{"id":91254,"date":"2025-09-29T10:00:25","date_gmt":"2025-09-29T10:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/91254\/"},"modified":"2025-09-29T10:00:25","modified_gmt":"2025-09-29T10:00:25","slug":"dia-8-serta-a-menina-da-radio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/91254\/","title":{"rendered":"Dia 8, Sert\u00e3. A menina da r\u00e1dio"},"content":{"rendered":"<p>\t                O PA\u00cdS DO MEIO || Uma r\u00e1dio de aldeia que, noite dentro, aguenta o mundo com um fio de voz. Um locutor que carrega nomes e respira pausas. Uma mulher que, ao port\u00e3o azul da Codiceira, segura dois r\u00e1dios como quem segura duas m\u00e3os. A \u201cLinha da Amizade\u201d n\u00e3o \u00e9 milagre: \u00e9 insist\u00eancia, \u00e9 riso t\u00edmido, \u00e9 o pa\u00eds que se reconhece pelos apelidos e pelas melhoras desejadas em direto\u00a0<\/p>\n<p>esta \u00e9 uma s\u00e9rie de 14 reportagens de <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/perfil\/tiago-palma\/66d6e6a4d34ea1acf26dee78\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Tiago Palma<\/a>: de Tr\u00e1s-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos \u00edntimos de quem \u00e9 destes lugares &#8211; veja <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/autarquicas-2025\/nacional-2\/nos-somos-isto-nem-gloriosos-nem-miseraveis-este-e-o-pais-do-meio\/20250923\/68d2b797d34e58bc67961476\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">AQUI<\/a>\u00a0as outras reportagens <\/p>\n<p><strong>Sert\u00e3 (CNN Aut\u00e1rquicas 2025) &#8211;\u00a0<\/strong>A seta \u00e9 pequena, quase escondida atr\u00e1s da sombra da parreira.\u00a0<\/p>\n<p>R\u00e1dio Condest\u00e1vel \u2192\u00a0<\/p>\n<p>Estrada lisa, passeio de pedra, um poste com placa velha a prometer bomba de gasolina a 300 metros. Ao fundo, um pr\u00e9dio sem ambi\u00e7\u00e3o de fachada. Na janela, o c\u00edrculo azul do log\u00f3tipo reflete um carro estacionado. \u201cDo centro de Portugal para o mundo: condest\u00e1vel, condest\u00e1vel, condest\u00e1vel\u2026\u201d, repete o separador quando a porta se fecha atr\u00e1s de mim. Dentro, um corredor curto, cheiro a equipamento limpo, um ar condicionado que luta com o resto do ver\u00e3o. O est\u00fadio respira com luzes a acender e a apagar. Mesa Axia iQ em vig\u00edlia, sliders alinhados como vag\u00f5es, teclado encostado ao rato, o micro vestido de espuma azul. Hugo Rafael pousa os auscultadores, confere a dist\u00e2ncia \u00e0 c\u00e1psula, testa a voz quase sussurrada. Quarenta e cinco anos, fim de tarde com m\u00fasicas novas, uma ponte pelos anos 80, duas horas a segurar mi\u00fados de 16 e trint\u00f5es com saudade. \u00c0 noite, das 23 \u00e0 uma, discos pedidos em ritmo de garagem: dedicat\u00f3rias curtas, abra\u00e7os lan\u00e7ados, nomes que trepam o vidro. E depois a pele mais funda da casa: a \u201cLinha da Amizade\u201d, heran\u00e7a de Maria do Ros\u00e1rio \u2014 que agora aparece aos domingos e no tempo das f\u00e9rias, mem\u00f3ria viva que o est\u00fadio ainda trata por \u201cminha senhora\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759140023_549_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Hugo n\u00e3o se despacha; volta ao in\u00edcio para assentar o terreno: \u201cIsto resultou de um ajuste na programa\u00e7\u00e3o, um ajuste de hor\u00e1rios. Eu tenho o programa de final da tarde, com um tipo de m\u00fasica completamente diferente.