{"id":9831,"date":"2025-07-31T09:39:10","date_gmt":"2025-07-31T09:39:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/9831\/"},"modified":"2025-07-31T09:39:10","modified_gmt":"2025-07-31T09:39:10","slug":"nos-nao-criamos-o-problema-somos-resultado-dele-a-startup-que-quer-revolucionar-o-trabalho-em-saude-atualidade-sapo-pt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/9831\/","title":{"rendered":"\u201cN\u00f3s n\u00e3o cri\u00e1mos o problema. Somos resultado dele\u201d: a startup que quer revolucionar o trabalho em sa\u00fade &#8211; Atualidade &#8211; SAPO.pt"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/24noticias.sapo.pt\/noticias\/cerca-de-30-dos-enfermeiros-relataram_6780ca3d3e1cff663dc4a54b\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">Num setor assente em turnos extenuantes, grelhas r\u00edgidas e escassez cr\u00f3nica de profissionais<\/a>, a <a href=\"https:\/\/www.mycareforce.co\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer nofollow\">MyCareforce<\/a> surgiu com uma proposta radicalmente simples \u2014 dar aos profissionais de sa\u00fade o poder de escolher quando e onde querem trabalhar. Criada em Portugal, em 2021, por uma equipa jovem, esta startup aposta na flexibilidade como resposta \u00e0 rigidez do sistema. Atrav\u00e9s de uma plataforma digital que liga enfermeiros e t\u00e9cnicos a turnos dispon\u00edveis em hospitais, cl\u00ednicas e lares, a empresa j\u00e1 intermediou mais de 750 mil horas de trabalho e conta com mais de 21 mil profissionais registados e 300 unidades de sa\u00fade parceiras. A expans\u00e3o internacional tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 uma realidade, com a entrada no Brasil sob a marca Clicknurse, em 2024.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Hugo Silva, o CEO e cofundador, tinha apenas 24 anos quando lan\u00e7ou a startup com Pedro Cruz Morais, colega de percurso na \u00e1rea da Economia. Jo\u00e3o estudou em Coimbra e em Lisboa, tendo tamb\u00e9m passado por Fran\u00e7a, e confessa que sempre teve uma mentalidade de &#8220;resolver problemas&#8221;, antes mesmo de perceber bem o que era o empreendedorismo. A pandemia de covid-19 foi o ponto de viragem: enquanto os hospitais entravam em colapso, ele e Pedro perceberam que a escassez de enfermeiros era um problema estrutural, e n\u00e3o apenas conjuntural. Validaram o desafio no terreno, falaram com diretores hospitalares e decidiram arriscar. A sa\u00fade, apesar de ser um setor altamente regulado e sens\u00edvel, tornou-se o espa\u00e7o certo para aplicar a l\u00f3gica de um marketplace digital com impacto real.<\/p>\n<p>Nesta entrevista ao SAPO, o CEO da MyCareforce, Jo\u00e3o Hugo Silva, e a Head Nurse da empresa, T\u00e2nia Sim\u00f5es, falam sobre a origem do projeto, os desafios \u00e9ticos e regulat\u00f3rios, o papel da tecnologia e a vis\u00e3o de um futuro onde o trabalho em sa\u00fade pode ser ao mesmo tempo mais humano e mais digital.<\/p>\n<p>  <a href=\"https:\/\/mb.web.sapo.io\/44d9c449bd88d5068ed50f6617d53495f91742bd.jpg\" title=\"\u201cN\u00f3s n\u00e3o cri\u00e1mos o problema. 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Somos o resultado dele\u201d: a startup que quer revolucionar o trabalho na \u00e1rea da sa\u00fade   Jo\u00e3o Hugo Silva, CEO da MyCareforce e T\u00e2nia Sim\u00f5es, Head Nurse do projeto.   