{"id":92793,"date":"2025-09-30T08:33:03","date_gmt":"2025-09-30T08:33:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/92793\/"},"modified":"2025-09-30T08:33:03","modified_gmt":"2025-09-30T08:33:03","slug":"escrever-e-humano-refletir-sobre-a-escrita-tambem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/92793\/","title":{"rendered":"Escrever \u00e9 humano, refletir sobre a escrita tamb\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\"><strong>Dirce Waltrick do Amarante*<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cEscrever \u00e9 humano: Como dar vida \u00e0 sua escrita em tempos de rob\u00f4s\u201d, de <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/pensar\/2025\/09\/7257615-sergio-rodrigues-e-preciso-mostrar-ao-robo-quem-manda.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">S\u00e9rgio Rodrigues<\/a>, chega em um cen\u00e1rio no m\u00ednimo curioso: enquanto as faculdades de Letras v\u00eam encolhendo diante do discurso da inutilidade dessa forma\u00e7\u00e3o, cresce o n\u00famero de escolas de escrita criativa, mesmo que ela esteja seriamente amea\u00e7ada pelas <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/colunistas\/caminho-digital\/2025\/07\/7195621-inteligencia-artificial-a-grande-ilusao-da-facilidade.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">intelig\u00eancias artificiais<\/a>. Paralelamente, multiplicam-se os <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/cultura\/2025\/06\/7181685-livrarias-de-rua-promovem-eventos-e-movimentam-a-cena-literaria-de-bh.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">clubes de leitura<\/a> Brasil afora, frequentados por todas as gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"texto\">O que explicaria essa situa\u00e7\u00e3o no m\u00ednimo paradoxal? Elenco algumas suposi\u00e7\u00f5es: um curso de escrita criativa tem objetivos pr\u00e1ticos e resultados (palavra em alta) quase imediatos, acredita-se, orientando al\u00e9m disso os primeiros passos do novo escritor no <a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/especiais\/2025\/06\/7180093-bh-capital-dos-livros-reportagem-traz-panorama-da-cena-literaria.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">mercado editorial<\/a>. J\u00e1 a proposta do clube de leitura, ao reunir os amantes da literatura em torno de certas obras, \u00e9 revelar, por meio de discuss\u00e3o guiada geralmente por um especialista, os diferentes aspectos da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, destacando sobretudo a sua dimens\u00e3o sem\u00e2ntica.<\/p>\n<p class=\"texto\">Parece-me interessante levar em conta que muitos dos que hoje ministram os cursos de escrita e orientam os clubes de leitura passaram em algum momento pelas cadeiras da academia, graduando-se em Letras ou fazendo p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea.<\/p>\n<p class=\"texto\">Compreenderemos melhor esses tr\u00eas ambientes \u2013 faculdade de Letras, curso de escrita criativa e clube de leitura \u2013 se acompanharmos as discuss\u00f5es propostas por S\u00e9rgio Rodrigues em sua \u00faltima publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>PAPEL DA LEITURA<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cEscrever \u00e9 humano\u201d vai muito al\u00e9m de dar dicas de escrita para quem deseja se aventurar na carreira de escritor. Rodrigues n\u00e3o escreveu um simples manual, mas reflete seriamente sobre o conceito de literatura, destacando o papel da leitura e do mercado na circula\u00e7\u00e3o de obras.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/cultura\/2025\/09\/7258316-album-baiao-ma-non-troppo-traz-a-mpb-em-violino-e-viola.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">\u00c1lbum &#8220;Bai\u00e3o ma non troppo&#8221; traz a MPB em violino e viola<\/a><\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Para o escritor, \u201co que torna mais dif\u00edcil o trabalho liter\u00e1rio \u00e9 o fato de que ele se funda antes de mais nada na pr\u00f3pria linguagem. Isso consegue ser ao mesmo tempo uma obviedade e uma esp\u00e9cie de segredo de quem escreve\u201d. Paul Val\u00e9ry, no s\u00e9culo passado, j\u00e1 afirmava que \u201cuma reflex\u00e3o simpl\u00edssima nos leva a pensar que a literatura \u00e9, e s\u00f3 pode ser, um tipo de extens\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o de certas propriedades da linguagem\u201d (tradu\u00e7\u00e3o de Pedro Sette-C\u00e2mara).<\/p>\n<p class=\"texto\">Mas, prossegue Rodrigues, \u201cna quase totalidade das vezes, \u00e9 com o dito conte\u00fado das hist\u00f3rias que a leitora estabelece rela\u00e7\u00f5es intelectuais e afetivas\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m, como afirma, em torno desse conte\u00fado que se baseiam, quase exclusivamente, as resenhas e reportagens sobre o livro. Parece-me que o que h\u00e1 \u00e9 uma certa confus\u00e3o com o termo resenha, que vem sendo confundida com resumo de livro. Vista dessa forma, a resenha acaba, a meu ver, empobrecendo a obra, a qual se fecha nela mesma sem nenhuma conex\u00e3o com o mundo exterior, com outras obras&#8230;<\/p>\n<p><strong>FORMA E CONTE\u00daDO<\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">Rodrigues n\u00e3o nega que o conte\u00fado seja relevante, mas destaca que a forma tamb\u00e9m o \u00e9, pois ambas \u201cdesenham uma cifra indivis\u00edvel na imagina\u00e7\u00e3o de quem l\u00ea\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\">A certa altura, a autor de \u201cO drible\u201d faz tamb\u00e9m uma cr\u00edtica bastante humorada \u00e0 escrita mal elaborada que, pretendendo ser \u201carte liter\u00e1ria\u201d, acaba apenas reproduzindo clich\u00eas. E n\u00e3o h\u00e1 nada pior, avalia ele, do que \u201clugares-comuns vocabulares\u201d que \u201cs\u00e3o potencialmente catastr\u00f3ficos para a credibilidade de um texto\u201d. A menos, \u00e9 claro, acrescento eu, que os clich\u00eas sejam usados intencionalmente pelo escritor, como o faz, por exemplo, Eug\u00e8ne Ionesco, visando, no seu caso, a denunciar a banalidade das falas cotidianas.