{"id":81636,"date":"2025-09-22T10:34:09","date_gmt":"2025-09-22T10:34:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/81636\/"},"modified":"2025-09-22T10:34:09","modified_gmt":"2025-09-22T10:34:09","slug":"o-primeiro-plano-piloto-no-sitio-castanho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/81636\/","title":{"rendered":"O primeiro Plano Piloto no S\u00edtio Castanho"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\">Por\u00a0Jorge Henrique Cartaxo e Lenora Barbo \u2014<\/p>\n<p class=\"texto\">Especial para o <strong>Correio<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">O Graf Hindenburg \u2014 dirig\u00edvel mais moderno do que o j\u00e1 tradicional Zeppelin \u2014 fazia a rota Frankfurt-Rio, sem escala, em tr\u00eas dias. Impactante, a nave, quase cil\u00edndrica, exibia, de cada lado da cauda, uma su\u00e1stica preta sobre um fundo branco. Era uma das faces do nazismo de Joseph Goebbels, cruzando o atl\u00e2ntico. Foi num desses voos que Le Corbusier desembarcou no Rio, em 1936. O j\u00e1 famoso arquiteto franco-su\u00ed\u00e7o fora convidado pelo arquiteto Lucio Costa para integrar a equipe que elaborou o projeto do futuro Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, comandado pelo ministro Gustavo Capanema. Tinha in\u00edcio a, ainda hoje pol\u00eamica, consolida\u00e7\u00e3o da arquitetura modernista no Brasil.<\/p>\n<p class=\"texto\">Charles-\u00c9douard Jeanneret-Gris\u00a0\u2014 nome de batismo de Le Corbusier \u2014 nasceu, em 6 de outubro de 1887, na ind\u00fastria relojeira de La Chaux-de-Fonds, na comuna su\u00ed\u00e7a situada na Cordilheira do Jura. Em 1902, sob a orienta\u00e7\u00e3o do pintor e arquiteto su\u00ed\u00e7o Charles L&#8217;\u00c9plattenier, Jeanneret come\u00e7ou a estudar artes decorativas. Nesse momento ele se interessa tamb\u00e9m pela arquitetura. &#8220;\u00c9tude sur le mouvement d&#8217;art d\u00e9coratif em Allemangne&#8221;, \u00e9 o primeiro trabalho publicado de Jeannert. &#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o levou a uma revers\u00e3o completa. Homens no poder \u2014 ou tendo a possibilidade de subir ao poder \u2014 tiveram uma educa\u00e7\u00e3o incompleta, tendo ascendido os plebeus ignorantes&#8221;, disse o futuro modernista ao analisar, em seu texto, os efeitos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa nas artes decorativas do imp\u00e9rio, que teriam entrado em decl\u00ednio vencidas pelo gosto burgu\u00eas.<\/p>\n<p class=\"texto\">Em 1917, j\u00e1 em Paris, depois de ter sido expulso pela elite judaica de La Chaux-de-Fonds, acusado de n\u00e3o cumprir contratos profissionais, Le Corbusier \u2014 agora com o nome art\u00edstico \u2014 conhece o pintor franc\u00eas Am\u00e9d\u00e9e Ozenfant. No ano seguinte publicam o manifesto de funda\u00e7\u00e3o do purismo na arquitetura: &#8220;Apr\u00e9s le cubisme&#8221;. Naquela reflex\u00e3o ele traz as primeiras percep\u00e7\u00f5es do impacto das novas tecnologias na arquitetura. Pontes, barragens, f\u00e1bricas, tudo em grandes dimens\u00f5es, sinalizando o advento de uma nova Era moderna. Curiosamente, o texto traz uma conex\u00e3o com a cl\u00e1ssica &#8220;grandeza romana&#8221;. Em outubro de 1920, agora em companhia, tamb\u00e9m, do poeta belga Paul Derm\u00e9e, o trio lan\u00e7a a revista &#8220;L&#8217;Espirit Nouveau&#8221; (1920\/25). Um espa\u00e7o editorial para o embrion\u00e1rio movimento