{"id":92590,"date":"2025-09-30T04:10:25","date_gmt":"2025-09-30T04:10:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/92590\/"},"modified":"2025-09-30T04:10:25","modified_gmt":"2025-09-30T04:10:25","slug":"chega-sexo-mentiras-e-deus-analise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/92590\/","title":{"rendered":"Chega: sexo, mentiras e Deus | An\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<p>Numa pequena cidade dos EUA, um contabilista obeso morreu subitamente no seu cub\u00edculo de trabalho. No seu funeral estavam apenas a mulher e os filhos, que mal o conheciam. O homem vivia em frente ao computador e falava pouco. Nessa mesma noite, longe da fam\u00edlia enlutada, houve outro funeral. \u201cAjax\u201d, a personagem que o contabilista protagonizava num jogo de computador, foi homenageada por milhares de pessoas, no mundo inteiro, que nunca viram o contabilista solit\u00e1rio, n\u00e3o sabiam quem era ou onde morava. Esse funeral foi \u00e9pico, com amigos, aliados, inimigos e advers\u00e1rios, que celebravam os feitos her\u00f3icos de Ajax naquele jogo. Afinal, qual era a \u201cvida\u201d realmente importante do homem que morreu? Na realidade ou no jogo?<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria \u00e9 contada por Steve Bannon, o antigo conselheiro de Donald Trump, que dirigiu a sua campanha vitoriosa em 2016, no filme American Dharma, de Errol Morris (2018). Bannon argumenta que o \u201cdestino\u201d (dharma) da vida de milh\u00f5es de pessoas est\u00e1 vazio \u2014 e pronto a ser preenchido por quem o saiba compreender. \u201cVem a\u00ed uma revolu\u00e7\u00e3o\u201d, explica o guru de Trump a um c\u00e9ptico realizador que o tenta confrontar. Bannon e Morris n\u00e3o parecem discordar sobre as causas desse vazio: as classes m\u00e9dias sentem-se hoje como os servos russos do s\u00e9culo XVIII, ou como hamsters numa gaiola, concede Bannon, enumerando as raz\u00f5es materialistas que levam muitas pessoas a refugiar-se nos jogos, nas teorias da conspira\u00e7\u00e3o e na fic\u00e7\u00e3o para encontrar um sentido para as suas vidas. Est\u00e3o ref\u00e9ns do sector financeiro e entregaram a sua auto-determina\u00e7\u00e3o \u00e0s plataformas digitais e \u00e0 intelig\u00eancia artificial \u2014 tudo isso \u00e9 verdade, argumenta o estratega pol\u00edtico. Mas para se entender a mobiliza\u00e7\u00e3o que alimenta esta corrente pol\u00edtica que nem sequer tem um nome consensual \u2014 \u201cdireita radical\u201d, \u201cextrema-direita\u201d ou \u201cdireita populista\u201d \u2014 \u00e9 preciso juntar \u00e0 realidade os mecanismos da pura fic\u00e7\u00e3o. Aqueles que procuram um sentido s\u00e3o os combatentes da \u201cguerra\u201d que os pol\u00edticos como Trump, Ventura ou Bolsonaro seduzem para travar.<\/p>\n<p>Um grande actor<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 por acaso que <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/09\/11\/politica\/noticia\/chega-recrutar-futuros-votantes-2146881\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Miguel Carvalho<\/a>, jornalista que investigou o Chega nos \u00faltimos cinco anos, escolheu come\u00e7ar o seu livro (Por Dentro do Chega, com a chancela da Objectiva) por uma hist\u00f3ria que Andr\u00e9 Ventura criou. Amea\u00e7ado por uma suposta investiga\u00e7\u00e3o judicial que