{"id":8056,"date":"2025-07-30T06:29:13","date_gmt":"2025-07-30T06:29:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/8056\/"},"modified":"2025-07-30T06:29:13","modified_gmt":"2025-07-30T06:29:13","slug":"deixemos-as-mulheres-bonitas-para-os-homens-sem-imaginacao-em-busca-do-proust-perdido-um-homem-que-so-era-verdadeiramente-conhecido-por-si-proprio-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/8056\/","title":{"rendered":"\u201cDeixemos as mulheres bonitas para os homens sem imagina\u00e7\u00e3o\u201d. Em busca do Proust perdido: um homem que s\u00f3 era verdadeiramente conhecido por si pr\u00f3prio &#8211; Vida"},"content":{"rendered":"<p><strong>Acompanhe toda a atualidade informativa em\u00a0<a href=\"http:\/\/24noticias.sapo.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/24noticias.sapo.pt&amp;source=gmail&amp;ust=1751298349063000&amp;usg=AOvVaw1KG4RbE1JvxMMkoCUlIGC9\">24noticias.sapo.pt<\/a><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Nunca me passou pela cabe\u00e7a que fosse um perito em Proust, porque os seus livros de fic\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais entre o Boris Vian e Celine, talvez.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Nunca li, nem um nem outro. Mas sei que s\u00e3o surrealistas.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Porque \u00e9 que se interessou por Proust?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Eu comecei por fazer uma licenciatura em gest\u00e3o. Depois decidi que queria fazer um mestrado em literatura. Fiz uma primeira cadeira, que era obrigat\u00f3ria, no mestrado literatura. E no final dessa cadeira, havia uma avalia\u00e7\u00e3o pessoal&#8230;\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Onde foi esse mestrado<\/b>?\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">Na Faculdade de Letras, em Lisboa. Ent\u00e3o, havia uma avalia\u00e7\u00e3o do semestre com o professor respons\u00e1vel pelo curso, <a href=\"https:\/\/www.portoeditora.pt\/autor\/miguel-tamen\/3947)\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Miguel Tamen<\/a>. Eu disse que as cadeiras estavam a correr bem, com boas notas, mas sentia que n\u00e3o seria capaz de fazer um mestrado porque n\u00e3o tinha feito leituras suficientes e de uma maneira sistem\u00e1tica. Perguntou-me o que \u00e9 que me interessava em literatura, qual \u00e9 que era o tema mais atraente. Eu respondi que era \u201cmudar de ideias\u201d, se calhar por ter vindo de gest\u00e3o e agora estar em literatura. Mandou-me ler convers\u00f5es de santos, etc, e depois ler outras coisas. A certa altura disse: \u201cAgora, n\u00e3o o quero ver durante 40 dias\u201d, aproximava-se a Quaresma. Foi-se embora nas f\u00e9rias do Carnaval e s\u00f3 voltaria depois da P\u00e1scoa.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Tamen \u00e9 muito religioso.\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Exato. E ent\u00e3o, quando voltasse das f\u00e9rias da P\u00e1scoa, eu teria que ter lido a \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Em_Busca_do_Tempo_Perdido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">\u00c0 la recherche du temps perdu<\/a>\u201d. Comecei a ler e fiquei absolutamente fascinado.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Quando estava a ler o livro, lembrei-me de M\u00e1rio de S\u00e1 Carneiro. S\u00e3o da mesma \u00e9poca, da mesma cidade, e ambos tinham problemas existenciais. Claro que S\u00e1 Carneiro n\u00e3o tem a profundidade do Proust, m<\/b><b>as h\u00e1 muitas compatibilidades. Os dois eram meninos mimados, cheios de doen\u00e7as que n\u00e3o se sabe se eram doen\u00e7as, sustentados pelo pai a contragosto, nunca fizeram nada da<\/b><b> vida, e acabaram por morrer &#8211; o S\u00e1 Carneiro suicidou-se &#8211; por uma ang\u00fastia totalmente filos\u00f3fica. S\u00e3o contempor\u00e2neos, n\u00e3o s\u00e3o?<\/b><\/p>\n<p>A sua newsletter de sempre, agora ainda mais \u00fatil<\/p>\n<p>Com o lan\u00e7amento da nova marca de informa\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>24not\u00edcias<\/strong>, estamos\u00a0a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para refor\u00e7ar a informa\u00e7\u00e3o que os leitores mais valorizam:\u00a0<strong>a que lhes \u00e9 \u00fatil, ajuda a tomar decis\u00f5es e a entender o mundo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Assine a nova newsletter do 24not\u00edcias\u00a0<a href=\"https:\/\/sapo.us1.list-manage.com\/subscribe?u=8f49263740b14ab5854be8045&amp;id=57a39c5e8f\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">aqui<\/a>.