{"id":95503,"date":"2025-10-02T08:38:15","date_gmt":"2025-10-02T08:38:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/95503\/"},"modified":"2025-10-02T08:38:15","modified_gmt":"2025-10-02T08:38:15","slug":"sentir-como-arvore-quatro-cinco-um","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/95503\/","title":{"rendered":"Sentir como \u00e1rvore &#8211; Quatro cinco um"},"content":{"rendered":"<p>\u201cPor que n\u00e3o tem pessoas nesse livro?\u201d, me pergunta minha filha de tr\u00eas anos assim que come\u00e7amos a leitura. Lembro, ent\u00e3o, da professora de hist\u00f3ria do primeiro ano do ensino m\u00e9dio apontando para as \u00e1rvores no jardim da escola e dizendo: \u201cTemos certeza de que as \u00e1rvores n\u00e3o sentem e pensam, mas como podemos ter tanta certeza assim? Algu\u00e9m aqui j\u00e1 foi \u00e1rvore para saber que n\u00e3o sentem e pensam?\u201d. Achei gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Devia ser 2001. Tanta coisa aconteceu de l\u00e1 para c\u00e1. Davi Kopenawa publicou A queda do c\u00e9u e Natalie Diaz escreveu o Poema de amor p\u00f3s-colonial, alguns dos livros que me fizeram olhar diferente para as coisas. Mas at\u00e9 hoje recordo o primeiro contato com uma perspectiva n\u00e3o antropoc\u00eantrica.\u00a0<\/p>\n<p>Essa perspectiva rege A can\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore, de Coralie Bickford-Smith, com tradu\u00e7\u00e3o de Cristiane Maruyama. A autora se prop\u00f5e a sentir e pensar bem de perto as penas de um p\u00e1ssaro e os galhos de uma \u00e1rvore \u2014 mais perto do que os livros costumam sentir e pensar.\u00a0<\/p>\n<blockquote class=\"s-eye dashed-top\"><p>\n    A medida da poesia em Bickford-Smith n\u00e3o \u00e9 humana, mas bot\u00e2nica, animal, mineral\n<\/p><\/blockquote>\n<p>A \u00e9poca das chuvas chegou e, depois de entoar uma can\u00e7\u00e3o de despedida, a revoada parte da \u00e1rvore imponente no meio da selva que serviu de abrigo durante o inverno. Os p\u00e1ssaros v\u00e3o em busca de um lugar mais quente. Mas a revoada \u00e9 toda verde e amarela \u2014 nosso pequeno P\u00e1ssaro vermelho, com P mai\u00fasculo, \u00e9 diferente dos outros e hesita.\u00a0<\/p>\n<p>\t\t\t<a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"adv-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3008\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201056%20270'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Group-3008-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n<p>Afinal, \u201cpara um jovem p\u00e1ssaro, essa \u00e1rvore era como um lar, seus galhos eram t\u00e3o familiares quanto suas pr\u00f3prias penas\u201d. P\u00e1ssaro diz que conhece as ra\u00edzes e folhas da \u00e1rvore, gosta de sua paz e calma, ama seus galhos firmes. Ele pergunta \u00e0 \u00e1rvore \u2014 e se pergunta \u2014 quem se abriga nos galhos, faz as folhas farfalharem, desenha caminhos na casca e canta can\u00e7\u00f5es de ninar quando a chuva vem.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro pergunta, mas a \u00e1rvore n\u00e3o responde. Ela suspira \u2014 a noite cai com suas estrelas e n\u00f3s descobrimos, junto com P\u00e1ssaro, v\u00e1rios animais que orbitam aquela \u00e1rvore, alguns deles camuflados nos desenhos deslumbrantes de Bickford-Smith.\u00a0<\/p>\n<p>Primeiro vagalumes, que convidam o p\u00e1ssaro a subir pela \u00e1rvore, depois on\u00e7as, um pav\u00e3o, macaquinhos, borboletas\u2026 Cada um a seu tempo, cada vez mais no alto, os animais falam com o p\u00e1ssaro, contando como s\u00e3o e o que fazem, em charadas rimadas \u2014 ou versos de uma can\u00e7\u00e3o. \u201cMe deleito em meu manto colorido e iluminado\/ Voc\u00ea n\u00e3o vai me encontrar nem sob o sol nem sob o c\u00e9u estrelado\u201d, diz o camale\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"687\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201024%20687'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" data-lazy- data-lazy- data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ACancaoDaArvoreMIOLO1-1024x687.jpg\"\/><\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o de Coralie Bickford-Smith (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>Juntos, os animais que o pequeno p\u00e1ssaro vermelho encontra comp\u00f5em a can\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore destacada no t\u00edtulo. Uma can\u00e7\u00e3o que se faz de muitas vozes, de muitas vidas \u2014 da biodiversidade.