{"id":97250,"date":"2025-10-03T18:57:07","date_gmt":"2025-10-03T18:57:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/97250\/"},"modified":"2025-10-03T18:57:07","modified_gmt":"2025-10-03T18:57:07","slug":"o-sono-tranquilo-de-um-matador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/97250\/","title":{"rendered":"O sono tranquilo de um matador"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cN\u00e3o parece real que ele nunca mais vai respirar, que ele est\u00e1 morto. O outro tamb\u00e9m. Tudo por causa de um gatilho\u201d<\/strong>. Com alguma altera\u00e7\u00e3o ou outra, a depender da tradu\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que diz um pistoleiro iniciante ap\u00f3s fazer suas primeiras v\u00edtimas no Velho Oeste. Seu interlocutor \u00e9 um assassino profissional que havia se aposentado, mas volta ao crime pela recompensa oferecida. A dupla parte para receber o pagamento.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, ao perceber o desespero do jovem fora da lei, o veterano, com dezenas de mortos nas costas, faz uma digress\u00e3o. <strong>\u201cMatar um homem \u00e9 uma coisa terr\u00edvel. Voc\u00ea tira n\u00e3o apenas tudo o que ele tem, mas tudo o que ele poderia ter\u201d<\/strong>. A constata\u00e7\u00e3o resignada \u00e9 de William Manny, personagem de Clint Eastwood em Os Imperdo\u00e1veis, lan\u00e7ado em 1992. A obra surpreendeu a cr\u00edtica e levou pr\u00eamios pelo mundo.<\/p>\n<p>Depois que Sergio Leone implodiu os filmes de western, com t\u00edtulos como Por Um Punhado de D\u00f3lares, Tr\u00eas Homem em Conflito e o obrigat\u00f3rio Era Uma Vez no Oeste, parecia imposs\u00edvel que aquele universo pudesse render produto de valor. Ao subverter a linguagem, triturando clich\u00eas consagrados, o diretor italiano esgotara um estilo.<\/p>\n<p>As paisagens vertiginosas, o cowboy frio e solit\u00e1rio, a brutalidade, a vingan\u00e7a e a lei do mais forte \u2013 tudo isso foi revirado por Leone. Na investida, ele parece recorrer \u00e0 par\u00f3dia para redimensionar aquelas hist\u00f3rias lend\u00e1rias, numa mistura de farsa, trag\u00e9dia, ilus\u00e3o e melancolia. O cinema e o Velho Oeste nunca mais seriam os mesmos.<\/p>\n<p>Mas, em 1992, Clint Eastwood apresenta ao mundo sua obra-prima irretoc\u00e1vel. Al\u00e9m da dire\u00e7\u00e3o, ele encarna o protagonista deste filme que \u00e9 \u2013 agora sim \u2013 a \u00faltima palavra sobre uma vis\u00e3o de mundo. Os dilemas morais da exist\u00eancia est\u00e3o todos na tela, expostos com sobriedade, sem afeta\u00e7\u00e3o ou maneirismos. O western, eterno, acaba aqui.<\/p>\n<p>Lembrei desse monumento da arte ao descobrir que o deputado estadual Cabo Bebeto n\u00e3o sente nada quando pensa em quantas pessoas matou no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o de militar. Na entrevista aos jornalistas Carlos Melo e Ricardo Mota, no CM Cast, Bebeto fala com desd\u00e9m sobre o ato de eliminar a exist\u00eancia de uma pessoa. Nada demais.<\/p>\n<p><strong>\u201cEu nunca perdi o sono porque matei algu\u00e9m. Nunca. Durmo tranquilamente com isso todos os dias\u201d<\/strong>. Ele afirma que sabe quantos matou ao longo dos anos \u2013 \u201cclaro que eu sei\u201d \u2013, mas n\u00e3o revela o n\u00famero. A omiss\u00e3o ter\u00e1 sido por algum constrangimento?<\/p>\n<p>Ao afirmar que dorme em paz, mesmo com a mem\u00f3ria de tantas mortes, o pol\u00edtico parece falar de algo corriqueiro, uma banalidade. Com ironia, diz que h\u00e1 policiais que \u201cn\u00e3o aguentam dar dois tiros, que j\u00e1 ficam nervosos\u201d. Ele, n\u00e3o. Bebeto \u00e9 sujeito homem, imune a sentimentalismos. Qual o problema em acabar com a vida de um ser humano?<\/p>\n<p>Reparem: at\u00e9 um matador profissional, como os anti-her\u00f3is de Os Imperdo\u00e1veis, acusa o peso de um gesto perturbador como este. Mesmo por uma \u201ccausa justa\u201d, mesmo na leg\u00edtima defesa, exterminar o outro joga o assassino numa zona de inquieta\u00e7\u00e3o inafast\u00e1vel. O fato de o alvo ser um \u201cbandido\u201d n\u00e3o alivia a ang\u00fastia de quem mata.\u00a0<\/p>\n<p>A Literatura e a Hist\u00f3ria abordam h\u00e1 s\u00e9culos esse dilema demasiadamente humano. De her\u00f3is de guerra a cangaceiros, de carrascos a guerrilheiros, de mercen\u00e1rios a atiradores de elite, puxar o gatilho \u00e9 uma escolha que muda tudo, dos dois lados, para sempre. \u00a0<\/p>\n<p>As v\u00edtimas dos pistoleiros do filme de Clint Eastwood cometeram uma barbaridade contra uma mulher. Tiveram o que mereciam. Eram imperdo\u00e1veis, afinal. Ainda assim, o veterano e o jovem principiante no of\u00edcio de matar sabem que isso n\u00e3o lhes garante o sono tranquilo. Sabem que de nada adianta fingir normalidade diante de uma anomalia.<\/p>\n<p>Acabar com o presente e o futuro de algu\u00e9m nunca ser\u00e1 uma trivialidade. Pensar o contr\u00e1rio \u00e9 reverenciar a selvageria, \u00e9 animalesco, desumano. Ref\u00e9m das pr\u00f3prias ideias e de um estilo de vida, o senhor Bebeto jamais admitir\u00e1 a fraquejada de um sono intranquilo. Que frescura \u00e9 essa? Como revela na entrevista, com aquele jeit\u00e3o entre apalermado e insultuoso, est\u00e1 condenado a viver sob o selo de um orgulhoso matador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cN\u00e3o parece real que ele nunca mais vai respirar, que ele est\u00e1 morto. O outro tamb\u00e9m. 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