{"id":88395,"date":"2025-09-27T01:40:12","date_gmt":"2025-09-27T01:40:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/88395\/"},"modified":"2025-09-27T01:40:12","modified_gmt":"2025-09-27T01:40:12","slug":"portugal-e-espanha-podem-ser-a-resposta-que-a-europa-precisa-para-enfrentar-epoca-dos-monstros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/88395\/","title":{"rendered":"Portugal e Espanha podem ser a resposta que a Europa precisa para enfrentar &#8220;\u00e9poca dos monstros&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>\t                Num mundo em convuls\u00e3o, onde a ordem internacional se fragmenta e a democracia se fragiliza, Portugal e Espanha podem ter nas m\u00e3os um papel importante<\/p>\n<p>Portugal e Espanha podem estar diante de uma oportunidade hist\u00f3rica: juntos, t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para se afirmarem no tabuleiro global num momento em que a Europa atravessa fragilidades e incertezas. Esta foi a ideia que marcou o 4.\u00ba Encontro Luso-Espanhol Desafios do S\u00e9culo XXI, onde o diplomata espanhol Jorge Dezcallar, antigo diretor do Centro Nacional de Intelig\u00eancia, e o presidente da C\u00e2mara de Cascais, Carlos Carreiras, refletiram sobre os desafios de governan\u00e7a e da pol\u00edtica em tempos de convuls\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Para o autarca de Cascais, a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica pode ser muito mais do que a periferia da Europa. Se Portugal e Espanha souberem acreditar e agir em conjunto, podem transformar-se numa superpot\u00eancia capaz de se impor num mundo que caminha, no seu ponto de vista, para uma bipolaridade entre Estados Unidos e China.<\/p>\n<p>O caminho, defendeu, passa por articular uma comunidade afro-ibero-latino-americana, que tem no Brasil e em Angola polos estrat\u00e9gicos e que assenta numa matriz cultural, lingu\u00edstica e hist\u00f3rica comum. \u201cTemos massa cr\u00edtica para nos afirmarmos. Fomos povos que abriram a primeira globaliza\u00e7\u00e3o e podemos agora ser protagonistas de uma nova glocaliza\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Jorge Dezcallar n\u00e3o escondeu que a situa\u00e7\u00e3o internacional o &#8220;preocupa&#8221;. O diplomata descreveu o presente como um momento \u00fanico na hist\u00f3ria da humanidade, marcado pela coincid\u00eancia de v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es que avan\u00e7am em simult\u00e2neo. Entre elas, a automa\u00e7\u00e3o e a robotiza\u00e7\u00e3o que, considera, geram ansiedade e inseguran\u00e7a social, porque &#8220;amea\u00e7am destruir empregos mais rapidamente do que criam novas oportunidades&#8221;.<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, por sua vez, atingiu n\u00fameros t\u00e3o impressionantes que, considera, mudam por completo o olhar sobre os recursos do planeta: &#8220;Quem tem hoje 42 anos viu a popula\u00e7\u00e3o mundial duplicar no espa\u00e7o da sua vida; quem tem 75 anos assistiu a um triplicar. Nunca nada semelhante aconteceu, e isso significa uma press\u00e3o gigantesca sobre recursos limitados como a \u00e1gua, a energia ou a alimenta\u00e7\u00e3o.&#8221; J\u00e1 a\u00a0globaliza\u00e7\u00e3o, que em tempos foi promessa de progresso e de abertura, tornou-se tamb\u00e9m uma rede de depend\u00eancias que exp\u00f5e vulnerabilidades.<\/p>\n<p>Sobre tudo isto, paira o fim da ordem internacional de 1945, que, considera, est\u00e1 a ser corro\u00edda por tr\u00eas movimentos simult\u00e2neos: a contesta\u00e7\u00e3o aberta da China e de aliados que &#8220;n\u00e3o aceitam mais as regras do jogo&#8221; estabelecidas no Ocidente; a rutura provocada por Donald Trump, que rompeu com a l\u00f3gica do multilateralismo e &#8220;colocou a seguran\u00e7a nacional dos Estados Unidos acima de tudo&#8221;; e, finalmente, a fragilidade de Fran\u00e7a e Alemanha, que durante d\u00e9cadas foram o motor pol\u00edtico e econ\u00f3mico da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>\u201cEstamos no fim de uma ordem que nos deu oitenta anos de paz e bem-estar econ\u00f3mico. Hoje seria imposs\u00edvel aprovar por consenso a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos de 1948, por exemplo\u201d, observou. Para o diplomata, a Europa cometeu tr\u00eas grandes erros estrat\u00e9gicos\u00a0 confiar a sua seguran\u00e7a aos Estados Unidos, a sua energia \u00e0 R\u00fassia e o seu com\u00e9rcio \u00e0 China. \u201cNenhum se revelou fi\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, cresce no continente uma extrema-direita que, na opini\u00e3o de\u00a0Jorge Dezcallar, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 marginal. &#8220;Em 1984 representava 4% dos votos nas elei\u00e7\u00f5es europeias; nas \u00faltimas europeias, saltou para 20%.