{"id":98019,"date":"2025-10-04T14:08:10","date_gmt":"2025-10-04T14:08:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/98019\/"},"modified":"2025-10-04T14:08:10","modified_gmt":"2025-10-04T14:08:10","slug":"livro-postumo-de-joan-didion-traz-reflexoes-sobre-questoes-intimas-da-filha-adotiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/98019\/","title":{"rendered":"Livro p\u00f3stumo de Joan Didion traz reflex\u00f5es sobre quest\u00f5es \u00edntimas da filha adotiva"},"content":{"rendered":"\n<p class=\" content-text__container theme-color-primary-first-letter\" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> O dilema divide opini\u00f5es como um Fla-Flu: ap\u00f3s a morte de um escritor, \u00e9 justo publicar manuscritos in\u00e9ditos guardados em uma gaveta? Apoiadores se valem do exemplo do editor Max Brod, que ignorou o pedido do amigo Franz Kafka para queimar seus originais e publicou-os ap\u00f3s sua morte, permitindo que a Humanidade descobrisse, a partir de 1925, \u201cO castelo\u201d e \u201cO processo\u201d. J\u00e1 os detratores s\u00e3o un\u00e2nimes em apontar \u201cEm agosto nos vemos\u201d, obra de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez que, mesmo renegada pelo pr\u00f3prio (\u201cEste livro n\u00e3o presta. Tem de ser destru\u00eddo\u201d), foi lan\u00e7ada em 2024, dez anos ap\u00f3s sua morte, e traz uma abund\u00e2ncia de constru\u00e7\u00f5es e adjetivos que soam como se o autor estivesse parafraseando a si mesmo. <\/p>\n<ul class=\"content-unordered-list\">\n<li><strong>Cr\u00edtica<\/strong>: <a class=\"\" href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/noticia\/2025\/10\/03\/critica-em-novo-livro-sobre-o-irmao-alcoolatra-edouard-louis-perde-intensidade.ghtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">em novo livro sobre o irm\u00e3o alco\u00f3latra, \u00c9douard Louis perde intensidade<\/a><\/li>\n<li><strong>Insley Pacheco<\/strong>: <a class=\"\" href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/noticia\/2025\/09\/30\/biografia-detalha-trajetoria-do-fotografo-oficial-de-dom-pedro-ii-que-ajudou-a-profissionalizar-o-oficio-no-pais.ghtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Biografia detalha trajet\u00f3ria do fot\u00f3grafo oficial de Dom Pedro II, que ajudou a profissionalizar o of\u00edcio no pa\u00eds<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> Pelo mesmo crivo passa agora \u201cPara John\u201d, t\u00edtulo in\u00e9dito da americana <a class=\"\" href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/livros\/morre-escritora-americana-joan-didion-aos-87-anos-25330186\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Joan Didion, que morreu em 2021<\/a> e cujos originais estavam tentadoramente escondidos em um pequeno arquivo de documentos pr\u00f3ximo \u00e0 sua escrivaninha. Eram 152 p\u00e1ginas n\u00e3o numeradas que comp\u00f5em uma esp\u00e9cie de di\u00e1rio. A publica\u00e7\u00e3o no in\u00edcio deste ano reacendeu a discuss\u00e3o nos EUA, mas a sensa\u00e7\u00e3o \u00edntima e urgente da narrativa, constru\u00edda com o habitual talento daquela que \u00e9 considerada uma das precursoras do chamado jornalismo liter\u00e1rio, fez com que a maioria aplaudisse a chegada do livro. <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> Ali est\u00e3o as descri\u00e7\u00f5es que Didion fez das suas sess\u00f5es iniciadas em 1999 com o psiquiatra Roger MacKinnon, um freudiano \u00e0 moda antiga, ferrenho defensor da terapia pela fala. O destino das anota\u00e7\u00f5es era seu marido, o tamb\u00e9m jornalista e escritor John Gregory Dunne, que n\u00e3o podia estar presente nas consultas. Didion gravou cada detalhe das conversas porque estava preocupada com a filha adotiva do casal, Quintana, e suas lutas contra a depress\u00e3o e o alcoolismo. \u00c9 importante frisar a data, 1999, portanto antes das mortes de Dunne (em 2003) e de Quintana (2005). <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> As duras perdas inspiraram relatos honestos e at\u00e9 brutais de Didion nos livros \u201cNoite azuis\u201d (2011), tocante depoimento sobre a maternidade, e principalmente \u201cO ano do pensamento m\u00e1gico\u201d (2005), reflex\u00e3o a respeito da s\u00fabita morte do marido e cujo tom confessional n\u00e3o vem carregado de religiosidade ou mesmo desesperan\u00e7a diante da perda \u2014 sem autopiedade, ela revela como enfrentar as adversidades sob um aparente controle. <\/p>\n<p>      <img decoding=\"async\" class=\"content-media__image\"  src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/para-john.jpg\" alt=\"Capa do livro 'Para John' \u2014 Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\" width=\"680\" height=\"1000\" loading=\"lazy\"\/>  Capa do livro &#8216;Para John&#8217; \u2014 Foto: Divulga\u00e7\u00e3o        <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> O leitor que agora desfruta de \u201cPara John\u201d logo reconhece, no registro das sess\u00f5es, a clareza fria e meticulosa pela qual Didion se tornou conhecida. A narrativa pode ser observada como uma longa conversa com o marido, interlocutor tratado diretamente por \u201cvoc\u00ea\u201d. <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> O livro come\u00e7a em dezembro de 1999 e termina em janeiro de 2002, com um pequeno e triste posf\u00e1cio retirado do computador de Didion, relatando uma sess\u00e3o que ela e Quintana tiveram com o psiquiatra desta \u00faltima, Dr. Kass. Foi ele quem mencionou para Didion a utilidade da psican\u00e1lise para Quintana, adotada ainda beb\u00ea e que parecia ter uma predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica ao alcoolismo. <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> A precis\u00e3o de cada relato, marcada por uma profus\u00e3o de detalhes, reafirma a decis\u00e3o deliberada de Didion de gravar as conversas, que giravam em torno de temas como alcoolismo, ado\u00e7\u00e3o, depress\u00e3o, ansiedade, culpa, al\u00e9m da complexidade do relacionamento com Quintana, cujas falhas no amadurecimento n\u00e3o pareciam assombrar a pr\u00f3pria m\u00e3e. <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> \u201cContei a ele (o psiquiatra) que meus pais, cada um \u00e0 sua maneira, haviam deixado claro que n\u00e3o me consideravam uma m\u00e3e presente o bastante, que era ausente, dependia demais da ajuda dos outros, n\u00e3o dava aten\u00e7\u00e3o suficiente etc. Eu disse, no entanto, que nunca achei que isso me afetasse, porque j\u00e1 fazia tempo que meus pais tinham perdido a capacidade de fazer eu me sentir culpada\u201d, escreve ela com indisfar\u00e7\u00e1vel frieza. <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> Didion revela uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua com a filha. Al\u00e9m de monitorar seu peso e sua alimenta\u00e7\u00e3o, a escritora (e tamb\u00e9m o marido) desconfiava da efici\u00eancia do tratamento a que a menina se submetia nos Alco\u00f3licos An\u00f4nimos \u2014 Quintana morreu aos 39 anos de complica\u00e7\u00f5es de pancreatite. A escritora at\u00e9 desafia os princ\u00edpios morais do leitor ao lembrar com indiferen\u00e7a o fato de ter permitido que a garota assistisse ao longa de terror \u201cA noite dos mortos-vivos\u201d \u00e0 meia-noite. Detalhe: Quintana tinha apenas 7 anos. A hist\u00f3ria deixou atordoado o psiquiatra Roger MacKinnon, que a considerava uma paciente com alto risco de suic\u00eddio. <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> O grande m\u00e9rito de Didion est\u00e1 em iluminar uma situa\u00e7\u00e3o que normalmente as pessoas querem deixar na sombra. Ao mesmo tempo em que procura salvar uma vida, tenta compreender a sua pr\u00f3pria. Com uma escrita notavelmente fria, resvalando por vezes na sordidez, o livro encanta pela honestidade com que Didion n\u00e3o disfar\u00e7a que, aparentemente priorit\u00e1ria, a preocupa\u00e7\u00e3o com a filha n\u00e3o escondia sua inquieta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio trabalho, especialmente a constru\u00e7\u00e3o de seu testamento art\u00edstico. A prosa cotidiana e desajeitada pode abalar a venera\u00e7\u00e3o de algum f\u00e3, assim como a indisfar\u00e7\u00e1vel invas\u00e3o de privacidade, mas \u201cPara John\u201d mostra como ele enfrentou as adversidades com um aparente controle, atravessando meses sob uma suposta e racional normalidade. <\/p>\n<p class=\" content-text__container \" data-track-category=\"Link no Texto\" data-track-links=\"\"> * Ubiratan Brasil \u00e9 jornalista <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O dilema divide opini\u00f5es como um Fla-Flu: ap\u00f3s a morte de um escritor, \u00e9 justo publicar manuscritos in\u00e9ditos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":98020,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-98019","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98019","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98019"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98019\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/98020"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98019"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=98019"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=98019"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}