cr\u00e9ditos: DR     <\/p>\n<p><strong>Como foi a experi\u00eancia de entrar num setor que inicialmente lhe era desconhecido, como o da sa\u00fade, tendo em conta as suas din\u00e2micas espec\u00edficas e uma estrutura muitas vezes marcada por hierarquias e processos muito estabelecidos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Jo\u00e3o Hugo Silva] <\/strong>N\u00e3o \u00e9 de facto f\u00e1cil navegar no setor da sa\u00fade. Mas, curiosamente, acho que o facto de n\u00e3o sermos da \u00e1rea foi o que nos permitiu chegar at\u00e9 aqui. Pode parecer contradit\u00f3rio, mas ao longo dos \u00faltimos anos ouvimos muitas pessoas, at\u00e9 profissionais da sa\u00fade ou de tecnologia, dizerem: \u201cPensei em criar algo parecido, mas \u00e9 demasiado complexo, a integra\u00e7\u00e3o dos profissionais nas unidades, as regula\u00e7\u00f5es&#8230;\u201d\u00a0Como n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos essa consci\u00eancia t\u00e3o clara da complexidade do setor, avan\u00e7\u00e1mos. E essa ignor\u00e2ncia, no bom sentido, acabou por ser uma vantagem. Em vez de ficarmos bloqueados por todas as vari\u00e1veis que algu\u00e9m do setor j\u00e1 conhece \u00e0 partida, fomos enfrentando os desafios um a um, resolvendo-os de forma gradual.<\/p>\n<p>O setor surpreendeu-me pela sua complexidade e estrutura hier\u00e1rquica. Est\u00e1vamos em plena pandemia, quando arranc\u00e1mos oficialmente em janeiro de 2021. Eu estava no Brasil nessa altura, mas em Portugal estava tudo confinado. Achei, ingenuamente, que dada a necessidade urgente seria f\u00e1cil entrar nas unidades de sa\u00fade. Estava completamente enganado.\u00a0\u00c9 verdade que fech\u00e1mos o primeiro cliente logo em janeiro, mas o segundo s\u00f3 surgiu em maio. Foram quatro meses a fazer chamadas sem resultados. E foi a\u00ed que percebi que este \u00e9 um setor onde tudo depende da confian\u00e7a \u2014 confian\u00e7a nas pessoas que est\u00e3o por tr\u00e1s das solu\u00e7\u00f5es. As institui\u00e7\u00f5es querem saber se os fundadores s\u00e3o s\u00e9rios, se est\u00e3o aqui por oportunismo ou com verdadeiro compromisso. Se trabalham com \u00e9tica, se compreendem o impacto do que est\u00e3o a propor. E eu hoje entendo isso perfeitamente. Faz sentido.<\/p>\n<p>Agora, por exemplo, nesta minha vinda a Portugal, fech\u00e1mos finalmente contrato com os Lus\u00edadas. E com isso, estamos neste momento a trabalhar com os quatro grandes grupos privados: CUF, Trofa Sa\u00fade, Luz e Lus\u00edadas. Mas s\u00f3 agora, passados quatro anos e meio. N\u00e3o \u00e9 porque o problema surgiu agora, o problema \u00e9 estrutural, mas foi agora que ganh\u00e1mos a confian\u00e7a necess\u00e1ria. E isso \u00e9 o mais dif\u00edcil na sa\u00fade: conquistar a confian\u00e7a leva tempo.\u00a0Este setor \u00e9 uma maratona. Nenhuma seguradora nasceu da noite para o dia. Os grandes grupos de sa\u00fade que hoje s\u00e3o refer\u00eancias em Portugal est\u00e3o c\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas, a construir marca e credibilidade. E a sa\u00fade tem outra particularidade: o \u201ccliente\u201d n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma pessoa. Para entrar num hospital temos de falar com a dire\u00e7\u00e3o executiva, com o departamento jur\u00eddico, com o financeiro, com a enfermagem, com a equipa m\u00e9dica&#8230; \u00c9 muito diferente de vender a um consumidor final, onde basta conquistar uma decis\u00e3o individual.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cO nosso crescimento n\u00e3o \u00e9 movido pela explora\u00e7\u00e3o de uma falha, mas pela resposta a uma necessidade real, urgente e persistente.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Como \u00e9 que funciona, na pr\u00e1tica, a plataforma da MyCareforce, tanto para os profissionais de sa\u00fade como para as institui\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Jo\u00e3o Hugo Silva] <\/strong>A MyCareforce \u00e9, no fundo, um marketplace que liga profissionais de sa\u00fade a unidades de sa\u00fade. Por isso mesmo, temos dois tipos de clientes e duas plataformas distintas: uma orientada para os profissionais e outra para as institui\u00e7\u00f5es.\u00a0Na altura do lan\u00e7amento, j\u00e1 t\u00ednhamos um contrato apalavrado com o Hospital Nossa Senhora da Arr\u00e1bida, atualmente integrado no grupo EMEIS. Por isso, decidimos come\u00e7ar pelo lado dos profissionais, uma vez que era preciso ter oferta para apresentar \u00e0s unidades. E assim come\u00e7\u00e1mos a construir a base.