{"id":98199,"date":"2025-10-04T17:48:11","date_gmt":"2025-10-04T17:48:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/98199\/"},"modified":"2025-10-04T17:48:11","modified_gmt":"2025-10-04T17:48:11","slug":"eu-casei-me-aos-14-anos-divorciei-me-aos-15-foi-o-que-me-salvou-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/98199\/","title":{"rendered":"Eu casei-me aos 14 anos. Divorciei-me aos 15, foi o que me salvou a vida"},"content":{"rendered":"<p>\t                REPORTAGEM | A realidade oculta do casamento infantil<\/p>\n<p>Exclusivo: Relat\u00f3rio revela a realidade oculta do casamento infantil. Tr\u00eas raparigas partilham o impacto disso nas vidas delas <\/p>\n<p>por <strong>Sashikala VP<\/strong> e <strong>Carlotta Dotto<\/strong>, CNN | ilustra\u00e7\u00f5es de <strong>Petra Eriksson<\/strong><\/p>\n<p>NOTA DO EDITOR Esta hist\u00f3ria faz parte de <a href=\"https:\/\/edition.cnn.com\/interactive\/asequals\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">As Equals<\/a>, uma s\u00e9rie da CNN sobre desigualdade de g\u00e9nero. Para obter informa\u00e7\u00f5es sobre como a s\u00e9rie \u00e9 financiada e mais detalhes, consulte as nossas <a href=\"https:\/\/edition.cnn.com\/2021\/04\/06\/world\/as-equals-frequently-asked-questions-intl\/index.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Perguntas Frequentes (FAQs)<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Desde crian\u00e7a, Rehana, agora com 17 anos, sonhava em sustentar a sua fam\u00edlia. Filha \u00fanica de pais com dificuldades financeiras no Bangladesh, diz: &#8220;Sempre pensei &#8216;n\u00e3o tenho irm\u00e3o, quem \u00e9 que vai tomar conta dos meus pais?'&#8221;. Queria assumir essa responsabilidade, mas aos 14 anos as suas ambi\u00e7\u00f5es ficaram em stand by quando uma fam\u00edlia influente na comunidade prop\u00f4s um casamento.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o percebia o que era casar-me&#8230; Eu gostava de estudar. Estava sempre a estudar&#8221;, conta \u00e0 CNN.<\/p>\n<p>Rehana, cujo nome foi alterado, tornou-se, em vez disso, uma das cerca de 38 milh\u00f5es de raparigas no pa\u00eds \u2014 e 650 milh\u00f5es de raparigas em todo o mundo \u2014 que se casaram ou viviam em uni\u00e3o antes de completarem 18 anos.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Rehana \u00e9 uma das mais de 250 registadas como parte de um novo relat\u00f3rio publicado recentemente e partilhado em exclusivo com a CNN, que proporciona uma vis\u00e3o sobre a vida quotidiana de raparigas em todo o mundo que se casaram ou entraram em uni\u00f5es quando crian\u00e7as \u2014 algumas com apenas 12 anos. As uni\u00f5es em quest\u00e3o s\u00e3o casamentos informais ou coabita\u00e7\u00f5es, n\u00e3o reconhecidas por lei, mas consideradas oficiais pelas comunidades.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio &#8220;State of the World\u2019s Girls 2025&#8221;, da ONG global Plan International, revela como estas rela\u00e7\u00f5es deixam as raparigas vulner\u00e1veis para o resto das suas vidas. Analisou 15 pa\u00edses com altas taxas de casamento infantil na Am\u00e9rica Latina, M\u00e9dio Oriente, \u00c1frica e \u00c1sia e descobriu que, em todos eles, os defensores acreditam que tais casamentos e uni\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o a ser fiscalizados pelas autoridades, apesar de muitas vezes existirem leis em vigor, e as necessidades das jovens noivas n\u00e3o est\u00e3o a ser ouvidas.