<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cUma capital desenhada aos peda\u00e7os, com buracos enormes que devoravam tudo que j\u00e1 estava em ru\u00ednas. Est\u00e1vamos aterrorizados, and\u00e1vamos na ponta dos p\u00e9s, tudo era material fr\u00e1gil. N\u00f3s nos tornamos desconfiados, violentos, briguentos. Pouco a pouco, o movimento pol\u00edtico come\u00e7ou a se fragmentar, a se radicalizar, a se amotinar. Cada fac\u00e7\u00e3o pretendia deter a raz\u00e3o, a identidade revolucion\u00e1ria e, portanto, a verdade. Os pequenos grupos disputavam entre si um poder imagin\u00e1rio numa cidade imagin\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p class=\"texto\">*<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cOs chilquenhos compartilham um idioma comum, como um quipu emaranhado que os costura por dentro. Isso fica evidente n\u00e3o s\u00f3 quando mencionam certas palavras e sua pron\u00fancia, mas tamb\u00e9m quando conversam sobre a ilha na frente de estranhos, como se fizessem parte de um afeto comum. Uma dor ou uma alegria em alguma parte do corpo. Falam de Chilco com uma profundidade muito diferente. N\u00e3o \u00e9 estranho pensar que concebem a ilha como mais um ser vivo, na sua completude ou no seu fragmento, que os abriga e, ao mesmo tempo, os expulsa.\u201d<\/p>\n<p class=\"texto\">*<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cO argumento da natureza como um outro inalcan\u00e7\u00e1vel, indom\u00e1vel, era seu cavalo de batalha. Utilizaram o discurso do ser imprevis\u00edvel, selvagem, distante. N\u00e3o era poss\u00edvel discutir sobre cataclismos com uma entidade que estava fora de n\u00f3s, fora da civiliza\u00e7\u00e3o. A natureza era o b\u00e1rbaro, a alteridade intraduz\u00edvel do presente. Como se n\u00e3o f\u00f4ssemos parte dela, seus bra\u00e7os, seus \u00f3rg\u00e3os, sua vegeta\u00e7\u00e3o, seu sopro. Como se, na dist\u00e2ncia excessiva entre nossas esp\u00e9cies, n\u00e3o pud\u00e9ssemos decifrar sua linguagem.\u201d<\/p>\n<p>Sobre a autora<\/p>\n<p class=\"texto\">Nascida em Santiago em 1987, Daniela Catrileo \u00e9 escritora, professora de filosofia e ativista chilena. Publicou os livros de poesia\u201cR\u00edo herido\u201d(2016),\u201cGuerra florida\u201d(2018) e \u201cEl territorio del viaje(2021). A colet\u00e2nea de contos\u201cPi\u00f1en\u201d(Peabiru, 2024) e o romance \u201cChilco\u201d(DBA Literatura, 2025), vencedor do Pr\u00eamio Municipal de Literatura de Santiago, foram lan\u00e7ados no Brasil.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#13;<br \/>\n    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/wpe71609-02-59206614.jpg\" alt=\"        \" title=\"        \" loading=\"lazy\" width=\"775\" height=\"470\"\/>&#13;<br \/>\n    &#13;<br \/>\n                 Reprodu\u00e7\u00e3o&#13;<br \/>\n    &#13;\n<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cChilco\u201d<\/strong><br \/>\u2022De Daniela Catrileo<br \/>\u2022 Tradu\u00e7\u00e3o de Elisa Meneses<br \/>\u2022 DBA Editora<br \/>\u2022 248 p\u00e1ginas<br \/>\u2022 R$ 84,90<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Maria Fernanda VomeroEspecial para o EM Quando tudo desaba literal e metaforicamente na cidade Capital, soterrando promessas de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":79019,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[1028,169,114,115,864,237,170,20389,32,33],"class_list":{"0":"post-79018","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-america-latina","9":"tag-books","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-literatura","13":"tag-livro","14":"tag-livros","15":"tag-pensamentos","16":"tag-portugal","17":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79018","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=79018"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/79018\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79019"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=79018"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=79018"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=79018"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}