{"id":89221,"date":"2025-09-27T18:49:15","date_gmt":"2025-09-27T18:49:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/89221\/"},"modified":"2025-09-27T18:49:15","modified_gmt":"2025-09-27T18:49:15","slug":"zadie-smith-escrever-livro-e-roubo-e-autores-sao-criancas-27-09-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/89221\/","title":{"rendered":"Zadie Smith: Escrever livro \u00e9 roubo e autores s\u00e3o crian\u00e7as &#8211; 27\/09\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq2705200606.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Zadie Smith<\/a> n\u00e3o liga se nunca mais escrever um grande livro. \u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o estranha vinda de qualquer escritora, ainda mais de uma expoente da sua gera\u00e7\u00e3o, acostumada a transformar seu mundo em fic\u00e7\u00e3o ambiciosa desde quase menina. Mas talvez a explica\u00e7\u00e3o seja justamente essa.<\/p>\n<p>&#8220;Escritores jovens s\u00e3o destrutivos. E deveriam ser. Mas voc\u00ea fica mais velha e n\u00e3o quer mais machucar as pessoas. Fica muito doloroso&#8221;, diz a autora de 49 anos, ostentando um black power e um casaco esportivo da Nike durante a entrevista por v\u00eddeo.<\/p>\n<p>&#8220;A ideia de um grande livro\u2026 Eu n\u00e3o me importo, esse \u00e9 o problema. Quando voc\u00ea \u00e9 jovem, faria de tudo, tomaria qualquer coisa, machucaria qualquer um. Mas agora n\u00e3o h\u00e1 nenhum livro que eu queira escrever que seja mais importante que a minha rela\u00e7\u00e3o com outros seres humanos.&#8221;<\/p>\n<p>A autora brit\u00e2nica fala como uma veterana exausta mesmo estando bem longe do ocaso \u2014a quest\u00e3o \u00e9 que ela come\u00e7ou muito cedo. Foi j\u00e1 no seu livro de estreia, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2015\/01\/1580027-criticos-escolhem-livro-de-junot-diaz-o-melhor-ate-o-momento-no-seculo-21.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Dentes Brancos&#8221;<\/a>, que Zadie passou a ser tratada como uma voz que chegava para renovar o f\u00f4lego da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a> em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>O romance lan\u00e7ado em 2000, com mais de 1 milh\u00e3o de c\u00f3pias vendidas, era um volume caudaloso que acompanhava por d\u00e9cadas as fam\u00edlias de dois veteranos de guerra, Archie Jones e Samad Iqbal. Sua linguagem soava fresca e din\u00e2mica ao se ancorar na coloquialidade e na cultura imigrante no <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/reino-unido\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Reino Unido<\/a>.<\/p>\n<p>Zadie tinha 24 anos quando virou best-seller \u2014e seus romances subsequentes, como <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2007\/10\/336865-leia-trecho-de-sobre-a-beleza-de-zadie-smith.shtml?mobile\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Sobre a Beleza&#8221;<\/a> e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2018\/10\/zadie-smith-volta-ao-passado-para-refletir-sobre-o-racismo-atual-em-novo-livro.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">&#8220;Ritmo Louco&#8221;<\/a>, seguiram a mesma receita em escopo e ousadia, sempre numa ret\u00f3rica muito contempor\u00e2nea. Agora o novo &#8220;A Fraude&#8221; \u00e9 seu primeiro romance hist\u00f3rico, com personagens reais.<\/p>\n<p>Ambientada na Inglaterra vitoriana, a obra que acaba de sair pela Companhia das Letras com tradu\u00e7\u00e3o de Camila von Holdefer narra o julgamento de um homem que clama ser Roger Tichborne, um nobre desaparecido h\u00e1 tempos. Mesmo com as fortes evid\u00eancias em contr\u00e1rio, ele angaria um s\u00e9quito de f\u00e3s em torno de seu carisma e do que podemos chamar de certa postura antissistema.<\/p>\n<p>Conforme as quase 600 p\u00e1ginas avan\u00e7am, ganha import\u00e2ncia na trama um aliado de Tichborne, o senhor Bogle, ex-escravizado que tem ra\u00edzes na Jamaica, como a autora do livro. No universo criado por Zadie, vai ficando claro que todo mundo mente, todo mundo finge \u2014a quest\u00e3o \u00e9 quem pode fazer isso e quem \u00e9 perseguido.<\/p>\n<p>Uma das discuss\u00f5es centrais do romance, por exemplo, \u00e9 como escritores roubam experi\u00eancias alheias para construir sua obra \u2014e sua personalidade. \u00c9 o que Zadie afirma n\u00e3o conseguir mais fazer como antes.<\/p>\n<p>&#8220;Alguns roubam mal, outros como <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2016\/06\/1779862-veja-10-curiosidades-sobre-dickens-que-completa-146-anos-de-morte.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Charles Dickens<\/a> roubavam bem, mas \u00e9 isso que autores fazem. Eu n\u00e3o defendo, n\u00e3o \u00e9 um tra\u00e7o agrad\u00e1vel, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma vers\u00e3o dessa profiss\u00e3o que n\u00e3o seja um roubo cont\u00ednuo&#8221;, diz, com o rosto totalmente s\u00e9rio.