{"id":89848,"date":"2025-09-28T10:18:22","date_gmt":"2025-09-28T10:18:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/89848\/"},"modified":"2025-09-28T10:18:22","modified_gmt":"2025-09-28T10:18:22","slug":"dia-7-pedrogao-grande-guilhermina-perdeu-o-marido-na-estrada-da-morte-guilhermina-so-precisa-de-conversar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/89848\/","title":{"rendered":"Dia 7, Pedr\u00f3g\u00e3o Grande. Guilhermina perdeu o marido na Estrada da Morte, Guilhermina s\u00f3 precisa de conversar"},"content":{"rendered":"<p>\t                O PA\u00cdS DO MEIO || A EN2 amaina \u00e0 entrada de Pedr\u00f3g\u00e3o Grande e as bermas ainda mostram o agosto chamuscado; Vila Facaia n\u00e3o ardeu desta vez. Fa\u00e7o o truque antigo e ligo ao padre Armando: n\u00e3o sabe o nome, sabe a hist\u00f3ria, uma senhora que perdeu o marido na Estrada da Morte. Encontro-a no fim da missa, chuva mi\u00fada no adro: chama-se Guilhermina, d\u00e1-me boleia de guarda-chuva at\u00e9 ao caf\u00e9. Compra um garoto clarinho, muito clarinho, para poder dormir, eu fico-me pelo caf\u00e9. Pede que falemos de frente porque o aparelho auditivo dela partiu-se e custa mais de tr\u00eas mil euros, de frente ela pode ler-me os l\u00e1bios. Senta-se e, antes de qualquer pergunta, resolve a entrevista com uma frase s\u00f3: eu preciso de conversar<\/p>\n<p>esta \u00e9 uma s\u00e9rie de 14 reportagens de <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/perfil\/tiago-palma\/66d6e6a4d34ea1acf26dee78\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Tiago Palma<\/a>: de Tr\u00e1s-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos \u00edntimos de quem \u00e9 destes lugares &#8211; veja <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/autarquicas-2025\/nacional-2\/nos-somos-isto-nem-gloriosos-nem-miseraveis-este-e-o-pais-do-meio\/20250923\/68d2b797d34e58bc67961476\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">AQUI<\/a>\u00a0as outras reportagens <\/p>\n<p><strong>Pedr\u00f3g\u00e3o Grande (CNN Aut\u00e1rquicas 2025) &#8211;\u00a0<\/strong>Chegar a Vila Facaia \u00e9 entrar numa dobra da serra onde a chuva, mesmo mi\u00fada, muda o timbre das coisas.<\/p>\n<p>O som bate nas telhas e volta em surdina, como se o vale fosse uma concha a proteger quem ficou. Agosto fez-se ouvir aqui por perto \u2014 n\u00e3o como em 2017, mas o suficiente para deixar sinais: troncos tisnados a meio, a fuligem a trepar o p\u00e9 dos eucaliptos, a erva nova a tentar furar o carv\u00e3o. Vila Facaia, desta vez, escapou. O ar traz um cheiro de cinza molhada e outra coisa qualquer, h\u00famus que recome\u00e7a. O pa\u00eds, esse, costuma esquecer-se depressa; a paisagem n\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 um m\u00e9todo antigo de rep\u00f3rter para n\u00e3o entrar \u00e0s cegas numa aldeia: primeiro liga-se ao padre. Telefonei ao padre Armando, que reparte corpo e agenda por Vila Facaia e por Alvares, Arega, Campelo, Castanheira de Pera, Figueir\u00f3 dos Vinhos, Gra\u00e7a e Pedr\u00f3g\u00e3o Grande. Est\u00e1 c\u00e1 h\u00e1 pouco tempo, o suficiente para saber o essencial. \u201cH\u00e1 uma senhora que perdeu o marido na estrada.\u201d N\u00e3o sabia o nome, sabia a hist\u00f3ria. \u201cVai encontr\u00e1-la na missa de domingo.\u201d<\/p>\n<p>Domingo veio com o c\u00e9u baixo e a chuva mi\u00fada a lavar a cal\u00e7ada. Do adro via-se a aldeia reduzida ao que importa: telhados, vozes, passos. O sino, esse metr\u00f3nomo antigo, regulava o tempo por dentro. Entrei e esperei.