\u201d O est\u00fadio ouve-o pousar cada pedra. \u201cDepois, das 20 \u00e0s 21, tenho o programa de discos pedidos \u2014 um formato id\u00eantico, as dedicat\u00f3rias s\u00e3o mais curtas: essa \u00e9 a grande diferen\u00e7a. Eu j\u00e1 tinha feito este programa nas f\u00e9rias da colega\u2026 Com a altera\u00e7\u00e3o, fiquei com ele. E, como em tudo, encaro como um desafio: tento sempre dar o melhor e fazer o melhor trabalho poss\u00edvel.\u201d Fica dito: h\u00e1 um dia com duas velocidades e um cora\u00e7\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio encosta \u00e0s 23. Entra um spot como se fosse a mercearia da rua a abrir a porta:<\/p>\n<p>Est\u00e1 \u00e0 procura de qualidade e sabor de confian\u00e7a? Ent\u00e3o venha visitar os nossos talhos. Onde a tradi\u00e7\u00e3o e a frescura se encontram. Aqui, trabalhamos com as melhores carnes selecionadas para garantir o sabor que voc\u00ea e a sua fam\u00edlia merecem. Sabor e textura \u00e0 sua mesa  <\/p>\n<p>Acaba o an\u00fancio, a noite limpa as migalhas de som. \u00c9 segunda-feira. O n\u00famero cai no ar com a firmeza de quem sabe o caminho: \u201c274 800 021.\u201d Hugo inclina o corpo, uma m\u00e3o no slider, outra no bot\u00e3o de linha. N\u00e3o h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 ele que atende, que segura, que entra em off quando percebe que a conversa pede recato, que volta a abrir quando o ouvido lhe diz que \u00e9 tempo de partilhar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759140023_916_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Pede-me que repare no m\u00fasculo da continuidade; alonga a frase para caberem as pessoas todas:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um trabalho de continuidade. Na r\u00e1dio fazemos muita coisa \u2014 futebol, publicidade \u2014, mas o programa da noite \u00e9 mais espec\u00edfico. H\u00e1 muitos ouvintes que \u00e0quela hora ligam sempre religiosamente o r\u00e1dio. Podem estar a ver televis\u00e3o mas baixam o som e ouvem com toda a aten\u00e7\u00e3o as dedicat\u00f3rias, para escutar os nomes, saber se com os ouvintes que participam est\u00e1 tudo bem.\u201d E o mapa abre-se no monitor de som. \u201cGra\u00e7as \u00e0s novas tecnologias, temos muitos ouvintes que nos escutam no norte do pa\u00eds. A internet trouxe essa grande vantagem: podermos ser escutados em qualquer ponto do mundo, al\u00e9m dos muitos emigrantes que nos ouvem e acompanham.\u201d \u00c9 isto: fidelidade e alcance, a prov\u00edncia a falar com o mapa-m\u00fandi.<\/p>\n<p>A primeira chamada traz um pa\u00eds inteiro dentro da garganta. Alfredo Soares, voz macia de sala de jantar, alinhava destinat\u00e1rios como quem p\u00f5e a mesa:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos come\u00e7ar este espa\u00e7o com o Alfredo Soares. A dedicat\u00f3ria\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Vou dedicar aqui \u00e0s minhas princesas, vai para si e para toda a sua fam\u00edlia, um bom regresso \u00e0 sua casa, para os seus colegas a\u00ed e principalmente para a dona Maria Ros\u00e1rio. Agora vai para a dona Joaquina Serra, um beijinho para ela, para a filha e para as netas. Um beijinho para a dona Joaquina Dias, do Gavi\u00e3o. Para a dona Irmina, dos Marrazes. Um beijinho para a dona Georgina. E vai um abra\u00e7o para o senhor Ant\u00f3nio Manuel, da Marinha Grande. Ai, como \u00e9 que se chama o irm\u00e3o do Pinto da Silva? \u00c9 o Fernando Silva. E olha, um beijinho para todas as senhoras, um abra\u00e7o para todos os senhores. Quem esteja doente, r\u00e1pidas melhoras; quem fa\u00e7a anos, feliz anivers\u00e1rio. E sejam todos felizes, \u00e9 o que eu desejo.