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, com certeza, no sentido de ser muito associada a vida dele a uma certa futilidade, a meu ver aparente, uma fragilidade de sa\u00fade. Obviamente tiveram os dois em Paris, foram os dois sustentados pelos pais, e nunca tiveram muito trabalho, propriamente dito.<\/p>\n<p class=\"p1\">Nesse sentido, sim. Embora, eu ache que o M\u00e1rio de S\u00e1 Carneiro, literariamente, nunca foi muito consistente, nem capaz de construir de uma maneira sistem\u00e1tica, como o Proust, a partir de&#8230;\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>N\u00e3o se compara, sim. Mas voltemos ao livro, \u00e9 importante porqu\u00ea?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Ent\u00e3o, eu acho que \u00e9 um livro muito importante na hist\u00f3ria da literatura, por ser este salto do gigante na subjetividade, nesta capacidade de olhar para dentro e para a nossa podrid\u00e3o durante muito tempo, sem procurar desculpas, e de um ponto de vista quase autobiogr\u00e1fico. Embora ele venha desta linhagem que come\u00e7a em Santo Agostinho, depois tem o&#8230;\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>\u00c9 autobiogr\u00e1fico?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, sim, autobiogr\u00e1fico. Embora o que queira dizer autobiografia \u00e9 sempre problem\u00e1tico.<\/p>\n<p class=\"p1\">Mas \u00e9 sobretudo importante porque eu acho que toda a literatura do Proust assenta numa ideia do triunfo dos derrotados, de \u00e0s vezes a derrota ser o ponto a partir do qual n\u00f3s conseguimos aceder ao que mais procuramos. Neste caso, acredita-se, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Mas quando se come\u00e7a Proust &#8211; que \u00e9 a \u00fanica experi\u00eancia que eu tenho &#8211; as primeiras duas p\u00e1ginas s\u00e3o a l\u00ea-lo a aconchegar-se na cama. \u00c9 preciso um certo estado de esp\u00edrito para ver ali alguma coisa de extraordin\u00e1rio.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">E \u00e9 preciso tamb\u00e9m, do ponto de vista de quem cria, uma confian\u00e7a extraordin\u00e1ria para um autor que n\u00e3o era levado a s\u00e9rio dizer: \u00e9 sobre isso que quero escrever.<\/p>\n<p class=\"p1\">E isso \u00e9 uma das coisas que eu acho mais admir\u00e1veis no Proust, essa n\u00e3o-ced\u00eancia a qualquer ideia de conformismo ou de conformidade.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Pois, como dizia um tio meu ao filho: \u201cTu \u00e9s de esquerda porque eu sou rico e posso pagar tu seres de esquerda!\u201d. (Risos)<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00c9 mais ou menos isso.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Mas a quest\u00e3o \u00e9 que os livros, para mim, s\u00e3o todos biogr\u00e1ficos.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Todos. Certo. De acordo.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>S\u00e3o disfar\u00e7ados, ou n\u00e3o. Expl\u00edcitos, ou disfar\u00e7ados.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Mas usa a pr\u00f3pria vida abertamente, ou seja, \u00e9 muito f\u00e1cil, pelo menos para si, que o estudou, identificar quem s\u00e3o as pessoas que aparecem. Apesar de trocar n\u00e3o s\u00f3 os nomes, como as atitudes. \u00c0s vezes, pessoas que considera m\u00e1s, ou car\u00e1teres melhores. No fundo \u00e9 o que toda a gente faz: usar o que escreve como uma esp\u00e9cie de terapia para desopilar as suas desgra\u00e7as. Concorda?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, concordo. E acho que h\u00e1 uma coisa que \u00e9 extraordin\u00e1ria na vida do Proust, que acontece com muito poucos escritores, ali\u00e1s, por exemplo, no caso de Pessoa, \u00e9 um caso que talvez possa servir a acontecer a mesma coisa.Talvez tamb\u00e9m no E\u00e7a encontremos alguns vest\u00edgios disso. Mas que no Proust \u00e9 o apogeu deste movimento, que \u00e9 o de, parecer transformar a vida em arte, mas na verdade o que transforma \u00e9 a arte em vida. Ou seja, o que acontece no caso do Proust, \u00e9 que n\u00f3s s\u00f3 conseguimos olhar para a biografia do Proust \u00e0 luz do que escreveu sobre essa biografia.<\/p>\n<p class=\"p1\">Isso acontece, por exemplo, nas cartas que o Fernando Pessoa escreve ao Jo\u00e3o Gaspar Sim\u00f5es, ao Adolfo Casais Monteiro, sobre aos heter\u00f3nimos. Que \u00e9 esta ideia de que o artista tem tanta for\u00e7a, o Proust tem tanta for\u00e7a, que n\u00f3s s\u00f3 conseguimos olhar para as pessoas \u00e0 volta do Proust \u00e0 luz do que o Proust escreve sobre elas. E, portanto, a biografia delas desaparece por inteiro.