pretendia prend\u00ea-lo \u2014 mas nunca existiu \u2014, Ventura refugiou-se na luxuosa Quinta das Nespereiras, em Odi\u00e1xere (Lagos). O propriet\u00e1rio, Arlindo Fernandes, militante do Chega, conta que viu chegar, \u201cborradinhos de medo\u201d, o l\u00edder do partido e a sua mulher, mais um grupo restrito de dirigentes. Est\u00e1vamos em 2020 e Ventura era deputado. O seu plano era passar \u00e0 \u201cclandestinidade\u201d, numa lancha r\u00e1pida com destino a T\u00e2nger, Marrocos. Um pol\u00edtico como Ventura precisa de criar uma personagem, com um \u201cdestino\u201d, um arco narrativo. \u00c9 esse mecanismo que o liga aos votantes \u2014 mais de um milh\u00e3o e 400 mil nas \u00faltimas legislativas.<\/p>\n<p>Miguel Carvalho recolheu centenas de testemunhas, de dirigentes e militantes do <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/09\/26\/politica\/noticia\/chumbo-inquerito-inedito-ar-afinal-faz-secretario-mesa-parlamento-2148689\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Chega<\/a>. Muitos, certamente sem conhecerem a teoria de Bannon, apontam essa explica\u00e7\u00e3o \u201cAjudei a nascer o Chega porque acreditei que era algo que Deus queria que eu fizesse. Entretanto, o Andr\u00e9 revelou-se um Saul e n\u00e3o um David. \u00c9 um grande actor,\u201d diz Lucinda Ribeiro, a mulher nascida em Meimoa, Penamacor, que organizou o crescimento do Chega nas redes sociais. A seu lado trabalhava outra mulher, de origem social bem diferente: Patr\u00edcia Sousa Uva gosta de se chamar a si pr\u00f3pria de \u201cdondoca\u201d. O seu testemunho sobre Ventura tamb\u00e9m revela uma personagem constru\u00edda: \u201c\u00c9 uma mistura de padre com chico-esperto do futebol de Mem Martins.\u201d<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>O grupo que geria as redes sociais de Ventura inclu\u00eda ainda Gerardo Pedro, de Santar\u00e9m. \u201cVia-o a ralhar na CMTV, no \u2018Rua Segura\u2019, e deixei-me ir naquela conversa, era m\u00fasica para os meus ouvidos\u2026\u201d Hoje, Lucinda, Patr\u00edcia e Gerardo deixaram de se rever na personagem. \u201cSinto vergonha de ter andado nisto. N\u00e3o \u00e9 o que quero, nem para a minha filha\u2026 Este homem n\u00e3o pode governar o pa\u00eds. N\u00e3o pode\u201d, diz Gerardo Pedro. Mas o seu trabalho (muitas vezes de sapa, com perfis falsos, montagens e difama\u00e7\u00f5es sobre outros pol\u00edticos) permitiu a Ventura libertar-se da sua ajuda. O l\u00edder \u00e9 a personagem, como revela o livro: 80% dos fundadores do <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/09\/25\/politica\/noticia\/chega-arrisca-multa-15-milhoes-euros-erc-causa-inqueritos-opiniao-2148491\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Chega <\/a>j\u00e1 sa\u00edram do enredo.<\/p>\n<p>Religi\u00e3o e pol\u00edtica<\/p>\n<p>\u201cO meio \u00e9 a mensagem\u201d, explica Bannon ao cineasta americano (e seu advers\u00e1rio pol\u00edtico) Errol Morris. N\u00e3o se trata de uma cita\u00e7\u00e3o nova, nem original. Quando Marshall McLuhan a escreveu, em 1967, n\u00e3o havia X, nem TikTok, nem Facebook, nem Youtube, ou qualquer das \u201credes\u201d onde a maioria das pessoas hoje forma as suas opini\u00f5es, e onde os pol\u00edticos da direita radical \u201cpescam\u201d os seus apoiantes. Mas a ideia continua a fazer sentido, seja ali ou na televis\u00e3o, que reproduz de maneira acr\u00edtica os v\u00eddeos \u2014 encenados ao detalhe \u2014 que Ventura diariamente protagoniza.