<\/p>\n<p><strong>E como se materializa?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Jo\u00e3o Hugo Silva] <\/strong>Os profissionais usam uma aplica\u00e7\u00e3o m\u00f3vel que tem v\u00e1rias sec\u00e7\u00f5es. A primeira \u00e9 o perfil, onde inserem dados pessoais e profissionais: nome, morada, fotografia, data de nascimento, dados banc\u00e1rios (necess\u00e1rios para o pagamento dos turnos), n\u00famero da c\u00e9dula da Ordem dos Enfermeiros, experi\u00eancia, certifica\u00e7\u00f5es, forma\u00e7\u00e3o e at\u00e9 o tamanho do uniforme, que ajuda as unidades a preparar os materiais certos para a rece\u00e7\u00e3o do profissional.\u00a0Depois h\u00e1 uma sec\u00e7\u00e3o com todos os turnos dispon\u00edveis publicados pelas unidades de sa\u00fade. Uma outra p\u00e1gina \u00e9 dedicada a vagas full-time, n\u00e3o sendo o nosso foco principal, damos a possibilidade \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de recrutar profissionais em regime de contrato, caso necess\u00e1rio. Existe ainda uma \u00e1rea de atividade, onde os profissionais podem acompanhar as suas candidaturas, turnos futuros e o seu hist\u00f3rico. Por fim, temos a wallet, uma carteira digital onde \u00e9 poss\u00edvel consultar os valores acumulados e fazer o levantamento dos montantes a receber.<\/p>\n<p><strong>E como se processa do lado das institui\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Jo\u00e3o Hugo Silva] <\/strong>Ap\u00f3s criarem conta (com apoio da nossa equipa ou de forma aut\u00f3noma), podem publicar os seus pedidos. Por exemplo: \u201cPreciso de um enfermeiro das 8.00 \u00e0s 16.00 para o Bloco Operat\u00f3rio, para fun\u00e7\u00f5es de instrumentista\u201d. Esse turno \u00e9 ent\u00e3o publicado na plataforma.\u00a0Quando um profissional visualiza esse turno, o objetivo n\u00e3o \u00e9 simplesmente que se candidate a um turno isolado. A ideia \u00e9 mais ampla: ele est\u00e1 a candidatar-se para integrar uma equipa complementar que responde a uma necessidade recorrente daquela unidade. \u00c9 um modelo que procura estabilidade, n\u00e3o apenas respostas pontuais.<\/p>\n<p>O matching que fazemos \u00e9 baseado nas qualifica\u00e7\u00f5es do profissional e nas exig\u00eancias espec\u00edficas do servi\u00e7o. Por exemplo, se for para o Bloco Operat\u00f3rio, n\u00e3o podemos, nem queremos, que v\u00e1 algu\u00e9m sem forma\u00e7\u00e3o ou experi\u00eancia adequada. S\u00e3o \u00e1reas altamente sens\u00edveis.\u00a0Tentamos mitigar todos os riscos associados a trabalhar em sa\u00fade, com valida\u00e7\u00e3o cuidadosa de perfis, cruzamento de dados e transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>E posso dizer, com orgulho, que em quatro anos a operar em Portugal, tivemos pouqu\u00edssimos incidentes, um ou dois casos pontuais, semelhantes aos que ocorrem diariamente em qualquer hospital, como um pequeno erro de medica\u00e7\u00e3o ou distra\u00e7\u00f5es com material. E isso refor\u00e7a que, quando o profissional certo est\u00e1 no lugar certo, o sistema funciona.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cO setor precisa de uma mudan\u00e7a de mentalidade, sobretudo ao n\u00edvel da gest\u00e3o hospitalar.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Qual \u00e9 o diferencial competitivo da MyCareforce num setor onde muitos tentam inovar, mas poucos conseguem escalar e consolidar a proposta de valor?