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759054700_858_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>A missa terminou e as vozes alongaram as \u00faltimas s\u00edlabas at\u00e9 ao teto branco, manchado pela humidade que a serra aceita como quem aceita um destino. L\u00e1 fora, o adro encheu-se de guarda-chuvas abertos como flores disciplinadas. No vaiv\u00e9m dos cumprimentos, nos beijos apressados, no \u201cent\u00e3o at\u00e9 para a semana, se Deus quiser\u201d que vale como contrato de boa vizinhan\u00e7a, encontrei o padre Armando j\u00e1 em retirada para outra par\u00f3quia. Apontou com o queixo. Eu segui o gesto.<\/p>\n<p>Guilhermina estava a dois passos. Casaco de malha azul, saia azul, o cabelo puxado para tr\u00e1s com o rigor de quem aprendeu cedo que apresentar-se \u00e9 tamb\u00e9m cuidar dos outros. Digo quem sou, de onde venho, ao que venho. Ela escuta inteiro e resolve tudo com uma frase que abre port\u00f5es: \u201cEu preciso de conversar, o que me faz mais falta \u00e9 conversar.\u201d Abre o guarda-chuva castanho e d\u00e1-me boleia at\u00e9 ao caf\u00e9 mais pr\u00f3ximo \u2014 \u201cpara nos livrarmos desta \u00e1gua, que isto faz mal \u00e0 gente\u201d. Entramos numa sala curta que cheira a torradas, os vidros ba\u00e7os a pedirem a manga de um casaco. O dono levanta os olhos de uma ch\u00e1vena, reconhece o domingo no corpo de quem entra e volta ao gesto de polir o balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela pede um garoto \u201cclarinho, muito clarinho, que \u00e9 para poder dormir\u201d. Eu pe\u00e7o um caf\u00e9. Sentamo-nos de frente para a rua. O guarda-chuva pinga perto da porta, o sino ainda ecoa, e a conversa inaugura-se sem cerimonial. De quando em quando Guilhermina pede que eu fale um pouco mais alto ou que vire o rosto de frente &#8211; para que ela possa ler-me \u201cos l\u00e1bios\u201d porque o aparelho auditivo dela partiu-se e \u201ccusta para mais de tr\u00eas mil euros\u201d, \u201co Estado n\u00e3o comparticipa nada\u201d e Guilhermina anda a tomar \u201cuma medica\u00e7\u00e3o para ver se a audi\u00e7\u00e3o melhora um bocadinho:\u00a0\u201cEu tenho a impress\u00e3o de que sim, que melhorou.\u201d Fala com as m\u00e3os, \u00e0s vezes amassa um guardanapo pequeno que guarda na manga, gesto antigo e discreto de quem organiza o que sente antes de entregar o que diz.<\/p>\n<p>Tem 80 anos e assina-se com uma geografia: \u201cSou dos Campelos.\u201d Nasceu aqui, foi para Lisboa com 14 \u2014 costura primeiro, f\u00e1brica depois, \u201cum bocadinho de tudo\u201d \u2014, voltou 21 anos mais tarde, \u201cpor for\u00e7a da vida\u201d. O ano era 1981, \u201co marido era da hotelaria, quis sossegar a cabe\u00e7a\u201d. Fizeram ali \u201cuma casita\u201d, ajardinaram o quotidiano, tiveram \u201cos seus amiguitos\u201d, viram-nos partir, \u201ce n\u00f3s para aqui j\u00e1 reformados\u201d. Quando lhe pe\u00e7o a inf\u00e2ncia, a palavra que regressa n\u00e3o \u00e9 mis\u00e9ria, \u00e9 tom: \u201cPobre mas muito alegre.\u201d Escola prim\u00e1ria, barulheira de crian\u00e7as, a sensa\u00e7\u00e3o de que os dias, por mais curtos, chegavam para tudo. Gosta de c\u00e1 estar, repete sem rebu\u00e7o. O problema, hoje, n\u00e3o \u00e9 de telhados nem de p\u00e3o &#8211; \u00e9 de gente. \u201cSomos poucos e cada um tem a sua vida. O que me faz mais falta \u00e9 conviver, uma palavra amiga. Por vezes n\u00e3o h\u00e1.