<\/p>\n<p class=\"p1\">O que \u00e9 tem\u00edvel, se pensarmos que pode acontecer connosco.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Mas isso \u00e9 uma <\/b><b>lapali\u00e7ada<\/b><b>. Ou seja, \u00e9 evidente que isso \u00e9 o que acontece com todos os escritores? Quer dizer, uns afirmam isso mais abertamente.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Lembro-me de uma discuss\u00e3o entre o <\/b><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/William_S._Burroughs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"><b>William Burroughs<\/b><\/a><b>\u00a0e o <\/b><a href=\"https:\/\/www.portaldaliteratura.com\/autores.php?autor=699\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"><b>Norman Maille<\/b><b>r<\/b><\/a>, <b>exatamente sobre se os romances s\u00e3o biogr\u00e1ficos ou n\u00e3o. E chegam \u00e0 conclus\u00e3o que sim, que os romances s\u00e3o sempre biogr\u00e1ficos.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Quer dizer, h\u00e1 casos em que \u00e9 dif\u00edcil dizer que \u00e9 biogr\u00e1fico, como por exemplo o \u201cMemorial do convento\u201d do Saramago, porque \u00e9 dif\u00edcil identificar o Saramago naquelas personagens.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Mas, provavelmente, o Saramago foi buscar, pessoas que ele conhecia, para fazer isso. Para enriquecer as personagens.\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Para encher as personagens, sim.<\/p>\n<p class=\"p1\">Um personagem criado de raiz, aguenta como figurante num filme, ou seja, chega, diz uma boca e vai-se embora. Mas um personagem criado de raiz para ser um protagonista, acho imposs\u00edvel.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00c9 verdade o que est\u00e1 l\u00e1 a dizer, que isto acontece mais ou menos sempre na literatura. Mas acho que o caso do Proust \u00e9 muito paradigm\u00e1tico e h\u00e1 um exemplo que prova bem isso, que \u00e9 o facto do Proust nascee em Illi\u00e9rs . \u00c9 onde cresce, \u00e9 onde a fam\u00edlia tem casa, a fam\u00edlia paterna. Na altura era um sub\u00farbio chique de Paris.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Aqueles chal\u00e9s de f\u00e9rias, como em Sintra na mesma \u00e9poca.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Exato. Era onde vivia a fam\u00edlia dele, que era bastante endinheirada,<\/p>\n<p class=\"p1\">E depois ele vai escrever sobre essa terra e no livro d\u00e1-lhe o nome fict\u00edcio de Combray. S\u00f3 que o livro causa tanto impacto em Fran\u00e7a que hoje a terra j\u00e1 se chama\u00a0\u00a0Iliers-Combray e um dia vai se chamar s\u00f3 Combray. Ou seja, isto \u00e9 um movimento de transforma\u00e7\u00e3o da vida em arte. Tamb\u00e9m acontece, por exemplo, com o E\u00e7a. O livro \u201cCidade e as Serras\u201d passa-se numa casa de fam\u00edlia em Tormes. Mas Tormes n\u00e3o era o nome que tinha, mas agora a funda\u00e7\u00e3o E\u00e7a de Queiroz \u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p1\">Nesse aspecto,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ebiografia.com\/henry_miller\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Henry Miller<\/a> bate todos porque \u00e9 o protagonista dos seus livros e as pessoas falam com ele, \u201cHenry, tu, n\u00e3o sei o qu\u00ea\u201d, quer dizer, coloca-se na hist\u00f3ria que est\u00e1 a escrever e disse numa entrevista, que um dia ainda havia de escrever verdadeiramente todas as coisas que aconteceram. Ou seja, aquelas hist\u00f3rias detalhad\u00edssimas que usa, acha que ainda n\u00e3o dizem tudo. Os di\u00e1rios dos <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Academia_Goncourt\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Goncourt<\/a>, tamb\u00e9m s\u00e3o parecidos nesse sentido.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Proust era bi ou homossexual? H\u00e1 v\u00e1rias teorias, mas na pr\u00e1tica diria que era homossexual.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00c9 muito dif\u00edcil de dizer porque parece estar sempre ciente que a correspond\u00eancia dele, por exemplo, seria lida por pessoas a quem as cartas eram dirigidas e, portanto, h\u00e1 um grau de farsa nas cartas em que, muitas vezes, parece sugerir que tem rela\u00e7\u00f5es com mulheres, etc. Mas n\u00e3o. N\u00e3o temos nenhum ind\u00edcio que essas rela\u00e7\u00f5es tenham existido ou sequer que se tenha sentido atra\u00eddo por mulheres. Portanto, eu diria que sim.