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Jo\u00e3o Hugo Silva] <\/strong>Diria que o nosso maior diferencial foi, curiosamente, a nossa ignor\u00e2ncia inicial, no bom sentido. N\u00e3o virmos da \u00e1rea da sa\u00fade permitiu-nos olhar para os problemas com uma perspetiva fresca, sem nos sentirmos logo limitados pela complexidade estrutural do setor. E, claro, a tecnologia teve um papel absolutamente central desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que somos o \u201cUber da enfermagem\u201d. E, sim, \u00e9 uma analogia f\u00e1cil de fazer, mas \u00e9 incompleta. No Uber, pouco importa quem \u00e9 o condutor, desde que te leve do ponto A ao ponto B. No nosso caso, a identidade e a qualifica\u00e7\u00e3o do profissional s\u00e3o tudo: importa saber que forma\u00e7\u00e3o tem, que experi\u00eancias acumulou, que tipo de contexto hospitalar conhece. Importa a integra\u00e7\u00e3o que vai ter naquele servi\u00e7o, com aquela equipa, naquela institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 infinitamente mais complexo.<\/p>\n<p>O que fizemos foi aplicar tecnologia para resolver um problema real, sem tentar criar um \u201cproduto perfeito\u201d logo \u00e0 partida. Sempre nos gui\u00e1mos por esta pergunta: como \u00e9 que a tecnologia pode facilitar e potenciar este setor? Essa l\u00f3gica incremental permitiu-nos evoluir continuamente.\u00a0Ainda existe, por parte de algumas institui\u00e7\u00f5es, alguma resist\u00eancia ao uso da tecnologia. Por isso, tamb\u00e9m trabalhamos a cultura e a rela\u00e7\u00e3o com os nossos clientes, para que vejam a tecnologia n\u00e3o como uma amea\u00e7a, mas como uma aliada no seu dia-a-dia.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cH\u00e1 quem diga que somos o \u2018Uber da enfermagem\u2019. E, sim, \u00e9 uma analogia f\u00e1cil de fazer, mas \u00e9 incompleta.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A MyCareforce prop\u00f5e uma solu\u00e7\u00e3o flex\u00edvel num setor tradicionalmente marcado por estruturas r\u00edgidas e hierarquizadas. Em que medida acredita que esta flexibilidade est\u00e1 a reconfigurar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de carreira para enfermeiros e m\u00e9dicos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[T\u00e2nia Sim\u00f5es]<\/strong> O setor da sa\u00fade, neste momento, continua muito marcado por processos de integra\u00e7\u00e3o longos, exigentes, e por estruturas bastante r\u00edgidas. Afinal, estamos a falar de cuidados de sa\u00fade. No entanto, noutros pa\u00edses europeus, solu\u00e7\u00f5es como a MyCareforce j\u00e1 existem h\u00e1 alguns anos e com bons resultados. A ideia de que um profissional liberal \u00e9 menos competente ou menos dedicado est\u00e1 a cair por terra. O paradigma nos recursos humanos est\u00e1 a mudar, n\u00e3o s\u00f3 na sa\u00fade como em todos os setores.<\/p>\n<p>Hoje, os profissionais valorizam cada vez mais a gest\u00e3o do seu pr\u00f3prio tempo e a sua qualidade de vida. A MyCareforce d\u00e1-lhes essa possibilidade: escolherem quando, onde e como querem trabalhar, em que institui\u00e7\u00e3o, em que hor\u00e1rio, em que localiza\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 profundamente valorizado. Se as institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade ainda n\u00e3o olham para isto de forma positiva, v\u00e3o inevitavelmente ter de come\u00e7ar a faz\u00ea-lo, porque s\u00e3o os pr\u00f3prios profissionais, inclusive do SNS, que se est\u00e3o a desvincular de contratos para passar a atuar como prestadores de servi\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Isso tem efeitos na presta\u00e7\u00e3o de cuidados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[T\u00e2nia Sim\u00f5es] <\/strong>Essa flexibilidade tem impacto direto na qualidade dos cuidados prestados. Um profissional menos sobrecarregado, com mais equil\u00edbrio entre vida pessoal e profissional, est\u00e1 mais dispon\u00edvel f\u00edsica e emocionalmente para responder a situa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas exigentes. E isso, num setor de emerg\u00eancia e imprevisibilidade como a sa\u00fade, \u00e9 vital.