\u201d<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio dos dias n\u00e3o tem hero\u00edsmos. N\u00e3o acorda \u00e0s 06:00 \u2014 \u201cnunca me levantei a essa hora para ir trabalhar\u201d. Pequeno-almo\u00e7o, um salto \u00e0 horta \u201cs\u00f3 um bocadinho\u201d, televis\u00e3o a goles \u2014 \u201cgosto de ver o programa da Cristina, mas n\u00e3o tenho paci\u00eancia para estar ali muito tempo, ando fora e dentro, dentro e fora\u201d. Ao primeiro plano de labaredas no telejornal, ainda o piv\u00f4 n\u00e3o disse \u201cfogo\u201d e o comando j\u00e1 est\u00e1 na m\u00e3o: corta-se o som, apaga-se o ecr\u00e3, fecha-se a porta \u00e0 corrente de ar que ela conhece de cor. \u201cN\u00e3o consigo, n\u00e3o preciso.\u201d M\u00e9dico de fam\u00edlia tr\u00eas vezes por semana \u2014 \u201co doutor Raul \u00e9 como da fam\u00edlia\u201d \u2014, multibanco, centro de dia que houve e fechou, atividades \u201cpara o concelho\u201d, noutra freguesia. Falta qualquer coisa que traga as pessoas \u00e0 mesma mesa. \u201c\u00c9 disso que eu precisava: atividades, conviver. Do que tenho mais falta \u00e9 de conv\u00edvio.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759054701_223_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Para voltar a 2017 \u00e9 preciso ir devagar. N\u00e3o por pudor, por respeito. Guilhermina acena com os olhos e traz a mem\u00f3ria para a beira da mesa. \u201cO fogo cantou todo o dia.\u201d N\u00e3o h\u00e1 met\u00e1fora, h\u00e1 som. Era o m\u00eas \u201cde arranjar a igreja\u201d, levavam flores, compunham panos, e o marido passara o dia \u201ca cantar no coro\u201d. \u00c0 tarde \u201cficou tudo escuro de repente\u201d. Uma vizinha aflita, um carro vindo de Mosteiro, \u201ca senhora vinha a gritar que o fogo j\u00e1 passou para c\u00e1\u201d. Houve quem perguntasse se tinham carro e quem oferecesse lev\u00e1-los \u201cl\u00e1 para cima\u201d. O fog\u00e3o estava aceso, preparavam o jantar. Ele disse a frase com calma perigosa: \u201cTu est\u00e1s sempre com medo do fogo. O fogo nunca c\u00e1 chega.\u201d Fechou o g\u00e1s. Foram ver a mangueira l\u00e1 fora. \u201cEu disse \u2018pega no carro e foge\u2019.\u201d Foi a \u00faltima frase inteira que lhe disse. Ele entrou para buscar a carteira. Ela abriu a torneira. N\u00e3o o viu sair. \u201cQuando isto acalmar, ele vem\u201d, pensou. N\u00e3o veio.<\/p>\n<p>O depois foi um corredor de paredes altas. Passou a tarde a convencer-se de que, quando aquilo acalmasse, ele ia voltar pelo mesmo caminho, o motor a anunciar-se antes da curva. \u00c0 noite, nada. De madrugada, sentou-se \u00e0 mesa, o telefone ao lado, come\u00e7ou a ligar para os hospitais \u00e0s seis, s\u00f3 lhe atenderam \u00e0s oito, repetiu o nome devagar para que a mulher do outro lado percebesse \u2014 \u201cFernando Freire dos Santos\u201d \u2014, esperou em sil\u00eancio. A resposta repetiu-se: n\u00e3o deu entrada. Pediu a um bombeiro e a um vizinho que a viessem acordar se houvesse not\u00edcias. Ao segundo dia chegou a hip\u00f3tese de ele estar em Avelar. Quis acreditar, agarrou-se a essa hip\u00f3tese com as duas m\u00e3os. O sobrinho, ao telefone, foi seco e honesto: j\u00e1 ligara \u201cpara todo o lado, at\u00e9 para Espanha\u201d, o tio n\u00e3o estava em lado nenhum. Foi ent\u00e3o que lhe saiu a frase que ningu\u00e9m quer dizer de si para si, \u201cse n\u00e3o est\u00e1 nos vivos tem de estar nos mortos\u201d. Levaram-na para a Miseric\u00f3rdia \u2014 \u201cainda bem que me levaram, n\u00e3o sei o que seria\u201d \u2014, deram-lhe horas quando ela j\u00e1 n\u00e3o tinha horas, comprimidos para o corpo obedecer quando a cabe\u00e7a n\u00e3o obedecia. S\u00f3 ao quinto dia a Pol\u00edcia Judici\u00e1ria apareceu, confirmou o que o corpo j\u00e1 sabia. \u201cA Judici\u00e1ria falou comigo \u00e0 quarta, o funeral foi \u00e0 sexta, eu nem tenho ideia de o p\u00f4r l\u00e1 para baixo.