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Fala das mulheres, quer dizer, do pouco que eu li, fala das mulheres como se as apreciasse &#8230;\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim. Ou seja, a personagem dele no romance \u00e9 com certeza heterossexual. Sem qualquer d\u00favida. Embora haja teorias que dizem o contr\u00e1rio, mas que n\u00e3o me parecem minimamente relevantes ou cred\u00edveis. Portanto, sim, era homossexual.<\/p>\n<p class=\"p1\">Embora, at\u00e9 que ponto \u00e9 que essa homossexualidade se manifestava em rela\u00e7\u00f5es, por exemplo, \u00e9 controverso. Por exemplo, a criada dele, que o acompanhou nos \u00faltimos anos de vida diz que n\u00e3o era homossexual, ou pelo menos que nunca teve nenhum comportamento homossexual.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>A criada que diz que a primeira vez que entrou num quarto n\u00e3o via nada por causa do fumo. (Risos)<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Exatamente, exatamente. Portanto, a criada n\u00e3o viu nada ou pelo menos n\u00e3o quis deixar escrito.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Acho que a bissexualidade \u00e9 uma coisa latente em todos os homens.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Claro, concordo.<\/p>\n<p class=\"p1\">O Bruno Charlus, a personagem do Pouce\u2026 a certa altura o Marcel diz que ele achava que eram homossexuais todos os homens do pa\u00eds, menos aqueles com quem ele tinha tido rela\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Isso parece uma afirma\u00e7\u00e3o do Oscar Wilde.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, sim, sim. Coitado. Deu-se mal, o Oscar Wilde.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>O Oscar Wilde deu-se mal porque caiu na asneira de engatar o filho de do Marqu\u00eas de Queenberry, um homem com muito poder e que n\u00e3o levou aquilo a bem.\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>E era uma vergonha, nessa altura, ser homossexual.\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, sim. Por isso \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 nada implaus\u00edvel que a criada n\u00e3o soubesse nada, porque n\u00e3o era uma coisa que se falasse.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>O<\/b><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Alan_Turing\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"><b> Alan Turing<\/b><\/a><b>\u00a0foi quimicamente castrado, isto j\u00e1 depois da II Guerra Mundial.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0Pois foi. O homem que Inventou os computadores.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>\u00c9 engra\u00e7ado, n\u00f3s somos de uma gera\u00e7\u00e3o em que a homossexualidade, pelo menos no nosso meio, j\u00e1 \u00e9 aceite. Aceite \u00e9 at\u00e9 uma palavra um bocado machista, digamos assim.\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">J\u00e1 est\u00e1&#8230; normalizada.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Normalizada, n\u00e3o \u00e9? O \u00fanico pa\u00eds que eu conhe\u00e7o que est\u00e1 a retroceder, \u00e9 os Estados Unidos. Se Trump aguentar quatro anos, acho que a homossexualidade vai ser reprimida. O casamento homossexual, de certeza.\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Pois, vai haver pelo menos um ataque muito forte.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Voltando a Proust, teve uma morte horr\u00edvel?<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, recusou-se a receber mais inje\u00e7\u00f5es porque achava que n\u00e3o o melhoravam. Ou seja, vem de um contexto familiar muito ligado \u00e0 medicina. O pai e o irm\u00e3o eram m\u00e9dicos muito prestigiados. E a certa altura consegue chegar a um acordo com os m\u00e9dicos que o tratavam, de que\u00a0 era de facto a melhor pessoa para autoprescrever os medicamentos. Porque era uma doen\u00e7a t\u00e3o espec\u00edfica e t\u00e3o dif\u00edcil de compreender.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Era o que? Asma?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Era uma complica\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria, sim. H\u00e1 v\u00e1rias teorias do que \u00e9 que poderia ser, mas seria uma asma com febre dos fenos&#8230;\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>N\u00e3o foi autopsiado?