{"id":84889,"date":"2025-09-24T17:04:14","date_gmt":"2025-09-24T17:04:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/84889\/"},"modified":"2025-09-24T17:04:14","modified_gmt":"2025-09-24T17:04:14","slug":"1984-o-livro-que-deixou-de-ser-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/84889\/","title":{"rendered":"1984, o livro que deixou de ser fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O Grande Irm\u00e3o est\u00e1 de olho em voc\u00eas, meus sete amigos. Um poder central acompanha nossos passos, palavras e at\u00e9 pensamentos. Essa impress\u00e3o, que nos parece t\u00e3o dolorosamente viva, \u00e9 o ponto de partida de uma das maiores obras liter\u00e1rias do s\u00e9culo passado: <a href=\"https:\/\/especiais.gazetadopovo.com.br\/lp\/ebook-1984\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">1984, de George Orwell<\/a>.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O cen\u00e1rio de 1984 \u00e9 um mundo \u00e0s avessas, onde a realidade se inverte e as palavras perdem seus significados originais. O modelo de governo por tr\u00e1s de tudo isso \u00e9 o socialismo.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Winston Smith, um homem comum, com um nome que evoca o primeiro-ministro da Segunda Guerra e o sobrenome ingl\u00eas mais comum de todos, \u00e9 nosso guia nesse inferno. Ele nos conduz a um labirinto de mentiras fabricadas no Minist\u00e9rio da Verdade, um lugar em que o passado vai sendo reescrito a cada dia para que o Partido-Estado, onipotente e onipresente, esteja sempre certo. Not\u00edcias que desagradam simplesmente deixam de existir, incineradas em um presente intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Orwell, como um profeta do nosso tempo, desenha um mundo de vigil\u00e2ncia constante. Em cada casa, a teletela da coletividade est\u00e1 perpetuamente ligada, espionando a intimidade dos cidad\u00e3os. O objetivo \u00e9 simples e aterrorizante: impedir o crimipensar, ou seja, o crime de pensar algo que desagrade o Partido. N\u00e3o h\u00e1 vida privada, n\u00e3o h\u00e1 segredos. H\u00e1 apenas a uniformidade do consenso fabricado.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A rebeli\u00e3o de Winston n\u00e3o come\u00e7a com uma bomba, mas com o simples ato de escrever. Em um cub\u00edculo, escondido de uma teletela, nas p\u00e1ginas de um livro em branco, com uma caneta-tinteiro que o conecta a um passado quase esquecido, ele comete a primeira e maior transgress\u00e3o de sua vida. Escreve repetidamente:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">ABAIXO O GRANDE IRM\u00c3O<br \/>ABAIXO O GRANDE IRM\u00c3O<br \/>ABAIXO O GRANDE IRM\u00c3O<br \/>ABAIXO O GRANDE IRM\u00c3O<br \/>ABAIXO O GRANDE IRM\u00c3O<br \/>ABAIXO O GRANDE IRM\u00c3O<br \/>ABAIXO O GRANDE IRM\u00c3O<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Nesse momento, ele entende a si mesmo como um indiv\u00edduo capaz de livre-arb\u00edtrio. E sabe que, ao fazer isso, \u00e9 um homem marcado para morrer.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A partir da\u00ed, o amor e a amizade entram na vida de Winston como crimes. Em um dos trechos mais sublimes do livro, Winston tem uma epifania de autoconsci\u00eancia ao observar um peso de papel de cristal. Dentro daquele pequeno globo de vidro, com seu fragmento de coral, ele enxerga a si mesmo e a sua amada Julia \u201cfixados numa esp\u00e9cie de eternidade no cora\u00e7\u00e3o do cristal\u201d.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Pela primeira vez, Winston se percebe como uma alma individual, um ser vinculado \u00e0 eternidade. Nesse momento antol\u00f3gico, o supostamente ateu <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/george-orwell\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">George Orwell<\/a> faz seu protagonista chegar muito perto de fazer uma ora\u00e7\u00e3o a Deus. N\u00e3o poderia haver afronta maior para o Partido-Estado!<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Nos \u00faltimos anos, a distopia de 1984 vem se aproximando cada vez mais da realidade cotidiana. A frase \u201cFa\u00e7a Orwell voltar a ser fic\u00e7\u00e3o\u201d se popularizou durante a pandemia, e n\u00e3o sem motivo.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A obra se mostrou assustadoramente prof\u00e9tica. E o maior sinal disso talvez seja o fato de que a leitura de 1984 foi considerada perigosa e potencialmente radicalizadora em um relat\u00f3rio do governo ingl\u00eas. Em outras palavras, segundo esse relat\u00f3rio, ler certas obras transformaria o cidad\u00e3o em suspeito de insurg\u00eancia, uma n\u00e3o-pessoa, para usar a terminologia do Partido. Shakespeare, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/franklin-ferreira\/tolkien-e-seu-universo-inevitavelmente-cristao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Tolkien<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ideias\/quem-foi-chesterton-o-gigante-que-levou-bom-humor-e-leveza-ao-conservadorismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">Chesterton<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ideias\/o-legado-de-c-s-lewis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">C. S. Lewis<\/a> e Orwell est\u00e3o entre esses autores potencialmente subversivos.