\u201d A sala cheirava ao que a morte cheira quando chega queimada. \u201cN\u00e3o se podia estar ao p\u00e9 do caix\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Depois veio o invent\u00e1rio do porqu\u00ea. Mais tarde, alinhou trajetos: ele foi visto \u201ccalmo\u201d \u2014 \u201cdisseram isso, eu n\u00e3o acredito\u201d \u2014, parou num lugar onde nunca ia, falou com uma senhora, seguiu para a EN236-1, virou para Figueir\u00f3 \u2014 \u201cn\u00f3s nunca gost\u00e1mos de ir para a Castanheira\u201d \u2014 e ficou quase no cruzamento que desce para casa. O relat\u00f3rio dizia que um carro bateu atr\u00e1s e o empurrou para a berma. Quando a televis\u00e3o encheu o ecr\u00e3 com a fila de carros calcinados, ela reconheceu. \u201cO meu carro estava \u00e0 frente daquela carrinha branca.\u201d<\/p>\n<p>A 17 de junho de 2017 morreram 47 pessoas na EN236-1, 30 presas nos carros, e ao todo foram 66 vidas em Pedr\u00f3g\u00e3o. Os n\u00fameros s\u00e3o um ch\u00e3o sem conforto. Guilhermina fala sobre o que ficou: a f\u00e9 \u2014 \u201ceu sento-me no carro e digo \u2018Senhor, ajuda-me, guarda-me, acompanha-me\u2019\u201d \u2014; o doutor Raul, \u201cquase fam\u00edlia\u201d; psic\u00f3logos que entraram em casa e arrumaram gavetas vis\u00edveis e invis\u00edveis; a carta ao Presidente, carta que ela escreveu e rasgou<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O que \u00e9 que dizia na carta?<\/p>\n<p>\u2014 Eu, nessa altura, falei mais com o cora\u00e7\u00e3o do que com a boca. Mas \u00e9 que eu n\u00e3o a mandei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Fale.<\/p>\n<p>\u2014 Foi sobre a perda, sobre\u2026 olhe, j\u00e1 n\u00e3o me lembro assim muito bem, mas sei que foi sobre a perda, sobre o que se passou. Porque n\u00f3s n\u00e3o tivemos\u2026 n\u00f3s n\u00e3o tivemos bombeiros. E n\u00f3s tamb\u00e9m temos de ser realistas: ningu\u00e9m \u00e9 capaz de fazer frente \u00e0quilo.\u00a0<\/p>\n<p>foi a carta que ela escreveu e rasgou. \u201cEu n\u00e3o queria dinheiro nenhum, o que eu perdi ningu\u00e9m pode dar. Precisava era de uma palavra.\u201d O tempo levou a raiva e deixou uma serenidade triste. \u201cSe fosse hoje, talvez nem dissesse nada.\u201d N\u00e3o acredita em promessas vindas de longe, acredita em vizinhos que tocam \u00e0 porta. \u201cUma palavra basta.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759054701_744_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Houve festas \u201cpara angariar dinheiro\u201d no dia em que se cumpriram tr\u00eas meses. \u201cEu n\u00e3o queria festa nenhuma.\u201d N\u00e3o \u00e9 contra o gesto; \u00e9 a favor da propor\u00e7\u00e3o. \u201cFic\u00e1mos muito a falar de dinheiros\u201d, uns receberam, outros n\u00e3o, \u201cuns mais do que outros\u201d, e as aldeias, que se valiam por dizerem tudo, calaram-se um bocado, medo de dizer demasiado. \u201cAs pessoas ficaram mais fechadas.\u201d<\/p>\n<p>A sala do caf\u00e9 encolhe quando a palavra \u201cculpa\u201d entra. \u201cCulpei-me.