<\/p>\n<p>As redes substitu\u00edram os media e t\u00eam consequ\u00eancias \u2014 pessoais, pol\u00edticas, econ\u00f3micas, est\u00e9ticas, psicol\u00f3gicas, morais, \u00e9ticas e sociais \u2014 que nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica tradicional, de esquerda ou de direita, parece compreender. A extrema-direita foi h\u00e1bil a identificar esta mudan\u00e7a estrutural no debate pol\u00edtico. As redes s\u00e3o a sua casa (e o dono do X, Elon Musk, faz sauda\u00e7\u00f5es nazis para os acolher).<\/p>\n<p>\u201cAqui a gente destr\u00f3i os caras\u201d, explica Silas Malafaia, mostrando o seu telem\u00f3vel. \u00c9 um pastor evang\u00e9lico, celebridade nas redes e na televis\u00e3o brasileira. Ele \u00e9 a personagem principal de Apocalipse nos Tr\u00f3picos (Netflix, 2024), o mais recente document\u00e1rio da brasileira Petra Costa.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        Cartaz do document\u00e1rio Apocalipse nos Tr\u00f3picos, dispon\u00edvel na Netflix desde 14 de Julho&#13;<br \/>\n                    &#13;<\/p>\n<p>Entrevistado ao longo dos \u00faltimos anos, em visitas pessoais a Bolsonaro no Pal\u00e1cio do Planalto, ou a viajar no seu avi\u00e3o privado que \u2014 gaba-se \u2014 custou mais de um milh\u00e3o de d\u00f3lares, Malafaia \u00e9 um religioso que quer ser influente na pol\u00edtica, depois de ter herdado uma igreja evang\u00e9lica que h\u00e1 dez anos tinha 15 mil fi\u00e9is. \u201cTem 100 mil agora\u201d, exclama. \u201cEvang\u00e9licos e cat\u00f3licos somos a maioria absoluta do pa\u00eds! A democracia \u00e9 a vontade da maioria absoluta\u201d, teoriza o evang\u00e9lico rico.<\/p>\n<p>Essa via para um regime pol\u00edtico de faceta teocr\u00e1tica n\u00e3o existe apenas no Brasil ou nos Estados Unidos. J\u00e1 chegou a Portugal h\u00e1 algum tempo. Lucinda Ribeiro \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 uma eficaz \u201cguerreira&#8221; nas redes sociais, mas abriu as portas do Chega a um grupo demogr\u00e1fico novo: o voto evang\u00e9lico.<\/p>\n<p>S\u00f3 na regi\u00e3o de Lisboa h\u00e1 mais de mil igrejas evang\u00e9licas. As mais pequenas t\u00eam menos de 100 pessoas, enquanto as maiores (como a IURD ou a Igreja Man\u00e1) organizam muitos milhares. Miguel Carvalho aponta alguns nomes curiosos de congrega\u00e7\u00f5es: \u201cAssembleia de Deus Fogo para a Europa\u201d, \u201cIgreja Baptista Cristo Vive em C\u00e9lulas\u201d, \u201cIgreja do Avivamento em Portugal\u201d, ou \u201cIgreja Evang\u00e9lica Bola de Neve\u201d.<\/p>\n<p>Estas igrejas s\u00e3o espa\u00e7os comunit\u00e1rios, raros, nas nossas sociedades, quando quase todas as formas de organiza\u00e7\u00e3o (incluindo a Igreja Cat\u00f3lica, os sindicatos, as associa\u00e7\u00f5es culturais) est\u00e3o em crise. No in\u00edcio deste s\u00e9culo, os evang\u00e9licos representavam 5% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, sendo agora quase um ter\u00e7o dos 212 milh\u00f5es de habitantes do Brasil. Ricardo Marchi, observador (muitas vezes participante) do Chega \u00e9 citado por Miguel Carvalho: \u201cMuitos evang\u00e9licos comprometeram-se com o Chega desde o in\u00edcio, compartilhando v\u00eddeos e textos de fi\u00e9is brasileiros contr\u00e1rios \u00e0 agenda da esquerda (principalmente pol\u00edtica de g\u00e9nero e mobiliza\u00e7\u00e3o LGBTQIA+).