{"id":8852,"date":"2025-07-30T17:43:07","date_gmt":"2025-07-30T17:43:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/8852\/"},"modified":"2025-07-30T17:43:07","modified_gmt":"2025-07-30T17:43:07","slug":"hazem-em-gaza-fiquei-ali-a-procura-de-pedacos-da-minha-mulher-e-do-meu-bebe-israel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/8852\/","title":{"rendered":"Hazem em Gaza: \u201cFiquei ali \u00e0 procura de peda\u00e7os da minha mulher e do meu beb\u00e9\u201d | Israel"},"content":{"rendered":"<p>Em 2023, o investigador palestiniano Hazem Madhoun contribuiu com a recolha de testemunhos para o caso da \u00c1frica do Sul que levou Israel ao Tribunal Internacional de Justi\u00e7a por genoc\u00eddio. \u00c9 dif\u00edcil encontrar as palavras para descrever o que viu desde ent\u00e3o. Um testemunho na primeira pessoa constru\u00eddo a partir de uma entrevista.<\/p>\n<p>\u201cNo primeiro m\u00eas do genoc\u00eddio, as paredes da casa onde nos refugi\u00e1mos ca\u00edram sobre mim. Fiquei encurralado entre edif\u00edcios colapsados, junto de dezenas de pessoas presas debaixo dos escombros. Resgataram-me depois de ter estado 40 minutos inconsciente. N\u00e3o sei como sobrevivi.<\/p>\n<p>Passei duas semanas no hospital Nasser. Vi crian\u00e7as cortadas aos peda\u00e7os. Pessoas a correr por todo o lado.<\/p>\n<p>Todos os bairros t\u00eam centenas de mortos. Fam\u00edlias inteiras desapareceram. O ex\u00e9rcito da ocupa\u00e7\u00e3o israelita destruiu todas as casas, todos os pr\u00e9dios, todos os edif\u00edcios \u2014 muitos com dezenas de pessoas l\u00e1 dentro. Cortou \u00e1gua, luz e comida. For\u00e7ou a desloca\u00e7\u00e3o de quase toda a gente. Tudo isso s\u00e3o indicadores das inten\u00e7\u00f5es genocidas do estado de Israel.<\/p>\n<p>Eu e a minha fam\u00edlia deix\u00e1mos a Cidade de Gaza, a nossa casa e a nossa vida \u00e0 beira da praia, pelo Sul \u2014 n\u00e3o por \u201cestarmos seguros\u201d, uma vez que o objectivo das ordens de evacua\u00e7\u00e3o nunca foi proteger-nos, mas sim deslocar-nos. Encurralam-nos numa \u00e1rea pequena, onde as escolas e os abrigos est\u00e3o cheios, que a seguir tamb\u00e9m \u00e9 bombardeada. N\u00e3o adianta para onde vamos, n\u00e3o h\u00e1 lugares nem dias seguros.<\/p>\n<p>Em Outubro de 2023, nessa viagem do norte para o sul, era imposs\u00edvel compreender o que estava a acontecer. Milhares de pessoas com as suas malas, tantas a p\u00e9 por falta de transporte e combust\u00edvel, a desmaiar de exaust\u00e3o e de calor.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil descrever o que vivemos.<\/p>\n<p>Ver pessoas morrer a poucos metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ver Israel mandar panfletos para a evacua\u00e7\u00e3o de um bairro e bombarde\u00e1-lo cinco minutos depois.<\/p>\n<p>Viver com 19 pessoas num apartamento com um quarto, sem luz, sem \u00e1gua, num estado de p\u00e2nico.<\/p>\n<p>Viver numa tenda, noutra e noutra.<\/p>\n<p>Ver seis mil pessoas viverem numa escola com capacidade para 500. Centenas numa s\u00f3 sala. Onde n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua. Onde se esperam horas para ir \u00e0 casa de banho. Onde Israel tamb\u00e9m bombardeia indiscriminadamente.<\/p>\n<p>Sei que h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas que viv\u00edamos 2,3 milh\u00f5es de pessoas numa faixa de 365 quil\u00f3metros quadrados de terra, cercada e bloqueada, mas nada nos preparou para esta guerra. \u00c9 uma guerra contra a nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Em 2024, Israel voltou a usar a comida como arma. Desde ent\u00e3o, mata \u00e0 fome. Hoje, no melhor dos cen\u00e1rios, tenho uma pequena refei\u00e7\u00e3o por dia. H\u00e1 crian\u00e7as t\u00e3o mal nutridas que perderam a vis\u00e3o. 1500 pessoas j\u00e1 ficaram cegas, disse o director de um hospital de cirurgia oftalmol\u00f3gica h\u00e1 dias. Mesmo que a comida chegasse agora, n\u00e3o seria suficiente para dois milh\u00f5es de pessoas esfomeadas, esganados como estamos.