{"id":8424,"date":"2025-07-30T12:29:10","date_gmt":"2025-07-30T12:29:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/8424\/"},"modified":"2025-07-30T12:29:10","modified_gmt":"2025-07-30T12:29:10","slug":"um-filme-e-uma-forma-excessiva-de-pedir-amor-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/8424\/","title":{"rendered":"\u201cUm filme \u00e9 uma forma excessiva de pedir amor&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>A viagem interior que Sir\u00e2t prop\u00f5e, o seu desejo de transcend\u00eancia, n\u00e3o s\u00e3o, contudo, gestos novos nesta obra: Oliver nunca escondeu nos filmes a pr\u00e1tica de uma espiritualidade que cultiva na vida e que faz parte da sua cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Mimosas j\u00e1 era estruturado em cap\u00edtulos baseados nas posi\u00e7\u00f5es da ora\u00e7\u00e3o sufi (curvar, ficar de p\u00e9, prostrar-se). Em tempos desencantados, o cineasta sempre procurou na espiritualidade uma energia para reencantar o mundo \u2014 e que tamb\u00e9m acompanha as suas palavras na conversa que se segue.<\/p>\n<p>Oliver Laxe (n. 1982) nasceu em Paris, filho de emigrantes galegos que voltavam todos os ver\u00f5es a casa nas f\u00e9rias, \u00e0s montanhas da comarca de Os Ancares. A fam\u00edlia reinstalou-se na regi\u00e3o espanhola quando ele tinha 6 anos de idade, aos 18, depois dos estudos secund\u00e1rios na Corunha, mudou-se para Barcelona, depois Londres, em seguida T\u00e2nger, onde Todos v\u00f3s sodes capit\u00e1ns foi rodado. Laxe n\u00e3o frequentava o mundo do cinema quando o conheci em Cannes com o seu irm\u00e3o Felipe Lage Coro (produtor na Zeitun Films), naquele Cannes 2010 de boa mem\u00f3ria: foi o ano em que o j\u00fari presidido por Tim Burton deu a Palma de Ouro a O Tio Boonmee\u2026, de Apichatpong Weerasethakul.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Todos v\u00f3s sodes capit\u00e1ns \u2014 um filme rodado em T\u00e2nger, a preto e branco, praticamente todo falado em \u00e1rabe \u2014 come\u00e7ou ent\u00e3o a falar-se em Cannes de uma nova vaga de cinema galego com representa\u00e7\u00e3o internacional. A dita vaga n\u00e3o foi um fogo de palha. Continuaria a dar provas de vida ao longo do resto da d\u00e9cada, at\u00e9 hoje. Mimosas seria tamb\u00e9m rodado em Marrocos seis anos depois, em pleno Atlas, com aleg\u00f3ricos ritos de passagem inspirados no Cor\u00e3o e em Paul Bowles.<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada passada, Laxe deixou Marrocos e reinstalou-se na Galiza. Foi na terra circundante \u00e0 aldeia dos seus antepassados que filmou O Que Arde, o \u00fanico filme que at\u00e9 agora se estreara em solo portugu\u00eas. Pouco antes da pandemia, o cineasta tratou de recuperar a Casa Quind\u00f3s, que herdou dos seus av\u00f3s, em Vilela, Navia de Suarna, espa\u00e7o que \u00e9 hoje retiro de trabalho, resid\u00eancia de desenvolvimento de projectos cinematogr\u00e1ficos e base da Associa\u00e7\u00e3o Ser, assim chamada pela vizinhan\u00e7a com o rio do mesmo nome \u2014 uma plataforma sem fins lucrativos, destinada a proteger e dinamizar a ruralidade da regi\u00e3o. A entrevista seguinte foi gravada presencialmente e por video-chamada, primeiro em Cannes, em seguida entre Vilela e Lisboa.<\/p>\n<p><strong>[o trailer de \u201cSir\u00e2t\u201d:]<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rodou em Marrocos duas longas-metragens. Sir\u00e2t n\u00e3o seria o filme que \u00e9 sem essa experi\u00eancia, sem os reflexos da realidade de T\u00e2nger em Todos v\u00f3s sodes capit\u00e1ns e as viagens pelo Atlas de Mimosas. Queria come\u00e7ar pela sua atra\u00e7\u00e3o por Marrocos porque Sir\u00e2t n\u00e3o \u00e9 o primeiro filme seu em que algu\u00e9m se descobre nesse pa\u00eds a pedir ajuda, como Luis [Sergi L\u00f3pez]. A certa altura, o realizador de cinema que interpretou em Todos v\u00f3s sodes capit\u00e1ns pedia igualmente aux\u00edlio, \u00e0s pessoas, ao cinema. Marrocos abriu-lhe\u00a0os horizontes. Tudo isto tem uma forte reverbera\u00e7\u00e3o agora.<br \/><\/strong>Luis pede aux\u00edlio, sim. Gosto dessa observa\u00e7\u00e3o. E aux\u00edlio \u00e9 uma boa palavra. Ainda n\u00e3o me tinha lembrado dela. A verdade \u00e9 que busquei-me a mim pr\u00f3prio em Marrocos. Sou um bom espelho do filme. Cheguei ali com 23 ou 24 anos, vindo de uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o teve muitos referentes, sobretudo espirituais. Ora Marrocos, com todas as suas contradi\u00e7\u00f5es e paradoxos, tem uma transcend\u00eancia forte. Encontrei ali valores que tamb\u00e9m existiam na minha fam\u00edlia campesina galega. Quando fiz Todos v\u00f3s sodes capit\u00e1ns vivia em T\u00e2nger, Mimosas fez-me partir para sul, a viagem interior aprofundou-se. E o que achei foi al\u00edvio. Gente que estava mais apegada \u00e0 emo\u00e7\u00e3o do que ao cognitivo. Gente que pronunciava a palavra de Deus com o cora\u00e7\u00e3o. Isso deu-me muito \u00e2nimo. Aliviou-me. Queria fazer um filme religioso, lembro-me do meu irm\u00e3o a resistir \u00e0 ideia com um \u201cOuf, isso hoje em dia\u2026\u201d, mas bom, foi o que fizemos.