{"id":85311,"date":"2025-09-24T23:07:08","date_gmt":"2025-09-24T23:07:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/85311\/"},"modified":"2025-09-24T23:07:08","modified_gmt":"2025-09-24T23:07:08","slug":"um-livro-rude-e-necessario-plagal-de-paulo-sarmento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/85311\/","title":{"rendered":"Um livro rude e necess\u00e1rio: &#8216;Plagal&#8217;, de Paulo Sarmento"},"content":{"rendered":"<p>A excelente editora Sr. Teste, cujo gosto gr\u00e1fico \u00e9, a todos os t\u00edtulos, \u00edmpar na hist\u00f3ria da nossa edi\u00e7\u00e3o recente, tem, igualmente, colec\u00e7\u00f5es (\u201cFulgor Quotidiano\u201d, \u201cImagem e Semelhan\u00e7a\u201d) que primam pela sobriedade e o gosto: a sobriedade dos livros nelas publicados e o gosto relativamente aos textos e autores que nelas figuram. O livro de hoje foi publicado em 2024 e este meu texto \u00e9, antes de mais, um acerto de contas e um pedido de desculpas por n\u00e3o ter escrito assim que o autor, Paulo Sarmento, mo enviou. O acerto de contas, esse, \u00e9 comigo e com estes textos que s\u00e3o de uma invulgar beleza &#8211; de uma beleza que fere. Que golpeia. E \u00e9 por aqui que o bel\u00edssimo t\u00edtulo, Plagal, melhor se entende. \u201cPlagal\u201d: \u00e9, na m\u00fasica, \u201co modo de transpor uma voz para um tom inferior\u201d. Reenvia, pois, ao sil\u00eancio. Diz-nos uma nota de abertura, a it\u00e1lico, esclarecendo o t\u00edtulo: \u201cNo cantoch\u00e3o, a cad\u00eancia plagal \u00e9 o modo de rematar a melodia associado geralmente \u00e0 entona\u00e7\u00e3o do am\u00e9n.\u201d \u00c9, acrescenta-se, um \u201cmodo obl\u00edquo\u201d, por isso transversal, desviado e n\u00e3o natural, de \u201ccolocar algo\u201d. O corpo, escreve-se. Enfim, \u201cplagal\u201d pode tamb\u00e9m significar \u201cvida errante\u201d (por extens\u00e3o sem\u00e2ntica), e evocar aquele que est\u00e1 fora de si, \u201cque foi atacado de vertigem\u201d. Assim, \u201cplaga\u201d, etimologicamente, significa \u201cchoque\u201d, \u201cgolpe, \u201cferida\u201d, \u201cderrota\u201d, mas tamb\u00e9m \u201ccastigo\u201d, \u201cpraga\u201d e, por fim, \u201ccalamidade\u201d. Na geografia: travessia de lugares in\u00f3spitos. Ou t\u00e3o-s\u00f3 travessia: praias, regi\u00e3o, um pa\u00eds, \u201cuma extens\u00e3o de terreno\u201d.<\/p>\n<p>Munidos destas pistas, entremos no livro &#8211; neste pequeno e grande livro feito das estruturas e ritmos, imagens e frases que o autor, numa outra nota posta no fecho, nos d\u00e1. Este \u00e9 um livro que passa, como regi\u00f5es da arte que se atravessam no momento da escrita, pelas Varia\u00e7\u00f5es Goldberg, mas tamb\u00e9m pelo cinema (o Quijote de Orson Welles, a Viagem a It\u00e1lia, de Rosselini, Au Hazard, Balthazar, de Bresson, entre outras refer\u00eancias cultas), pelo teatro (Pasolini e a pe\u00e7a Orgia, como a imaginou Nuno Cardoso), por um sistema de ecos, de frases (Char, e uma frase de Marx sobre o Esp\u00edrito Santo, ecos de Rimbaud, as presen\u00e7as de Nietzsche e de Holderlin, alegorias, ou encarna\u00e7\u00f5es do sil\u00eancio do Ocidente. \u00c9, pois, um livro culto, mas de uma subtil erudi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 exibicionismo citacional. Comparecem \u00c2ngelo de Lima, Maria Luiza Sarsfield Cabral, prisioneira pol\u00edtica. Mas importam os textos, poemas em prosa onde o idioma \u00e9 alvo de um labor frio. Essa \u00e9 uma frieza que vem de Carlos de Oliveira, que Sarmento absorve com consci\u00eancia dessa linhagem. A presen\u00e7a da terra, ao abrir o livro, transporta-nos para esse veio de uma poesia da mem\u00f3ria, feita de uma geografia pobre. O olhar do poeta descreve, contempla: \u201cNa minha terra os po\u00e7os s\u00e3o rios. H\u00e1 uma compreens\u00e3o literal da sua invisibilidade, excepto nas margens de adobe. \u00c0 noite, os n\u00edveis da \u00e1gua s\u00e3o repostos.\u201d (p.6). Um dos projectos destes poemas \u00e9 justamente esse: concretizar (efectivar e tornar palp\u00e1vel) os gestos de uma sageza, seja ela a escrita ou o ver as ideias, pensar: \u201cFazer metaf\u00edsica com a plaina, a grosa e a lixa; alcan\u00e7ar na fric\u00e7\u00e3o um fogo, no fogo, a metamorfose; tocar o aspecto e, violentamente, a ess\u00eancia &#8211; que em novo aspecto se abre\u201d (p.11). <\/p>\n<p>Poder-se-ia falar de alquimia, de \u201clabor limae\u201d, mas creio que neste Plagal de tal modo a sintaxe \u00e9 medida e enxuta, de tal modo as met\u00e1foras (poucas) e as alus\u00f5es, ou o funcionamento da alegoria s\u00e3o submetidos a uma disciplina f\u00e9rrea que busca literalizar o mundo, golpear a poesia que avan\u00e7a para os escolhos do sublime ou, o seu contr\u00e1rio, para os pegos e p\u00e2ntanos de uma palavra paup\u00e9rrima que, para al\u00e9m de alquimia, ou de metamorfose, o que lemos \u00e9 da ordem da gesta\u00e7\u00e3o. Do que est\u00e1 em estado nascente. Se \u00e9 certo que temos a imagem do \u201calquimista [que] arde no desejo\u201d, adiando o \u201ct\u00e9dio da consuma\u00e7\u00e3o\u201d, certo \u00e9 que ele duvida \u201ctanto das m\u00e3os como do que entre elas resulta.\u201d (p.12). Do que se trata nestes poemas \u00e9 precisamente de aprender a contemplar: a construir um templo (o texto? O livro?), que \u00e9 \u201cconstru\u00e7\u00e3o do tempo\u201d. \u201cAprender com os gatos\u201d, eis o mandamento: o ouro, essa met\u00e1fora da quintess\u00eancia, isso j\u00e1 n\u00e3o importa &#8211; importa exercer um direito: o do \u201csangue herdado\u201d. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A excelente editora Sr. Teste, cujo gosto gr\u00e1fico \u00e9, a todos os t\u00edtulos, \u00edmpar na hist\u00f3ria da nossa&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":35997,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[21642,169,114,115,170,835,32,33],"class_list":{"0":"post-85311","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-antonio-carlos-cortez","9":"tag-books","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-livros","13":"tag-opiniao","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85311","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85311"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85311\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35997"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85311"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85311"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85311"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}