<\/b>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00e3o foi autopsiado, n\u00e3o. E no final da vida j\u00e1 fazia muitas inje\u00e7\u00f5es de uma data de coisas contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p class=\"p1\">Depois tomava muita cafe\u00edna e anestesiantes. Aquilo era uma confus\u00e3o. Em alguns momentos, no fim da vida, n\u00e3o queria tratar-se nem salvar-se. Por exemplo, ele est\u00e1 com sintomas de pneumonia e vai para a rua \u00e0 meia-da-noite porque quer acabar uma parte da hist\u00f3ria e precisa de ir falar com uma pessoa.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">Portanto, parece claro que tem uma morte muito agonizante e a descri\u00e7\u00e3o de Celeste Albarr\u00e9, a criada de quarto, \u00e9 espantosa, talvez a melhor parte do livro. Mas, se parece agoniante, tamb\u00e9m parece nunca se preocupou muito em curar-se.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Como \u00e9 que conhecemos o que a criada escreveu?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Do \u201cMonsieur Proust\u201d, que \u00e9 a biografia que escreveu sobre os anos que passou como criada dele.\u00a0 Escrevia bem, mas teve um ghostwriter. O Proust, a certa altura, come\u00e7a-lhe a dizer \u201cAh, Celeste, devias come\u00e7ar a tirar notas\u201d, porque ele achava, e com raz\u00e3o, que a Celeste Albarr\u00e9 era a melhor advogada de defesa que ele podia ter, em rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, \u00e0 homossexualidade.<\/p>\n<p class=\"p1\">Parece bastante claro, ao longo da biografia, que ele condiciona a maneira como ela o v\u00ea para depois escrever o livro que ele quer que ela escreva. Que \u00e9 um exerc\u00edcio extraordin\u00e1rio.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Isso \u00e9 fant\u00e1stico!<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim. Que, ali\u00e1s, n\u00e3o sei se ser\u00e1 o caso, mas, por exemplo, n\u00f3s sabemos que o Lobo Antunes tamb\u00e9m tem um americano que anda sempre com ele e que pode estar a preparar uma biografia em que olha s\u00f3 para os lados que quer que se vejam. N\u00e3o sei se \u00e9 esse o caso ou n\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Era uma pessoa angustiada ou era uma pessoa neur\u00f3tica?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Eu acho que era como todos n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9? Angustiado e neur\u00f3tico, mas&#8230; Tem sempre a ang\u00fastia que&#8230; Ou seja, \u00e9 muito f\u00e1cil n\u00f3s olharmos para o prop\u00f3sito hoje e pensarmos que era evidente para ele e para todos que ele era um g\u00e9nio absoluto. Mas de certeza que n\u00e3o era isso que ele pensava de si mesmo.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Acha que n\u00e3o?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Acho que s\u00f3 uma pessoa que se coloca no centro do mundo escreve t\u00e3o minuciosamente acerca de si pr\u00f3prio.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Ent\u00e3o era muito egoc\u00eantrico?<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, percebia que&#8230; Acho que, mais do que egoc\u00eantrico, era algu\u00e9m que percebia que era a planta de onde ele pr\u00f3prio iria colher o seu livro. Ou seja, ele tinha que se ir alimentando e ir fazendo-se crescer porque era dali que ia extrair o seu trabalho. Mas, por outro lado, claro que n\u00e3o deve ser f\u00e1cil uma pessoa crescer com um pai a dizer-lhe que o que faz n\u00e3o \u00e9 nada.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Claro que isso, de certeza, gera d\u00favidas. O facto de ser constantemente achincalhado..<\/b>.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">O <a href=\"https:\/\/www.infopedia.pt\/artigos\/$andre-gide\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Andr\u00e9 Gide\u00a0<\/a>rejeitou publicar o primeiro volume do \u201cEm busca do tempo perdido\u201d porque n\u00e3o estava para publicar snobs que s\u00f3 iam a festas. Obviamente que n\u00e3o deve ser f\u00e1cil uma pessoa como o Andr\u00e9 Gide dizer isto sobre n\u00f3s e continuarmos a achar que somos \u00f3ptimos, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Quer dizer, ningu\u00e9m esperaria que uma pessoa com a imagem que ele tinha \u00e0 sua volta o considerasse como um ser excepcional. Salvo a criada, que tem uma intimidade quase de mulher.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, \u00e9 natural que toda a gente o achasse um caso perdido. At\u00e9 porque escrevia em jornais como o \u201cLe Figaro\u201d cr\u00f3nicas sociais sobre as festas. \u00c9 como n\u00f3s acharmos, no nosso tempo, que algu\u00e9m que escreve na Nova Gente \u00e9 um g\u00e9nio liter\u00e1rio. Uma ideia bizarra.