de vanguarda e as reflex\u00f5es sobre o purismo na arquitetura. &#8220;Roma se ocupava de conquistar o universo e gerencia-lo. Estrat\u00e9gia, suprimentos, legisla\u00e7\u00e3o: esp\u00edrito de ordem[&#8230;]. A ordem romana \u00e9 uma ordem simples e categ\u00f3rica [&#8230;]. Eles tinham desejos imensos de domina\u00e7\u00e3o, de organiza\u00e7\u00e3o&#8221;, escreveu Le Corbusier, na 14\u00ba edi\u00e7\u00e3o da revista, sublinhando a disciplina e a ordem, que o encantavam como fundamentos da antiga civiliza\u00e7\u00e3o romana. Nesse per\u00edodo, Le Corbusier e o seu primo Pierre Jeanneret, projetam a Ville La Roche (onde hoje funciona a Funda\u00e7\u00e3o Le Corbusier), em Paris, para o banqueiro su\u00ed\u00e7o Raoul La Roche. Foi tamb\u00e9m nesse in\u00edcio dos anos 20, que ele lan\u00e7ou o seu cl\u00e1ssico &#8220;Ver une Achiteture&#8221; rapidamente traduzido na Europa e nos Estados Unidos. Havia naquela ocasi\u00e3o, certamente uma consequ\u00eancia das preocupa\u00e7\u00f5es com a salubridade e a higiene urbanas evidentes no s\u00e9culo 19, como ilustra a grande e cl\u00e1ssica reforma de Paris do Bar\u00e3o Haussmann, a constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os urbanos higi\u00eanicos, ordenados e funcionais. Era uma proposta para uma reflex\u00e3o e um refazimento da forma de se organizar, trabalhar e viver a luz da hist\u00f3ria e das &#8220;tradi\u00e7\u00f5es&#8221;. Em 1927, os l\u00edderes do primeiro grupo fascista franc\u00eas, &#8220;Le Faisceau&#8221;, encantaram-se com as ideias do arquiteto franco-su\u00ed\u00e7o expressas no seu &#8220;Plan Voisin&#8221;. George Valois, no seu artigo &#8220;La Nouvelle Etape De Fascisme&#8221;, disse que ele expressava o pensamento profundo do fascismo com a sua cidade moderna. Corbusier, durante quase vinte anos, teve uma participa\u00e7\u00e3o ativa no &#8220;Le Faisceau&#8221;, defendendo um estado forte, intervencionista e autorit\u00e1rio. Eram evidentes suas cr\u00edticas \u00e0 democracia moderna que nasce com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p class=\"texto\">Convidado por Paulo Prado \u2014 rico e um dos patrocinadores da Semana de Arte Moderna de 1922 \u2014 Le Corbusier desembarca em Santos, na sua primeira visita ao Brasil, no dia 17 de novembro de 1929. Entre S\u00e3o Paulo e o Rio de Janeiro, ele faz uma serie de palestras, antecipando o que apresentaria na Carta de Atenas de 1933. No IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), realizado a bordo do navio &#8220;Patris II&#8221;, foram apresentadas as teses b\u00e1sicas do urbanismo moderno: habita\u00e7\u00e3o, trabalho, lazer e circula\u00e7\u00e3o; as \u00e1reas verdes e de lazer deveriam estar distantes do setor industrial; o patrim\u00f4nio e a mem\u00f3ria arquitet\u00f4nica deveriam ser preservados; o crescimento urbano teria que ser observado e administrado. Assinaram o documento, al\u00e9m de Corbusier, os arquitetos Wiliam Morris e Tony Garneier. As quest\u00f5es ideol\u00f3gicas, naquele momento, n\u00e3o tinham ainda a densidade e tens\u00f5es que o ocidente passaria a perceber e se posicionar com o in\u00edcio da II Guerra Mundial, em 1939. Portanto, as teses sobre o urbanismo e a arquitetura modernista, que se destacariam depois de 1945, pelo menos de uma forma direta, n\u00e3o se viam prejudicadas pelas posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas manifestas.