<\/p>\n<p>As doen\u00e7as est\u00e3o por todo o lado. Muita gente tem infec\u00e7\u00f5es nos rins, est\u00f4mago, intestinos. Israel destruiu todas as esta\u00e7\u00f5es de dessaliniza\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que havia.<\/p>\n<p>E n\u00e3o parar\u00e1 de bombardear at\u00e9 acabar com tudo.<\/p>\n<p>Cheira sempre a fumo, balas e carne ardida\u2026<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>No cessar-fogo do in\u00edcio de 2025, fiz dez quil\u00f3metros a p\u00e9 desde Khan Yunis. Foi chocante ver o Norte de Gaza. Ver a minha cidade completamente destru\u00edda. Viver dentro de uma casa bombardeada, sem \u00e1gua. Tentar dezenas de vezes ter autoriza\u00e7\u00e3o para sair. E, quando Israel retomou o genoc\u00eddio, ver tudo tornar-se muito mais brutal.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 qualquer regra ou lei internacional que se aplique desde ent\u00e3o. O poder militar usado n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o com nada que tenha visto antes. Mata dezenas de pessoas todos os dias. Recorre a todas as ferramentas de exterm\u00ednio. H\u00e1 corpos a voar. Zero ajuda humanit\u00e1ria. Fome generalizada.<\/p>\n<p>Na semana passada, tentei ir buscar um saco de farinha a um centro humanit\u00e1rio a tr\u00eas quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Estava escuro, era madrugada quando sa\u00ed. Na fila, \u00e0 espera, dezenas de pessoas estavam deitadas no ch\u00e3o para evitar as balas israelitas. Mal se via, mas ouviam-se os disparos. Est\u00e1vamos ali \u00e0 espera do nosso destino.<\/p>\n<p>J\u00e1 mais de mil pessoas foram mortas assim, \u00e0 espera de comida. Na \u00faltima ter\u00e7a-feira, quatro amigos desapareceram depois de terem ido para uma dessas filas.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o consigo encontrar as palavras para comunicar as experi\u00eancias que vivi. A gravidade retratada nos media n\u00e3o se compara com a realidade. N\u00e3o podem imaginar o que s\u00e3o bombas a cair aos nossos p\u00e9s. O plano \u00e9 matar, matar. Expulsar-nos a todos.<\/p>\n<p>Mas, apesar disso, mantemo-nos agarrados a Gaza, com a esperan\u00e7a de podermos viver aqui em paz.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Preciso s\u00f3 de voltar atr\u00e1s no tempo.<\/p>\n<p>Em Novembro de 2023, estava a tentar que a minha m\u00e3e, doente com cancro, sa\u00edsse de Gaza para se tratar. Consegui um relat\u00f3rio m\u00e9dico e fui com ela para a fronteira de Rafah. Esper\u00e1vamos h\u00e1 v\u00e1rias horas.<\/p>\n<p>Enquanto isso, Israel bombardeava a casa onde estava a minha esposa, a minha filha de tr\u00eas meses, os meus sobrinhos e todos os nossos vizinhos em Khan Yunis. Quando consegui l\u00e1 chegar, n\u00e3o fui a tempo. Disseram-me que elas estavam em peda\u00e7os.<\/p>\n<p>Fui ao Hospital Europeu, como me mandaram, ver se os encontrava.<\/p>\n<p>Cheguei de madrugada, a p\u00e9, sentindo-me louco. Eu, ali, num hospital sobrelotado e assoberbado, \u00e0 procura de peda\u00e7os da minha mulher e do meu beb\u00e9.<\/p>\n<p>(A chamada cai. Volta passados cinco minutos.)<\/p>\n<p>Sim, estava \u00e0 procura dos seus corpos. No hospital disseram-me que havia peda\u00e7os delas e de 70 outras pessoas. Que a situa\u00e7\u00e3o era t\u00e3o complicada que n\u00e3o conseguiam traz\u00ea-los. Desmaiei.