{"id":84280,"date":"2025-09-24T05:36:13","date_gmt":"2025-09-24T05:36:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/84280\/"},"modified":"2025-09-24T05:36:13","modified_gmt":"2025-09-24T05:36:13","slug":"morreu-a-atriz-claudia-cardinale-aos-87-anos-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/84280\/","title":{"rendered":"Morreu a atriz Claudia Cardinale, aos 87 anos \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Morreu Claudia Cardinale, atriz franco-italiana nascida na Tun\u00edsia, aos 87 anos, em Nemours, na regi\u00e3o de Paris. Era conhecida por ser a musa de cineastas como Luchino Visconti, Federico Fellini, Sergio Leone, Richard Brooks ou\u00a0Henri Verneuil\u00a0e famosa por muitos pap\u00e9is no cinema europeu do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Cardinale era uma das \u00faltimas divas da idade de ouro do cinema europeu ainda vivas, protagonista de filmes como O Leopardo (1963), Oito e Meio (1963) e Era uma Vez no Oeste (1968), tendo participado em mais de 150 filmes.<\/p>\n<p>\u201cEla deixa-nos o legado de uma mulher livre e inspirada, tanto como mulher como artista\u201d, disse o seu agente, Laurent Savry, numa nota enviada\u00a0\u00e0 AFP.<\/p>\n<p>A atriz, que entrou no filme do realizador portugu\u00eas Manoel de Oliveira, Gebo e a Sombra, n\u00e3o s\u00f3 subjugou Visconti e Fellini, como encantou Delon, Belmondo e Mastroianni.<\/p>\n<p>Numa entrevista \u00e0 ag\u00eancia Lusa, quando esteve na Capital Europeia da Cultura Guimar\u00e3es 2012 para a pr\u00e9-estreia do filme O Gebo e a Sombra, obra que junta os dois decanos do cinema europeu, a \u201cmusa\u201d de Manoel de Oliveira afirmou ter realizado um desejo \u201cj\u00e1 antigo\u201d, <strong>filmar com o realizador portugu\u00eas, um homem que descreveu como sendo \u201cextraordin\u00e1rio\u201d e \u201ccheio de energia\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas anos mais tarde, em 2015, numa rea\u00e7\u00e3o \u00e0 morte do realizador, Claudia Cardinale disse que Manoel de Oliveira \u201cera um homem incr\u00edvel, com uma cultura imensa e uma mem\u00f3ria extraordin\u00e1rias. Era realmente um amigo e um grande encenador. A mulher dele tamb\u00e9m \u00e9 fabulosa, eles formavam um casal bel\u00edssimo\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>As liga\u00e7\u00f5es a Portugal n\u00e3o se reduziram a Manoel de Oliveira. A encarna\u00e7\u00e3o da beleza italiana foi homeanageada por Jorge Sampaio em 2001.\u00a0Claudia Cardinale recebeu uma condecora\u00e7\u00e3o oficial das m\u00e3os do ent\u00e3o Presidente da Rep\u00fablica, numa cerim\u00f3nia no Teatro Rivoli, no Porto, na presen\u00e7a do cr\u00edtico de cinema Jo\u00e3o Benard da Costa.<\/p>\n<p>Nascida em La Goulette, perto de T\u00fanis, a 15 de abril de 1938, filha de uma francesa e de um siciliano, Claude Jos\u00e9phine Rose Cardinale falava franc\u00eas, \u00e1rabe e siciliano, mas foi no cinema italiano que come\u00e7ou. Apesar disso Cardinale admitiu que n\u00e3o falava esse idioma na sua autobiografia publicada em 2007.<\/p>\n<p>\u201cTornei-me a hero\u00edna de um conto de fadas, o s\u00edmbolo de um pa\u00eds cuja l\u00edngua eu mal falava\u201d, escreveu a atriz na sua autobiografia Minhas Estrelas, <a href=\"https:\/\/www.france24.com\/en\/live-news\/20250923-film-star-claudia-cardinale-dies-aged-87\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">citada pela France 24<\/a>. At\u00e9 se tornar famosa em Oito e Meio, contou, a sua voz era dobrada em italiano. Mas Francesco Fellini, realizador dessa pel\u00edcula, insistiu que Cardinale usasse a sua voz rouca, que se tornou ic\u00f3nica.