<\/p>\n<p>A r\u00e1dio regional tem esta gram\u00e1tica: os pronomes vestem-se de vizinhan\u00e7a, os nomes pr\u00f3prios atravessam concelhos como se fossem ruas do mesmo bairro, a repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o cansa \u2014 confirma. O pa\u00eds aparece nisto: na mec\u00e2nica amorosa de nomear, no gesto de espalhar parab\u00e9ns como se fosse arroz.<\/p>\n<p>Hugo baixa um pouco o tom e sublinha a \u00e9tica do programa: \u201cIsto n\u00e3o \u00e9 um programa de queixumes nem de negatividade, \u00e9 o oposto. Serve para levantar o \u00e2nimo. Muitas vezes, antes de irem para o ar, falamos em off e infelizmente h\u00e1 problemas de v\u00e1rios tipos \u2014 familiares, de sa\u00fade, com os pr\u00f3prios ou com familiares pr\u00f3ximos, com filhos \u2014 com regularidade. Normalmente, esse tipo de conversa os ouvintes n\u00e3o abordam no ar, focam-se no essencial.\u201d Ele respira, volta a cima.<\/p>\n<p>\u201cTemos ouvintes com diversos problemas, alguns com situa\u00e7\u00f5es complicadas. O meu objetivo \u2014 e aquilo que tento transmitir de forma natural, porque vejo sempre as coisas pelo lado positivo \u2014 \u00e9 nunca passar um sentimento negativo. Mesmo nas conversas, h\u00e1 in\u00fameros casos de pessoas que nos agradeceram a for\u00e7a que lhes damos. E temos familiares \u2014 filhos, por exemplo \u2014 que nos contactam para agradecer o que fizemos pelos pa\u00eds, sobretudo quando estiveram mais em baixo, com problemas de sa\u00fade. Aquela voz amiga, aquele contacto di\u00e1rio, naquele espa\u00e7o, ajudou muito a ultrapassar.\u201d O que d\u00f3i guarda-se em off, ao ar vai o que amarra.<\/p>\n<p>Logo depois cai a Georgina, do Tramagal. Ritmo um pouco mais alto, vida a acontecer no plural:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o o seu fim de semana, foi bom?<\/p>\n<p>\u2014 Olha, o meu foi, junta da malta, como se costuma dizer. N\u00e3o fui \u00e0 minha filha doente, mas falei com ela. J\u00e1 est\u00e1 um bocadinho melhor\u2026<\/p>\n<p>\u2014 E continua\u00e7\u00e3o de boas melhoras para todos os doentes em geral. Vamos daqui a pouco a receber e a recordar Lucas e Mateus. A dedicat\u00f3ria\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, vai j\u00e1 para si. Com um beijinho e bom trabalho, bom regresso \u00e0 sua casa, quando acabar o seu programa. Para todos os seus colegas tamb\u00e9m, que tenham uma santa noite. Para a senhora dona Maria do Ros\u00e1rio e fam\u00edlia e netinhos e sobrinhas \u2014 que j\u00e1 tem uma da idade tamb\u00e9m da minha Soraia, ao fim do m\u00eas j\u00e1 faz 20 anos. Agora vai para esse senhor de Torres Vedras, para o senhor Jo\u00e3o, tamb\u00e9m para a fam\u00edlia dele. Ele tem uma netinha pequenina \u2014 pequenina n\u00e3o \u2014 com cinco anos, a Beatriz. E eu tamb\u00e9m tenho uma Beatriz, s\u00f3 que a minha tem 17 anos. Mas tamb\u00e9m tenho uma netinha com cinco anos, que \u00e9 a minha netinha mais nova. Agora vai para quem? Para a minha S\u00f3nia, que est\u00e1 aqui comigo. Vai para Manuel Ramos e fam\u00edlia, de Vila Velha de R\u00f3d\u00e3o. Um beijinho especial para o Carlitos. Vai tamb\u00e9m para a dona Rosinha, de Amarante, e fam\u00edlia. Vai para o Jo\u00e3o Geirinhas, com um grande beijinho e as melhoras dele tamb\u00e9m. Vai os parab\u00e9ns para o Manuel Mitra e esposa, que tivesse passado um dia feliz junto da esposa \u2014 que o filho e a nora e o netinho j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o, est\u00e3o em Geneve.