\u201d<\/p>\n<p>Ventura deixou nas redes o convite: \u201cO Chega \u00e9 a religi\u00e3o dos portugueses comuns\u201d; \u201cN\u00f3s somos como aquelas seitas religiosas: fort\u00edssimos\u201d; \u201cSou muito religioso e acredito que o que me aconteceu a mim e ao Chega na Hist\u00f3ria de Portugal, desde o meu percurso de comentador at\u00e9 ao Parlamento, \u00e9 um milagre\u201d; \u201cQuero todas as igrejas crist\u00e3s com o Chega. Todas. Sem medo nem preconceito\u201d; \u201cDeus no Comando!\u201d<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                        O l\u00edder do Chega durante uma vig\u00edlia em Lisboa, em 2023&#13;<br \/>\nHoracio Villalobos\/Corbis via Getty Images                    &#13;<\/p>\n<p>\u201cOlham para Ventura como Messias pol\u00edtico e testa de ferro dos seus interesses\u201d, explica, no livro de Miguel Carvalho, Jo\u00e3o Viegas, pastor evang\u00e9lico portugu\u00eas. \u201cSomos um partido de fan\u00e1ticos religiosos\u201d, acrescenta Lu\u00eds Alves, ex-dirigente do Chega, em Sintra.<\/p>\n<p>Poder, dinheiro e favores s\u00e3o a moeda de troca neste neg\u00f3cio pol\u00edtico-religioso, detalha o livro.<\/p>\n<p>Silas Malafaia \u00e9 um exemplo vivo: em 2002 apoiou Lula; em 2012 Jos\u00e9 Serra; em 2014 A\u00e9cio Neves; e em 2018 e 2022 Jair Messias Bolsonaro. J\u00e1 apostou em todas as cartas do baralho pol\u00edtico brasileiro. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es (que perdeu para Lula da Silva), Bolsonaro recebeu os votos de 70% dos eleitores evang\u00e9licos.<\/p>\n<p>Dois dias depois da elei\u00e7\u00e3o de 2018, Bolsonaro foi a um dos espect\u00e1culos religiosos de Malafaia, que ia dizendo, enquanto apontava para o Presidente eleito: \u201cDeus escolhe as coisas loucas, as coisas vis, as coisas desprez\u00edveis. \u00c9 por isso que Deus te escolheu!\u201d<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Bolsonaro, Ventura ou Trump n\u00e3o precisam de ser \u201cher\u00f3is\u201d. Longe disso. S\u00e3o personagens pol\u00edticas, e assim s\u00e3o vistas por muitos dos que os apoiam. Podem n\u00e3o ter palavra, desdizer-se, contradizer-se, errar, ser maldosos, cru\u00e9is, impreparados, bo\u00e7ais. Como diz Malafaia, \u201cloucos, vis e desprez\u00edveis\u201d. Nenhuma dessas falhas lhes rouba votos, como demonstram as elei\u00e7\u00f5es na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Em Por Dentro do Chega, Miguel Carvalho detalha as rela\u00e7\u00f5es de Ventura com magnatas dos media (Marco Galinha e M\u00e1rio Ferreira), com vendedores de armas, industriais e donos das maiores herdades do pa\u00eds. E, ainda assim, \u00e9 visto como o pol\u00edtico que quer acabar com o \u201csistema\u201d. Nas p\u00e1ginas de Miguel Carvalho, constatamos que grande parte dos dirigentes, deputados e financiadores do Chega s\u00e3o investidores e negociantes de imobili\u00e1rio. O pre\u00e7o das casas bate recordes e cria uma crise social profunda, mas o Chega \u00e9 o partido que mais sobe nas elei\u00e7\u00f5es. O pr\u00f3prio Andr\u00e9 Ventura, imediatamente antes de se dedicar \u00e0 pol\u00edtica, aconselhava candidatos a vistos gold em neg\u00f3cios de compra de pr\u00e9dios. \u201cVentura provou que n\u00e3o \u00e9 anti-sistema, \u00e9 o pr\u00f3prio sistema\u201d, critica uma antiga candidata do Chega em Braga.