{"id":95483,"date":"2025-10-02T08:15:27","date_gmt":"2025-10-02T08:15:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/95483\/"},"modified":"2025-10-02T08:15:27","modified_gmt":"2025-10-02T08:15:27","slug":"avenida-nunalvares-porto-quer-resolver-um-impasse-com-mais-de-cem-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/95483\/","title":{"rendered":"Avenida Nun&#8217;\u00c1lvares: Porto quer resolver um impasse com mais de cem anos"},"content":{"rendered":"<p>* Declara\u00e7\u00e3o de interesses pr\u00e9via: sou propriet\u00e1rio de dois terrenos na futura avenida, onde vou construir uma casa e um pequeno pr\u00e9dio, tenho acompanhado de perto e ao longo de muitos anos o processo de licenciamento.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"inread\">Poucos projetos urban\u00edsticos em Portugal carregam um peso hist\u00f3rico t\u00e3o marcante quanto a Avenida Nun&#8217;\u00c1lvares, no Porto. A sua conce\u00e7\u00e3o inicial remonta a 1916, quando A.C. da Cunha Moraes apresentou a Proposta de Melhoramentos da Cidade do Porto. J\u00e1 nessa altura se falava da necessidade de um eixo estruturante que ligasse a Foz do Douro a Matosinhos, acompanhando a orla atl\u00e2ntica. O objetivo era simples e vision\u00e1rio: abrir uma avenida larga, moderna, capaz de responder ao futuro da mobilidade e do crescimento urbano<\/p>\n<p>Passaram-se mais de cem anos e in\u00fameros planos diretores, reguladores e revis\u00f5es legislativas. O tra\u00e7ado foi redesenhado, as inten\u00e7\u00f5es reafirmadas e, tantas vezes, abandonadas.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro1\">Nos \u00faltimos meses, ap\u00f3s d\u00e9cadas de avan\u00e7os e recuos, a CMP conseguiu finalmente desbloquear o processo. O que parecia um sonho adiado para sempre tornou-se realidade: a cidade aprovou e iniciou o caminho para a concretiza\u00e7\u00e3o deste eixo, que ser\u00e1 ao mesmo tempo vi\u00e1rio, residencial, ecol\u00f3gico e urbano.<\/p>\n<p>Um impasse hist\u00f3rico<\/p>\n<p>O percurso at\u00e9 aqui foi longo e sinuoso. Nos anos 1930, o engenheiro Ezequiel de Campos voltou a propor a expans\u00e3o para poente.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro2\">O p\u00f3s-guerra e os anos 1950 trouxeram novos planos, mas sempre a mesma conclus\u00e3o: a avenida era essencial. Em 1962, o urbanista Robert Auzelle insistia numa art\u00e9ria larga, de duas faixas por sentido, assegurando uma liga\u00e7\u00e3o r\u00e1pida a Matosinhos.<\/p>\n<p>Nos anos 1980 e 1990, com a revis\u00e3o do Plano Diretor Municipal, a Nun&#8217;\u00c1lvares manteve-se como projeto fundamental. Mas as sucessivas revis\u00f5es nunca passavam do papel. At\u00e9 que, em 2012, um projeto de loteamento parecia prestes a avan\u00e7ar. Previa 214 mil m\u00b2 de constru\u00e7\u00e3o, uma avenida com 35 metros de largura e edif\u00edcios de 5 a 6 pisos. Por\u00e9m, sem acordo dos propriet\u00e1rios, o processo ficou paralisado e foi arquivado.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro3\"><img decoding=\"async\" class=\"ngx-body\" guid=\"d6645243-90b5-450c-8ecb-9fcf11639655\" src=\"https:\/\/static.ni.aws.newsgen.io\/jn\/image.jpg?brand=JN&amp;type=generate&amp;guid=d6645243-90b5-450c-8ecb-9fcf11639655&amp;t=2025093015265050\" width=\"100%\"\/><\/p>\n<p>Ponto de viragem<\/p>\n<p>A verdadeira mudan\u00e7a ocorreu em 2021, quando o Porto aprovou a segunda revis\u00e3o do Plano Diretor Municipal. Pela primeira vez, conseguiu-se um equil\u00edbrio entre tr\u00eas dimens\u00f5es fundamentais:<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro4\">Redu\u00e7\u00e3o da edificabilidade, com um \u00edndice global de 0,67, muito abaixo da m\u00e9dia da cidade e de planos anteriores.