{"id":83914,"date":"2025-09-23T22:10:18","date_gmt":"2025-09-23T22:10:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/83914\/"},"modified":"2025-09-23T22:10:18","modified_gmt":"2025-09-23T22:10:18","slug":"a-divisao-de-amanha-na-ucrania-nao-sera-linguistica-ou-etnica-sera-sobre-a-experiencia-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/83914\/","title":{"rendered":"\u201cA divis\u00e3o de amanh\u00e3 na Ucr\u00e2nia n\u00e3o ser\u00e1 lingu\u00edstica ou \u00e9tnica, ser\u00e1 sobre a experi\u00eancia da guerra\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Tr\u00eas anos e meio depois da invas\u00e3o, o recrutamento est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil. Apesar dos esfor\u00e7os do governo ucraniano, muitos preferem ajudar ficando longe da linha de frente?<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando dizemos que o ex\u00e9rcito ucraniano est\u00e1 com dificuldades de recrutamento, queremos dizer que os ucranianos n\u00e3o querem ir combater. Mas, na verdade, o ex\u00e9rcito ucraniano est\u00e1 com dificuldades tamb\u00e9m pelo facto de as for\u00e7as armadas do pa\u00eds necessitarem de estar em constante crescimento. Porque a R\u00fassia est\u00e1 a colocar cada vez mais homens na guerra. \u00c9 dif\u00edcil porque os homens mais preparados j\u00e1 est\u00e3o na linha da frente. Na sociedade ucraniana muitos dos que se viam com uma arma nas m\u00e3os j\u00e1 t\u00eam uma arma nas m\u00e3os. Ou j\u00e1 foram v\u00edtimas desta guerra. Hoje, quando o ex\u00e9rcito precisa de recrutar, s\u00e3o pessoas que nunca seguraram uma arma, que nunca prestaram servi\u00e7o militar, que n\u00e3o se imaginavam a combater. O caminho para transformar estes civis em combatentes \u00e9 longo. \u00c9 preciso tranquilizar mais, explicar mais, treinar mais, numa altura em que faltam recursos. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 uma franja inteira de ucranianos que dizem \u201cj\u00e1 estamos a defender o nosso pa\u00eds. S\u00f3 n\u00e3o estamos na linha da frente.\u201d Temos os que angariam fundos para a compra de armas. Os drones s\u00e3o s\u00f3 parcialmente financiados pelo ex\u00e9rcito, como tamb\u00e9m acontece com os ve\u00edculos que os militares utilizam na frente. Portanto, se \u00e9 um dos que abastece o ex\u00e9rcito, est\u00e1 a participar na defesa. Se \u00e9 um dos que inovam, est\u00e1 na defesa. O mesmo se cumprir uma fun\u00e7\u00e3o que poderia ser assumida pelo ex\u00e9rcito, como o recrutamento, primeiros socorros na linha da frente, retirada de feridos, tudo isto tamb\u00e9m \u00e9 feito por civis, sobretudo no \u00e2mbito de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais. Essa \u00e9 uma das caracter\u00edsticas desta guerra. Mas n\u00e3o est\u00e1 isenta de tens\u00f5es. Quando se est\u00e1 na retaguarda, a recolher dinheiro mas a viver uma vida tranquila, \u00e9 claro que se pode ser percebido de forma menos positiva pelos combatentes na linha da frente, que est\u00e3o a arriscar a vida. Quem merece ficar atr\u00e1s e quem merece ir para a frente? \u00c9 um debate terr\u00edvel que nenhuma sociedade deveria ter de fazer. Quem merece morrer e quem merece viver? <\/p>\n<p>Fala no livro da ideia de que \u201co Estado somos n\u00f3s. O ex\u00e9rcito somos n\u00f3s\u201d. Essa for\u00e7a coletiva vale quase tanto como a ajuda internacional &#8211; armas e dinheiro &#8211; enviada \u00e0 Ucr\u00e2nia, para haver um pa\u00eds unido neste esfor\u00e7o de guerra?