<\/p>\n<p>Fic\u00e7\u00e3o e realidade<\/p>\n<p>Essa candidata esteve em guerra com uma outra militante do partido que contradiz o senso-comum. Cibelli Almeida, pernambucana, veio para Braga com o marido, em 2011, para se matricular no doutoramento em Comunica\u00e7\u00e3o na Universidade do Minho. Juntou-se \u00e0 Igreja Crist\u00e3 Presbiteriana de Portugal. \u00c9 contra o aborto, a \u201cideologia de g\u00e9nero\u201d e as uni\u00f5es homossexuais. Com Maria Helena Costa (que submeteu o filho a \u201cterapias de convers\u00e3o sexual\u201d), fundou a Associa\u00e7\u00e3o Fam\u00edlia Conservadora, que \u201ccompara desejo sexual masculino, pedofilia e homossexualidade\u201d, segundo Miguel Carvalho. Manuel Matias \u2014 pai de Rita Matias \u2014 recrutou-as para as listas do Chega em Braga.<\/p>\n<p>Mas havia outro tipo de religiosos que disputavam os lugares nas listas. Filipe Melo, sobrinho-neto do c\u00f3nego Melo (activista anticomunista e ligado ao movimento terrorista MDLP), \u00e9 o l\u00edder distrital do partido, e deputado em S\u00e3o Bento. Para os seus apoiantes, os evang\u00e9licos n\u00e3o passam de \u201cuma seita\u201d. Um deles fez um v\u00eddeo em que lambia uma bala e publicou-o nas redes sociais, como amea\u00e7a. Por isso, Filipe Melo escreveu nas suas redes um recado para Cibelli: \u201cN\u00e3o vai ser uma BRASILEIRA que vai mandar nos destinos de um partido nacionalista, patri\u00f3tico.\u201d<\/p>\n<p>Cibelli Almeida fez queixa, dizendo que Melo era \u201cxen\u00f3fobo e machista\u201d, o deputado alterou o texto, substituindo \u201cBRASILEIRA\u201d por \u201csenhora\u201d, mas manteve o resto. O l\u00edder pacificou-os: \u201cDeus pode estar a usar o Andr\u00e9 Ventura para mudar a hist\u00f3ria de Portugal, como utilizou Bolsonaro para mudar a hist\u00f3ria do Brasil\u201d, conclui a doutoranda ante a incredulidade do jornalista.<\/p>\n<p>No document\u00e1rio de Petra Costa, as imagens mostram o que foi essa mudan\u00e7a hist\u00f3rica. A 8 de Janeiro de 2023, as sedes do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, em Bras\u00edlia, foram invadidas por hordas de pessoas, em transe religioso e pol\u00edtico, que partiram est\u00e1tuas, paredes, janelas, mesas e cadeiras, defecando nas sedes do poder pol\u00edtico e judicial. Enquanto o faziam, proclamavam para os seus telem\u00f3veis que \u201co bem venceu o mal\u201d. O fervor revolucion\u00e1rio que as anima \u2014 em Bras\u00edlia, Washington, ou Portugal \u2014 \u00e9 a \u201cguerra\u201d que Bannon antecipou, uma guerra em que a fic\u00e7\u00e3o invade a realidade.<\/p>\n<p>                &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                    &#13;<br \/>\n                         \u201cVentura provou que n\u00e3o \u00e9 anti-sistema, \u00e9 o pr\u00f3prio sistema\u201d, critica uma antiga candidata do Chega em Braga&#13;<br \/>\nRODRIGO ANTUNES\/Reuters                    &#13;<\/p>\n<p>Miguel Carvalho recolheu depoimentos que ilustram este fervor escatol\u00f3gico em Lisboa. A senhora que limpava a sede do partido revela que \u201cpor vezes a sede parecia uma taberna! Rasca! Enfrascavam-se de uma maneira\u2026 