\u201d Ouviu m\u00e9dicos, ouviu a Judici\u00e1ria \u2014 \u201cele ia morrer na mesma\u201d \u2014, e foi empurrando a culpa para fora da mesa. N\u00e3o desapareceu, \u201cficou mais baixinha\u201d. Houve noites em que ouviu o marido chorar. Corrige: \u201cTodas as noites.\u201d Agora ouve \u201cmuito levezinho\u201d, como um eco. Disseram-lhe: \u201cSe estiver bem, ele tamb\u00e9m est\u00e1.\u201d Teve de aprender a esquecer \u201cum bocadinho\u201d. E houve um tempo em que a solid\u00e3o pesou tanto que o pensamento correu para o s\u00edtio errado. \u201cNunca pensei nisso, mas parecia capaz\u2026 ainda bem que n\u00e3o fui.\u201d Pousa as m\u00e3os, uma sobre a outra, respira devagar. Depois arruma a frase: \u201cEu agarrei-me \u00e0s mem\u00f3rias boas. N\u00f3s \u00e9ramos felizes. Cada um com o seu feitio, claro, mas \u00e9ramos amigos.\u201d<\/p>\n<p>Quando fala sobre o carro, a tristeza muda de textura. Passou um ano at\u00e9 comprar outro. No dia em que o amigo telefonou \u2014 \u201cest\u00e1 c\u00e1\u201d \u2014, as pernas tremeram. \u201cO que \u00e9 que eu vou fazer?\u201d O amigo simplificou: \u201cCompras o carro e, se n\u00e3o der, vendes.\u201d Deu. Tirou a carta aos 56, hoje conduz a Pedr\u00f3g\u00e3o e a Figueir\u00f3, estaciona longe \u2014 \u201cgosto de espa\u00e7o\u201d \u2014, reza a ora\u00e7\u00e3o curta antes de rodar a chave. \u201cEu vou devagar\u201d, ri-se. \u201cEu gosto de ir devagar.\u201d Na conversa sobre estradas entra a frase que feriu a geografia: \u201cEstrada da Morte\u201d. \u00c9 o nome que ficou, o nome que d\u00f3i. \u201cEu procuro n\u00e3o ir l\u00e1\u201d, confessa. \u201cQuando vou, choro.\u201d Gostava que Pedr\u00f3g\u00e3o n\u00e3o fosse s\u00f3 isto nas not\u00edcias. \u201cEra melhor falarem das coisas boas tamb\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, a tarde continua h\u00famida. Agosto passou outra vez por perto; v\u00ea-se nas bermas, na fuligem que sobe no tronco dos eucaliptos, na erva entre o ferrugem e o verde. Vila Facaia escapou. \u201cEu n\u00e3o sou capaz de aguentar outro\u201d, diz com a verdade de quem sabe. Fala de limpezas que se exigem e n\u00e3o se fazem, de gente sem idade para segurar ferramentas, de gente sem dinheiro para pagar a quem limpe e de um problema que come\u00e7a antes do dinheiro: \u201c\u00c0s vezes n\u00e3o temos a quem.\u201d N\u00e3o quer ganhar nenhuma discuss\u00e3o, quer resolver a parte que lhe toca. \u201cEu n\u00e3o preciso de nada. Preciso de uma palavra amiga.\u201d<\/p>\n<p>O nome do m\u00e9dico \u2014 \u201cdoutor Raul\u201d \u2014 aparece a intervalos regulares, como quem chama fam\u00edlia. \u201cN\u00f3s fic\u00e1mos quase muito de fam\u00edlia.\u201d O m\u00e9dico que ouve, o psic\u00f3logo que entra, as pessoas \u201cmais habilitadas\u201d que ajudam a colocar etiquetas nas gavetas da cabe\u00e7a. Nem todas as portas abriram bem. Foi a casa de uma amiga \u00e0 procura de uma palavra. \u201cEu fui a chorar.\u201d Ouviu dela: \u201cTu est\u00e1s assim?\u201d \u201cSa\u00ed triste e ainda fiquei pior.\u201d H\u00e1 amizades que n\u00e3o t\u00eam o dom da frase certa. \u201cAs pessoas tamb\u00e9m n\u00e3o querem ter a sua vida em n\u00f3s. E eu tamb\u00e9m entendo isso.\u201d Fica, no entanto, o grito de uma tarde inteira: \u201cNingu\u00e9m tem tempo. Ai, ningu\u00e9m tem tempo.