<\/p>\n<p>Os investigadores entrevistaram mais de 250 raparigas que se casaram ou entraram em uni\u00e3o antes dos 18 anos \u2014 agora com idades entre 15 e 24 anos \u2014, bem como mais de 240 ativistas do casamento infantil. Descobriram que um n\u00famero significativo est\u00e1 sob o controlo de c\u00f4njuges mais velhos, enfrenta viol\u00eancia do parceiro e n\u00e3o est\u00e1 a estudar nem empregada. Muitas tornaram-se m\u00e3es em tenra idade e s\u00f3 t\u00eam um m\u00ednimo de autonomia nas suas vidas, incluindo nas suas escolhas sexuais e reprodutivas.<\/p>\n<p>Os relatos tamb\u00e9m esclarecem as diversas raz\u00f5es do casamento infantil, que nem sempre s\u00e3o for\u00e7adas pelos pais ou comunidades, mas sim por circunst\u00e2ncias sociais e econ\u00f3micas ou pela falta de op\u00e7\u00f5es alternativas. E entre as inquiridas, mais de uma em cada quatro raparigas procurou o div\u00f3rcio, deixou o casamento ou viu o seu casamento terminar \u2014 mas mais tarde viu-se despreparada para um futuro novo e incerto.<\/p>\n<p>&#8220;As raparigas est\u00e3o a entrar no casamento infantil por muitas raz\u00f5es diferentes e depois optam por sair, sempre que poss\u00edvel. Isto sublinha o que temos vindo a dizer h\u00e1 muitos anos: o casamento infantil n\u00e3o oferece um caminho melhor para as raparigas&#8221;, sublinha Zoe Birchall, l\u00edder global de campanhas e mobiliza\u00e7\u00e3o na Plan International. Mas &#8220;as raparigas podem enfrentar estigma e abuso por parte das suas comunidades por abandonarem um casamento&#8221;.<\/p>\n<p>A CNN falou com tr\u00eas raparigas\u00a0\u2014 uma\u00a0do Bangladesh, uma da Z\u00e2mbia e uma do Equador \u2014 casadas ou em uni\u00f5es pelas idades de 14, 16 e 15 anos, respetivamente. Partilharam as realidades do ambiente em que cresceram e porque viram o casamento como uma forma de melhorar o seu futuro.<\/p>\n<p>Os nomes foram alterados e as ilustra\u00e7\u00f5es s\u00e3o an\u00f3nimas para garantir a seguran\u00e7a das visadas.<\/p>\n<p>Rehana, Bangladesh <\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/600.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Casou-se \u00a0aos 14, divorciou-se aos 15. Diz que enfrentou intimida\u00e7\u00e3o e abuso di\u00e1rios <\/p>\n<p>&#8220;Quando me casei estava com muito medo. Tinha apenas 14 anos&#8221;, diz Rehana, agora com 17 anos, que vive num bairro de lata urbano no Bangladesh. Aqui, casar t\u00e3o jovem \u00e9 comum, diz ela, apesar das leis de casamento infantil em vigor desde 1929. A jovem noiva recorda ter tido de dormir numa casa nova com uma nova fam\u00edlia logo ap\u00f3s o casamento, tendo sempre dormido com a sua m\u00e3e em casa at\u00e9 ent\u00e3o. &#8220;A minha m\u00e3e \u00e9 como uma melhor amiga para mim.&#8221;<\/p>\n<p>Rehana explica que as mulheres e raparigas enfrentam ass\u00e9dio regular nas ruas onde vive e uma forma que as fam\u00edlias acreditam ter de proteger as filhas \u00e9 cas\u00e1-las jovens. Rehana conta \u00e0 CNN que muitas raparigas fogem e casam-se elas pr\u00f3prias. Investiga\u00e7\u00f5es mostram que isso \u00e9 muitas vezes devido ao medo do casamento infantil, com algumas raparigas a escolherem fugir com namorados da sua idade em vez de serem for\u00e7adas a casar com um homem mais velho. A m\u00e3e de Rehana, Farida, diz que, para evitar isso, os pais como ela sentem-se pressionados a casar as suas filhas ainda mais jovens.