<\/p>\n<p class=\"texto\">A fama, o reconhecimento e a notoriedade n\u00e3o afastaram Le Corbusier do fascismo italiano e do colaboracionismo franc\u00eas com o nazismo. &#8220;A nova civiliza\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina nasceu h\u00e1 cem anos. As ra\u00edzes s\u00e3o t\u00e3o profundas que uma arquitetura e um planejamento urbano resplandecentes e magn\u00edficos&#8230;podem florescer sob o sinal milagroso da decis\u00e3o, esse gesto que depende apenas da autoridade. A autoridade, essa for\u00e7a paterna&#8221;, disse o arquiteto ao encerrar uma palestra, em Roma, no ano de 1934. Em fevereiro daquele mesmo ano, agora em Paris, ao saber de uma grande manifesta\u00e7\u00e3o da extrema direita contra o parlamentarismo, ele observou: &#8220;o despertar da limpeza&#8221;. \u00c0s v\u00e9speras da guerra, em 1937, ele escreveu que almejava &#8220;uma sociedade ordenada, viril, higi\u00eanica, racional [&#8230;] classifique as popula\u00e7\u00f5es urbanas, ordene, elimine aqueles que s\u00e3o in\u00fateis na cidade&#8221;. Em junho de 1940, quando o Marechal P\u00e9tain assinou um armist\u00edcio com a Alemanha, entregando todos os judeus aos nazistas, Le Corbusier, em uma carta \u00e0 sua m\u00e3e, escreveu: &#8220;Vit\u00f3ria milagrosa. Se tiv\u00e9ssemos ganhado, a podrid\u00e3o teria triunfado e nada de limpo jamais poderia pretender viver&#8221;.<\/p>\n<p class=\"texto\">&#8220;Le Corbusier tinha alguns not\u00e1veis rivais, mas nenhum deles teve a mesma import\u00e2ncia na revolu\u00e7\u00e3o da arquitetura, porque nenhum deles suportou insultos t\u00e3o pacientemente e por tanto tempo&#8221;, disse Andr\u00e9 Malraux, her\u00f3i e s\u00edmbolo da resist\u00eancia francesa, na cerim\u00f4nia f\u00fanebre do festejado urbanista, no \u00e1trio do Louvre, no dia 1 de setembro de 1965. Naquele momento, as feridas abertas pelos colaboracionistas ainda estavam abertas. O esquecimento era uma prud\u00eancia, sobretudo quando se tratava de um s\u00edmbolo da cultura, de certo modo, universal.<\/p>\n<p class=\"texto\">O relat\u00f3rio final e conclusivo da Comiss\u00e3o de Localiza\u00e7\u00e3o da Nova Capital Federal, presidida pelo Marechal Jos\u00e9 Pessoa, com minucioso e amplo detalhamento sobre todos os aspectos e procedimentos necess\u00e1rios para a mudan\u00e7a e edifica\u00e7\u00e3o da cidade, apresentado em 1955, merece, pelo menos, dois destaques: a identifica\u00e7\u00e3o dos cinco s\u00edtios poss\u00edveis para localiza\u00e7\u00e3o do n\u00facleo urbano principal da cidade; e o primeiro Plano Piloto da capital que, pela sugest\u00e3o de Pessoa, teria o nome de Vera Cruz. O primeiro anteprojeto para a Futura Capital, \u00e9 importante destacar, com as inspira\u00e7\u00f5es modernistas de Le Corbusier, foi apresentado pela primeira urbanista brasileira, Carmem Portinho, em 1939, como o seu trabalho de tese. Inspirada nos trabalhos da Comiss\u00e3o Cruls e as refer\u00eancias de Glaziou sobre o local onde seria o Lago Parano\u00e1, sem um trabalho de campo, ela apresentou uma esp\u00e9cie de Ville Radieuse. Por coincid\u00eancia, ou n\u00e3o, o projeto apresentado pelos engenheiros Raul Penna Firme, Roberto Lacombe e Jos\u00e9 Oliveira Reis, da equipe do Marechal Pessoa, traz os mesmos princ\u00edpios do modernismo. Reis, Lacombe e Firme sugeriram a vinda de Le Corbusier para aconselhar a equipe brasileira. O Marechal Pessoa n\u00e3o acolheu a sugest\u00e3o. Para ele, aquele era um desafio para os brasileiros!