{"id":88441,"date":"2025-09-27T02:59:26","date_gmt":"2025-09-27T02:59:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/88441\/"},"modified":"2025-09-27T02:59:26","modified_gmt":"2025-09-27T02:59:26","slug":"a-verdade-sobre-a-fabrica-de-mosquitos-instalada-no-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/88441\/","title":{"rendered":"A verdade sobre a \u201cf\u00e1brica de mosquitos\u201d instalada no Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A \u201ct\u00e9cnica do inseto est\u00e9ril\u201d tem sido h\u00e1 d\u00e9cadas uma das principais apostas para controlar pragas e doen\u00e7as das quais os insetos s\u00e3o vetores. Ela j\u00e1 foi usada com sucesso para erradicar o berne dos Estados Unidos a partir de projetos pioneiros na Fl\u00f3rida (1957) e no Texas (1962) \u2014 at\u00e9 casos reaparecerem no gado este ano. Uma de suas vantagens \u00e9 a falta de necessidade de aplicar inseticidas, potencialmente t\u00f3xicos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Agora, uma t\u00e9cnica similar, mas que envolve a substitui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de insetos vetores de doen\u00e7as, est\u00e1 sendo empregada no Brasil para o controle dos v\u00edrus da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/dengue\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">dengue<\/a>, chikungunya, zika e febre amarela. Paradoxalmente, a t\u00e9cnica envolve produzir mais mosquitos, em vez de mat\u00e1-los.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">O potencial \u00e9 enorme. Pesquisas estimam que s\u00f3 a dengue e a febre amarela causam juntas mais de 50 mil mortes por ano no mundo.<\/p>\n<p>Wolbito do Brasil: usando o parasita do parasita<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Em julho deste ano, foi inaugurada no Parque Tecnol\u00f3gico da Sa\u00fade do Paran\u00e1 a maior f\u00e1brica do mundo para produ\u00e7\u00e3o do mosquito da dengue, com capacidade estimada de gerar 100 milh\u00f5es de ovos do Aedes aegypti por semana.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A f\u00e1brica, que resulta de uma parceria entre o Instituto de Biologia Molecular do Paran\u00e1 (IBMP) e o World Mosquito Program (WMP), tem no nome uma pista para entender a t\u00e9cnica: \u201cWolbito do Brasil\u201d.\u00a0<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">\u201cWolbito\u201d \u00e9 uma jun\u00e7\u00e3o entre o nome da bact\u00e9ria Wolbachia e a palavra \u201cmosquito\u201d. A bact\u00e9ria, que infecta <a href=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/abs\/10.1098\/rspb.2015.0249\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">mais da metade<\/a> das esp\u00e9cies de insetos do mundo, s\u00f3 consegue viver dentro das c\u00e9lulas de seus hospedeiros artr\u00f3podes, preferencialmente dentro de \u00f3vulos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Uma das consequ\u00eancias desse estilo de vida da bact\u00e9ria \u00e9 que algumas linhagens de Wolbachia s\u00e3o capazes de transformar insetos machos em f\u00eameas, induzir f\u00eameas a terem filhotes sem a necessidade de sexo e, o que \u00e9 mais relevante para a t\u00e9cnica, at\u00e9 impedir a reprodu\u00e7\u00e3o do hospedeiro.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">\u00c9 o caso do Aedes. A linhagem de Wolbachia que a f\u00e1brica introduz nos mosquitos \u00e9 conhecida como \u201cwMel\u201d (que ocorre na natureza). As bact\u00e9rias dessa estirpe impedem que f\u00eameas n\u00e3o infectadas por Wolbachia tenham filhotes ap\u00f3s copular com machos infectados.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A Wolbachia tem outra caracter\u00edstica crucial: ela atua como um antiv\u00edrus natural dentro do mosquito, atacando os v\u00edrus e diminuindo sua capacidade de transmiss\u00e3o entre mosquitos e de mosquitos para humanos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Em suma, a t\u00e9cnica do Wolbito consiste em usar o parasita bacteriano de um parasita de humanos, o mosquito, para diminuir na natureza a presen\u00e7a de outros parasitas que afetam humanos, os v\u00edrus da dengue e outras doen\u00e7as.