<\/p>\n<p class=\"gp-styles-module-size-small-afeYRa gp-styles-module-font-family2-afeYRa gp-styles-module-color-secondary-afeYRa gp-styles-module-weight-bold-afeYRa\">VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<ul class=\"postViewMore_post-view-more-list__CU_CE\">\n<li class=\"postViewMore_post-view-more-item__2MzRb\"><a class=\"postViewMore_post-view-more-link-noImage__D7wM3\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/paulo-briguet\/in-verbo-veritas-livro-reune-vozes-que-nao-se-calaram-no-brasil\/?ref=veja-tambem\" title=\"Veja tamb\u00e9m: In Verbo Veritas: livro re\u00fane vozes que n\u00e3o se calaram no Brasil\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">In Verbo Veritas: livro re\u00fane vozes que n\u00e3o se calaram no Brasil<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<blockquote class=\"postQuote_post-quote-container__KXTpH\">\n<p>A manipula\u00e7\u00e3o da linguagem, tema central do livro, tamb\u00e9m espelha a realidade atual. A novil\u00edngua imposta pelo Partido representa o controle da linguagem em nossos dias<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Afinal, como diz o slogan do Partido: \u201cQuem controla a linguagem, controla as ideias, e quem controla as ideias, controla as a\u00e7\u00f5es\u201d. Se a literatura \u00e9 o condensado imagin\u00e1rio da experi\u00eancia de uma sociedade, sua destrui\u00e7\u00e3o nos obriga a adotar a linguagem do sistema de poder.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Orwell, um escritor que escapou por pouco da execu\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os de comunistas na Espanha, sabia bem o que estava escrevendo. A ideologia oficial do regime na Oceania n\u00e3o \u00e9 o comunismo, mas o socialismo ingl\u00eas (em novil\u00edngua, Socing). Podemos ver nisso uma refer\u00eancia velada \u00e0 Sociedade Fabiana, criada em 1884 (notem a data), por um grupo de intelectuais da elite brit\u00e2nica.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A Sociedade visava \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o gradual do regime socialista e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um governo mundial e, nesse sentido, \u00e9 poss\u00edvel relacionar as tr\u00eas superpot\u00eancias beligerantes de 1984 com as tr\u00eas for\u00e7as que disputam hoje o poder mundial: o globalismo ocidental, o comunismo russo-chin\u00eas e o bloco isl\u00e2mico.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Embora as pot\u00eancias de 1984 sejam geograficamente circunscritas e, de modo diferente, a influ\u00eancia das for\u00e7as globais atuais desconhe\u00e7a fronteiras, o mapa do mundo tra\u00e7ado por Orwell demonstra mais uma vez o car\u00e1ter prof\u00e9tico do autor.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A trag\u00e9dia de Winston Smith, que sucumbe ao torturador O\u2019Brien, parece uma condena\u00e7\u00e3o para todos que acreditam na liberdade. O\u2019Brien, na sala de tortura, oferece a imagem mais sombria do futuro: \u201cImagine uma bota esmagando um rosto humano para sempre\u201d.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Este \u00e9 o mundo de 1984, um inferno moderno, onde a vida \u00e9 reduzida \u00e0 mat\u00e9ria e ao poder pol\u00edtico, sem v\u00ednculos com o passado ou compromissos com as gera\u00e7\u00f5es futuras. Ainda assim, o funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Verdade, nosso Virg\u00edlio nas profundezas da distopia, soube deixar-nos pelo menos uma mensagem alentadora:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">\u201cAo futuro ou ao passado, a um tempo em que o pensamento seja livre, em que os homens sejam diferentes uns dos outros, em que n\u00e3o vivam s\u00f3s \u2014 a um tempo em que a verdade exista e em que o que for feito n\u00e3o possa ser desfeito: da era da uniformidade, da era da solid\u00e3o, da era do Grande Irm\u00e3o, da era do duplipensamento \u2014 sauda\u00e7\u00f5es!\u201d<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">O livro em branco de Winston Smith agora repousa em nossas m\u00e3os. Talvez nele ainda caiba uma ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>Canal Briguet Sem Medo: Acesse a comunidade no Telegram e receba conte\u00fados exclusivos. 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