&#8221; Esse crescimento \u00e9, na sua leitura, um sintoma da inquieta\u00e7\u00e3o coletiva e do descr\u00e9dito das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, cada vez mais vistas como &#8220;m\u00e1quinas partid\u00e1rias ao servi\u00e7o de interesses pr\u00f3prios&#8221;, incapazes de responder \u00e0s necessidades dos cidad\u00e3os. \u201cA democracia est\u00e1 em decad\u00eancia\u201d, avisou.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio que desenha \u00e9 o de uma militariza\u00e7\u00e3o do discurso pol\u00edtico. Fala-se de aumentar a despesa em armamento, discute-se com fervor o regresso do servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio, e a guerra volta a estar no centro das conversas, n\u00e3o como hip\u00f3tese distante, mas como risco real. Neste contexto, a Europa, insiste, n\u00e3o pode continuar a confiar no guarda-chuva americano. \u201cTemos de ser capazes de tomar nas nossas m\u00e3os o nosso pr\u00f3prio futuro. Temos de colocar o destino europeu nas nossas m\u00e3os.\u201d<\/p>\n<p>Se Jorge Dezcallar trouxe ao debate o peso da geopol\u00edtica e da hist\u00f3ria, Carlos Carreiras trouxe o olhar da governa\u00e7\u00e3o local, sem negar a gravidade dos tempos, mas com a convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 preciso cultivar esperan\u00e7a. \u201cUm presidente de C\u00e2mara tem necessariamente de ser um otimista. O maior d\u00e9fice que temos neste momento \u00e9 a utopia. Abandon\u00e1mos o sonho\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O autarca de Cascais recordou que h\u00e1 cem anos o mundo atravessava um ciclo inquietantemente semelhante: pandemia, seguida de guerra. \u201cVivemos de novo essa fase. A diferen\u00e7a \u00e9 que ainda n\u00e3o cheg\u00e1mos ao nosso 1945. Ainda n\u00e3o cheg\u00e1mos ao fim da guerra. Estamos nesta ponte, entre duas margens.\u201d<\/p>\n<p>Carlos Carreiras insiste ainda num ponto essencial: a democracia precisa de ser rejuvenescida e reinventada. Em Cascais, diz, a aposta em modelos de democracia participativa e colaborativa tem dado frutos, n\u00e3o apenas na aproxima\u00e7\u00e3o entre cidad\u00e3os e governantes, mas tamb\u00e9m na resist\u00eancia ao populismo. \u201cAqui os extremismos n\u00e3o t\u00eam prevalecido. E isso mostra que \u00e9 poss\u00edvel redemocratizar a democracia.\u201d<\/p>\n<p>Para o autarca, o futuro da governan\u00e7a n\u00e3o passa pelos governos nacionais, cada vez mais condicionados por for\u00e7as globais e mercados que escapam ao controlo dos Estados, mas sim pelos munic\u00edpios. \u201cUm primeiro-ministro j\u00e1 n\u00e3o manda. Um presidente de C\u00e2mara manda. \u00c9 ao n\u00edvel local que conseguimos ser consequentes.\u201d<\/p>\n<p>Jorge Dezcallar fez mais um aviso sombrio: \u201cEstamos na \u00e9poca dos monstros. N\u00e3o sabemos se voltaremos a ter institui\u00e7\u00f5es internacionais fortes. O futuro \u00e9 uma inc\u00f3gnita.\u201d No entanto, n\u00e3o deixou de sublinhar que Portugal e Espanha, apesar das diferen\u00e7as, entendem-se bem e t\u00eam muito a ganhar se souberem agir em conjunto. \u201cPartilhamos l\u00edngua, valores civilizacionais e hist\u00f3ria. Temos de os defender porque acreditamos que s\u00e3o bons.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Num mundo em convuls\u00e3o, onde a ordem internacional se fragmenta e a democracia se fragiliza, Portugal e Espanha&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88396,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[609,836,611,27,28,607,608,333,22250,832,604,135,610,476,22249,15,16,301,830,14,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,3701,52,32,22248,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-88395","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-alerta","9":"tag-analise","10":"tag-ao-minuto","11":"tag-breaking-news","12":"tag-breakingnews","13":"tag-cnn","14":"tag-cnn-portugal","15":"tag-comentadores","16":"tag-comunidade-afro-ibero-latino-americana","17":"tag-costa","18":"tag-crime","19":"tag-desporto","20":"tag-direto","21":"tag-economia","22":"tag-encontro-luso-espanhol","23":"tag-featured-news","24":"tag-featurednews","25":"tag-governo","26":"tag-guerra","27":"tag-headlines","28":"tag-justica","29":"tag-latest-news","30":"tag-latestnews","31":"tag-live","32":"tag-main-news","33":"tag-mainnews","34":"tag-mais-vistas","35":"tag-marcelo","36":"tag-mundo","37":"tag-negocios","38":"tag-news","39":"tag-noticias","40":"tag-noticias-principais","41":"tag-noticiasprincipais","42":"tag-opiniao","43":"tag-pais","44":"tag-peninsula-iberica","45":"tag-politica","46":"tag-portugal","47":"tag-portugal-e-espanha","48":"tag-principais-noticias","49":"tag-principaisnoticias","50":"tag-pt","51":"tag-top-stories","52":"tag-topstories","53":"tag-ultimas","54":"tag-ultimas-noticias","55":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88395"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88395\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88396"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}