<\/p>\n<p>Selvagem e \u201cmaria-rapaz\u201d na sua juventude, esta italiana da Tun\u00edsia, naturalizada francesa, tornou-se, sem querer, uma estrela de cinema internacional, premiada com um Le\u00e3o de Ouro em Veneza, em 1993, e um Urso de Ouro em Berlim, em 2002.<\/p>\n<p><strong>\u201cEla \u00e9 a \u00fanica rapariga simples e saud\u00e1vel neste meio de neur\u00f3ticos e hip\u00f3critas\u201d,<\/strong> dizia dela Marcello Mastroianni na altura.<\/p>\n<p>A atriz atuou no melhor do renascimento italiano (Bolognini, Zurlini, Squitieri), distinguiu-se em Hollywood (Edwards, Brooks, Leone), na Fran\u00e7a (Broca, Verneuil) e at\u00e9 na Alemanha, com Werner Herzog, e o seu maldito\u00a0Fitzcarraldo.<\/p>\n<p>\u201cTive a sorte de come\u00e7ar nos momentos m\u00e1gicos do cinema. <strong>Todos os grandes cineastas foram meus mestres e eu, nunca tive de pedir nada a ningu\u00e9m.<\/strong> Foram eles que me procuraram\u201d, afirmou aos 74 anos na France Culture.<\/p>\n<p>Aos 17 anos, num concurso de beleza, que venceu sem sequer ser candidata, virou a sua vida de pernas para o ar. \u201cA mulher italiana mais bonita de T\u00fanis\u201d ganhou uma viagem ao Festival de Veneza onde causou sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o queria fazer filmes. Era a minha irm\u00e3 que queria. Mas insistiram tanto (\u2026) que o meu pai desistiu\u201d, confidenciou \u00e0 France Inter. \u201cTodos os realizadores e produtores queriam que eu fosse fazer filmes e eu disse-lhes: \u2018N\u00e3o, n\u00e3o quero&#8217;\u201d, lembrou na sua autobiografia.<\/p>\n<p>Com um contrato com o produtor Franco Cristaldi, torna-se uma figura do cinema.<\/p>\n<p>Claudia Cardinale tinha apenas 22 anos quando Visconti a faz filmar em Rocco e os seus irm\u00e3os (1960). <strong>Ele faz com que ela pinte os olhos de preto e ensina-lhe o of\u00edcio.<\/strong><\/p>\n<p>A atriz ir\u00e1 segui-lo por todo o lado. Em O Leopardo, em 1963, deslumbra entre Burt Lancaster e Alain Delon. Em paralelo, filma outra obra-prima, Oito e Meio, de Fellini.<\/p>\n<p>\u201cVisconti, preciso, meticuloso, como no teatro, falava-me em franc\u00eas e queria-me morena com cabelo comprido. Fellini, desorganizado e sem argumento, falava-me em italiano e queria-me mais loira, com cabelo curto. <strong>Estes s\u00e3o os dois filmes mais importantes da minha vida<\/strong>\u201d, contou a atriz ao di\u00e1rio franc\u00eas Le Monde.<\/p>\n<p>Aos 23 anos, faz uma entrada estrondosa em Cannes com A rapariga da mala, de Zurlini, e O mau caminho\u00a0de Bolognini. E chegam a confundi-la com uma Bardot morena. Dez anos mais tarde, \u201cBB\u201d e \u201cCC\u201d atuar\u00e3o juntas na poeira em As P\u00e9troleuses.<\/p>\n<p>Reivindicada por Hollywood, onde recusa instalar-se, ela encanta os americanos em A pantera cor-de-rosa, depois em O maior circo do mundo, de Henry Hathaway, onde interpreta a filha de Rita Hayworth, ao lado de atores como Peter Sellars ou John Wayne. Em 1966, contracena com Rock Hudson, de quem ficou amiga at\u00e9 \u00e0 morte do norte-americano, v\u00edtima da SIDA.