\u201d<\/p>\n<p>O tempo esticou-se. De 2017 a hoje coube tudo o que cabe quando se aprende a continuar. \u201cEu nunca pensei ser capaz de levantar os olhos do ch\u00e3o.\u201d Pede a Deus \u2014 \u201co que puder fazer bem\u201d \u2014 e vigia a cabe\u00e7a como quem vigia o lume. N\u00e3o pensa no futuro &#8211; n\u00e3o por desist\u00eancia, f\u00e1-lo por c\u00e1lculo. \u201cEnquanto eu puder n\u00e3o saio da minha casa.\u201d Um convite para a B\u00e9lgica, \u201cdois meses\u201d, arrumado com a delicadeza de quem sabe o peso de sair. \u201cN\u00e3o \u00e9 agora.\u201d A casa, a horta, o pequeno retrato do marido que ajeita antes de sair, o doutor que atende \u201ccomo fam\u00edlia\u201d, a televis\u00e3o vista \u00e0s presta\u00e7\u00f5es, o carro que anda devagar, a ora\u00e7\u00e3o breve que cabe numa \u00fanica respira\u00e7\u00e3o. O mundo cab\u00edvel.<\/p>\n<p>H\u00e1 um lugar em Pedr\u00f3g\u00e3o onde a mem\u00f3ria se tornou pedra. Um memorial de pedra escura, os nomes talhados, a chuva a escorrer como caligrafia. Guilhermina acha que \u201cest\u00e1 mal feito\u201d terem posto \u201cas pessoas l\u00e1 de cima ali\u201d. N\u00e3o \u00e9 ressentimento, \u00e9 medida do luto. Foi l\u00e1 \u201csozinha\u201d a primeira vez, demorou, chorou. Hoje evita. \u201cProcuro n\u00e3o ir porque mexe.\u201d Quando tem de passar olha de soslaio ou n\u00e3o olha de todo. E depois h\u00e1 dias em que \u00e9 preciso dizer bom dia aos mortos para se poder seguir junto dos vivos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759054701_208_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>As m\u00e3os de Guilhermina desenham no ar a topografia da estrada. Mosteiro, Moleiros, a curva onde se vira para casa, a reta onde o carro foi empurrado para a berma. As m\u00e3os tamb\u00e9m fixam os termos da perda. \u201cEu sou a pessoa mais pobre que h\u00e1.\u201d N\u00e3o fala de dinheiro. \u201cEu n\u00e3o tenho ningu\u00e9m.\u201d Outra vez:\u00a0\u201cEu n\u00e3o tenho ningu\u00e9m.\u201d Tem sobrinhos, t\u00eam vida, t\u00eam dist\u00e2ncias. Fica a palavra que, na boca dela, n\u00e3o \u00e9 queixa &#8211; \u00e9 facto: \u201cSolid\u00e3o.\u201d E a resposta que encontrou: \u201cEu s\u00f3 confio Naquele l\u00e1 de cima.\u201d<\/p>\n<p>No dia em que se cumpriram tr\u00eas meses daquele dia de 2017 organizaram uma festa \u201c\u00e0 janta\u201d, \u201cpara angariar dinheiro\u201d. \u201cEu n\u00e3o queria festa nenhuma.\u201d Havia listas, distribui\u00e7\u00e3o, sobra de ru\u00eddo. \u201cO dinheiro foi guardado para os amigos.\u201d N\u00e3o recebeu nada \u2014 \u201cquando l\u00e1 cheguei j\u00e1 n\u00e3o havia\u201d. N\u00e3o \u00e9 esse o invent\u00e1rio que lhe interessa. \u201cO que eu perdi ningu\u00e9m pode dar.\u201d O que queria \u2014 repete \u2014 era \u201cuma palavra\u201d. H\u00e1 um pa\u00eds que gosta de se organizar ao redor de verbas, contas certas, relat\u00f3rios que aliviam consci\u00eancias. Este peda\u00e7o do pa\u00eds pede mesas.<\/p>\n<p>No caf\u00e9 de Vila Facaia, a palavra \u201cmesa\u201d ganha literalidade. A mesa onde se pousam as m\u00e3os e o guardanapo amassado. A mesa onde se escreveu uma carta e se decidiu rasg\u00e1-la. A mesa de cabeceira onde se alinham os comprimidos que empurram o sono. A mesa da cozinha onde a televis\u00e3o se v\u00ea aos peda\u00e7os. A mesa do carro, que \u00e9 um altar m\u00ednimo: \u201cSenhor, ajuda-me, guarda-me, acompanha-me.