{"id":81582,"date":"2025-09-22T09:47:08","date_gmt":"2025-09-22T09:47:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/81582\/"},"modified":"2025-09-22T09:47:08","modified_gmt":"2025-09-22T09:47:08","slug":"felipe-rezende-encontrou-na-lona-de-caminhao-sua-tela-perfeita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/81582\/","title":{"rendered":"Felipe Rezende encontrou na lona de caminh\u00e3o sua tela perfeita"},"content":{"rendered":"<p>Anjos e querubins armados com motosserras pairam sobre um amontoado de troncos cortados. Acima deles, nuvens de gr\u00e1ficos flutuam ao lado de um celeiro iluminado. No centro, uma colheitadeira se enrosca em galhos diante de um fundo noturno. Em primeiro plano, um trabalhador de uniforme abaixa a cabe\u00e7a diante do cen\u00e1rio perturbador.<\/p>\n<p>A cena faz parte de Arena, pintura monumental de Felipe Rezende sobre lona de caminh\u00e3o que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 sua individual na Galeria Leme, em S\u00e3o Paulo. Com 3,50 metros por 1,38, a obra est\u00e1 instalada em um suporte circular. Para v\u00ea-la por completo, \u00e9 preciso \u201centrar\u201d na pintura e girar o corpo em torno dela. \u201cO trabalho n\u00e3o \u00e9 cin\u00e9tico, mas pede que o visitante passeie pela pintura\u201d, explica o artista ao <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/c\/neofeedbrasil\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>NeoFeed<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>A ideia surgiu em sua \u00faltima viagem \u00e0 Bahia, seu estado natal, quando a amiga Geovanna Barbosa o levou a um empreendimento do agroneg\u00f3cio. \u201cFiquei chocado, porque dentro dessa fazenda tudo era \u2018Agro \u00e9 Tech, Agro \u00e9 Pop\u2019\u201d, lembra. \u201cE, num trabalho anterior, eu concebi o silo como uma esp\u00e9cie de castelo do Dr\u00e1cula. Nesse, eu resolvi pintar essas m\u00e1quinas de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o e outras em ru\u00ednas, como vi por l\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>A figura criada por Bram Stoker j\u00e1 habita o imagin\u00e1rio de Felipe h\u00e1 algum tempo. Para a 14\u00aa Bienal do Mercosul, ele apresentou dois trabalhos: Uma solu\u00e7\u00e3o prodigiosa para um problema barulhento \u2014 tamb\u00e9m presente nesta mostra, ao lado de cinco pinturas de pequeno formato \u2014 e Demeter.<\/p>\n<p>Dois detalhes do romance irland\u00eas de 1897 chamaram a aten\u00e7\u00e3o do artista. Primeiro, o caix\u00e3o de Dr\u00e1cula foi transportado da Transilv\u00e2nia a Londres junto a caixas de terra. Segundo, o navio que conduzia o vampiro se chamava Demeter, a deusa grega da agricultura.<\/p>\n<p>Em Demeter, ele pintou uma lona com imagens ligadas ao agro e a prendeu \u00e0 gaiola de um caminh\u00e3o carregado com caixas de sementes, adubo e uma tonelada e meia de terra.<\/p>\n<p>O ve\u00edculo partiu de Barreiras \u2014 cidade onde vivem seus pais, a 863 km de Salvador \u2014 e seguiu at\u00e9 <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/negocios\/na-porto-novas-verticais-ganham-corpo-e-abrem-espaco-para-socios-estrategicos\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Porto<\/a> Alegre, sede da Bienal. A pintura percorreu esse trajeto junto da carga, transformando a pr\u00f3pria viagem em narrativa da obra e em cr\u00edtica ao ciclo exaustivo do agroneg\u00f3cio no oeste da Bahia.<\/p>\n<p>A escala desses trabalhos ecoa tradi\u00e7\u00f5es do g\u00eanero hist\u00f3rico e da paisagem. Ao instalar a pintura em um suporte circular, Felipe ainda evoca a mem\u00f3ria das rotundas \u2014 usadas, por exemplo, por Victor Meirelles (1832\u20131903) no s\u00e9culo 19 para criar experi\u00eancias imersivas.