<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a, Rehana gostava de estudar e esperava um dia entrar no mundo dos neg\u00f3cios, algo que os pais incentivaram-na a fazer, at\u00e9 que receberem uma proposta de uma fam\u00edlia influente na comunidade. Queriam que Rehana se casasse com um rapaz de 17 anos. A uni\u00e3o era uma boa oportunidade para a fam\u00edlia de Rehana, cujo \u00fanico rendimento vinha do pai, um condutor de riquex\u00f3. Tinham dificuldades em sobreviver, diz Farida, mas nunca comprometeram a educa\u00e7\u00e3o da filha.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia abastada parecia oferecer boas perspetivas e, o que era importante, os futuros sogros prometeram aos pais de Rehana que a filha seria bem tratada e teria a sua educa\u00e7\u00e3o financiada. Tamb\u00e9m lhes garantiram que ela n\u00e3o teria de viver com o filho at\u00e9 completar 18 anos. A futura sogra concordou com todas as condi\u00e7\u00f5es, diz Rehana: &#8220;Tudo o que diz\u00edamos, ela dizia que sim&#8221;.<\/p>\n<p>Um casamento mu\u00e7ulmano ocorreu no prazo de tr\u00eas semanas e a fam\u00edlia diz que alterou os documentos para aumentar a idade da filha e registar o casamento legalmente. Um especialista local da Plan International confirmou que isto \u00e9 comum.<\/p>\n<p>Ao recordar o dia, tanto Rehana como a sua m\u00e3e ficam emocionadas. Rehana explica que n\u00e3o se queria casar, mas faria tudo aquilo de que os seus pais precisassem. Farida, tamb\u00e9m com l\u00e1grimas nos olhos, descreve como a sua filha estava linda, como as pessoas comentavam: &#8220;\u00c9 t\u00e3o bonita. \u00c9 como uma boneca&#8221;.<\/p>\n<p>Mas logo ap\u00f3s a uni\u00e3o, Rehana diz que as promessas foram quebradas e o abuso psicol\u00f3gico e o ass\u00e9dio come\u00e7aram.<\/p>\n<p>Rehana diz que a fam\u00edlia a manteve em casa deles por longos per\u00edodos e proibiu-a de ir \u00e0 escola, questionando porque \u00e9 que ela precisava de educa\u00e7\u00e3o se eles n\u00e3o a deixariam trabalhar de qualquer maneira. Mais tarde tamb\u00e9m a impediram de ver amigos, pressionaram-na a usar uma burca e intimidaram-na a cumprir o que esperavam delas, usando as suas influ\u00eancias para monitorizar o comportamento de Rehana e desloca\u00e7\u00f5es dela quando sa\u00eda.<\/p>\n<p>&#8220;Foi muito dif\u00edcil para mim&#8221;, diz Rehana. O marido tamb\u00e9m abusava dela f\u00edsica e mentalmente, deixando-a a sentir-se encurralada, relata Rehana.<\/p>\n<p>A m\u00e3e diz que percebeu, em poucos meses, que tinha tomado a decis\u00e3o errada para a filha, mas a ideia de um div\u00f3rcio aterrorizava-a devido ao estigma que Rehana enfrentaria.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 medida que se aproximava o anivers\u00e1rio de um ano do casamento, Farida decidiu que j\u00e1 bastava. N\u00e3o queria mais deixar Rehana sozinha com a fam\u00edlia do marido e os pap\u00e9is do div\u00f3rcio foram entregues. Os sogros tentaram intimidar Farida, diz a pr\u00f3pria, mas estava determinada a garantir a liberdade da filha. &#8220;Ficaram muito zangados com isso&#8221;, conta Farida. Disseram muitas coisas falsas sobre Rehana e que &#8220;ela est\u00e1 em contacto com outra pessoa&#8221;, mas Farida explica que, naquele momento, &#8220;n\u00e3o se importava com nada&#8221;.<\/p>\n<p>M\u00e3e e filha n\u00e3o sa\u00edram de casa durante pelo menos uma semana ap\u00f3s o div\u00f3rcio, explicam, para evitar o abuso verbal \u00e0 medida que os rumores sobre Rehana se espalhavam pela comunidade.<\/p>\n<p>Agora, quase adulta, Rehana terminou o ensino secund\u00e1rio e continua a sua educa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m montou um pequeno neg\u00f3cio de venda de joias. A m\u00e3e diz que o div\u00f3rcio foi uma decis\u00e3o que salvou a vida da filha.