<\/p>\n<p>T\u00e9cnica tem entregado bons resultados em outros pa\u00edses<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">A reportagem fez uma triagem aprofundada de todos os estudos cient\u00edficos publicados a respeito da t\u00e9cnica do Wolbito. Entre 416 artigos publicados, foram escolhidos os 50 mais relevantes.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O amplo consenso, de 78% das publica\u00e7\u00f5es, \u00e9 que a t\u00e9cnica funciona. M\u00faltiplos experimentos laboratoriais e em campo confirmam que o Aedes aegypti infectado com Wolbachia apresenta uma redu\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica em sua compet\u00eancia para transmitir os v\u00edrus da dengue, zika, chikungunya, febre amarela e mayaro (uma virose similar \u00e0 dengue encontrada na Amaz\u00f4nia).<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">No <a href=\"https:\/\/www.nejm.org\/doi\/10.1056\/NEJMoa2030243\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">estudo<\/a> com o m\u00e9todo mais rigoroso, publicado em 2021 no New England Journal of Medicine (NEJM, uma revista cient\u00edfica de prest\u00edgio), a incid\u00eancia da dengue caiu em 77% nas popula\u00e7\u00f5es das \u00e1reas com libera\u00e7\u00e3o dos mosquitos tratados. As hospitaliza\u00e7\u00f5es por dengue ca\u00edram em 86%. Esse resultado foi observado na cidade de Yogyakarta, na Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O <a href=\"https:\/\/journals.plos.org\/plosntds\/article?id=10.1371\/journal.pntd.0008157\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">estudo<\/a> sobre a introdu\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica Wolbito em \u00e1reas da cidade, publicado em 2020, foi liderado por Scott O\u2019Neil, da Universidade Monash, na Austr\u00e1lia, um dos maiores especialistas em Wolbachia do mundo desde a d\u00e9cada de 1990. Os autores observaram, a prop\u00f3sito, que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio liberar mosquitos adultos em nuvens que possam incomodar as comunidades pelo aumento de picadas. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel liberar os ovos, que eclodir\u00e3o de forma mais gradual.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">S\u00e3o conhecidos detalhes de algumas das armas usadas pela Wolbachia contra os v\u00edrus. Ela pode exacerbar a resposta imunol\u00f3gica dos mosquitos, por exemplo, e competir pelos recursos dentro das c\u00e9lulas. Al\u00e9m da linhagem \u201cwMel\u201d, outras s\u00e3o usadas. As linhagens variam quanto \u00e0 efici\u00eancia no bloqueio dos v\u00edrus, sensibilidade \u00e0 temperatura e efeitos reprodutivos no hospedeiro.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">A t\u00e9cnica parece est\u00e1vel. Segundo quatro estudos, os efeitos da bact\u00e9ria ficam est\u00e1veis por at\u00e9 <a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/35196357\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">uma d\u00e9cada<\/a>. Os testes foram conduzidos em diferentes condi\u00e7\u00f5es ambientais na Austr\u00e1lia, Brasil, Indon\u00e9sia e Mal\u00e1sia. Como se trata de seres vivos com curto tempo de gera\u00e7\u00e3o (tanto os mosquitos quanto as bact\u00e9rias), a intera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode mudar rapidamente.<\/p>\n<p>Boatos sobre a t\u00e9cnica e respostas<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Como a t\u00e9cnica do Wolbito \u00e9 nova, h\u00e1 incompreens\u00e3o de parte da popula\u00e7\u00e3o e mitos que circulam a respeito.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>Boato:<\/strong> os cientistas estariam modificando geneticamente os mosquitos ou a bact\u00e9ria de forma perigosa.\u00a0<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>Resposta:<\/strong> n\u00e3o, a engenharia gen\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 usada. Tudo o que f\u00e1bricas como a Wolbito do Brasil fazem, al\u00e9m de criadouro de mosquitos, \u00e9 infect\u00e1-los com uma linhagem de Wolbachia que, como informado, j\u00e1 existia na natureza. A mosca das frutas \u00e9 usada como um ber\u00e7\u00e1rio da bact\u00e9ria, e uma microsseringa \u00e9 usada para extra\u00ed-la e coloc\u00e1-la em embri\u00f5es dos mosquitos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">No m\u00e1ximo, h\u00e1 estudos em condi\u00e7\u00f5es laboratoriais que usam t\u00e9cnicas de edi\u00e7\u00e3o de DNA para estudar quais genes da bact\u00e9ria e do mosquito influenciam o impedimento \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o observado, conhecido como \u201cincompatibilidade citoplasm\u00e1tica\u201d. Isso n\u00e3o \u00e9 feito nos experimentos que liberam mosquitos no ambiente.