<\/p>\n<p>Integra\u00e7\u00e3o com o tecido urbano existente, privilegiando moradias onde j\u00e1 h\u00e1 moradias e blocos onde j\u00e1 existem blocos.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro5\">Valoriza\u00e7\u00e3o ambiental, com a renaturaliza\u00e7\u00e3o das ribeiras de Nevogilde e da Ervilha e a cria\u00e7\u00e3o de mais de cinco hectares de \u00e1reas verdes p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a C\u00e2mara introduziu flexibilidade: em vez de um \u00fanico loteamento abrangendo toda a extens\u00e3o, permitiu a divis\u00e3o em v\u00e1rias unidades de execu\u00e7\u00e3o. Essa solu\u00e7\u00e3o abriu caminho ao consenso entre os propriet\u00e1rios e \u00e0 viabiliza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica do projeto.<\/p>\n<p>Concerta\u00e7\u00e3o fez a diferen\u00e7a<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro6\">O atual Executivo Municipal, liderado pelo vereador Pedro Baganha na \u00e1rea do Urbanismo, assumiu uma estrat\u00e9gia clara: concertar posi\u00e7\u00f5es entre todos os propriet\u00e1rios. Cada um recebeu direitos edificat\u00f3rios proporcionais, distribu\u00eddos de forma transparente e objetiva, ao abrigo do Regulamento Perequativo de Edificabilidade e Encargos Urban\u00edsticos.<\/p>\n<p>O resultado foi um contrato de urbaniza\u00e7\u00e3o assinado por todos propriet\u00e1rios, algo in\u00e9dito na longa hist\u00f3ria da Nun&#8221;\u00c1lvares. Foi esse consenso que finalmente desbloqueou o projeto. Pela primeira vez, a avenida deixou de ser apenas uma inten\u00e7\u00e3o nos planos e passou a ter um quadro legal, t\u00e9cnico e pol\u00edtico s\u00f3lido.<\/p>\n<p>Mudan\u00e7as estrat\u00e9gicas<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com o plano arquivado, as diferen\u00e7as s\u00e3o significativas:<\/p>\n<p>A largura da avenida diminuiu de 35 para 23 metros, evitando a sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;fosso&#8221; urbano e reduzindo custos em um ter\u00e7o.<\/p>\n<p>A \u00e1rea de constru\u00e7\u00e3o passou de 214 mil para 176 mil m\u00b2, e o n\u00famero de fogos caiu de 2.572 para 1.665.<\/p>\n<p>A altura m\u00e9dia dos edif\u00edcios baixou de 5-6 pisos para 3-4 pisos.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas lotes junto \u00e0 Pra\u00e7a do Imp\u00e9rio, que se situa numa zona ladeada por dois grandes conjuntos de tr\u00eas edif\u00edcios e onde se poder\u00e3o construir e ficaram previstos os novos edif\u00edcios at\u00e9 a um m\u00e1ximo de 25 pisos. Estes, permitem libertar mais solo para \u00e1reas verdes, sem aumentar a \u00e1rea total de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O metro foi exclu\u00eddo do tra\u00e7ado, ap\u00f3s estudos demonstrarem os impactos negativos no Parque da Cidade e nas ribeiras.<\/p>\n<p>Estas altera\u00e7\u00f5es, aprovadas sem nenhum voto contra em reuni\u00e3o de C\u00e2mara e Assembleia Municipal, representam a solu\u00e7\u00e3o mais equilibrada e adaptada \u00e0 realidade do Porto contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Pol\u00e9mica das &#8220;torres&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel ignorar a controv\u00e9rsia recente em torno das tr\u00eas &#8220;torres&#8221; de 25 pisos. Cr\u00edticas apontam riscos de impacto visual e descaracteriza\u00e7\u00e3o da Foz. Mas a C\u00e2mara sublinha: os metros quadrados seriam os mesmos, com torres altas ou v\u00e1rios blocos baixos. A diferen\u00e7a est\u00e1 no solo libertado para parques e ribeiras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os projetos apresentados &#8211; assinados pelo arquiteto Norman Foster &#8211; incluem estudos de insola\u00e7\u00e3o, impacto de sombra, ventos e enquadramento paisag\u00edstico. As alturas reais previstas s\u00e3o de 78, 83 e 86 metros, muito abaixo dos 100 metros que circularam em imagens falsas e manipuladas nas redes sociais.