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma m\u00fasica sem partitura neste texto falado: uma cad\u00eancia que se alimenta do detalhe, um puxar de fios que liga Tramagal a Torres Vedras, R\u00f3d\u00e3o a Amarante, uma av\u00f3 que acerta no diminutivo antes de corrigir, uma genealogia que vive no r\u00e1dio como vivia dantes no adro. Quem est\u00e1 doente merece a mesma aten\u00e7\u00e3o que quem faz anos; quem tem netos diz o nome das crian\u00e7as porque dizer o nome \u00e9 fazer existir.<\/p>\n<p>Hugo, ainda com o indicador no fader, abre uma janela para fora do est\u00fadio: \u201cEm FM chegamos a uma vasta zona. Temos muitos ouvintes no Alentejo, em toda a \u00e1rea de Castelo Branco, Tomar, Santar\u00e9m; aqui no concelho e \u00e0 volta: Pampilhosa, Figueir\u00f3 dos Vinhos, Ferreira, Alvai\u00e1zere \u2014 atrav\u00e9s de tr\u00eas frequ\u00eancias \u2014, muitos ouvintes. Diria que s\u00e3o pessoas muito dadas, diretas, sinceras, n\u00e3o s\u00e3o fechadas. Contam-nos facilmente muita coisa da vida. A esmagadora maioria tem uma energia especial, uma abertura que eu destacaria.\u201d Diz o mapa e diz o car\u00e1cter \u2014 duas m\u00e3os do mesmo corpo.<\/p>\n<p>O Luciano vem de seguida, Torre das Vargens, voz de caminho devagar:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Dedicat\u00f3ria? Ora, \u00e9 j\u00e1 para si em primeiro lugar. Para todos os seus colegas. Para a senhora dona Maria do Ros\u00e1rio. Vai para todos os meus vizinhos da Torre das Vargens. Vai para o senhor Manuel Ramos, de Vila Velha de Rod\u00e3o, que j\u00e1 c\u00e1 chegou: um abra\u00e7o amigo. Para a senhora Georgina, do Tramagal, que ainda h\u00e1 bocado a ouvi. Para a senhora Quit\u00e9ria. Para o senhor Manuel do Coi\u00e7o. Para a senhora Ad\u00edlia. E para o Hugo Rafael: bom programa e bom regresso a casa.<\/p>\n<p>Quando o ritmo abranda, a noite respira. Entre chamadas, encaixa-se a vida p\u00fablica do concelho como quem anuncia o boletim da par\u00f3quia:<\/p>\n<p>\u2014 A edi\u00e7\u00e3o das 23 horas de seguida com Lu\u00eds Biscaia\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e3o publicamente apresentados os candidatos aut\u00e1rquicos do Partido Socialista \u00e0s elei\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo dia 12 de outubro, na Sert\u00e3. Esta apresenta\u00e7\u00e3o p\u00fablica foi feita na Alameda da Carvalha com o mote \u2018For\u00e7a para Avan\u00e7ar\u2019\u2026<\/p>\n<p>Acaba o notici\u00e1rio, volta a m\u00fasica, regressa a linha. \u201cAlinhe nesta linha e fique na Linha da Amizade. Linha da Amizade: passa tudo por aqui.\u201d N\u00e3o \u00e9 uma hip\u00e9rbole v\u00e3: o \u201ctudo\u201d \u00e9 esta soma de pequenas coisas que, juntas, d\u00e3o pa\u00eds. Hugo multiplica bra\u00e7os invis\u00edveis. Na m\u00e3o esquerda, o ganho da chamada; na direita, a respira\u00e7\u00e3o do tema que entra a seguir; no ouvido, o mapa de quem est\u00e1 a falar. Sabe de cor que a Georgina tem a Soraia quase a fazer 20, que em R\u00f3d\u00e3o vive um Manuel Ramos que \u00e0s vezes chega mais tarde e por isso merece \u201cum abra\u00e7o amigo\u201d, que h\u00e1 uma Quit\u00e9ria de Benqueren\u00e7as e um Manuel do Coi\u00e7o prontos para receber recados. Sabe tamb\u00e9m quando empurrar uma piada leve para aliviar a dor, quando deixar o sil\u00eancio ocupar um segundo a mais. A regra \u00e9 simples e leva tempo a aprender: n\u00e3o explorar a ferida, segurar