<\/p>\n<p>&#8220;Aprendi muito com a minha filha&#8230; Fiz-lhe muitas coisas m\u00e1s&#8221;, acrescenta Farida, mas diz que est\u00e1 agradecida por ter conseguido, no final, trazer a filha para casa.<\/p>\n<p>Diana, Z\u00e2mbia <\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1759600091_206_600.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   &#8220;Ele deu-me as coisas que eu pedia. Quando fomos viver juntos, tudo mudou&#8221; <\/p>\n<p>&#8220;A vida era dif\u00edcil&#8221;, recorda Diana, agora com 19 anos, uma de quatro filhos cujos pais cultivavam milho, soja e amendoim para viver. Diana amava a fam\u00edlia, lembra-se de como lutavam para sobreviver &#8211; muitas vezes comendo apenas uma refei\u00e7\u00e3o por dia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, h\u00e1 tr\u00eas anos, quando tinha 16 e um homem mais velho chamado Jacob come\u00e7ou a prestar-lhe aten\u00e7\u00e3o, isso foi um atrativo. &#8220;Estava entusiasmada por namorar com ele: tipo, quando eu pedia, ele costumava dar-me&#8221;, incluindo dinheiro, conta.<\/p>\n<p>Alguns meses depois, Diana engravidou do ent\u00e3o jovem de 20 anos e decidiu mudar-se para casa dele numa aldeia pr\u00f3xima \u2014 o que na sua comunidade equivale a casamento \u2014, dizendo aos pais que estava a visitar a tia e depois cessando todo o contacto. &#8220;Tinha medo de que, se os meus pais soubessem que estava gr\u00e1vida, me matassem&#8221;, conta \u00e0 CNN.<\/p>\n<p>Segundo a lei da Z\u00e2mbia, casamentos com menos de 18 anos s\u00e3o ilegais, mas isso omite uni\u00f5es informais como a de Diana\u00a0\u2014 as quais, segundo os especialistas, contornam a legisla\u00e7\u00e3o, tornando-as mais dif\u00edceis de abordar.<\/p>\n<p>Diana diz que a sua vida deixou de ser divertida assim que foi viver com Jacob. Ela tinha deixado todos os amigos para tr\u00e1s e estava com muito medo de que os pais descobrissem que estava gr\u00e1vida, caso fosse \u00e0 escola, e por isso desistiu de estudar. Jacob tamb\u00e9m temia que os pais dela descobrissem, diz Diana. &#8220;Ele tinha medo que o prendessem.&#8221;<\/p>\n<p>A adolescente tamb\u00e9m &#8220;come\u00e7ou a ver as coisas a mudar&#8221; em Jacob, revela, recordando que ele obrigava-a a fazer todas as tarefas dom\u00e9sticas, bebia \u00e1lcool em excesso e tornou-se abusivo verbal e fisicamente.<\/p>\n<p>&#8220;A forma como viv\u00edamos quando est\u00e1vamos a namorar&#8221; mudou completamente, explica Diana. &#8220;Tudo era dif\u00edcil, ele n\u00e3o estava a trabalhar, ent\u00e3o a vida era dif\u00edcil para n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<p>Aos seis meses de gravidez, Diana diz que estava farta e decidiu voltar para casa \u2014 apesar das consequ\u00eancias que podia enfrentar. Nessa manh\u00e3, disse a Jacob que ia buscar \u00e1gua e saiu em sil\u00eancio, percorrendo oito quil\u00f3metros a p\u00e9 at\u00e9 casa.<\/p>\n<p>Assim que chegou a casa, e visivelmente gr\u00e1vida, Diana explicou tudo aos pais, que no in\u00edcio, diz ela, &#8220;ficaram zangados&#8221;. &#8220;Gritaram comigo.&#8221; Mas depois de lhes implorar para lhe perdoarem, ficou aliviada por ser aceite.<\/p>\n<p>Quando a jovem m\u00e3e deu \u00e0 luz, Jacob n\u00e3o estava presente. Com o apoio dos pais, Diana voltou para a escola, onde recebeu uma rece\u00e7\u00e3o mista. &#8220;Alguns dos meus amigos deram-me bons conselhos&#8221;, enquanto outros &#8220;se riam de mim&#8221; e diziam &#8220;palavras feias&#8221;.