\u00a0<\/p>\n<p>Quando finalmente chega ao topo da \u00e1rvore, \u00e9 a voz do vento que o p\u00e1ssaro escuta, convidando-o a partir \u2014 o vento, que leva consigo \u201ccada can\u00e7\u00e3o j\u00e1 cantada\u201d. No dia seguinte, P\u00e1ssaro est\u00e1 tranquilo, porque agora sabe quantos animais t\u00eam a \u00e1rvore como casa e, quando desabar a chuva, seguir\u00e3o ali se abrigando nos galhos, fazendo farfalhar as folhas, desenhando na casca e cantando para ela dormir.\u00a0<\/p>\n<p>A \u00e1rvore est\u00e1 protegida \u2014 n\u00e3o depende do cuidado s\u00f3 dele, mas do cuidado coletivo. Ele est\u00e1 ligado \u00e0quela \u00e1rvore e \u00e0quele ecossistema, tem uma sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento que lhe d\u00e1 coragem para partir. Depois de ter suspirado ao cair da noite, de manh\u00e3 a \u00e1rvore range e o p\u00e1ssaro ouve sua voz. A f\u00e1bula termina com uma pergunta: j\u00e1 que n\u00e3o sabemos o que o p\u00e1ssaro ouviu antes de sair voando, resta imaginar.<\/p>\n<p>Dilema humano<\/p>\n<p>\u00c9 claro que somos tentados a enxergar o dilema desse p\u00e1ssaro como o de quando crescemos, entramos na escola ou sa\u00edmos de casa, quando mudamos de apartamento ou de pa\u00eds. Para algumas sensibilidades como a do p\u00e1ssaro vermelho, a mudan\u00e7a \u00e9 mais dolorosa porque se preocupam com o que ficar\u00e1 para tr\u00e1s. A preocupa\u00e7\u00e3o e o medo s\u00e3o ambivalentes: conjugam-se com o desejo de partir com o vento.\u00a0<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o \u2014 nos colar como pessoas (\u201cPor que este livro n\u00e3o tem pessoas?\u201d) ao que est\u00e1 sendo dito. Mas, mesmo que haja personifica\u00e7\u00f5es aqui e ali, a hist\u00f3ria de Bickford-Smith n\u00e3o necessariamente aponta para esse caminho de leitura; ela \u00e9 aberta e, talvez por isso, t\u00e3o potente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"687\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201024%20687'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" data-lazy- data-lazy- data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/ACancaoDaArvoreMIOLO3-1024x687.jpg\"\/><\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o de Coralie Bickford-Smith (Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>A medida de sua poesia n\u00e3o \u00e9 humana, mas bot\u00e2nica, animal, mineral. Os animais n\u00e3o vestem roupas e n\u00e3o t\u00eam h\u00e1bitos humanos, exceto pela fala. Suas formas de carinho \u2014 com exce\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o de ninar que \u00e9 cantada para a \u00e1rvore \u2014 s\u00e3o caracter\u00edsticas, como fazer as folhas farfalharem ou desenhar o tronco com os p\u00e9s. At\u00e9 o formato do livro lembra o da imponente \u00e1rvore que \u00e9 sua protagonista: grande, vertical, generoso, com cores exuberantes. A personagem fala sua pr\u00f3pria l\u00edngua, feita de suspiros e rangidos.<\/p>\n<p>Por alguns minutos de leitura, suspendemos a perspectiva antropoc\u00eantrica e sentimos como \u00e1rvores, pensamos como p\u00e1ssaros.\u00a0<\/p>\n<p><a data-no-instant=\"1\" href=\"https:\/\/quatrocincoum.com.br\/assine\" rel=\"noopener nofollow sponsored\" class=\"adv-link\" target=\"_blank\" aria-label=\"Group 3010\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"data:image\/svg+xml,%3Csvg%20xmlns='http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg'%20viewBox='0%200%201056%20270'%3E%3C\/svg%3E\" alt=\"\" width=\"1056\" height=\"270\" data-lazy-src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Group-3010-1.png\"\/><\/p>\n<p><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cPor que n\u00e3o tem pessoas nesse livro?\u201d, me pergunta minha filha de tr\u00eas anos assim que come\u00e7amos a&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":95504,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-95503","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95503\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95504"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}