a m\u00e3o, chamar a vida para dentro do micro. \u201cPara muitos, isto \u00e9 como uma segunda fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n<p>A frase fica-me a olhar o vidro. Percebe-se nas costuras: nos telefonemas fora de hora, nos invernos em que a linha abranda porque do outro lado o sono veio mais cedo, nas noites em que o locutor abre o micro antes do combinado para dar vez a quem nunca consegue, no cuidado de n\u00e3o prometer lugar a quem ficou de fora \u2014 h\u00e1 sempre amanh\u00e3. A r\u00e1dio demora e retribui. E ele fecha o arco com a sensa\u00e7\u00e3o que o move: \u201cD\u00e1-me um contexto diferente do programa das 20 \u00e0s 21, porque h\u00e1 um di\u00e1logo mais longo e um contacto noturno \u2014 \u00e9 sobretudo \u00e0 noite que as pessoas sentem mais a solid\u00e3o, quando n\u00e3o t\u00eam contacto com mais ningu\u00e9m. \u00c9 a experi\u00eancia de falar com quem trabalha \u00e0 noite: seguran\u00e7as, pessoal das autoestradas, das padarias. A r\u00e1dio tem uma magia muito especial, dif\u00edcil de p\u00f4r em palavras. Cada vez que se liga o microfone \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o incr\u00edvel. Um ouvinte liga da Pampilhosa; depois vamos para Santar\u00e9m; depois para Beja, \u00c9vora, Amarante; depois Marinha Grande; a seguir Covilh\u00e3 ou Alca\u00edns; e, logo depois, um s\u00edtio completamente diferente. \u00c9 uma viagem pela geografia incr\u00edvel do pa\u00eds \u2014 e estas r\u00e1dios regionais permitem isso.\u201d A viagem sem sair do lugar \u2014 o pa\u00eds inteiro pelo auricular.<\/p>\n<p>Sai-se da r\u00e1dio e a estrada chama pela Codiceira. N\u00e3o \u00e9 aldeia de postais, \u00e9 quase estrada com casas, duas ou tr\u00eas sombras de \u00e1rvores, um port\u00e3o azul que brilha ao sol. A mulher que todos conhecem pela geografia do nome \u2014 \u201ca Nat\u00e1lia da Codiceira\u201d \u2014 senta-se numa cadeira de pl\u00e1stico branco, dois r\u00e1dios ao colo: o Grundig antigo, boombox robusto que carrega hist\u00f3rias no p\u00f3, e o port\u00e1til prateado da H\u00e6ger com a antena esticada. Sapatos azuis, blusa escura com flores brancas, m\u00e3os com serenidade de quem habituou os dias \u00e0 rotina certa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759140024_994_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>Tem 72 anos. Vive aqui desde os 23. N\u00e3o dramatiza. \u201cPassam dias e dias em que n\u00e3o acendo a televis\u00e3o.\u201d Quando liga, passa pelas not\u00edcias, \u201c\u00e0s vezes um Doming\u00e3o, um jogo\u201d. \u201cA r\u00e1dio fica sempre acesa.\u201d Acorda \u201c\u00e0s cinco e tal\u201d, som baixo; se adormecer adormeceu, sen\u00e3o fica com ela. \u00c0s sete, a voz feminina da manh\u00e3 fecha as horas e as not\u00edcias chegam com a entoa\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Bi\u2026 bi\u2026 bis\u2026 Biscaia \u2014 o apelido trope\u00e7a-lhe, a familiaridade dispensa ortografia.<\/p>\n<p>O quintal \u00e9 uma floresta dom\u00e9stica: alturas diferentes de verde, folhas carnudas, terracotas antigas, um cacto teimoso. Entre plantas, a companhia: dez gatos \u2014 dez \u2014, um c\u00e3o, galinhas, um melro numa gaiola pequena. \u201cQuando lhes cheira a comida, aproximam-se.\u201d Os nomes n\u00e3o chegam para todos, reconhece-os pelo passo.