Se esta gente governasse o pa\u00eds, eu emigrava\u2026\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam, neste livro, provas de problemas s\u00e9rios: trata-se de um partido sem democracia interna, onde o poder est\u00e1 concentrado nas m\u00e3os de Andr\u00e9 Ventura e que recebeu financiamentos ilegais. Na vida interna do partido, grava\u00e7\u00f5es n\u00e3o autorizadas, campanhas difamat\u00f3rias, amea\u00e7as e agress\u00f5es entre militantes e dirigentes s\u00e3o comuns. Tudo isto foi verificado atrav\u00e9s de documentos e testemunhos, mas n\u00e3o encaixa na constru\u00e7\u00e3o narrativa que sustenta a imagem p\u00fablica do Chega.<\/p>\n<p>Depois de ler estas p\u00e1ginas, e de ver os document\u00e1rios de Errol Morris e Petra Costa, tamb\u00e9m n\u00e3o restam d\u00favidas de que h\u00e1 um real fundo ideol\u00f3gico de extrema-direita nos slogans, nos m\u00e9todos e nas inten\u00e7\u00f5es destes pol\u00edticos. Mas essa \u00e9 apenas a ponta do icebergue.<\/p>\n<p>A ideologia ali \u00e9 como uma ementa de restaurante, explica Miguel Carvalho. Cada um dos votantes, e mesmo dos dirigentes, escolhe o seu prato, mesmo que deteste a maioria da oferta. Na entrevista a Errol Morris, Steve Bannon diz o mesmo: \u201cSe dermos cinco coisas por dia, tr\u00eas acabam por passar.\u201d<\/p>\n<p>Os dirigentes do Chega parecem n\u00e3o estar de acordo sobre nenhuma das bandeiras mais conhecidas do partido. N\u00e3o s\u00e3o todos anticiganos, alguns s\u00e3o imigrantes (como Luc Mombito, o \u00fanico amigo de juventude que Andr\u00e9 Ventura n\u00e3o traiu nas lutas internas), e v\u00e1rios cabem na defini\u00e7\u00e3o de \u201cbandidagem\u201d com que o l\u00edder enche a boca.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>O \u00fanico ponto da ementa em que toda a gente parece estar de acordo \u00e9 o sexo e a guerra de g\u00e9neros que os anima. Orgulham-se de ser antifeministas, temem que as mulheres tenham demasiado poder, que os homens estejam a ser subalternizados, receiam que a homossexualidade esteja a ser ensinada nas escolas. No final de um congresso em Sagres, Andr\u00e9 Ventura \u2014 imitando Trump \u2014 dan\u00e7ou ao som de YMCA, a m\u00fasica dos Village People, em palco. Gerardo Pedro subiu ao palco, indignado: \u201cMas o que \u00e9 esta merda?! N\u00e3o tens vergonha de estar aqui a dan\u00e7ar a m\u00fasica dos rabetas?!\u201d.<\/p>\n<p>Curiosamente, isso parece fornecer a Trump, Bolsonaro e Ventura a bandeira da liberdade. N\u00e3o est\u00e3o apenas a \u201clutar contra as trevas\u201d (Silas Malafaia), ou a deixar que o povo siga o seu dharma, mas a quebrar as grades do que chamam de \u201cpoliticamente correcto\u201d. A liberdade que Petra Costa v\u00ea no dever da democracia \u2014 \u201cproteger o que \u00e9 vulner\u00e1vel da for\u00e7a bruta\u201d \u2014 fica em cacos na marcha marcial dos algoritmos e das missas que alimentam esta revolta a que assistimos.<\/p>\n<p>Steve Bannon gosta de repetir uma frase estranhamente amea\u00e7adora: &#8220;\u00c9 melhor reinar no inferno do que servir no c\u00e9u.&#8221; (John Milton, Para\u00edso Perdido).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Numa pequena cidade dos EUA, um contabilista obeso morreu subitamente no seu cub\u00edculo de trabalho. 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