{"id":91439,"date":"2025-09-29T12:14:08","date_gmt":"2025-09-29T12:14:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/91439\/"},"modified":"2025-09-29T12:14:08","modified_gmt":"2025-09-29T12:14:08","slug":"clooney-pitt-julia-roberts-a-reuniao-que-voce-queria-ver-voltou-a-netflix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/91439\/","title":{"rendered":"Clooney, Pitt, Julia Roberts: a reuni\u00e3o que voc\u00ea queria ver voltou \u00e0 Netflix"},"content":{"rendered":"<p>Steven Soderbergh aprendeu a trabalhar com o que cabe nas m\u00e3os. Adolescente em Baton Rouge, fitas empoeiradas, papel quadriculado, a necessidade de desenhar a ideia antes que ela evapore. Quando \u201cSexo, Mentiras e Videotape\u201d recebe a Palma de Ouro em 1989, o circuito independente americano entende que intimidade e precis\u00e3o podem circular com for\u00e7a; a partir dali, o diretor passa a alternar dimens\u00f5es, ora pequeno e obstinado, ora amplo e luminoso. A cada virada, uma fisionomia t\u00e9cnica distinta, e ainda assim um pulso reconhec\u00edvel, discreto, teimoso.<\/p>\n<p>Nos anos seguintes, Soderbergh testa ritmos, ironias, formatos. \u201cSchizopolis\u201d abre espa\u00e7o para o absurdo, montagem el\u00e1stica, piadas que dobram a pr\u00f3pria gram\u00e1tica; \u201cIrresist\u00edvel Paix\u00e3o\u201d reintroduz o romance policial com uma eleg\u00e2ncia inclinada, personagens que falam menos do que olham; \u201cErin Brockovich\u201d fixa no rosto de Julia Roberts a obstina\u00e7\u00e3o e a ternura de um acerto tardio; \u201cTraffic\u201d encadeia linhas de a\u00e7\u00e3o com filtros e tonalidades que orientam a percep\u00e7\u00e3o do espectador, uma cartografia moral desenhada plano a plano. Em 2001, \u201cOnze Homens e um Segredo\u201d entrega um heist filme-l\u00e2mina, corte limpo, humor de aresta polida; poucos anos depois, \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d desloca o eixo e troca o brilho solar por uma claridade obl\u00edqua.<\/p>\n<p>A aposta de \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d \u00e9 simples no papel e complexa no ar. A quadrilha abandona Las Vegas e espraia a coreografia por Roma, Amsterd\u00e3, Paris. Os golpes importam menos que o desenho da conviv\u00eancia, e a gra\u00e7a dos encontros toma a frente do manual de truques. H\u00e1 cenas que dobram a fronteira entre fic\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a, uma atriz que visita a pr\u00f3pria imagem, uma piada vazada por entre biografias e contratos. O riso que se instala n\u00e3o remove a tens\u00e3o; apenas desloca o foco para um tipo de intelig\u00eancia que trabalha pelo avesso, que prepara o terreno antes de plantar a pegada.<\/p>\n<p>A fotografia observa por tr\u00e1s, escuta portas, registra corredores longos que prometem desvios. Soderbergh gosta de esconder a exatid\u00e3o sob aparente leveza, deixa que um travelling expire no ponto certo e que uma paleta levemente desbotada conte a idade das pedras. A edi\u00e7\u00e3o, comedida, d\u00e1 ao espectador o prazer da elipse, aquele pequeno vazio que pede participa\u00e7\u00e3o e devolve cumplicidade. A resultante \u00e9 um clima que se sustenta sozinho; trama e atmosfera respiram juntas, sem empurr\u00f5es explicativos, sem falas que carreguem o peso que a imagem j\u00e1 suporta.<\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o de 2004 dividiu simpatias, e a divis\u00e3o ajuda a ler o filme. De um lado, quem esperava a repeti\u00e7\u00e3o ampliada do primeiro cap\u00edtulo; de outro, quem preferia a deriva calculada, a aposta num tom de sal\u00e3o europeu, cartas marcadas e risos de canto de boca. \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d n\u00e3o pede unanimidade; pede aten\u00e7\u00e3o ao passo lateral, \u00e0 confian\u00e7a entre parceiros, \u00e0s pequenas humilha\u00e7\u00f5es que fazem parte de um of\u00edcio fundado em blefes. O heist, aqui, interessa menos como engenharia de cofre e mais como estudo de grupo, um retrato do intervalo entre o plano e o improviso.