\u00a0<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>Boato: <\/strong>segundo a ag\u00eancia Associated Press, circulou em 2023 um rumor de que casos de mal\u00e1ria na Fl\u00f3rida e no Texas foram causados pela libera\u00e7\u00e3o de mosquitos nesses estados americanos em programas de pesquisa financiados pela funda\u00e7\u00e3o de Bill Gates.\u00a0<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>Resposta: <\/strong>o boato mistura v\u00e1rias coisas. \u00c9 verdade que a empresa Oxitec liberou mosquitos tratados na Fl\u00f3rida, sem dinheiro de Gates, mas eles eram da esp\u00e9cie Aedes aegypti. O mosquito que transmite a mal\u00e1ria, que \u00e9 causada por um protozo\u00e1rio, \u00e9 totalmente diferente: o Anopheles. Al\u00e9m disso, os mosquitos liberados pela Oxitec eram machos, e somente f\u00eameas picam humanos. Os casos de mal\u00e1ria, inclusive, foram em uma regi\u00e3o diferente da Fl\u00f3rida. Eles n\u00e3o eram novidade, ali\u00e1s. Casos isolados e pouco numerosos de mal\u00e1ria nos Estados Unidos s\u00e3o recorrentes.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>Boato: <\/strong>a Wolbachia usada em t\u00e9cnicas como o Wolbito amea\u00e7a a sa\u00fade de c\u00e3es e gatos.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>Resposta: <\/strong>existe um microverme chamado dirofil\u00e1ria que causa doen\u00e7a em c\u00e3es e gatos por se instalar no cora\u00e7\u00e3o ou nas art\u00e9rias pulmonares dos pets. O verme n\u00e3o consegue viver sem Wolbachia. Isso \u00e9 conveniente para os veterin\u00e1rios, pois o verme morre pela administra\u00e7\u00e3o de antibi\u00f3ticos que matem a bact\u00e9ria. Contudo, a linhagem de Wolbachia contida nesse parasita, que participa da doen\u00e7a nos animais por causar inflama\u00e7\u00e3o, \u00e9 um parente distante das linhagens encontradas nos mosquitos. Vermes e mosquitos s\u00e3o hospedeiros diferentes, ent\u00e3o essas linhagens da bact\u00e9ria se modificaram para se adaptar a essas diferen\u00e7as. Os cientistas <a href=\"https:\/\/pmc.ncbi.nlm.nih.gov\/articles\/PMC9937081\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">estimam<\/a> que as duas estirpes de Wolbachia se separaram h\u00e1 mais de 200 milh\u00f5es de anos. Portanto, a semelhan\u00e7a \u00e9 pequena.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">N\u00e3o h\u00e1 qualquer risco aos animais de estima\u00e7\u00e3o apresentado pelas bact\u00e9rias Wolbachia que moram dentro dos \u00f3vulos dos mosquitos. Se seu pet comer um desses mosquitos, a bact\u00e9ria morrer\u00e1 em seu est\u00f4mago junto com o inseto. Ainda que fosse a mesma linhagem de Wolbachia (uma impossibilidade biol\u00f3gica), o que causa a doen\u00e7a nos c\u00e3es e gatos \u00e9 o verme, n\u00e3o essa bact\u00e9ria.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN\">Nas t\u00e9cnicas de aproveitamento dessa bact\u00e9ria, um dos parasitas mais comuns e antigos dos insetos, os amea\u00e7ados s\u00e3o os v\u00edrus da dengue e outras doen\u00e7as transmitidas por mosquitos, n\u00e3o humanos ou seus animais de estima\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, muitas vidas ser\u00e3o salvas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A \u201ct\u00e9cnica do inseto est\u00e9ril\u201d tem sido h\u00e1 d\u00e9cadas uma das principais apostas para controlar pragas e doen\u00e7as&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":88442,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[1896,8718,1891,4480,116,4127,14189,32,33,117],"class_list":{"0":"post-88441","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-aedes-aegypti","9":"tag-bill-gates","10":"tag-dengue","11":"tag-febre-amarela","12":"tag-health","13":"tag-parana","14":"tag-pesquisas","15":"tag-portugal","16":"tag-pt","17":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88441","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88441"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88441\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}