{"id":80391,"date":"2025-09-21T11:34:15","date_gmt":"2025-09-21T11:34:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/80391\/"},"modified":"2025-09-21T11:34:15","modified_gmt":"2025-09-21T11:34:15","slug":"o-ponto-cego-da-ciencia-que-ameacaria-o-futuro-da-terra-21-09-2025-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/80391\/","title":{"rendered":"O ponto cego da ci\u00eancia que amea\u00e7aria o futuro da Terra &#8211; 21\/09\/2025 &#8211; Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>T\u00e3o enamorada por seu pr\u00f3prio sucesso, a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/ciencia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">ci\u00eancia<\/a> (e quem a pratica) parece ter se esquecido de suas origens, de seus alicerces calcados no mundo natural e na experi\u00eancia humana. Isso, por sua vez, est\u00e1 trazendo amea\u00e7as cada vez maiores \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, na forma de crises como a das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a da sexta grande extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>O alerta \u00e9 lan\u00e7ado por um trio de pesquisadores num livro-manifesto chamado &#8220;Ponto Cego &#8211; Por que a ci\u00eancia n\u00e3o pode ignorar a experi\u00eancia humana&#8221;. Escrito pelo f\u00edsico te\u00f3rico brasileiro Marcelo Gleiser em parceria com o astrof\u00edsico americano Adam Frank e o fil\u00f3sofo americano Evan Thompson, ele explora um problema que perpassa todo o fazer cient\u00edfico, desde o estabelecimento de suas bases no Iluminismo.<\/p>\n<p>Para os autores, o avan\u00e7o cient\u00edfico criou uma confus\u00e3o entre o que \u00e9 a realidade e o que s\u00e3o os modelos que a pr\u00f3pria ci\u00eancia constr\u00f3i e testa numa tentativa de se aproximar cada vez mais dela.<\/p>\n<p>\u00c9 uma ideia um tanto quanto abstrata, que pode ser entendida de forma mais simples por meio de exemplos. Digamos, a estrutura dos \u00e1tomos. A mec\u00e2nica qu\u00e2ntica fornece descri\u00e7\u00f5es precisas do comportamento das part\u00edculas e for\u00e7as que regem o mundo at\u00f4mico, delimitando o que se pode e n\u00e3o se pode conhecer a respeito delas a cada dado momento e circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Isso naturalmente leva \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de imaginar que, quando falamos de quarks (componentes dos pr\u00f3tons e n\u00eautrons) e l\u00e9ptons (grupo de part\u00edculas da qual os el\u00e9trons fazem parte), estamos falando da pr\u00f3pria natureza, quando na verdade estamos discutindo um modelo (que se aproxima, talvez tanto quanto poss\u00edvel) da realidade.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o cerne do dito ponto cego, que o trio julga abarcar ao menos seis fen\u00f4menos diferentes: a bifurca\u00e7\u00e3o da natureza (a separa\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o humana de um fen\u00f4meno, digamos, as cores, e o que \u00e9 parte da realidade f\u00edsica, ondas de luz com diferentes comprimentos de onda), o reducionismo (grosso modo, a ideia de se pode compreender o todo a partir do estudo individual de seus m\u00ednimos componentes), o objetivismo (a busca por uma vis\u00e3o, por assim dizer, &#8220;divina&#8221; da realidade, livre da subjetividade humana), o fisicalismo (a ideia de que tudo que existe \u00e9 f\u00edsico, algo que se costumava chamar de materialismo), a reifica\u00e7\u00e3o das entidades matem\u00e1ticas (o salto de f\u00e9 de que h\u00e1 realidade em nossos construtos matem\u00e1ticos por conta de seu poder explicativo nos fen\u00f4menos estudados por meio deles) e o tratamento da experi\u00eancia como algo epifenomenal (a no\u00e7\u00e3o de que a consci\u00eancia n\u00e3o passar de uma ilus\u00e3o gerada pelo c\u00e9rebro).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s elencar essas facetas do dito ponto cego, os autores passam a explorar as origens dessas ideias, que consistem essencialmente numa filosofia que sustenta a pr\u00e1tica cient\u00edfica moderna, e mostrar como est\u00e3o entrela\u00e7adas com os objetivos do pr\u00f3prio empreendimento cient\u00edfico, como forma de dom\u00ednio sobre a natureza (mentalidade atrelada \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o ocidental que deu vida \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o industrial).<\/p>\n<p>\u00c9 um processo que segue em marcha acelerada at\u00e9 hoje, j\u00e1 demonstrando um esgar\u00e7amento do modelo na forma dos colapsos ambientais e mesmo sociais que temos vivido. Isso, naturalmente, \u00e9 um problema. &#8220;\u00c9 importante lembrar que o Ponto Cego \u00e9 como o ar que respiramos: \u00e9 uma mentalidade culturalmente onipresente, n\u00e3o uma constela\u00e7\u00e3o de ideias filos\u00f3ficas obscuras.&#8221;<\/p>\n<p>O livro \u00e9 t\u00e3o did\u00e1tico quanto poss\u00edvel, chegando at\u00e9 mesmo a ser repetitivo em alguns momentos para refor\u00e7ar suas teses. N\u00e3o \u00e9 leitura suave. Exige aten\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o. Mas oferece ideias suficientemente fascinantes para prender o interesse do leitor e refletir sobre coisas que tratamos como dadas. Enxergar o ponto cego \u00e9 justamente questionar os fundamentos por tr\u00e1s do que pode ser visto hoje como um culto \u00e0 ci\u00eancia.<\/p>\n<p>A obra se desdobra explorando, em cap\u00edtulos, as diversas manifesta\u00e7\u00f5es do ponto cego no estudo do Universo, da vida e da consci\u00eancia e do planeta. \u00c9 inevit\u00e1vel sentir uma ponta de pessimismo ao perceber o enraizamento dessa percep\u00e7\u00e3o limitada do fazer cient\u00edfico e dos impactos que ela pode ter. Mas o livro termina num tom esperan\u00e7oso, indicando que a pr\u00f3pria ci\u00eancia tem em seu bojo a virtude da autocorre\u00e7\u00e3o e que o ponto cego vem se tornando mais evidente nas mais variadas \u00e1reas.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 preciso para que seja superado, os autores n\u00e3o dizem, alegando ser uma constru\u00e7\u00e3o coletiva ainda a ser erguida. Contudo, a sensa\u00e7\u00e3o que fica \u00e9 que j\u00e1 estamos come\u00e7ando a trilhar esse caminho e que, apesar de todos os desafios, o s\u00e9culo 21 ainda pode ter seu momento de novas luzes, trazendo uma compreens\u00e3o mais madura de como a ci\u00eancia e a experi\u00eancia humana s\u00e3o insepar\u00e1veis \u2014apesar de todas as dores de crescimento que ainda nos aguardam pelo caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"T\u00e3o enamorada por seu pr\u00f3prio sucesso, a ci\u00eancia (e quem a pratica) parece ter se esquecido de suas&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":80392,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[20656,169,109,114,115,20655,236,170,20654,6393,9326,3536,32,33,3062],"class_list":{"0":"post-80391","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-animais-em-extincao","9":"tag-books","10":"tag-ciencia","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-extincao","14":"tag-folha","15":"tag-livros","16":"tag-lugares-em-risco-no-seculo-21","17":"tag-mudanca-climatica","18":"tag-mudancas-climaticas","19":"tag-pesquisa-cientifica","20":"tag-portugal","21":"tag-pt","22":"tag-universidade"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80391","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80391"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80391\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80392"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80391"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}