\u201d A mesa da igreja, onde o coro cantou todo o dia neste dia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"667\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759054702_241_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Ela pede desculpa por me \u201cter prendido\u201d. Quer pagar o garoto dela \u2014 \u201co meu garoto \u00e9 comigo\u201d. Eu pago o meu caf\u00e9. Rimo-nos da formalidade destas vit\u00f3rias morais. Antes de sair, Guilhermina tira da mala um pente pequenino, passa-o devagar pelo cabelo. L\u00e1 fora, duas vizinhas observam, cochicham sem maldade. Guilhermina faz quest\u00e3o de me apresentar \u2014 \u201cpara que depois n\u00e3o andem para a\u00ed a falar mal\u201d. Dar nome \u00e0s pessoas \u00e9 fazer-lhes casa.<\/p>\n<p>Ficamos um pouco no adro, a fotografar de frente para a igreja, encostados ao muro, junto \u00e0s flores de pl\u00e1stico que teimam o ano inteiro. H\u00e1 uma paz breve na coreografia. Antes de se despedir, diz que \u201cfez bem falar\u201d, como se a conversa fosse um rem\u00e9dio que n\u00e3o cura &#8211; alivia. Despedimo-nos devagar, com a lentid\u00e3o pactuada dos lugares onde ningu\u00e9m tem pressa de ir longe.<\/p>\n<p>Vejo-a entrar no carro e a baixar um segundo a cabe\u00e7a. Sussurra a ora\u00e7\u00e3o curta, liga o motor, arranca devagar. Tem de ir a Pedr\u00f3g\u00e3o comprar p\u00e3o, leite, um saco de arroz \u2014 \u00e2ncoras pequenas de quotidiano. Para l\u00e1 chegar h\u00e1 de entrar na EN236-1. H\u00e1 de passar ao lado do lago artificial que a estrada fez, espelho im\u00f3vel colado ao talude, e do memorial de pedra escura. Pode olhar de soslaio ou n\u00e3o olhar de todo. Entre os nomes, um que sabe de cor: Fernando Freire dos Santos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759054702_466_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Fico um pouco depois dela partir. Releio o caderno para n\u00e3o estragar as palavras dos outros. Anoto que a aldeia n\u00e3o precisa de discursos; precisa de mesas. Que a solid\u00e3o envelhece mais depressa do que a idade. Que \u201cpobre, mas muito alegre\u201d \u00e9 um hino melhor do que qualquer slogan. Que h\u00e1 dores que n\u00e3o passam \u2014 aprendem a andar ao nosso ritmo. Que uma mulher que se despede no adro vai pelo seu p\u00e9 at\u00e9 ao carro, reza baixinho e segue, ensina sem levantar a voz a diferen\u00e7a entre sobreviver e continuar. E que Pedr\u00f3g\u00e3o Grande, no fim deste dia, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o nome de um inc\u00eandio. \u00c9 o nome de uma conversa que salvou a tarde, de um guarda-chuva que protegeu dois e de uma estrada onde a chuva t\u00e9nue escreve em cima da pedra o que nenhum de n\u00f3s devia esquecer.<\/p>\n<p>Volto \u00e0 primeira frase que ela me deu, essa chave simples para abrir uma aldeia inteira: \u201cEu preciso de conversar.\u201d Pensei se a conversa, aqui, se chamava outra coisa: p\u00e3o, m\u00e9dico, transporte, uma tarde de cartas, um baile antigo, uma horta em conjunto, um autocarro que passa, uma carrinha que busca. Chame o que se quiser \u2014 no fim \u00e9 isto: a presen\u00e7a que nos amarra ao ch\u00e3o. Em Vila Facaia, a palavra ainda \u00e9 um abrigo. E Guilhermina, com o seu garoto clarinho e o seu pente de bolso, com a carta que rasgou e a ora\u00e7\u00e3o que repete, lembra-nos o que o pa\u00eds tende a esquecer assim que a fuligem arrefece: que h\u00e1 lugares onde o essencial cabe inteiro numa mesa com duas ch\u00e1venas, um guardanapo amassado e tempo para ouvir.