{"id":88084,"date":"2025-09-26T21:01:13","date_gmt":"2025-09-26T21:01:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/88084\/"},"modified":"2025-09-26T21:01:13","modified_gmt":"2025-09-26T21:01:13","slug":"obra-sobre-ortografia-de-iletrados-tem-livro-lancado-em-sp-26-09-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/88084\/","title":{"rendered":"Obra sobre ortografia de iletrados tem livro lan\u00e7ado em SP &#8211; 26\/09\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Em 1973, quando ainda eram rapazes e moravam em Jo\u00e3o Pessoa, os irm\u00e3os artistas Aprigio e Frederico Fonseca \u2014nascidos no Recife, criados na vizinha Olinda\u2014 viram na fachada de uma oficina mec\u00e2nica um letreiro colorido que dizia: &#8220;Aqui\/ t\u00e1n\/ bem\/ amor\/ tece\/ dores&#8221;.<\/p>\n<p>Encantaram-se pela &#8220;plasticidade do desenho das letras&#8221; e pela &#8220;adapta\u00e7\u00e3o do an\u00fancio ao ex\u00edguo espa\u00e7o horizontal, tornando-o vertical, o que fez ampliar o sentido do texto&#8221;. A propaganda artesanal de uma pe\u00e7a para autom\u00f3veis se transmutava involuntariamente num paliativo contra a melancolia.<\/p>\n<p>Foi como uma epifania. Sem que ainda soubessem, come\u00e7ava ali um mergulho na sintaxe visual produzida pelos iletrados ou pouco letrados, pesquisa batizada por eles de &#8220;Fala\u00e7\u00e3o dos Mudos&#8221;, projeto que perdura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Em 2023, quando a s\u00e9rie completou 50 anos, os irm\u00e3os Fonseca fizeram um livro-invent\u00e1rio sobre o trabalho, impresso no ano passado, em edi\u00e7\u00e3o dos autores, e que ser\u00e1 lan\u00e7ado, neste s\u00e1bado (27), em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A revela\u00e7\u00e3o ocorrida na oficina em Jo\u00e3o Pessoa foi sendo elaborada at\u00e9 que, no come\u00e7o dos anos 1980, j\u00e1 de volta a Olinda, os artistas passaram a pintar placas oferecendo servi\u00e7os inexistentes e fix\u00e1-las em muros ou fachadas de resid\u00eancias e com\u00e9rcios aleat\u00f3rios, como um an\u00fancio de peixes e crust\u00e1ceos numa loja de lingerie.<\/p>\n<p>&#8220;Essas placas normalmente eram retiradas pelos moradores, lojistas ou transeuntes&#8221;, lembra a dupla na apresenta\u00e7\u00e3o do volume. Muitas se perdiam, mas algumas eram recuperadas e, gastas e avariadas, exibiam a evolu\u00e7\u00e3o do trabalho, a obra em movimento.<\/p>\n<p>Segundo o texto, a pesquisa de campo &#8220;revelou uma repeti\u00e7\u00e3o de formas interessant\u00edssimas do desenho de algumas letras, como o &#8216;S&#8217; e o &#8216;N&#8217; invertidos, pois assim s\u00e3o mais f\u00e1ceis de registrar, visto que escrevemos normalmente de cima para baixo e da esquerda para a direita&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m disso, a substitui\u00e7\u00e3o prevalente do &#8216;E&#8217; pelo &#8216;I&#8217; , do &#8216;O&#8217; pelo &#8216;U&#8217;, do &#8216;M&#8217; pelo &#8216;N&#8217; e do &#8216;S&#8217; pelo &#8216;\u00c7&#8217;. Em resumo, a pesquisa demonstrou a aproxima\u00e7\u00e3o entre o ato de falar e o de escrever.&#8221;<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica-est\u00e9tica dos irm\u00e3os artistas faz com que se complementem no projeto e na carreira: ambos possuem forma\u00e7\u00e3o em pintura, mas Aprigio dialoga mais com o design e com suportes como a fotografia \u2014\u00e9 graduado em comunica\u00e7\u00e3o visual pela Universidade Federal de Pernambuco, com mestrado em artes visuais pela Universidade de S\u00e3o Paulo\u2014, enquanto Frederico sempre se voltou mais ao desenho e apresenta maior apuro gr\u00e1fico.<\/p>\n<p>O projeto ganhou impulso em 2000, quando, para homenagear os <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/03\/doacao-de-joao-cabral-pos-berinjela-no-mapa-dos-sebos-no-rio-de-janeiro.