<\/p>\n<p>O napolitano Pasquale Squitieri, seu companheiro durante quase 30 anos, seu \u201c\u00fanico amor\u201d e pai da sua filha Claudia, fez com que ela realizasse dez filmes de 1974 a 2011.<\/p>\n<p>Na entrevista de 2012 \u00e0 Lusa dizia querer trabalhar at\u00e9 morrer, como Manoel de Oliveira, mas sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sou uma mulher nost\u00e1lgica. Penso que se uma coisa n\u00e3o foi feita \u00e9 porque o destino assim quis. Mas tenho sorte em continuar a trabalhar. Fa\u00e7o quatro filmes por ano\u201d, dizia.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram s\u00f3 luzes na vida de Cardinale. Em 1957, numa altura em que a sua carreira no cinema estava a come\u00e7ar, foi v\u00edtima de viola\u00e7\u00e3o, ficou gr\u00e1vida e teve um filho, fruto daquele crime. Segundo o jornal <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/culture\/article\/2025\/09\/23\/claudia-cardinale-l-egerie-du-cinema-italien-est-morte-a-l-age-de-87-ans_6642684_3246.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Le Monde<\/a>, Cardinale acabou por ser acolhida pelo produtor Franco Cristaldi, tratando o seu filho Patrick <strong>como se fosse seu irm\u00e3o para n\u00e3o arriscar arruinar a sua carreira<\/strong>.<\/p>\n<p>Numa entrevista de 2017 ao <a href=\"https:\/\/www.lemonde.fr\/cinema\/article\/2017\/05\/14\/claudia-cardinale-je-n-ai-eu-dans-ma-vie-qu-un-seul-homme_5127423_3476.html\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">jornal Le Monde<\/a>, a atriz diz que n\u00e3o teria chegado onde chegou no cinema sem o nascimento do filho, que a levou \u201ca entrar para o cinema para ganhar a vida e ser independente\u201d.<\/p>\n<p>\u201c<strong>Foi por ele que eu o fiz<\/strong>. Pelo Patrick, esse beb\u00e9 que eu quis manter apesar das circunst\u00e2ncias e do enorme esc\u00e2ndalo que um nascimento fora do casamento poderia causar na \u00e9poca\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Cardinale viria a casar com Cristaldi em 1966, com quem viveu at\u00e9 se separar em 1975 e come\u00e7ar uma rela\u00e7\u00e3o com Pasquale Squitieri, a quem chamou o \u201c\u00fanico homem da sua vida\u201d que diz ter sido ela que \u201co escolheu\u201d.<\/p>\n<p>Em 2000, a atriz viria a ser <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20231207231525\/https:\/\/en.unesco.org\/goodwill-ambassadors\/claudia-cardinale\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">nomeada embaixadora da UNESCO<\/a>, devido \u00e0 sua dedica\u00e7\u00e3o \u00e0s causas sociais para melhorar o estatuto das raparigas e mulheres. Em 2017, a pr\u00f3pria disse que a sua carreira no cinema lhe deu \u201cuma infinidade de vidas\u201d.<\/p>\n<p>\u201c<strong>Tive a oportunidade de colocar a minha fama ao servi\u00e7o de v\u00e1rias causas<\/strong>: os direitos das mulheres, porque sou feminista. Os direitos dos homossexuais, e eles sabem disso, pois sa\u00fadam-me sempre quando passam pelas minhas janelas durante a marcha do Orgulho Gay\u201d, recordou, sublinhando ainda \u201ca luta contra a SIDA e a pena de morte ao lado da Amnistia Internacional\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Morreu Claudia Cardinale, atriz franco-italiana nascida na Tun\u00edsia, aos 87 anos, em Nemours, na regi\u00e3o de Paris. 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