<\/p>\n<p>Se me pedissem uma linha para fechar, talvez n\u00e3o escolhesse uma frase \u2014 escolheria um gesto. O de Guilhermina a ajeitar o cabelo e a apresentar-me \u00e0s vizinhas para que \u201cdepois n\u00e3o andem a falar mal\u201d. No dicion\u00e1rio \u00edntimo das aldeias, \u00e9 assim que se cura um bocado o mundo: d\u00e1-se nome, d\u00e1-se rosto, d\u00e1-se tempo. O resto \u00e9 estrada \u2014 e a coragem, sempre, de ir devagar.<\/p>\n<p>O Pa\u00eds do Meio n\u00e3o \u00e9 um roteiro, pelo menos n\u00e3o tur\u00edstico. Esta \u00e9 uma s\u00e9rie de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Tr\u00e1s-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos \u2014 \u00edntimos, sabedores e naturais \u2014 de quem \u00e9 das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. N\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3rias de alcatr\u00e3o, s\u00e3o hist\u00f3rias do caminho, do pa\u00eds real, ouvindo a voz de quem n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia \u2014 mas \u00e9 um pa\u00eds, ou faz um pa\u00eds. Na antec\u00e2mara das Aut\u00e1rquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem pol\u00edtica; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: \u201cCultivo-me pelos olhos e pelos p\u00e9s, no alfabetismo \u00edntimo das coisas\u201d.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma s\u00e9rie de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Tr\u00e1s-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos \u00edntimos de quem \u00e9 destes lugares<\/p>\n<p>  Reportagem publicada\n   <\/p>\n<p>  Em breve\n   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O PA\u00cdS DO MEIO || A EN2 amaina \u00e0 entrada de Pedr\u00f3g\u00e3o Grande e as bermas ainda mostram&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":89849,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[609,611,2431,22570,27,28,607,608,604,610,539,22573,22574,22572,15,16,3963,14,2830,603,25,26,570,21,22,606,12,13,19,20,22571,602,9942,32,23,24,33,679,58,605,17,18,29,30,31,22575],"class_list":{"0":"post-89848","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-alerta","9":"tag-ao-minuto","10":"tag-autarquicas-2025","11":"tag-autarquicas2025","12":"tag-breaking-news","13":"tag-breakingnews","14":"tag-cnn","15":"tag-cnn-portugal","16":"tag-crime","17":"tag-direto","18":"tag-educacao","19":"tag-en2","20":"tag-estrada-da-morte","21":"tag-estrada-nacional-2","22":"tag-featured-news","23":"tag-featurednews","24":"tag-fogo","25":"tag-headlines","26":"tag-incendios","27":"tag-justica","28":"tag-latest-news","29":"tag-latestnews","30":"tag-live","31":"tag-main-news","32":"tag-mainnews","33":"tag-meteorologia","34":"tag-news","35":"tag-noticias","36":"tag-noticias-principais","37":"tag-noticiasprincipais","38":"tag-o-pais-do-meio","39":"tag-pais","40":"tag-pedrogao-grande","41":"tag-portugal","42":"tag-principais-noticias","43":"tag-principaisnoticias","44":"tag-pt","45":"tag-reportagem","46":"tag-sociedade","47":"tag-tempo","48":"tag-top-stories","49":"tag-topstories","50":"tag-ultimas","51":"tag-ultimas-noticias","52":"tag-ultimasnoticias","53":"tag-vila-facaia"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89848","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89848"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89848\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89849"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}