<\/p>\n<p>O rigor de fazer um filme dentro do sufismo, a partir da dimens\u00e3o m\u00edstica do Isl\u00e3o, e a minha pr\u00f3pria busca pessoal eram coisas que estavam misturadas. Ao fazer Mimosas, perdi um pouco a no\u00e7\u00e3o da realidade. N\u00e3o sabia ao certo se era um praticante, um monge, um anacoreta ou um cineasta. Vivia num palmeiral, no sul, na fronteira com o deserto. Estive ali quatro anos. A vida foi-me dizendo em seguida que o cinema era o meu caminho. De alguma maneira, a minha pr\u00e1tica espiritual foi deixada de lado. Ou atacada de maneira t\u00edmida. A obra e o trabalho ganharam mais presen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Depois do \u201cwestern mu\u00e7ulmano\u201d, como ent\u00e3o chamou a Mimosas, voltou \u00e0 inf\u00e2ncia na Galiza, \u00e0 aldeia dos seus av\u00f3s. Porqu\u00ea?<br \/><\/strong>Senti que precisava de enraizar-me mais. E de estimar a vida rural dos meus antepassados. Em O Que Arde filmei camponeses que conhe\u00e7o desde crian\u00e7a. E \u00e9 aqui que quero estar agora. Mas Marrocos n\u00e3o se pode esquecer. Ali\u00e1s, Sir\u00e2t \u00e9 um projecto que comecei a escrever logo a seguir a Capit\u00e1ns. Quando nos conhecemos, j\u00e1 tinha o esbo\u00e7o do argumento. J\u00e1 tinha imagens de cami\u00f5es atravessando o deserto. Tinha ganas de deserto, por isso fui para l\u00e1 viver, para mirar. A verdade \u00e9 que, em Marrocos, sempre me impressionaram os Bedford, s\u00e3o ve\u00edculos que continuam a ter relev\u00e2ncia na paisagem do pa\u00eds. Marrocos \u00e9 um choque de imagin\u00e1rios, de tempos. \u00c9 como uma alucina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 ali algo de anacr\u00f3nico que me parece inspirador. Tamb\u00e9m fiz uma viagem \u00e0 Maurit\u00e2nia muito importante para este filme. Foi na Maurit\u00e2nia que filmei os caminhos de ferro e o comboio mais longo do mundo, que vai \u00e0s minas de ferro. O Sir\u00e2t vem muito disto, de imagens que, pouco a pouco, come\u00e7aram a ficar mais definidas.<\/p>\n<p><strong>Teria conseguido fazer Sir\u00e2t sem O Que Arde?<br \/><\/strong>N\u00e3o creio. Os meus produtores franceses e o meu co-argumentista, Santiago Fillol, sempre tiveram muito carinho pelo projecto mas Sir\u00e2t era longo e caro. Exigia amadurecimento. Acontece que O Que Arde fez 120 mil espectadores e foi um pequeno \u00eaxito em Espanha para um filme \u00e0 sua escala, ainda por cima falado em galego. Permitiu-me, por fim, ser reconhecido pela ind\u00fastria do cinema espanhol. At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o existia para eles. Era s\u00f3 aquele galego estranho que filmava em Marrocos e ia a Cannes. Continuava invis\u00edvel para os investidores de Madrid e para os Pr\u00e9mios Goya.<\/p>\n<p>O Que Arde, que j\u00e1 trazia um pr\u00e9mio de Cannes, arrecadou um par de Goyas. E de repente, fazer Sir\u00e2t come\u00e7ou a tornar-se poss\u00edvel. Domingo Corral, ent\u00e3o director de conte\u00fados da Movistar Plus+ [foi afastado do cargo este ano], prop\u00f4s-me produzir o meu filme seguinte e, na cerim\u00f3nia dos Goya 2019, conheci Pedro Almod\u00f3var. Senti que se interessava por mim, que respeitava o meu trabalho. O Que Arde foi um filme de que ele gostou, por causa da maternidade, tema recorrente no seu cinema.<\/p>\n<p>Sou um cineasta lento, n\u00e3o gosto de pressas. Depois da Covid, ao fim de tantos anos a escrever o gui\u00e3o com Santiago, senti que o texto estava maduro. J\u00e1 com a garantia da Movistar Plus+, a primeira porta a que fui bater foi a da El Deseo [a produtora dos irm\u00e3os Almod\u00f3var, Pedro e Agust\u00edn]. Um terceiro produtor juntou-se ent\u00e3o porque as datas de rodagem de Sir\u00e2t coincidiam com as de O Quarto ao Lado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A viagem interior que Sir\u00e2t prop\u00f5e, o seu desejo de transcend\u00eancia, n\u00e3o s\u00e3o, contudo, gestos novos nesta obra:&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8425,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[470,315,114,115,147,148,146,32,33],"class_list":{"0":"post-8424","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-cinema","9":"tag-cultura","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-film","13":"tag-filmes","14":"tag-movies","15":"tag-portugal","16":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8424","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8424"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8424\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8425"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8424"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8424"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8424"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}