<\/p>\n<p>Lisboa entrou cedo, \u201ccom 14, 15 anos\u201d. Foi dom\u00e9stica na Rua das Francesinhas, \u201cpassava junto \u00e0 Renascen\u00e7a todos os dias\u201d. Voltou e ficou. Tr\u00eas irm\u00e3os no princ\u00edpio, os dois de outra m\u00e3e j\u00e1 partiram. A escola deixou-lhe um azedo curto: \u201cA professora n\u00e3o me quis levar \u00e0 prova da quarta classe.\u201d O presente organiza-se em pequenas log\u00edsticas: t\u00e1xi para o m\u00e9dico na Sert\u00e3, festa em julho \u2014 Senhora das Dores e Santiago \u2014, m\u00fasica de adro, vizinhos por perto mas poucos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759140024_577_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>A r\u00e1dio veio como v\u00eam os h\u00e1bitos bons. \u201cJ\u00e1 h\u00e1 trinta e tal anos que \u00e9 a R\u00e1dio Condest\u00e1vel.\u201d Depois, sil\u00eancio: o homem doente. \u201cEra a minha companhia, o meu melhor amigo. Morreu h\u00e1 tr\u00eas anos.\u201d Vieram o stress, a medica\u00e7\u00e3o, as consultas. \u201cUm ano a ligar a r\u00e1dio sem ligar para a r\u00e1dio.\u201d Quando o corpo assentou, agarrou outra vez o fio. Primeiro a Maria do Ros\u00e1rio \u2014 amizade que saltou do est\u00fadio para a cozinha: \u201cIa l\u00e1 a casa aos domingos, para a conversa.\u201d Continua a falar com ela. Depois o Hugo coube-lhe como deve ser. \u201cGosto dele.\u201d Reconhece-o na primeira s\u00edlaba: \u201cPercebo pela voz \u2014 antes de dizer o nome.\u201d \u00c0s vezes ele puxa: \u201cPorque \u00e9 que n\u00e3o ligaste?\u201d E ela devolve: \u201cEstive a ouvir o palavreado.\u201d O palavreado, aqui, \u00e9 afeto.<\/p>\n<p>Na gaveta dos objetos \u00fateis, a contabilidade precisa: \u201cTenho dois r\u00e1dios a funcionar \u2014 quarto e cozinha. Tenho tr\u00eas, mas um n\u00e3o funciona.\u201d O rel\u00f3gio interno repete o ritual: \u201c\u00c0s cinco e tal acordo, acendo baixinho; se adormecer adorme\u00e7o, sen\u00e3o \u00e9 todo o dia.\u201d Zanga-se quando a linha foge: \u201cNo dia a seguir reclamo. Digo: \u2018Ou\u00e7a, \u00e9 pior que o Presidente!\u2019 Ele responde: \u2018A linha est\u00e1 dispon\u00edvel.\u2019 Depois vou tentando.\u201d Quase todos os dias tenta. \u00c9 fama antiga na casa: \u201cf\u00e3 n\u00famero um\u201d, a que liga mais \u2014 e ela ri-se do r\u00f3tulo.<\/p>\n<p>A certa altura a lista de pessoas come\u00e7a a cair como se as conhec\u00eassemos todos. O r\u00e1dio cria este truque de sal\u00e3o: n\u00e3o h\u00e1 rostos mas h\u00e1 hist\u00f3rias. Sorri quando enumero. A lista \u00e9 um modo de dizer companhia. \u201cPara o Manuel Ramos e a Ros\u00e1rio e o Carlitos, de Vila Velha de R\u00f3d\u00e3o.\u201d \u201cPara a Leonor, de Ansi\u00e3o.\u201d \u201cPara a Georgina, do Tramagal: as melhoras da filha e do genro.\u201d \u201cPara a Quit\u00e9ria, de Benqueren\u00e7as.\u201d \u201cPara o Jo\u00e3o, de Torres Vedras.\u201d \u201cPara a Maria Ad\u00edlia e o Manuel Raul.\u201d \u201cPara o Paulo de Cousso.\u201d Os nomes atravessam a tarde como andorinhas. Pergunto se os conhece. \u201cN\u00e3o, n\u00e3o. N\u00e3o conhe\u00e7o nenhum. \u00c9 como se fossem amigos \u2014 mas n\u00e3o conhe\u00e7o.\u201d Reconhece a voz, guarda a lista \u201caqui\u201d \u2014 e aponta para a cabe\u00e7a como quem aponta para uma gaveta. Tem n\u00fameros de ouvintes: \u201c\u00c0s vezes falo com a Fernanda. E a Dulce Cardoso.\u201d Convidou a Fernanda para um caf\u00e9; est\u00e1 sempre por combinar \u2014 \u201ctrabalha at\u00e9 \u00e0s cinco\u201d.<\/p>\n<p>Entrou no est\u00fadio com a Maria do Ros\u00e1rio. \u201cSalinhas pequeninas, com o microfone\u2026 Gostei.\u201d Trabalhar em r\u00e1dio? \u201cN\u00e3o.