<\/p>\n<p class=\"texto\">A Comiss\u00e3o, seguindo as orienta\u00e7\u00f5es do Relat\u00f3rio Belcher (fotos e analises), identificou, em cores para evitar a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, os S\u00edtios Azul, na regi\u00e3o de An\u00e1polis; o Amarelo, em Silv\u00e2nia; o Verde, em Planaltina; o Castanho, onde \u00e9 hoje o Plano Piloto; e o Vermelho, a 65 quil\u00f4metros de Una\u00ed. Cada uma das regi\u00f5es escolhidas foi devidamente analisada, considerando as adequabilidades j\u00e1 elencadas. Uma combina\u00e7\u00e3o se destacava: o S\u00edtio devia ter uma altitude de cerca de 1.000m, em um terreno sem grandes ondula\u00e7\u00f5es, paisagem variada sem monotonia. &#8220;As encostas seriam de pouca declividade, n\u00e3o excedendo a 8%, assim permitindo construir sobre elas sem dificuldades. Deve haver, tamb\u00e9m, uma \u00e1rea localizada em posi\u00e7\u00e3o dominante, que possa ser aproveitada, de forma monumental, para o n\u00facleo governamental da cidade&#8221;. Venceu o S\u00edtio Castanho \u2014 onde fica o Plano Piloto \u2014 que somado ao S\u00edtio Verde, constituem o Distrito Federal.<\/p>\n<p class=\"texto\">*O jornalista Jorge Henrique Cartaxo \u00e9 diretor de\u00a0Rela\u00e7\u00f5es Institucionais\u00a0do IHG-DF<\/p>\n<p class=\"texto\">* A arquiteta Lenora Barbo \u00e9 diretora do Centro de Documenta\u00e7\u00e3o do IHG-DF<\/p>\n<p>                            <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/autor\/correio-braziliense\/page\/1\/\" style=\"height: 100%;\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" class=\"hidden-print author-circle d-block h6 mt-0 mb-0 mr-6 text-center\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/logo_800x800-32298422.png\" alt=\"\" width=\"40\" height=\"40\" loading=\"lazy\" style=\"object-fit:cover; width: 40px; height: 40px; margin-right:10px;\"\/><\/a><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/autor\/correio-braziliense\/page\/1\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><img decoding=\"async\" class=\"hidden-print author-circle d-block h6 mt-0 mb-0 mr-6 text-center\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/logo_800x800-32298422.png\" alt=\"\" width=\"40\" height=\"40\" loading=\"lazy\" style=\"object-fit:cover; width: 40px; height: 40px; margin-right:10px;\"\/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por\u00a0Jorge Henrique Cartaxo e Lenora Barbo \u2014 Especial para o Correio O Graf Hindenburg \u2014 dirig\u00edvel mais moderno&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":81637,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,203,201,202,204,114,115,32,33],"class_list":{"0":"post-81636","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-arts","12":"tag-arts-and-design","13":"tag-artsanddesign","14":"tag-design","15":"tag-entertainment","16":"tag-entretenimento","17":"tag-portugal","18":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=81636"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/81636\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/81637"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=81636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=81636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=81636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}