{"id":86806,"date":"2025-09-25T23:41:35","date_gmt":"2025-09-25T23:41:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/86806\/"},"modified":"2025-09-25T23:41:35","modified_gmt":"2025-09-25T23:41:35","slug":"livro-de-memorias-inspira-romance-de-claire-messud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/86806\/","title":{"rendered":"Livro de Mem\u00f3rias Inspira Romance de Claire Messud"},"content":{"rendered":"<p>Este livro foi em parte inspirado num documento que o seu av\u00f4 escreveu para si e para a sua irm\u00e3, para que conhecessem a  hist\u00f3ria dele. Como \u00e9 que esse documento, esse livro de mem\u00f3rias, se tornou no seu livro?<\/p>\n<p>Bem, o documento do meu av\u00f4 \u00e9 um livro pr\u00f3prio, in\u00e9dito. Manuscrito, em muitos ficheiros, muitas p\u00e1ginas com fotografias e coisas coladas com fita cola, que agora, passados muitos anos, j\u00e1 n\u00e3o cola t\u00e3o bem, por isso \u00e9 preciso ter cuidado. Mas \u00e9 um presente incr\u00edvel em tantos aspetos. O meu av\u00f4 escreveu aquilo quando se reformou. Terminou-o em 1975. E ele dirige-nos a mensagem e diz: \u201cProvavelmente n\u00e3o o v\u00e3o ler durante 35 anos\u201d. Demorei um pouco mais, at\u00e9, mas \u00e9 maravilhoso que ele estivesse a escrever para n\u00f3s no futuro. Para n\u00f3s adultas, quando na altura \u00e9ramos crian\u00e7as. As pessoas perguntam-me se alguma vez pensei escrever uma autobiografia. Isso n\u00e3o me interessa. Ou uma esp\u00e9cie de publica\u00e7\u00e3o de partes dos textos do meu av\u00f4, porque na \u00edntegra seria demasiado longo. Eu pensei sobre todas estas coisas, mas, no final, acho que o que me interessava mesmo era a interioridade das pessoas. E isso \u00e9 sempre inventado, certo? A n\u00e3o ser que eu estivesse a publicar estritamente as palavras dele com algum tipo de anota\u00e7\u00e3o. Eu estava interessada nas personagens e depois tornou-se fic\u00e7\u00e3o. O texto dele abrange o per\u00edodo de 1928 a 1946, mas tornou-se claro que o que eu queria fazer era come\u00e7ar em 1940 e ir at\u00e9 2010. Portanto, a primeira parte e parte da hist\u00f3ria de fundo que aparece no romance s\u00e3o, de certa forma, inspiradas no texto dele. Mas, na verdade, fiz muitas outras pesquisas e havia outra correspond\u00eancia familiar e outros materiais n\u00e3o relacionados com a fam\u00edlia que eu estava a ler. Portanto, foi um ponto de partida<\/p>\n<p>Pensou neste romance durante muito tempo, uns 20 anos. E disse em entrevistas que n\u00e3o o poderia ter escrito enquanto os seus pais, e outros protagonistas, fossem vivos. Porqu\u00ea? Era demasiado sens\u00edvel para eles? Receou n\u00e3o ser fiel \u00e0 sua hist\u00f3ria? <\/p>\n<p>A irm\u00e3 do meu pai n\u00e3o casou. A minha m\u00e3e era filha \u00fanica. Na fam\u00edlia mais pr\u00f3xima, s\u00f3 tenho a minha irm\u00e3, somos muito pr\u00f3ximas e ela leu o livro. Se ela n\u00e3o tivesse gostado do manuscrito, teria de pensar com bastante cuidado se publicava ou n\u00e3o. Mas\u2026 dizem sempre que \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o ter um escritor na fam\u00edlia. \u00c9 que as pessoas s\u00e3o reservadas. E no livro tamb\u00e9m h\u00e1 muita coisa que \u00e9 inventada. H\u00e1 incidentes que s\u00e3o inventados, h\u00e1 eventos\u2026 Quando falo com outros escritores de fic\u00e7\u00e3o eles dizem-me: \u201cSabes, come\u00e7as com alguns factos e depois evolui&#8230;\u201d Penso nisso como uma esp\u00e9cie de papier m\u00e2ch\u00e9. \u00c9 embrulhar as coisas e elas tornam-se algo diferente. As personagens tornam-se algu\u00e9m diferente. Mas se formos a pessoa que se consegue reconhecer, eu acho que ningu\u00e9m quer isso. Quer dizer, talvez algumas pessoas raras o queiram, mas a maioria n\u00e3o quer. N\u00e3o se sentem confort\u00e1veis. Ser uma personagem \u00e9 estranho.<\/p>\n<p>Escreve no ep\u00edlogo do livro que este \u00e9 em parte fic\u00e7\u00e3o. At\u00e9 que ponto?<\/p>\n<p>Em percentagem? N\u00e3o sei dizer. Simplesmente evoluiu. Mas por exemplo, na sec\u00e7\u00e3o dos anos 50, a personagem Gaston, que \u00e9 o patriarca, est\u00e1 a ir para um po\u00e7o de petr\u00f3leo. E o meu av\u00f4, o verdadeiro, trabalhou num po\u00e7o de petr\u00f3leo que era explorat\u00f3rio e n\u00e3o estava a correr muito bem. Mas eu, na minha pesquisa, vi not\u00edcias de jornais sobre um po\u00e7o de petr\u00f3leo na primavera de 1953, que n\u00e3o era o po\u00e7o em que ele trabalhava. Era uma reportagem entusiasta para o povo franc\u00eas sobre a forma como tinha sido descoberto petr\u00f3leo. Quando ningu\u00e9m descobriu uma quantidade significativa de petr\u00f3leo at\u00e9 alguns anos mais tarde. Ent\u00e3o inventei aquela cena.<\/p>\n<p>A visita dos jornalistas ao po\u00e7o de petr\u00f3leo?<\/p>\n<p>Sim, ent\u00e3o isso foi um bocado inventado. E na parte da Denise, um amigo perguntou-me se ela n\u00e3o devia ter mais consci\u00eancia pol\u00edtica. Ora sei atrav\u00e9s de cartas, e tamb\u00e9m pela cronologia dos acontecimentos, que ela estudou com Zohra Drif, que se tornou uma das figuras mais importantes do movimento independentista na Arg\u00e9lia. Estudaram juntas dos 12 anos at\u00e9 \u00e0 universidade. A minha tia n\u00e3o mencionou isso. Ela nunca falou sobre isso, mas \u00e9 um facto. E sei que a minha tia teve essa experi\u00eancia, escreveu uma carta sobre ter sido atropelada por um carro que vinha de uma curva e a atingiu. E, ent\u00e3o, tomei uma decis\u00e3o narrativa de sobrepor esses factos. Porque, narrativamente falando, \u00e9 quase como se ela, que n\u00e3o tem conhecimento do que se passa no pa\u00eds \u00e0 sua volta, fosse como que atingida na cabe\u00e7a por isso. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Este livro foi em parte inspirado num documento que o seu av\u00f4 escreveu para si e para a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":86807,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[808,169,315,306,114,115,864,170,32,33],"class_list":{"0":"post-86806","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-argelia","9":"tag-books","10":"tag-cultura","11":"tag-edicao-impressa","12":"tag-entertainment","13":"tag-entretenimento","14":"tag-literatura","15":"tag-livros","16":"tag-portugal","17":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86806","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=86806"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86806\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/86807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=86806"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=86806"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=86806"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}