<\/p>\n<p>Os ucranianos est\u00e3o unidos em torno da ideia de que a R\u00fassia \u00e9 uma amea\u00e7a que deve ser combatida e, ao mesmo tempo, s\u00e3o extremamente cr\u00edticos de qualquer decis\u00e3o do seu governo que n\u00e3o corresponda \u00e0 sua vis\u00e3o das coisas. Portanto, temos vozes cr\u00edticas, protestos, as redes sociais fervilham de debates sobre esta ou aquela decis\u00e3o. Tamb\u00e9m temos isso nas nossas sociedades, mas onde os ucranianos s\u00e3o diferentes, \u00e9 na ideia de \u201co Estado, somos n\u00f3s\u201d. Eles sabem que o seu Estado \u00e9 fraco e acreditam que se este est\u00e1 a fazer algo errado, ter\u00e1 de ser o povo a tomar as r\u00e9deas. Isto pode ser percebido como uma fragilidade, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 uma for\u00e7a. N\u00e3o esperar nada do Estado e consider\u00e1-lo nosso. <\/p>\n<p>Desde o primeiro dia, o presidente Volodymyr Zelensky tornou-se no rosto da resist\u00eancia ucraniana. O seu empenho \u00e9 um dos pilares que mant\u00eam a sociedade ucraniana unida?<\/p>\n<p>Zelensky n\u00e3o lidera a na\u00e7\u00e3o, ele representa a na\u00e7\u00e3o. Ou seja, ele representa a sua na\u00e7\u00e3o no panorama internacional. Aos olhos do mundo, a Ucr\u00e2nia \u00e9 Zelensky. E nisso, de facto, \u00e9 a figura daquele que luta constantemente, que defende o seu pa\u00eds, inclusive em situa\u00e7\u00f5es de grande fragilidade, como o epis\u00f3dio na Casa Branca. Mas para os ucranianos, Zelensky \u00e9 apenas a personifica\u00e7\u00e3o de quem s\u00e3o. Ele \u00e9 a imagem do ucraniano comum; n\u00e3o \u00e9 um l\u00edder que lidera a na\u00e7\u00e3o. Por outras palavras, se por alguma raz\u00e3o Zelensky j\u00e1 n\u00e3o estiver l\u00e1 amanh\u00e3, e se a figura que o substituir for menos carism\u00e1tica, isso n\u00e3o alterar\u00e1 a resili\u00eancia da sociedade ucraniana. N\u00e3o depende da figura de Zelensky, mas Zelensky \u00e9 uma esp\u00e9cie de modelo dessa resist\u00eancia. <\/p>\n<p>Existe uma minoria russa e russ\u00f3fona na Ucr\u00e2nia, cuja seguran\u00e7a Putin usou como pretexto para invadir o pa\u00eds\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>Como assim?<\/p>\n<p>Bem, nunca houve uma minoria russa. A minoria russa \u00e9 constitu\u00edda por pessoas de origens diversas, porque a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era um pa\u00eds de migra\u00e7\u00e3o, e a Ucr\u00e2nia era um pa\u00eds de chegada de migrantes, devido ao seu tecido industrial. As ind\u00fastrias trouxeram um grande n\u00famero de pessoas de todo o mundo, incluindo russos, e depois outras migra\u00e7\u00f5es dentro da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ao longo de d\u00e9cadas. Mas nunca houve entre as pessoas de origem russa na Ucr\u00e2nia o sentimento de pertencerem a um grupo separado.<\/p>\n<p>N\u00e3o diria ent\u00e3o minoria, mas popula\u00e7\u00e3o russa?<\/p>\n<p>H\u00e1 cidad\u00e3os ucranianos de origem russa.<\/p>\n<p>E qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o deles nesta guerra?<\/p>\n<p>Exatamente a mesma que a dos ucranianos de origem ucraniana. Se analisar o perfil daqueles que representam a resist\u00eancia hoje ou que est\u00e3o a lutar, encontrar\u00e1 tanto pessoas de origem ucraniana como de origem mista, de origem russa, de origem t\u00e1rtara, etc. O pr\u00f3prio Zelensky \u00e9 um representante da minoria judaica, e russ\u00f3fona, no pa\u00eds. Os ucranianos n\u00e3o t\u00eam uma vis\u00e3o \u00e9tnica da sua na\u00e7\u00e3o, mas sim uma vis\u00e3o c\u00edvica, e a origem pouco importa. Quando fa\u00e7o entrevistas na Ucr\u00e2nia, o meu passaporte \u00e9 conhecido, sou de Moscovo, o que n\u00e3o \u00e9 um problema para eles, porque pessoas nascidas em Moscovo, no seu pa\u00eds, t\u00eam muitas. E n\u00e3o ser\u00e3o consideradas menos ucranianas se cresceram no pa\u00eds, viveram no pa\u00eds e escolheram a Ucr\u00e2nia. N\u00e3o h\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o, nem pelo apelido, nem pelas origens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Tr\u00eas anos e meio depois da invas\u00e3o, o recrutamento est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil. 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