<\/p>\n<p>Os meus irm\u00e3os insistiram para que sa\u00edsse de Gaza com a minha m\u00e3e, j\u00e1 que agora estava sozinho. N\u00e3o tenho ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Mas decidi n\u00e3o sair com ela. Tenho direito a estar em Gaza, a ficar em Gaza. A nossa exist\u00eancia neste lugar \u00e9 a melhor demonstra\u00e7\u00e3o de que existe resist\u00eancia \u00e0 ideologia colonial de Israel. Escrevemos, pintamos, lutamos, recusamos sair. Ainda que qualquer forma de resist\u00eancia n\u00e3o se compare com o poderio militar de Israel, ou com as armas dos Estados Unidos, resistir \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o e a uma campanha genocida \u00e9 o nosso direito. Todas as formas de lhe resistir s\u00e3o leg\u00edtimas.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Eu costumava p\u00f4r algod\u00e3o nas orelhas da Rour, a minha filha, para que ela conseguisse dormir durante os bombardeamentos. Mas ela chorava o tempo todo.<\/p>\n<p>Todas as pessoas que conheci no meu trabalho como investigador tamb\u00e9m perderam familiares. Os m\u00e9dicos, particularmente, s\u00e3o um grande alvo.<\/p>\n<p>Um dia, fui entrevistar um m\u00e9dico e, dois minutos depois de me despedir, o lugar onde ele estava foi bombardeado. O testemunho que me deu foi o \u00faltimo.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a vida das pessoas de Gaza durante o genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>Fome, bombardeamentos, escurid\u00e3o, expuls\u00e3o, doen\u00e7as. \u00c1gua polu\u00edda e esgotos nas ruas.<\/p>\n<p>Israel n\u00e3o est\u00e1 a atacar nenhuma fac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, est\u00e1 a atacar todos os palestinianos que aqui vivem.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias, um sniper disparou para o quarto onde eu estava. N\u00e3o sei como estou aqui hoje.<\/p>\n<p>Ao longo destes 660 dias, fui deslocado mais de dez vezes. Perdi tudo.<\/p>\n<p>Oitenta por cento deste lugar \u00e9 p\u00f3.<\/p>\n<p>As pessoas est\u00e3o famintas, fr\u00e1geis, tontas com a falta de calorias. N\u00e3o h\u00e1 campos de cultivo, nem farinha, nem \u00e1gua. N\u00e3o h\u00e1 absolutamente nada. E o mundo assiste em sil\u00eancio. Ningu\u00e9m quer saber. Estamos abandonados.\u201d<\/p>\n<p>Testemunho do investigador palestiniano Hazem Madhoun, natural da Cidade de Gaza, actualmente refugiado em Khan Yunis. Encontro e tradu\u00e7\u00e3o do \u00e1rabe produzidos por Badil Resource Center for Palestinian Residency and Refugee Rights. Testemunho editado pela jornalista Margarida David Cardoso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 2023, o investigador palestiniano Hazem Madhoun contribuiu com a recolha de testemunhos para o caso da \u00c1frica&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8853,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,3026,257,15,16,14,259,25,26,21,22,432,62,12,13,19,20,534,431,542,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-8852","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-direitos-humanos","11":"tag-faixa-de-gaza","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-israel","16":"tag-latest-news","17":"tag-latestnews","18":"tag-main-news","19":"tag-mainnews","20":"tag-medio-oriente","21":"tag-mundo","22":"tag-news","23":"tag-noticias","24":"tag-noticias-principais","25":"tag-noticiasprincipais","26":"tag-p3","27":"tag-palestina","28":"tag-para-redes","29":"tag-principais-noticias","30":"tag-principaisnoticias","31":"tag-top-stories","32":"tag-topstories","33":"tag-ultimas","34":"tag-ultimas-noticias","35":"tag-ultimasnoticias","36":"tag-world","37":"tag-world-news","38":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8852","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8852"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8852\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8852"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8852"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8852"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}