<\/p>\n<p>E \u00e9 isso que costuma ferir as pessoas ao redor. &#8220;N\u00e3o \u00e9 que haja mal\u00edcia, mas \u00e9 intoler\u00e1vel quando escrevem sobre voc\u00ea. \u00c9 repugnante ser achatado, transformado em um personagem. Sem ofensa, mas eu n\u00e3o suporto a vers\u00e3o de mim que aparece nos artigos de jornal. Ent\u00e3o eu entendo a irrita\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A Fraude&#8221; \u00e9 contado da perspectiva da governanta Eliza Touchet, parceira do escritor William Harrison Ainsworth, que existiu mesmo no s\u00e9culo 19 e foi compadre de Dickens e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq1301200614.htm\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">William Thackeray<\/a> \u2014ambos aparecem no enredo, com frequ\u00eancia na chave de zombaria que tempera o romance todo.<\/p>\n<p>A empregada brinca em certo momento que &#8220;o senhor Dickens&#8221;, admirado pela generosidade que tinha com os \u00f3rf\u00e3os desfavorecidos da regi\u00e3o, &#8220;veio a Manchester em primeiro lugar em busca de personagens&#8221;.<\/p>\n<p>Quanto ao senhor Ainsworth, &#8220;ali as fantasias de 1820 persistiam, como um cen\u00e1rio dissonante&#8221;. &#8220;Tudo j\u00e1 fora usado antes ou fora surrupiado da vida&#8221;, diz a narra\u00e7\u00e3o. &#8220;Desse tecido desgastado e dessa verdade sequestrada s\u00e3o feitos os romances.&#8221;<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>S\u00e3o argumentos que conversam com o momento de crise da pr\u00f3pria Zadie. O rep\u00f3rter pergunta se ela ainda v\u00ea esses cl\u00e1ssicos do c\u00e2none brit\u00e2nico como inspira\u00e7\u00e3o ou s\u00f3 como algo a desmontar.<\/p>\n<p>&#8220;Sabe, eu n\u00e3o leio Dickens desde crian\u00e7a&#8221;, diz. &#8220;Eu amo os escritores brit\u00e2nicos e n\u00e3o quero ofender uma classe a que eu perten\u00e7o, mas sempre achei que nosso maior talento era para literatura infantil, de \u2018Alice no Pa\u00eds das Maravilhas\u2019 a \u2018<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/harry-potter\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Harry Potter<\/a>\u2019. Somos brilhantes nisso. Eu adoro Dickens, mas n\u00e3o acho que seja um escritor para adultos.&#8221;<\/p>\n<p>A literatura mais adulta de que tem gostado vem do Jap\u00e3o, da Escandin\u00e1via, da \u00c1frica Ocidental e da Am\u00e9rica do Sul. &#8220;\u00c9 dif\u00edcil imaginar um Borges saindo do Reino Unido&#8221;, elogia.<\/p>\n<p>Infantilidade, para Zadie, \u00e9 menos ofensa que constata\u00e7\u00e3o. Quando o rep\u00f3rter pergunta se ela ainda se sente crian\u00e7a de alguma forma, a resposta positiva vem na lata.<\/p>\n<p>&#8220;Quando voc\u00ea passa dos 40 anos, percebe que o que h\u00e1 ao seu redor s\u00e3o crian\u00e7as de terno e chap\u00e9u. Voc\u00ea acha que vai estar entre adultos, mas est\u00e1 literalmente olhando para crian\u00e7as&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>&#8220;E n\u00e3o ajuda o fato de meu trabalho ser t\u00e3o pueril. N\u00f3s, escritores, passamos muito tempo fechados sozinhos numa sala, n\u00e3o lidamos com a fric\u00e7\u00e3o com outras pessoas. Esse \u00e9 um dos grandes problemas de quem come\u00e7a jovem como eu, \u00e9 muito dif\u00edcil amadurecer num v\u00e1cuo. \u00c9 por isso que acho muitos escritores constrangedores.&#8221;<\/p>\n<p>A entrevista com a autora dura meia hora, todos os minutos marcados por franqueza divertida e incomum. Zadie envereda por discursos longos e contundentes em cada resposta, se perde emendando uma coisa na outra e, quando v\u00ea que o interlocutor faz men\u00e7\u00e3o de falar, se interrompe r\u00e1pido e diz: &#8220;Vai&#8221;.<\/p>\n<p>O rep\u00f3rter pergunta se essa postura de n\u00e3o querer mais ferir as pessoas \u2014deixar para tr\u00e1s o tempo de jovem destrutiva\u2014 vai afetar a sua literatura. &#8220;Provavelmente vai me tornar uma escritora pior. Mas tudo bem. Eu j\u00e1 escrevi muito, sabe&#8221;, diz a autora de seis romances, duas colet\u00e2neas de contos e tr\u00eas livros de ensaios.<\/p>\n<p>&#8220;Tenho sorte porque posso me dar ao luxo de fazer essa escolha. N\u00e3o quero escrever porque \u00e9 minha profiss\u00e3o, porque est\u00e1 na hora de publicar outro romance. Quero escrever porque quero escrever. Mas n\u00e3o desejo mais os romances do que desejo a vida.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Zadie Smith n\u00e3o liga se nunca mais escrever um grande livro. \u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o estranha vinda de qualquer&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":89222,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,1907,445,236,736,864,237,170,32,33,713,1016,22467],"class_list":{"0":"post-89221","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-escritores","12":"tag-europa","13":"tag-folha","14":"tag-historia","15":"tag-literatura","16":"tag-livro","17":"tag-livros","18":"tag-portugal","19":"tag-pt","20":"tag-reino-unido","21":"tag-romance","22":"tag-zadie-smith"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89221\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}