<\/p>\n<p>Antes de engravidar, Diana sonhava em ser engenheira. Agora, diz, aceitar\u00e1 &#8220;qualquer trabalho&#8221; dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>Jen, Equador <\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/1759600091_707_600.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   &#8220;Eu era uma crian\u00e7a. N\u00e3o sabia nada sobre a vida&#8221; <\/p>\n<p>A crescer numa \u00e1rea rural do Equador, Jen conheceu o seu parceiro Yan h\u00e1 cinco anos \u2014 quando ela tinha 13 anos e ele 20. Ela explica que este tipo de uni\u00e3o \u00e9 comum e geralmente aceite na sua comunidade.<\/p>\n<p>A agora jovem de 18 anos partilha que o homem mais velho tinha sido bondoso e prestava-lhe muita aten\u00e7\u00e3o. &#8220;Ele estava sempre a dar-me apoio e t\u00ednhamos conversas abertas&#8221;, conta \u00e0 CNN, recordando como falavam durante horas sobre as suas vidas. &#8220;Ele n\u00e3o era agressivo, era um homem gentil e ainda \u00e9 assim.&#8221;<\/p>\n<p>Jen contava aos amigos sobre Yan, diz ela, mas n\u00e3o aos pais. &#8220;Eles n\u00e3o gostavam dele porque ele \u00e9 mais velho do que eu, foi por isso que s\u00f3 costumava contar aos meus amigos.&#8221;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s dois anos decidiram ir viver juntos, o que na sua comunidade \u00e9 visto como uma uni\u00e3o informal equivalente a casamento.<\/p>\n<p>Em resposta, os pais de Jen &#8220;queriam mand\u00e1-lo para a cadeia porque eu era menor de idade&#8221;. A idade de consentimento sexual no Equador \u00e9 de 14 anos, enquanto a sua uni\u00e3o n\u00e3o seria legalmente reconhecida, j\u00e1 que a idade m\u00ednima legal para casar ou viver junto \u00e9 de 18 anos.<\/p>\n<p>Mas Jen diz que garantiu aos pais que continuaria a estudar &#8220;porque essa era a principal preocupa\u00e7\u00e3o deles&#8221; e explica que na sua comunidade h\u00e1 muitas &#8220;raparigas de 12 ou 13 anos que tamb\u00e9m est\u00e3o a viver com os seus parceiros&#8221;. Embora um pai possa opor-se inicialmente, tendem a aceitar, diz Jen \u00e0 CNN.<\/p>\n<p>Referindo-se a Yan como seu marido, Jen valoriza o seu relacionamento, mas chegou a reconhecer que agiu com muita impulsividade. Quando foi viver com Yan tamb\u00e9m foi viver com o pai dele e, com apenas 15 anos, Jen viu as responsabilidades dom\u00e9sticas a acumularem-se. Fazia todas as tarefas dom\u00e9sticas, como limpar, lavar a roupa, fazer o pequeno-almo\u00e7o, e depois ia para a escola. &#8220;E quando chegava da escola, come\u00e7ava a cozinhar o jantar para mim e para o meu parceiro &#8211; e \u00e0s vezes tamb\u00e9m para o meu sogro.&#8221;<\/p>\n<p>Agora, Jen pensa que deviam ter ficado &#8220;namorados&#8221; e n\u00e3o terem ido viver juntos. &#8220;Eu era uma crian\u00e7a, foi uma decis\u00e3o r\u00e1pida, n\u00e3o sabia nada sobre a vida.&#8221;<\/p>\n<p>Aos 17 anos, engravidou. N\u00e3o era algo que esperava. &#8220;Tenho alguns quistos nos ov\u00e1rios, ent\u00e3o disseram-me que n\u00e3o conseguiria ter filhos&#8221;, diz Jen; como resultado, o casal n\u00e3o usou contracetivos. Na expectativa de serem pais, foram viver com a m\u00e3e de Jen.<\/p>\n<p>Jen partilha como antes gostava de atividades escolares como ser l\u00edder de claque e fazer parte de uma banda. Antes do casamento informal lembra-se de brincar principalmente com os irm\u00e3os e de se divertir: &#8220;N\u00e3o tinha de me preocupar com nada. A minha m\u00e3e estava encarregada de tudo&#8221;.