<\/p>\n<p>A pol\u00e9mica tamb\u00e9m reflete o contexto pr\u00e9-eleitoral, com debates alimentados por populismo e desinforma\u00e7\u00e3o. O munic\u00edpio veio a publico garantir que o processo foi transparente, participado e escrutinado em assembleias e discuss\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Avenida para o s\u00e9culo XXI<\/p>\n<p>A futura Avenida Nun&#8217;\u00c1lvares n\u00e3o ser\u00e1 apenas uma estrada. Ser\u00e1 um eixo urbano estruturante que integra:<\/p>\n<p>Mobilidade: liga\u00e7\u00e3o direta entre a Boavista e a Pra\u00e7a do Imp\u00e9rio, facilitando o acesso \u00e0 Foz.<\/p>\n<p>Habita\u00e7\u00e3o: tipologias diversificadas, de moradias a blocos, respondendo \u00e0s din\u00e2micas residenciais da cidade.<\/p>\n<p>Ambiente: dois grandes parques urbanos associados \u00e0s ribeiras, com 20% da \u00e1rea total destinada a espa\u00e7os verdes.<\/p>\n<p>Coes\u00e3o urbana: uma avenida que une, em vez de separar, costurando a malha da Foz e de Nevogilde.<\/p>\n<p>Mais do que resolver um impasse centen\u00e1rio, a Nun&#8221;\u00c1lvares representa uma nova forma de pensar a cidade: sustent\u00e1vel, integrada e participada.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da Avenida Nun&#8221;\u00c1lvares \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria da resili\u00eancia do planeamento urbano portugu\u00eas. Durante mais de cem anos, gera\u00e7\u00f5es de arquitetos, engenheiros e pol\u00edticos defenderam a sua concretiza\u00e7\u00e3o. Foram necess\u00e1rias d\u00e9cadas de debates, revis\u00f5es de planos e impasses jur\u00eddicos para que se chegasse a este ponto.<\/p>\n<p>Hoje, o Porto est\u00e1 perto de concluir este t\u00e3o importante marco, numa cidade que precisa de rejuvenescer e crescer. Atrav\u00e9s de consenso, rigor t\u00e9cnico e transpar\u00eancia pol\u00edtica, a cidade transformou um sonho adiado numa realidade palp\u00e1vel.<\/p>\n<p>A Avenida Nun&#8217;\u00c1lvares ser\u00e1, assim, mais do que uma obra vi\u00e1ria: ser\u00e1 um s\u00edmbolo da capacidade de resolver bloqueios hist\u00f3ricos e de projetar a cidade para o futuro. Um exemplo de como o urbanismo pode unir mem\u00f3ria e modernidade, hist\u00f3ria e inova\u00e7\u00e3o, e de como o Porto continua a saber reinventar-se sem esquecer as suas ra\u00edzes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"* Declara\u00e7\u00e3o de interesses pr\u00e9via: sou propriet\u00e1rio de dois terrenos na futura avenida, onde vou construir uma casa&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":95484,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[1302,27,28,15,16,14,25,26,21,22,23634,12,13,19,20,835,462,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-95483","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-boavista","9":"tag-breaking-news","10":"tag-breakingnews","11":"tag-featured-news","12":"tag-featurednews","13":"tag-headlines","14":"tag-latest-news","15":"tag-latestnews","16":"tag-main-news","17":"tag-mainnews","18":"tag-nevogilde","19":"tag-news","20":"tag-noticias","21":"tag-noticias-principais","22":"tag-noticiasprincipais","23":"tag-opiniao","24":"tag-porto","25":"tag-portugal","26":"tag-principais-noticias","27":"tag-principaisnoticias","28":"tag-pt","29":"tag-top-stories","30":"tag-topstories","31":"tag-ultimas","32":"tag-ultimas-noticias","33":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95483"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95483\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95484"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}