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Portanto, isso explica a postura do Andr\u00e9 Gide, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Explica, mas a verdade \u00e9 que h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre aquilo que se escreves para ganhar dinheiro e aquilo que se escreves porque apetece escrever.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Claro. Conciliar as duas coisas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, e embora n\u00e3o possamos p\u00f4r completamente de parte que ele n\u00e3o gostasse genuinamente de ir \u00e0s festas, de falar sobre aquilo e de ter um lado snob muito acentuado, porque tinha.\u00a0 A fotografia da capa do meu livro)\u00e9 isso, o Proust. \u00c9 o Proust num contexto social, na fotografia inteira ele est\u00e1 rodeado de amigos e amigas a jogarem t\u00e9nis.<\/p>\n<p>  <a href=\"https:\/\/mb.web.sapo.io\/d1bccf80e5adb1d4bf1d49b9e9aba0bd560e16f3.png\" title=\"Dicion\u00e1rio Proust\" data-ps-trigger=\"\" data-index=\"1\" data-ps-single-photo=\"true\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">  Dicion\u00e1rio Proust&#8221; data-title=&#8221;Dicion\u00e1rio Proust &#8211; \u201cDeixemos as mulheres bonitas para os homens sem imagina\u00e7\u00e3o\u201d. Em busca do Proust perdido: um homem que s\u00f3 era verdadeiramente conhecido por si pr\u00f3prio &#8211; 24 Not\u00edcias&#8221;&gt;                <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/sCh9UXK2bdwwy16dM26qvtB9S6w1eztLzteIcMM4Xc=.png\" alt=\"Dicion\u00e1rio Proust\" title=\"Dicion\u00e1rio Proust\"\/>   <\/a>     Dicion\u00e1rio Proust       <\/p>\n<p class=\"p1\">Ele n\u00e3o jogava, mas, ali\u00e1s, a roupa com que ele est\u00e1 vestido n\u00e3o era de algu\u00e9m que estivesse a praticar desporto. Mas assistia porque era assim.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Quer dizer, isso \u00e9 uma imagem que eu&#8230; Porque usando as compara\u00e7\u00f5es que fiz anteriormente, o <\/b><a href=\"https:\/\/www.britannica.com\/biography\/James-Joyce\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"><b>James Joyce<\/b><\/a><b>\u00a0n\u00e3o era nada social. Nada.\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Ali\u00e1s, eu acho que conheceu o Proust numa festa.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Ah, conheceram-se?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, conheceram-se e a hist\u00f3ria \u00e9 muito engra\u00e7ada porque \u00e9 j\u00e1 muito perto do fim da vida do Proust e v\u00e3o a uma festa de homenagem, j\u00e1 n\u00e3o me lembro a quem, salvo erro ao Picasso ou ao Stravinsky. Mas \u00e9 daquelas festas em Paris que s\u00f3 podiam acontecer naquela altura e s\u00f3 em Paris. E s\u00e3o apresentados um ao outro e Proust d\u00e1 uma boleia ao Joyce para casa. N\u00e3o trocam uma \u00fanica palavra, o Joyce vai a fumar dentro do carro e o Proust, j\u00e1 muito perto do fim da vida, vai com a janela aberta a tentar respirar. Portanto, o encontro destes dois g\u00e9nios \u00e9 assim uma coisa bastante peculiar.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Outro exemplo de que falei, o Henry Miller, teve um emprego menos de um ano e disse que nunca mais trabalhava, porque achava que o trabalho era uma escravatura. Mas n\u00e3o tinha nenhum familiar que lhe desse dinheiro e n\u00e3o se envergonhava de pedir emprestado aos amigos. A certa altura escreve que tinha amigos de cinco d\u00f3lares e de dez d\u00f3lares.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00e3o, o Proust nunca aceitava dinheiro emprestado. \u00c9 uma peculiaridade dele porque n\u00e3o gostava de estar numa posi\u00e7\u00e3o de subalternidade.<\/p>\n<p class=\"p1\">Dava gorjetas muito elevadas e uma vez estava no Ritz e come\u00e7a a distribuir gorjetas por todos os funcion\u00e1rios do hotel. Chega ao \u00faltimo e n\u00e3o tem gorjeta para lhe dar. Ent\u00e3o pede-lhe 40 francos emprestados; o\u00a0\u00a0empregado empresta 40 francos a um homem que n\u00e3o conhece de lado nenhum e no dia seguinte Proust paga-lhe com juros.