{"id":81492,"date":"2025-09-22T08:38:06","date_gmt":"2025-09-22T08:38:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/81492\/"},"modified":"2025-09-22T08:38:06","modified_gmt":"2025-09-22T08:38:06","slug":"tudo-o-que-voce-queria-saber-sobre-madalena-e-salome-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/81492\/","title":{"rendered":"Tudo o que voc\u00ea queria saber sobre Madalena e Salom\u00e9 | Cinema"},"content":{"rendered":"<p>Um dos aspectos mais interessantes do cinema brasileiro do s\u00e9culo XXI tem sido a sua \u201cdescentraliza\u00e7\u00e3o\u201d, fugindo aos centros S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, e a sua vontade de dar espa\u00e7o a hist\u00f3rias e personagens que talvez nunca tenham sido contadas. Com especial interesse pelas narrativas de descoloniza\u00e7\u00e3o e de identidades alternativas, reflectindo tamb\u00e9m um desejo (ou necessidade) de integra\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a brasileira no <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/queer-lisboa\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Queer Lisboa deste ano<\/a> prop\u00f5e duas antestreias de dois t\u00edtulos que chegar\u00e3o \u00e0s salas brasileiras no in\u00edcio de 2026 que recusam as narrativas queer formatadas. Salom\u00e9, do pernambucano Andr\u00e9 Ant\u00f4nio (Competi\u00e7\u00e3o de Longas-Metragens, S\u00e3o Jorge, dia 22 \u00e0s 22h), grande vencedor do festival de Bras\u00edlia de 2024, brinca com o cinema de terror e o giallo italiano; Morte e Vida Madalena, do cearense Guto Parente (Sess\u00f5es Especiais, S\u00e3o Jorge, dia 24 \u00e0s 19h15), premiado h\u00e1 poucos meses no FIDMarseille, assume-se como com\u00e9dia sobre os bastidores de uma rodagem.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos t\u00edtulos brasileiros no programa; este fim-de-semana exibiram-se o biopic de Ney Matogrosso, Homem com H, do paulista Esmir Filho, grande sucesso de bilheteira no Brasil, que os interessados podem j\u00e1 encontrar em streaming na Netflix; e Ato Noturno, dos ga\u00fachos Filipe Matzembacher e M\u00e1rcio Reolon, sobre um romance fetichista entre um aspirante a actor e um candidato \u00e0 presid\u00eancia da c\u00e2mara em Porto Alegre, que se estreou no festival de Berlim. Mas Salom\u00e9 e Morte e Vida Madalena prop\u00f5em outra, e bem mais intrigante, abordagem: \u00e9 a sensibilidade com que Ant\u00f4nio e Parente filmam as suas hist\u00f3rias que \u00e9 queer, mais do que o seu conte\u00fado.<\/p>\n<p>Salom\u00e9 inspira-se livremente na pe\u00e7a de Oscar Wilde sobre a hist\u00f3ria b\u00edblica da tentativa de sedu\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Baptista pela princesa Salom\u00e9 e da sua terr\u00edvel vingan\u00e7a. Cec\u00edlia (magn\u00e9tica Aura do Nascimento) \u00e9 uma modelo de sucesso que regressa ao Recife para passar as festas com a m\u00e3e religiosa (a actriz trans Renata Oliveira), e apaixona-se por Jo\u00e3o, filho de uma vizinha, que ganha dinheiro de modo esquivo e secreto. Segunda longa do integrante do colectivo Surto &amp; Deslumbramento, Salom\u00e9 invoca as atmosferas saturadas do giallo italiano ou dos filmes de terror de Dario Argento e Mario Bava, banhando tudo num verde n\u00e9on quase t\u00f3xico, tratando a narrativa como uma rendi\u00e7\u00e3o \u00e0 lux\u00faria er\u00f3tica paredes meias com o fetichismo.<\/p>\n<p>Mas o evidente talento de Andr\u00e9 Ant\u00f4nio para construir ambientes e imagens n\u00e3o se estende a outras \u00e1reas. Este \u00e9 um filme formalista e maneirista em excesso; falta-lhe a ligeireza despachada do cinema de g\u00e9nero, substitu\u00edda por uma lenta sisudez que insiste em ser significativa, sem que a sua narrativa o sustente e sem que a presen\u00e7a fort\u00edssima de Aura do Nascimento o compense.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                         Salom\u00e9, do pernambucano Andr\u00e9 Ant\u00f4nio &#13;<br \/>\ndr                    &#13;<\/p>\n<p>Morte e Vida Madalena (co-produzido pela portuguesa C.R.I.M.) \u00e9 outra coisa: uma com\u00e9dia sobre os bastidores do cinema tal como vividos pela Madalena do t\u00edtulo, encarnada pela actriz trans No\u00e1 Bonoba como uma fulana farta de bater com a cabe\u00e7a nas paredes para produzir filmes. Madalena est\u00e1 gr\u00e1vida de oito meses e vai dar in\u00edcio \u00e0 rodagem do \u00faltimo gui\u00e3o do seu pai rec\u00e9m-falecido, a ser dirigida pelo ex-marido (que n\u00e3o \u00e9 pai da crian\u00e7a): um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica rasca com o t\u00edtulo O Futuro a Deus Pertence.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7a a correr mal quando o ex-marido desaparece sem deixar rasto, o actor principal est\u00e1 mais interessado em transar do que em representar, e toda a gente lhe diz que s\u00f3 ela, que nunca dirigiu um filme, pode assumir a realiza\u00e7\u00e3o. O que se segue \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o de \u201ctudo o que pode correr mal numa rodagem\u201d, contada com um humor dess\u00edncrono e bondoso que se percebe ter vindo directamente da experi\u00eancia de Guto Parente (que filma h\u00e1 vinte anos e assina aqui a sua d\u00e9cima longa). Um elogio do desenrascan\u00e7o \u00e0 brasileira, dobrado de auto-compreens\u00e3o de uma personagem que descobre a for\u00e7a que n\u00e3o pensava ter enfrentando os seus medos e assumindo abertamente a sua falta de paci\u00eancia para com os clich\u00e9s.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 tamb\u00e9m a atitude de Morte e Vida Madalena perante os \u201cfilmes de bastidores\u201d. E \u00e9 a atitude destes dois filmes para com a ideia formatada do que pode ser o cinema queer: pode ser o que quem o fizer quiser que seja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um dos aspectos mais interessantes do cinema brasileiro do s\u00e9culo XXI tem sido a sua \u201cdescentraliza\u00e7\u00e3o\u201d, fugindo aos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":81493,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[726,470,20873,315,1413,114,115,6007,147,148,146,716,1204,32,33,16803],"class_list":{"0":"post-81492","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-brasil","9":"tag-cinema","10":"tag-cinema-sao-jorge","11":"tag-cultura","12":"tag-cultura-ipsilon","13":"tag-entertainment","14":"tag-entretenimento","15":"tag-festival","16":"tag-film","17":"tag-filmes","18":"tag-movies","19":"tag-netflix","20":"tag-ney-matogrosso","21":"tag-portugal","22":"tag-pt","23":"tag-queer-lisboa"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81492","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81492"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81492\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81493"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81492"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81492"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81492"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}