<\/p>\n<p>Agora, as responsabilidades em casa ocupam a maior parte do tempo da jovem m\u00e3e, mas ela conseguiu terminar a escola e espera ir para a universidade no pr\u00f3ximo ano. &#8220;A minha m\u00e3e apoia-me muito.&#8221;<\/p>\n<p>Nenhuma op\u00e7\u00e3o al\u00e9m do casamento infantil <\/p>\n<p>Os n\u00fameros do UNICEF mostram que todos os anos 12 milh\u00f5es de raparigas menores de idade em todo o mundo entram em casamentos, incluindo uni\u00f5es informais, com um relat\u00f3rio de 2025 a revelar que os n\u00edveis mais altos est\u00e3o agora na \u00c1frica Subsariana. Os dados indicam algum progresso nas \u00faltimas d\u00e9cadas, havendo menos menos mulheres em todo o mundo a dizerem que se casaram quando era crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Este progresso deve-se principalmente a um decl\u00ednio significativo no Sul da \u00c1sia, que anteriormente tinha as taxas mais altas. A ag\u00eancia da ONU diz que a queda foi particularmente acentuada na \u00cdndia, atribuindo isso em parte a uma abordagem focada na educa\u00e7\u00e3o das raparigas, gastos governamentais com raparigas e maior consciencializa\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre a ilegalidade e os danos do casamento infantil.<\/p>\n<p>Mas v\u00e1rios especialistas dizem \u00e0 CNN que as hist\u00f3rias de Rehana, Diana e Jen, juntamente com as centenas de outras entrevistadas para o relat\u00f3rio State of the World\u2019s Girls, mostram que a inseguran\u00e7a econ\u00f3mica e as oportunidades limitadas para as adolescentes continuam a ser os principais motores do casamento infantil em todo o mundo \u2014 e que as prote\u00e7\u00f5es legais n\u00e3o est\u00e3o a ser adequadamente aplicadas para proteger os direitos destas mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;As rotas para o casamento ou uni\u00f5es infantis s\u00e3o diferentes&#8221;, diz Birchall, da Plan International. &#8220;Uma rapariga pode sentir que est\u00e1 a tomar esta decis\u00e3o com alguma escolha, mas, em \u00faltima an\u00e1lise, continuamos a ver estas raparigas a entrarem nestes casamentos infantis porque sentem que n\u00e3o t\u00eam uma op\u00e7\u00e3o melhor.&#8221; Birchall acredita que o relat\u00f3rio demonstra que n\u00e3o existe uma forma tradicional de casamento infantil. &#8220;\u00c9 muito mais subtil&#8230; se estas raparigas tivessem todas as op\u00e7\u00f5es \u00e0 sua frente, se pudessem aceder totalmente \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, se tivessem o dinheiro e a disponibilidade para escolher de outra forma, teriam feito isso?&#8221;<\/p>\n<p>As raz\u00f5es mais comuns pelas quais as raparigas no estudo dizem que se casaram jovens s\u00e3o as dificuldades econ\u00f3micas, as normas culturais ou a press\u00e3o familiar. Entre as raparigas entrevistadas, 25% dizem que n\u00e3o tiveram voz na decis\u00e3o de se casarem e 35% abandonaram a escola logo ap\u00f3s ou devido ao casamento. Entre as raparigas que partilharam a idade dos seus parceiros, quase metade (45%) casou-se com homens mais de cinco anos mais velhos do que elas. O relat\u00f3rio observou que raparigas em v\u00e1rios pa\u00edses citaram dificuldades em torno do acesso a contracetivos e sobre a autonomia na tomada de decis\u00f5es sobre isso.<\/p>\n<p>Uma em cada 10 raparigas entrevistadas tamb\u00e9m revelou abuso ou viol\u00eancia por parte do parceiro. Das que relataram tal viol\u00eancia, 85% eram casadas com homens pelo menos cinco anos mais velhos do que elas.