<\/p>\n<p class=\"texto\">Mas quem pode dizer se um livro \u00e9 bom ou n\u00e3o? Diz Rodrigues que, quanto mais livros um leitor ou leitora (o autor usa o feminino, j\u00e1 que, segundo ele, s\u00e3o as mulheres as que mais leem fic\u00e7\u00e3o no Brasil) conhecerem, mais facilmente identificar\u00e3o a boa escrita. Se poder\u00e3o dar sua opini\u00e3o livremente, essa \u00e9 uma outra quest\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/cultura\/2025\/09\/7258358-concertos-didaticos-da-osb-comecam-em-escolas-publicas-da-grande-bh.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Concertos did\u00e1ticos da OSB come\u00e7am em escolas p\u00fablicas da Grande BH<\/a><\/strong><\/p>\n<p class=\"texto\">A autofic\u00e7\u00e3o, em alta nos dias de hoje, n\u00e3o \u00e9 ignorada em \u201cEscrever \u00e9 humano\u201d. Rodrigues acredita que \u201co papel central do \u2018eu\u2019 nas redes sociais e o enfraquecimento do sentimento comunit\u00e1rio s\u00e3o dois fatores que parecem estar por tr\u00e1s do peso desproporcional dado por nosso tempo ao lugar vivido na literatura\u201d. Embora existam \u201cexcelentes obras feitas nessa praia\u201d, ele \u201cteme que a supervaloriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia como moda cultural, com o menosprezo \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, que vem junto, limite de modo severo o card\u00e1pio daquilo que a literatura pode alcan\u00e7ar\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\">A prop\u00f3sito, o escultor Richard Serra ofereceu aos criadores o seguinte conselho: \u201cse voc\u00ea realmente quiser diferenciar o seu trabalho do de todo mundo, toda vez que chegar a uma bifurca\u00e7\u00e3o na estrada, n\u00e3o pense sobre qual rumo tomar; automaticamente, escolha o caminho mais dif\u00edcil. Todo mundo est\u00e1 escolhendo o mais f\u00e1cil\u201d (tradu\u00e7\u00e3o de Alice Sant\u2019Anna).<\/p>\n<p class=\"texto\">Sobre o mercado, Rodrigues afirma que \u201cprofissionalismo\u201d tem a ver com dar \u201co que o \u2018mercado\u2019 quer\u201d, mas depende tamb\u00e9m de onde o escritor quer chegar. \u201cEscritores malditos\u201d, prossegue, se ressentiriam do sucesso (financeiro tamb\u00e9m) dos outros. Mas diria que esse sentimento negativo pode ser uma via de m\u00e3o dupla: escritores \u201cprofissionais\u201d, por mais festejados que sejam, se ressentiriam tamb\u00e9m do fato de seus livros quase sempre serem considerados apenas best-sellers e n\u00e3o obras-primas liter\u00e1rias.<\/p>\n<p class=\"texto\">E os rob\u00f4s? Em \u201cEscrever \u00e9 humano\u201d, eles s\u00e3o apenas coadjuvantes. Nem poderia ser diferente, pois o que fundamenta o livro s\u00e3o reflex\u00f5es e essas s\u00e3o demasiadamente humanas.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>&#8220;Escrever \u00e9 humano: como dar vida \u00e0 sua escrita em tempo de rob\u00f4s&#8221;<\/strong><br \/>\u2022\u00a0De S\u00e9rgio Rodrigues<br \/>\u2022\u00a0Companhia das Letras<br \/>\u2022\u00a0200 p\u00e1gs.<br \/>\u2022\u00a0R$79,90<br \/>\u2022\u00a0O autor lan\u00e7a o livro em BH nesta ter\u00e7a (30\/9), \u00e0s 19h, na Livraria Jenipapo (Rua Fernandes Tourinho, 241 \u2013 Savassi), como parte do projeto Rep\u00fablica Jenipapo, no qual debater\u00e1 a obra com a historiadora Heloisa Starling e a escritora e jornalista Virg\u00ednia Starling. Entrada franca.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>*Autora, entre outros, de \u201cInterfer\u00eancias: censura, apagamento e outros temas contempor\u00e2neos\u201d (No prelo, Iluminuras).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Dirce Waltrick do Amarante* \u201cEscrever \u00e9 humano: Como dar vida \u00e0 sua escrita em tempos de rob\u00f4s\u201d, de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":92794,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,12470,114,115,23152,874,864,237,170,32,33],"class_list":{"0":"post-92793","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-clube-de-leitura","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-escrita","13":"tag-escritor","14":"tag-literatura","15":"tag-livro","16":"tag-livros","17":"tag-portugal","18":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92793","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92793"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92793\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92793"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92793"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92793"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}