<\/p>\n<p class=\"p1\">No dia seguinte Proust vai pagar-lhe com juros o dinheiro que tinha emprestado. Eu n\u00e3o sei se foram mesmo 40 francos, mas era um valor muito, muito, muito elevado para uma gorjeta\u2026<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>\u00c9 injusto que nessa \u00e9poca s\u00f3 os ricos tivessem dinheiro para poder escrever e n\u00e3o fazer mais nada, n\u00e3o \u00e9? Por acaso h\u00e1 uma excep\u00e7\u00e3o, <\/b><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Robert_Musil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"><b>Robert Musil<\/b><\/a><b>,<\/b><b> autor de outro livro ic\u00f3nico, \u201cUm homem sem qualidades\u201d. Os amigos sustentaram-no para que pudesse trabalhar no livro.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Em Paris, ent\u00e3o\u2026 os ricos eram os que estavam nos sal\u00f5es po\u00e9ticos onde iam tamb\u00e9m os editores, a intelig\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<b>A<\/b> <b>\u201cRecherche\u201d foi toda publicada enquanto estava vivo?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00e3o. N\u00e3o, e ali\u00e1s, h\u00e1 partes no final, nos \u00faltimos livros, que s\u00e3o incongruentes. Por exemplo, personagens que estavam mortas e voltam a estar vivas.<\/p>\n<p class=\"p1\">S\u00e3o dois casos, n\u00e3o \u00e9 nada extraordin\u00e1rio. A certa altura, a Celeste Albarr\u00e9 conta que ele lhe diz com grande felicidade \u201cCeleste, hoje escrevi as palavras&#8230; Escrevi fim, no meu livro, acabei.\u201d E ela pergunta: \u201cEnt\u00e3o e o processo de revis\u00e3o?\u201d E ele responde que isso \u00e9 uma outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\">E o processo de revis\u00e3o era muito, muito demorado. Tanto que n\u00f3s temos acesso \u00e0s fotografias dos paparazzi, que eram acrescentos que ia pondo ao longo das folhas e, portanto, uma p\u00e1gina podia expandir-se para tr\u00eas ou quatro, ou mais.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>J\u00e1 viu uma p\u00e1gina emendada pelo E\u00e7a de Queiroz?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>\u00c9 uma coisa inacredit\u00e1vel.\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Pois, do Proust \u00e9 uma coisa espantosa.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Naquele tempo eram pessoas a fazer as emendas manualmente at\u00e9 ao fim daquele cap\u00edtulo, pelo menos, aumentava ou diminu\u00eda imenso.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Pois. Era o terror dos tip\u00f3grafos. E depois o que acontece \u00e9 que o irm\u00e3o do Proust vai rever e, por exemplo, vai tomar decis\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo de um dos volumes porque coincidia com o t\u00edtulo de um livro que tinha sido publicado h\u00e1 pouco tempo antes, portanto n\u00e3o podia ser aquele. E \u00e9 ele que vai estabilizar o texto como n\u00f3s o conhecemos nos \u00faltimos tr\u00eas volumes.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Tinha um irm\u00e3o?\u00a0<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Tinha um irm\u00e3o, que era tamb\u00e9m m\u00e9dico. E foi ele quem o tratou ao longo da guerra. Chamava-se Robert.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Era uma pessoa normal?<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, sim. Era muito corajoso, na guerra estava sempre a pedir para ser colocado mais \u00e0 frente, nas linhas, para ajudar, porque era m\u00e9dico.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ent\u00e3o correu muitos riscos. Era tamb\u00e9m um ad\u00faltero muito prol\u00edfero! (Risos)<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Mas todos os homens da sociedade nessa \u00e9poca eram ad\u00falteros.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, sim. Por exemplo, uma das possibilidades fortes para a mulher\u2026<\/p>\n<p class=\"p1\">O Proust morre, e depois morre o Robert e todas as cartas ficam na m\u00e3o da mulher do Robert, que era uma pessoa que n\u00e3o tinha nenhuma simpatia pelo Proust. Ent\u00e3o destruiu algumas cartas, n\u00e3o se sabe se por raiva ou por indica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio.\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>H\u00e1 um explorador ingl\u00eas do s\u00e9culo XIX, <\/b><a href=\"https:\/\/super.abril.com.br\/historia\/sir-richard-burton\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\"><b>Richard Burton<\/b><\/a><b>,<\/b><b> que descobriu a nascente do Nilo, disfar\u00e7ou-se de \u00e1rabe e foi a Meca, e muitas aventuras mais. Fez muitas tradu\u00e7\u00f5es, inclusive \u201cOs Lus\u00edadas\u201d e o \u201cKama Sutra\u201d. Quando morreu, a mulher dele, uma vitoriana puritana, destruiu a tradu\u00e7\u00e3o do \u201cKama Sutra\u201d\u2026<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Os legados s\u00e3o uma coisa muito complicada. Dizem que os filhos do E\u00e7a de Queiroz tamb\u00e9m terminaram um livro inacabado dele, n\u00e3o me lembro qual.