<\/p>\n<p>Tanto Demeter quanto Arena acionam esse jogo entre pintura e performance. E reafirmam o interesse do pintor em pensar a paisagem n\u00e3o como vista est\u00e1tica, mas como narrativa em movimento, seja na estrada ou no corpo do espectador que percorre a obra.<\/p>\n<p>A obra dos pe\u00f5es de obra<\/p>\n<p>Nascido em Salvador, Felipe, hoje com 31 anos, teve seu rumo definido por iniciativa da m\u00e3e. Ao perceber o interesse do filho por quadrinhos e desenho, perguntou se ele gostaria de prestar vestibular para design gr\u00e1fico ou belas-artes. Sem saber exatamente o que a segunda op\u00e7\u00e3o significava, escolheu belas-artes e foi aprovado na Universidade Federal da Bahia.<\/p>\n<p>Suas refer\u00eancias visuais vinham tanto dos gibis quanto das enciclop\u00e9dias da fam\u00edlia. A primeira grande virada aconteceu em uma viagem acad\u00eamica ao Inhotim, em Brumadinho, em Minas Gerais, onde teve contato com desenhos de artistas como Tunga (1952-2016) e William Kentridge. \u201cVoltei dessa viagem com a cabe\u00e7a cheia, muito renovado\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, estagiava no setor de maquetes da prefeitura de Salvador. Perto dali, percebeu um canteiro de obras como assunto potencial para pesquisa. Pediu aos trabalhadores restos de materiais \u2014 pisos t\u00e1teis, cacos de revestimento. Come\u00e7ou a desenhar os oper\u00e1rios em a\u00e7\u00e3o, destacando seus uniformes e equipamentos de prote\u00e7\u00e3o sobre o material.<\/p>\n<p>Esse interesse tinha ra\u00edzes familiares. Sua m\u00e3e trabalhava na \u00e1rea de enfermagem. O pai foi caminhoneiro antes de abrir um pequeno com\u00e9rcio. O av\u00f4 era metal\u00fargico. \u201cH\u00e1 um hist\u00f3rico familiar da classe trabalhadora, e comecei a me interessar pelos pe\u00f5es de obra, por esse cotidiano de trabalho bra\u00e7al\u201d, explica.<\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arte-felipe-rezende-credito-Geovanna-Barbosa.jpg\"\/><\/p>\n<p>\n                                Felipe come\u00e7iu a pintar em lonas depois de ganhar da artista Lanussi Pasquali um conjunto de tintas a \u00f3leo e lonas de caminh\u00e3o que haviam pertencido ao marido dela, o cen\u00f3grafo e artista Jo\u00e3ozito (Foto: Geovanna Barbosa)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arte-felipe-menezes-galeria-leme-Filipe-Berndt.jpg\"\/><\/p>\n<p>\n                                Com 3,50 metros por 1,38, a obra &#8220;Arena&#8221; est\u00e1 instalada em um suporte circular: para v\u00ea-la por completo, \u00e9 preciso \u201centrar\u201d na pintura (Foto: Filipe Berndt)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arte-felipe-rezende-obra-Demeter-2025-credito-Rafael-Salim.jpg\"\/><\/p>\n<p>\n                                Em Demeter, Felipe pintou uma lona e a prendeu \u00e0 gaiola de um caminh\u00e3o carregado com caixas de sementes, adubo e uma tonelada e meia de terra.  O ve\u00edculo partiu da Bahia e foi at\u00e9 Porto Alegre, sede da Bienal do Mercosul (Foto: Rafael Salim)\n                            <\/p>\n<p>                            <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/arte-felipe-rezende-obra-Toda-sorte-de-remendos-2024-credito-Carlos-Matos.jpg\"\/><\/p>\n<p>\n                                Em 2024, no Centro Cultural S\u00e3o Paulo, o artista transformou a obra &#8220;Toda Sorte de Remendos&#8221; em um &#8220;happening&#8221; (Foto: Carlos Matos)\n                            <\/p>\n<p>Dentro desse universo, Felipe passou a levar seus desenhos para outras superf\u00edcies: conchas, paredes, ossos. Qualquer material servia como suporte. Apesar do entusiasmo com a pesquisa, Felipe sentia que o diploma n\u00e3o garantia futuro. Diante da falta de perspectivas, pensou em desistir.