<\/p>\n<p>No arco biogr\u00e1fico, o filme \u00e9 testemunho de um temperamento. Soderbergh costuma acumular fun\u00e7\u00f5es, assina fotografia, aproxima a m\u00e3o de quem dirige da m\u00e3o de quem finaliza o brilho no quadro. Essa proximidade produz unidade: no set, a conversa entre c\u00e2mera e corte se resolve sem cerim\u00f4nia, a luz responde \u00e0 l\u00f3gica de movimento; no est\u00fadio, a montagem respeita os respiradouros do que foi visto. A ambi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 tamanho; \u00e9 controle de temperatura, feixes de aten\u00e7\u00e3o com destino certo. A partir desse artesanato calado, a filmografia encontra consist\u00eancia em meios diversos.<\/p>\n<p>A contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica pede um passo atr\u00e1s. O cinema americano dos anos 1990 equilibra reinven\u00e7\u00f5es modestas e o crescimento de apostas industriais colossais. \u201cSexo, Mentiras e Videotape\u201d abre uma clareira para filmes de or\u00e7amento contido, atentos ao detalhe; \u201cTraffic\u201d prova que escala e rigor n\u00e3o se excluem; \u201cOnze Homens e um Segredo\u201d organiza luxo sem anestesia; \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d brinca com o pr\u00f3prio contrato de entretenimento de est\u00fadio, dobra expectativas, espalha o elenco por cidades que oferecem texturas e l\u00ednguas, transfere parte do prazer para o passeio. Mais adiante, \u201cCont\u00e1gio\u201d recorre a um l\u00e9xico quase cl\u00ednico, clima de relat\u00f3rio que n\u00e3o larga o drama; \u201cKimi\u201d escava a ansiedade tecnol\u00f3gica em ambientes apertados; \u201cSem Movimentos Bruscos\u201d desce a Detroit de d\u00e9cadas passadas e encontra nas dobras do trabalho uma \u00e9tica dura. Entre esses pontos, \u201cDeixe-os Todos Falarem\u201d exp\u00f5e conversas em mar\u00e9 constante, o navio como cidade tempor\u00e1ria, atores em estado de observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d, Soderbergh aceita o risco do equ\u00edvoco e o transforma em est\u00e9tica. O plano que o espectador n\u00e3o v\u00ea, a informa\u00e7\u00e3o atrasada, o desfecho que reescreve a origem; nessas passagens, o filme conversa com escolas europeias que tratam o delito como partitura, e tamb\u00e9m com a cultura visual dos anos 2000, clipes e vinhetas que ajustam a pulsa\u00e7\u00e3o do corte \u00e0 m\u00fasica. O resultado n\u00e3o \u00e9 um truque vistoso, \u00e9 uma rede de pequenos acertos de tom; o charme n\u00e3o recobre o vazio, sustenta uma \u00e9tica de jogo compartilhado.<\/p>\n<p>Importa notar a delicadeza com que o diretor filma a gra\u00e7a. O humor aparece sem contornos fluorescentes, fiel ao gesto de quem sabe que a piada s\u00f3 existe porque houve trabalho antes, marca\u00e7\u00e3o exata de portas, de olhares, de sil\u00eancios. Catherine Zeta-Jones atravessa um aeroporto com precis\u00e3o de b\u00fassola; Matt Damon oferece uma hesita\u00e7\u00e3o calculada; George Clooney e Brad Pitt ocupam a moldura com um tipo de pregui\u00e7a elegante que depende de rigor extremo. Tudo parece casual; nada \u00e9 gratuito.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica que preferiu reduzir o filme a esperteza subestimou o interesse pela conviv\u00eancia. O grupo volta a se reunir e, na reuni\u00e3o, reencontra um idioma. Esse idioma atravessa fronteiras, troca moedas, atravessa salas de museu, quartos de hotel, vag\u00f5es noturnos. O crime, aqui, \u00e9 menos um fim e mais um meio para que essas presen\u00e7as se testem, errem, acertem, recuem. H\u00e1 perdas discretas, h\u00e1 vit\u00f3rias sem trombeta, h\u00e1 uma nostalgia leve por aquilo que os uniu no primeiro cap\u00edtulo. Soderbergh enquadra essa nostalgia com parcim\u00f4nia, recusa a\u00e7\u00facar, prefere uma melancolia respir\u00e1vel, um sorriso a meio caminho.