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">Pois, nunca se sabe. O Proust parece que ter\u00e1 dito para destruirem as suas cartas. Portanto n\u00e3o \u00e9 claro que a cunhada dele o tenha feito por raiva. Pode ter sido por ordens suas, mas a verdade \u00e9 que ela tinha um rancor conhecido pelo Proust. Mas depois h\u00e1 a sobrinha que gostava muito dele\u2026 Nunca poderemos saber. Mas nada de essencial est\u00e1 por encontrar.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Cita esta frase do Proust: \u201cO dom\u00ednio pertence sempre a quem se encontra numa aparente inferioridade\u201d \u00c9 isso?<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00c9. Sabemos que isso acontece no sado-masoquismo, em que quem domina \u00e9 o masoquista. Se pensarmos, por exemplo, o Proust \u00e9 um dos melhores escritores sobre flores, embora o p\u00f3len fosse uma das suas alergias. Isto acontece no amor, na sa\u00fade\u2026 A pessoa que \u00e9 expulsa do sal\u00e3o \u00e9 a que melhor vai descrever a maneira como se v\u00ea quem l\u00e1 estava.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>H\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o dele sobre Bar\u00e3o de Charlus em que Proust diz que \u00e9 homem por fora e mulher por dentro. Portanto tudo \u00e9 um trocadilho.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">H\u00e1 a teoria que diz os homossexuais nasceram com o sexo errado; o Proust acha que n\u00e3o, que os homossexuais t\u00eam dentro de si uma mulher e um homem.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>Esta outra frase dele: \u201cPara o escritor, pensar e escrever \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o dolorosa que o torna feliz, tal como para o atleta o esfor\u00e7o do treino \u00e9 ben\u00e9fico\u201d. S\u00e3o tudo contradi\u00e7\u00f5es como o Oscar Wilde gostava de fazer: \u201cS\u00f3 as pessoas muito superficiais \u00e9 que n\u00e3o se preocupam com as apar\u00eancias\u201d.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">O Proust conheceu o Oscar Wilde quando foi a Paris, antes do esc\u00e2ndalo que o destruiu, e foi a grande sensa\u00e7\u00e3o do momento. Ent\u00e3o o Proust convida-o para jantar na casa dos pais dele. Quando o Proust chega, j\u00e1 o Wilde tinha chegado e estava na casa de banho. Quando sai de l\u00e1 diz \u201ca sua casa de banho \u00e9 horr\u00edvel\u201d e sai porta fora, sem jantar! (Risos) O Proust passa a odi\u00e1-lo, compreensivelmente, por cauda disso.<\/p>\n<p class=\"p1\">Nos seus livros o Oscar Wilde \u00e9 comparado a personagens rid\u00edculas. Mas h\u00e1 uma frase do Proust completamente Wildeana, que \u00e9: \u201cDeixemos as mulheres bonitas para os homens sem imagina\u00e7\u00e3o\u201d (Risos) Mas a ideia \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o devemos deixar que um c\u00e2none de beleza domine os nossos sentimentos.<\/p>\n<p class=\"p1\"><b>As rela\u00e7\u00f5es entre os homens e as mulheres mudaram muito ao longo do tempo. Sobretudo come\u00e7aram a acelerar a partir da revolu\u00e7\u00e3o industrial. As mulheres n\u00e3o tinham direito de voto em lado nenhum.<\/b><\/p>\n<p class=\"p1\">H\u00e1 muitas pessoas que dizem que o Proust \u00e9 entediante, mas n\u00e3o foi essa a minha experi\u00eancia. H\u00e1 uma certa trepida\u00e7\u00e3o quando come\u00e7amos a ler uma coisa que nunca t\u00ednhamos lido antes. Tinha um professor na faculdade que dizia: \u201cSe n\u00f3s batermos com a cabe\u00e7a na parede e ouvirmos um som oco, pode n\u00e3o ser da parede!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Acompanhe toda a atualidade informativa em\u00a024noticias.sapo.pt Nunca me passou pela cabe\u00e7a que fosse um perito em Proust, porque&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8057,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-8056","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8056","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8056"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8056\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8057"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8056"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8056"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8056"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}