\u201d\u00a0Risos. \u201cJ\u00e1 ou\u00e7o r\u00e1dio h\u00e1 30 anos. Era um sonho, se calhar.\u201d Ao fim de semana, \u00e0s vezes n\u00e3o est\u00e1 \u2014 \u201cvou a casa de amigos\u201d \u2014, mas pode ouvir \u201cem qualquer lado\u201d. E n\u00e3o se importa que a tratem pelo mapa: \u201cNa r\u00e1dio sou a \u2018Nat\u00e1lia da Codiceira\u2019. Est\u00e1 bem assim.\u201d<\/p>\n<p>Os gostos chegam em voz baixa, sem cat\u00e1logo: \u201cGosto da Am\u00e1lia. Gosto do Ant\u00f3nio Mour\u00e3o.\u201d O Elvio Santiago ficou-lhe dos ser\u00f5es de televis\u00e3o. O Benfica est\u00e1 no s\u00edtio habitual. Quando o Hugo faz anos, n\u00e3o complica: \u201cParab\u00e9ns a voc\u00ea.\u201d Para a amiga de sempre escolhe de olhos fechados: \u201cConjunto Maria Albertina, Dino Meira \u2014 para a Maria do Ros\u00e1rio.\u201d Se a dedicat\u00f3ria fosse para o Presidente Marcelo, n\u00e3o muda o tom: \u201cGosto dele. Bombocas, para dan\u00e7ar.\u201d<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759140025_724_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>O port\u00e3o azul pede fotografia. Senta-se. O Grundig pesa mais do que aparenta, o H\u00e6ger brilha ao sol. \u00c0 volta, os vasos fazem moldura. Ali cabe quase tudo: o luto domado, a rotina de falar com vozes sem rosto, a paci\u00eancia de repetir nomes at\u00e9 ficarem e a certeza simples de que um fio de telefone pode segurar uma casa. \u201cSe a r\u00e1dio acabasse?\u201d A resposta chega sem atalhos: \u201cPerdia ali uma fam\u00edlia, quase.\u201d N\u00e3o \u00e9 figura. Fam\u00edlia, aqui, \u00e9 uma lista que se diz todas as noites, com pequenas varia\u00e7\u00f5es, not\u00edcias de sa\u00fade, parab\u00e9ns de longe, recados que atravessam o mapa. Sem isso, o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Regresso ao est\u00fadio. Chega a hora de fechar o c\u00edrculo. A noite j\u00e1 est\u00e1 na sua parte mais macia. A emiss\u00e3o pede-nos de volta, como se fic\u00e1ssemos um pouco \u00e0 porta do est\u00fadio \u00e0 espera do momento certo de entrar. O rel\u00f3gio escorrega sobre a mesa, a luz vermelha acende. A voz de Hugo abre espa\u00e7o com cuidado, a linha confirma, e regressa de novo a figura que atravessou o dia:\u00a0<\/p>\n<p>\u2014 Viva, agora falo com a nossa ouvinte\u2026\u00a0<\/p>\n<p>\u2014 Com a Nat\u00e1lia, da Codiceira.\u00a0<\/p>\n<p>O som faz-se mais pr\u00f3ximo, como quando um amigo entra em casa sem bater. A dedicat\u00f3ria chega com a naturalidade de um gesto antigo, um itiner\u00e1rio de afeto que percorre o mapa inteiro:<\/p>\n<p>\u2014 Ora muito bem-vinda!<\/p>\n<p>\u2014 Para todos os ouvintes e participantes. Para os teus colegas. Para algu\u00e9m que est\u00e1 a ouvir. Para o Manuel Ramos, Ros\u00e1rio e Carlitos, de Vila Velha de R\u00f3d\u00e3o. Para a Leonor, de Anci\u00e3o. Para a Georgina, do Tramagal: as melhoras da filha e do genro. Para a Quit\u00e9ria, de Benqueren\u00e7as. E vai tamb\u00e9m para o Tiago, que estive com ele hoje: um beijinho e boa viagem para ele. E at\u00e9 uma pr\u00f3xima.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1759140025_918_1000.webp\" width=\"1000\"\/><\/p>\n<p>A r\u00e9gie roda um cent\u00edmetro. \u201cVamos receber e recordar Am\u00e1lia Rodrigues.