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">80 anos do poeta Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto<\/a>, os artistas transcreveram para o universo das &#8220;fala\u00e7\u00f5es&#8221; o poema &#8220;Uma Faca S\u00f3 L\u00e2mina&#8221;, um dos pontos altos da est\u00e9tica da precis\u00e3o cabralina. As placas pintadas com os versos foram espalhadas pelas ruas de Olinda e Recife.<\/p>\n<p>No livro lan\u00e7ado neste s\u00e1bado em S\u00e3o Paulo, h\u00e1 um texto escrito pelo jornalista <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/sergio-rodrigues\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">S\u00e9rgio Rodrigues, colunista da Folha<\/a>, a convite dos irm\u00e3os Fonseca sobre a s\u00e9rie dedicada ao poema.<\/p>\n<p>No artigo, Rodrigues define a ortografia como &#8220;a casca da l\u00edngua&#8221; ou &#8220;o leito de um rio que corre forte e denso l\u00e1 embaixo, mas que, por ser a parte que se deixa ver, os ing\u00eanuos acreditam ser o rio inteiro&#8221;.<\/p>\n<p>O autor de &#8220;Viva a L\u00edngua Brasileira&#8221; lembra que &#8220;toda l\u00edngua come\u00e7a oral, sem nenhuma representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica em seu nascedouro&#8221; e defende a necessidade de se reconhecer &#8220;que a alma de uma l\u00edngua n\u00e3o mora na escrita&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, Rodrigues observa que, com a vers\u00e3o pict\u00f3rica de &#8220;Uma Faca S\u00f3 L\u00e2mina&#8221;, os irm\u00e3os artistas &#8220;abrem na superf\u00edcie da l\u00edngua umas frestas por onde vislumbramos sua alma. O espet\u00e1culo \u00e9 inesquec\u00edvel, ao mesmo tempo diferente e estranhamente familiar&#8221;.<\/p>\n<p>Produzidas entre 1973 e 2022, as obras catalogadas no livro se valem de variados suportes e t\u00e9cnicas, com preval\u00eancia de pinturas \u2014sobre tecido, madeira, metal etc.\u2014, mas tamb\u00e9m fotografia, escultura e instala\u00e7\u00e3o e com t\u00e9cnicas mistas sobre materiais inusitados, como pele para alfaia \u2014um <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq01069819.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">tambor de maracatu<\/a>.<\/p>\n<p>O projeto compreende muito mais obras do que as selecionadas para o volume. Uma delas integra a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2024\/10\/exposicao-fullgas-alem-da-musica-traduz-a-arte-entre-trauma-e-festa-dos-anos-1980.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">mostra &#8220;Fullg\u00e1s&#8221;<\/a>, que esteve no CCBB de S\u00e3o Paulo e de outras capitais, reunindo a produ\u00e7\u00e3o dos anos 1980 de artistas de diversas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>No lan\u00e7amento na capital paulista, n\u00e3o haver\u00e1 exposi\u00e7\u00e3o dos trabalhos. Mas o pr\u00f3ximo evento programado para o livro \u2014em janeiro pr\u00f3ximo, no Mamam, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalh\u00e3es, no Recife\u2014 ser\u00e1 conjugado com uma mostra das obras da s\u00e9rie.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 1973, quando ainda eram rapazes e moravam em Jo\u00e3o Pessoa, os irm\u00e3os artistas Aprigio e Frederico Fonseca&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88085,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[207,559,982,169,114,115,236,20392,22163,170,32,33],"class_list":{"0":"post-88084","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-arte","9":"tag-artes-plasticas","10":"tag-artes-visuais","11":"tag-books","12":"tag-entertainment","13":"tag-entretenimento","14":"tag-folha","15":"tag-lancamento-de-livro","16":"tag-lingua-portuguesa","17":"tag-livros","18":"tag-portugal","19":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88084\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}