<\/p>\n<p>A biografia do diretor, vista em filigrana, aparece ali: uma obstina\u00e7\u00e3o por processos mut\u00e1veis, o desejo de filmar onde a log\u00edstica sugere limites, a cren\u00e7a na colabora\u00e7\u00e3o como motor. N\u00e3o cabem slogans, nem senten\u00e7as definitivas. Cabem gestos de continuidade, o retorno a parceiros de fotografia, figurino, desenho de produ\u00e7\u00e3o, montadores que compreendem o pulso do chefe sem precisar traduzi-lo. Na ilha, o filme permanece aberto at\u00e9 perto do fim; no set, a c\u00e2mera testa posi\u00e7\u00f5es at\u00e9 achar um eixo que n\u00e3o grita.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a dimens\u00e3o temporal. \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d nasce num mundo pr\u00e9-smartphone onipresente, um turismo cinematogr\u00e1fico que atravessa capitais sem ceder ao cart\u00e3o-postal. Revisitado hoje, n\u00e3o cheira a pe\u00e7a de museu; guarda ar fresco de passeio noturno, conversa baixa, passos firmes. A Europa filmada evita satura\u00e7\u00f5es; aceita a p\u00e1tina do cotidiano; oferece corredores, pequenas pra\u00e7as, quartos modestos em hot\u00e9is caros. O olhar n\u00e3o consome, investiga. O golpe se prepara ao ritmo do trem que parte cedo demais e obriga a mala a ficar mais leve.<\/p>\n<p>No fim, a pergunta sobre grandeza perde for\u00e7a. O que interessa \u00e9 o tipo de aten\u00e7\u00e3o que o filme exige, uma escuta para a harmonia interna do conjunto. Soderbergh prefere o detalhe ao manifesto, a nuance \u00e0 tese. O perfil que se esbo\u00e7a n\u00e3o precisa de proclama\u00e7\u00e3o; precisa de cenas que alojam uma \u00e9tica de trabalho. Quem v\u00ea \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d com o desejo de manual encontrar\u00e1 menos instru\u00e7\u00f5es e mais ind\u00edcios; quem aceita ler os interst\u00edcios ver\u00e1 um diretor em estado de liberdade rara no espa\u00e7o dos est\u00fadios.<\/p>\n<p>Talvez por isso a obra permane\u00e7a viva. N\u00e3o por truques vistosos, mas por um entendimento do que sustenta a rela\u00e7\u00e3o entre personagens: confian\u00e7a, c\u00e1lculo, desconfian\u00e7a, recombina\u00e7\u00e3o. O cinema de Soderbergh se alimenta desses elementos, e cada filme realinha os pesos. \u201cOnze Homens e um Segredo\u201d apresenta; \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d desvia; os t\u00edtulos posteriores voltam a puxar o fio por outros lados. O conjunto formado por \u201cCont\u00e1gio\u201d, \u201cKimi\u201d e \u201cSem Movimentos Bruscos\u201d mostra um autor interessado em tens\u00f5es contempor\u00e2neas, mas ancorado na mesma paci\u00eancia que organiza o olhar desde 1989.<\/p>\n<p>Fecham-se as malas, a equipe se dispersa, a Europa volta \u00e0 rotina. O espectador deixa a sala com a sensa\u00e7\u00e3o n\u00edtida de ter sido convidado a entrar num sal\u00e3o onde as regras n\u00e3o foram anunciadas, apenas praticadas. O convite permanece, anos depois, intacto. \u201cDoze Homens e Outro Segredo\u201d continua a falar baixo e a contar o indispens\u00e1vel, sem pressa; prefere o caminho obl\u00edquo, o gesto que indica sem explicar. Nessa escolha, reconhece-se o retrato de quem dirige: um artes\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m que entende que cinema tamb\u00e9m \u00e9 o intervalo entre dois passos e a mem\u00f3ria precisa do brilho que ainda fica no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\n<strong>Filme: <\/strong><br \/>\nDoze Homens e Outro Segredo<\/p>\n<p>\n<strong>Diretor: <\/strong><\/p>\n<p> Steven Soderbergh                <\/p>\n<p>\n<strong>Ano: <\/strong><br \/>\n2004<\/p>\n<p>\n<strong>G\u00eanero: <\/strong><br \/>\nCrime\/Thriller<\/p>\n<p>\n<strong>Avalia\u00e7\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p>9\/10<br \/>\n1<br \/>\n1<\/p>\n<p>Felipe Duarte<\/p>\n<p>\n\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Steven Soderbergh aprendeu a trabalhar com o que cabe nas m\u00e3os. 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