\u201d A palavra \u201crecordar\u201d cumpre a sua promessa. Vem a\u00ed \u201cFado Menor\u201d. E, de repente, n\u00e3o \u00e9 apenas Lisboa a cair dentro da Sert\u00e3; \u00e9 o pa\u00eds inteiro a ouvir os primeiros versos como quem acende duas velas:<\/p>\n<p>Os meus olhos s\u00e3o dois c\u00edrios<br \/>Dando luz triste ao meu rosto<br \/>Marcado pelos mart\u00edrios<br \/>Da saudade e do desgosto  <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a dor que fica. \u00c9 o modo como, noite ap\u00f3s noite, esta r\u00e1dio pequena alumia com c\u00edrios breves os rostos que n\u00e3o queremos perder. A \u201cLinha da Amizade\u201d dura o tempo de um ser\u00e3o mas deixa acesa a certeza de que, amanh\u00e3, algu\u00e9m voltar\u00e1 a dizer o nosso nome. E isso, numa estrada chamada EN2, vale por uma fam\u00edlia inteira.<\/p>\n<p>O Pa\u00eds do Meio n\u00e3o \u00e9 um roteiro, pelo menos n\u00e3o tur\u00edstico. Esta \u00e9 uma s\u00e9rie de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Tr\u00e1s-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce a Estrada Nacional 2 e recolhe os retratos \u2014 \u00edntimos, sabedores e naturais \u2014 de quem \u00e9 das cidades, ou mais dos lugares, que a EN2 atravessa. N\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3rias de alcatr\u00e3o, s\u00e3o hist\u00f3rias do caminho, do pa\u00eds real, ouvindo a voz de quem n\u00e3o \u00e9 not\u00edcia \u2014 mas \u00e9 um pa\u00eds, ou faz um pa\u00eds. Na antec\u00e2mara das Aut\u00e1rquicas de 2025, o pulso mede-se sem cartazes, sem promessas eleitorais, sem corta-fitas, sem pol\u00edtica; o pulso mede-se como mediu Miguel Torga: \u201cCultivo-me pelos olhos e pelos p\u00e9s, no alfabetismo \u00edntimo das coisas\u201d.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma s\u00e9rie de 14 reportagens de Tiago Palma, para ler na CNN Portugal. De Tr\u00e1s-os-Montes ao Algarve, o jornalista desce pela Estrada Nacional 2 e recolhe retratos \u00edntimos de quem \u00e9 destes lugares<\/p>\n<p>  Reportagem publicada\n   <\/p>\n<p>  Em breve\n   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O PA\u00cdS DO MEIO || Uma r\u00e1dio de aldeia que, noite dentro, aguenta o mundo com um fio&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":91255,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[609,611,2431,22570,27,28,10165,607,608,604,610,539,22573,22572,15,16,14,3385,603,25,26,570,21,22,606,12,13,19,20,22571,602,32,23,24,33,22820,679,1985,58,22821,605,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-91254","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-alerta","9":"tag-ao-minuto","10":"tag-autarquicas-2025","11":"tag-autarquicas2025","12":"tag-breaking-news","13":"tag-breakingnews","14":"tag-cernache-do-bonjardim","15":"tag-cnn","16":"tag-cnn-portugal","17":"tag-crime","18":"tag-direto","19":"tag-educacao","20":"tag-en2","21":"tag-estrada-nacional-2","22":"tag-featured-news","23":"tag-featurednews","24":"tag-headlines","25":"tag-idosos","26":"tag-justica","27":"tag-latest-news","28":"tag-latestnews","29":"tag-live","30":"tag-main-news","31":"tag-mainnews","32":"tag-meteorologia","33":"tag-news","34":"tag-noticias","35":"tag-noticias-principais","36":"tag-noticiasprincipais","37":"tag-o-pais-do-meio","38":"tag-pais","39":"tag-portugal","40":"tag-principais-noticias","41":"tag-principaisnoticias","42":"tag-pt","43":"tag-radio-condestavel","44":"tag-reportagem","45":"tag-serta","46":"tag-sociedade","47":"tag-solidao","48":"tag-tempo","49":"tag-top-stories","50":"tag-topstories","51":"tag-ultimas","52":"tag-ultimas-noticias","53":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91254\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91255"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}