<\/p>\n<p>Zaki Wahhaj, professor de economia do desenvolvimento no King\u2019s College London, destaca que os relatos das raparigas entrevistadas pela CNN revelam uma falha dos seus pa\u00edses em proteger estas raparigas. &#8220;Jen, Diana e Rehana foram colocadas em situa\u00e7\u00f5es que envolviam abuso, explora\u00e7\u00e3o ou riscos graves para a sua seguran\u00e7a e bem-estar&#8221;, diz \u00e0 CNN. &#8220;Todos os tr\u00eas pa\u00edses t\u00eam uma idade legal m\u00ednima para o casamento, mas estas salvaguardas falharam, contornadas atrav\u00e9s de uni\u00f5es informais ou do uso de documentos falsificados. Embora seja encorajador que as fam\u00edlias das raparigas as tenham apoiado e ajudado a melhorar as suas situa\u00e7\u00f5es, o apoio familiar nem sempre pode ser assumido.&#8221;<\/p>\n<p>Para pa\u00edses com leis de casamento infantil em vigor, os relat\u00f3rios mostram os desafios que os governos enfrentam na sua aplica\u00e7\u00e3o, devido a lacunas nas pr\u00f3prias leis, exce\u00e7\u00f5es na idade m\u00ednima de casamento e rea\u00e7\u00f5es adversas da comunidade. \u00c9 o caso nos tr\u00eas pa\u00edses onde as raparigas com quem a CNN falou est\u00e3o sediadas &#8211; por exemplo, as leis no Equador, no Bangladesh e na Z\u00e2mbia n\u00e3o fazem refer\u00eancia direta a uni\u00f5es informais. No Bangladesh, embora a idade legal para casar seja 18 anos, as lacunas permitem que estes ocorram, como a Lei de Restri\u00e7\u00e3o de Casamento Infantil (Child Marriage Restraint Act) de 2017, que permite o casamento infantil com consentimento parental e judicial se for considerado no melhor interesse do menor. As normas culturais em torno da pr\u00e1tica e a cumplicidade de funcion\u00e1rios locais tamb\u00e9m dificultam o progresso, de acordo com o Centro de Direitos Reprodutivos.<\/p>\n<p>Ag\u00eancias governamentais no Bangladesh, no Equador e na Z\u00e2mbia n\u00e3o responderam ao pedido de coment\u00e1rio da CNN.<\/p>\n<p>Veronica Kamanga Njikho, conselheira s\u00e9nior para a prote\u00e7\u00e3o infantil na UNICEF, enfatiza que as experi\u00eancias destas raparigas &#8220;refletem uma realidade mais ampla: o casamento infantil aumenta os riscos de viol\u00eancia, vulnerabilidade econ\u00f3mica, abandono escolar, gravidez na adolesc\u00eancia e problemas de sa\u00fade mental&#8221;.<\/p>\n<p>Esta nova investiga\u00e7\u00e3o, diz ela, ajuda a identificar o que \u00e9 necess\u00e1rio para melhorar as vidas destas mulheres. &#8220;As leis sozinhas n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Sem aplica\u00e7\u00e3o, responsabiliza\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as sociais mais amplas, o casamento infantil persiste na pr\u00e1tica&#8221;, explica. &#8220;N\u00f3s sabemos o que funciona: manter as raparigas na escola, apoiar as fam\u00edlias economicamente, aplicar leis que pro\u00edbem o casamento infantil e trabalhar com as comunidades para mudar as normas sociais prejudiciais.&#8221;<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>CR\u00c9DITOS<\/strong> <\/p>\n<p><strong>Comiss\u00e1ria editorial<\/strong><br \/>Meera Senthilingam<\/p>\n<p><strong>Editora de Texto<\/strong>\u00a0<br \/>Hannah Strange<\/p>\n<p><strong>Editora de Dados<\/strong><br \/>Carlotta Dotto<\/p>\n<p><strong>Rep\u00f3rteres<\/strong><br \/>Sashikala VP, Carlotta Dotto<\/p>\n<p><strong>Ilustradora<\/strong><br \/>Petra Eriksson<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"REPORTAGEM | A realidade oculta do casamento infantil Exclusivo: Relat\u00f3rio revela a realidade oculta do casamento infantil. 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