<\/p>\n<p>Foi por insist\u00eancia da artista e amiga Mari RA que se inscreveu no 7\u00ba Pr\u00eamio EDP nas Artes, do Instituto Tomie Ohtake, em 2020. Para sua surpresa, n\u00e3o apenas foi selecionado, como tamb\u00e9m venceu.<\/p>\n<p>\u201cEu sentia aquela s\u00edndrome do impostor. Era o mais inexperiente em termos de curr\u00edculo, mas o pr\u00eamio me deu g\u00e1s para continuar trabalhando\u201d, conta.<\/p>\n<p>Na mesma \u00e9poca, recebeu um presente inesperado da artista Lanussi Pasquali: um conjunto de tintas a \u00f3leo e lonas de caminh\u00e3o que haviam pertencido ao marido, o cen\u00f3grafo e artista Jo\u00e3ozito. \u201cAcho que esse material \u00e9 a sua cara\u201d, disse ela a Felipe.<\/p>\n<p>Justo ele, que havia sido reprovado em pintura na faculdade. \u201cEu achava as aulas muito ma\u00e7antes, passar horas preparando a tela. Queria partir logo para a a\u00e7\u00e3o, para a interven\u00e7\u00e3o direta sobre os materiais\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, entendeu que o presente simbolizava a uni\u00e3o do desejo de intervir pictoricamente em um material ligado ao ambiente de trabalho com marcas de uso. \u201cPara mim, a grande dificuldade era: de onde surgiria o assunto? A lona j\u00e1 trazia esse assunto consigo\u201d, explica.<\/p>\n<p>Um rumo na vida<\/p>\n<p>Embora convicto da pintura e da lona como caminho, seu sustento vinha de trabalhos como designer e ilustrador. At\u00e9 que, em 2022, conseguiu uma vaga na resid\u00eancia Piv\u00f4 Pesquisa, em S\u00e3o Paulo, marcando uma virada definitiva em sua trajet\u00f3ria. \u201cA\u00ed a coisa foi andando\u201d, resume.<\/p>\n<p>Foi durante essa resid\u00eancia que o galerista Eduardo Leme, dono da galeria que leva seu sobrenome, conheceu Felipe. Eduardo j\u00e1 havia visto seu trabalho no pr\u00eamio EDP e, posteriormente, no 64\u00ba Sal\u00e3o de Artes Visuais da Bahia, no Museu de Arte Moderna da Bahia, que abriga uma obra sua em acervo.<\/p>\n<p>\u201cPrimeiro, eu gostei dele. Achar o trabalho bom \u00e9 fundamental, mas \u00e9 importante ter empatia com a pessoa. E eu gostei muito do Felipe. Al\u00e9m disso, o trabalho dele tem uma coisa muito simp\u00e1tica: a hist\u00f3ria da narrativa do dia a dia\u201d, afirma Eduardo ao <strong>NeoFeed<\/strong>.<\/p>\n<p>Em 2024, Felipe fez sua primeira individual na Galeria Leme. Para a abertura, distribu\u00edram aos visitantes sopas de um comerciante que ele retratou em um dos trabalhos. Uma a\u00e7\u00e3o que Eduardo considera comovente, mostrando o envolvimento do artista com seu cotidiano.<\/p>\n<p>No mesmo ano, participou da <a href=\"https:\/\/neofeed.com.br\/finde\/os-quadros-de-la-de-uma-brasileira-simples-e-autodidata-ganham-exposicao-nos-eua\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">exposi\u00e7\u00e3o<\/a> Lonjuras, no Centro Cultural S\u00e3o Paulo, em que transformou a obra Toda Sorte de Remendos em um happening, trazendo periodicamente novas cenas ao loneiro Wesley Dias inserir como remendos. \u201cN\u00e3o se trata apenas de virtuosismo na pintura, mas da passagem de uma rela\u00e7\u00e3o pessoal por meio da obra de arte\u201d, explica o galerista.<\/p>\n<p>Felipe \u00e9 o artista mais jovem do grupo representado por Eduardo, mas o futuro se mostra promissor. No horizonte pr\u00f3ximo, prepara-se para uma resid\u00eancia no Senegal e, em 2026, uma individual na Casa de Cultura do Parque, em S\u00e3o Paulo, al\u00e9m de apresentar trabalhos na galeria Salon H, em Paris. \u201cHoje penso que minha vida tem um rumo\u201d, afirma Felipe. \u201cEu tive respostas.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Anjos e querubins armados com motosserras pairam sobre um amontoado de troncos cortados. 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