\u00a0A MyCareforce entra exatamente aqui: para ajudar as institui\u00e7\u00f5es a compreender que, para al\u00e9m dos profissionais contratados, v\u00e3o sempre precisar de equipas complementares. A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 a envelhecer, os doentes chegam cada vez mais doentes aos hospitais e a press\u00e3o sobre os servi\u00e7os \u00e9 crescente.<\/p>\n<p>E h\u00e1 ainda um problema estrutural: continuamos a investir pouco em cuidados de sa\u00fade prim\u00e1rios. A maioria dos cidad\u00e3os, quando sente algo, vai diretamente para o hospital e \u00e9 a\u00ed que tudo se acumula. Depois, dentro dos hospitais, a gest\u00e3o nem sempre \u00e9 eficiente. Temos doentes internados dias ou semanas apenas \u00e0 espera de uma resson\u00e2ncia, ou de um t\u00e1xi para ir para casa, o que retira camas a quem realmente precisa de internamento.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cA ideia de que o v\u00ednculo formal \u00e9 o que garante estabilidade \u00e9, em muitos casos, ilus\u00f3ria.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Como \u00e9 que se garante a qualidade e a seguran\u00e7a dos profissionais que se registam na plataforma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[T\u00e2nia Sim\u00f5es] <\/strong>Todos os profissionais que se registam na plataforma t\u00eam de cumprir um conjunto de crit\u00e9rios rigorosos. Desde logo, o cart\u00e3o da Ordem dos Enfermeiros tem de estar v\u00e1lido; sem isso, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel realizar qualquer turno atrav\u00e9s da MyCareforce. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 qualquer pessoa que se pode candidatar a oportunidades. O perfil de cada profissional \u00e9 validado individualmente antes de poder come\u00e7ar a trabalhar. Para al\u00e9m disso, todos os profissionais t\u00eam de aceitar e cumprir as pol\u00edticas e condi\u00e7\u00f5es da plataforma. Por exemplo, se cancelarem um turno com menos de 72 horas de anteced\u00eancia, sem uma justifica\u00e7\u00e3o legal v\u00e1lida, podem ser suspensos, tempor\u00e1ria ou definitivamente. O mesmo acontece em casos de m\u00e1 conduta nas institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. Nesses casos, a suspens\u00e3o \u00e9 permanente.\u00a0H\u00e1, portanto, um sistema de valida\u00e7\u00e3o e de responsabiliza\u00e7\u00e3o que assegura n\u00e3o s\u00f3 a qualidade dos profissionais, mas tamb\u00e9m a confian\u00e7a por parte das institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Os profissionais podem negociar os valores dos turnos? Como \u00e9 que isso funciona?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Jo\u00e3o Hugo Silva] <\/strong>N\u00e3o, os valores s\u00e3o fixos e definidos pelas unidades de sa\u00fade. Cada unidade \u00e9 que prop\u00f5e o valor\/hora a pagar e os profissionais t\u00eam acesso a essa informa\u00e7\u00e3o desde o primeiro momento. Ou seja, quando um profissional consulta um turno dispon\u00edvel, j\u00e1 sabe exatamente quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es e o valor associado, n\u00e3o h\u00e1 negocia\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quem critique e diga que a gig economy na sa\u00fade pode prejudicar a profissionaliza\u00e7\u00e3o e a continuidade dos cuidados. Como responde aos riscos da rotatividade elevada e da falta de v\u00ednculo entre profissionais, institui\u00e7\u00f5es e pacientes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[T\u00e2nia Sim\u00f5es] <\/strong>A falta de v\u00ednculo n\u00e3o \u00e9, na nossa experi\u00eancia, uma consequ\u00eancia inevit\u00e1vel deste modelo. Pelo contr\u00e1rio: tudo depende de como o profissional \u00e9 acolhido pela institui\u00e7\u00e3o. Se for recebido com respeito, se lhe for atribu\u00edda uma farda, se for integrado como qualquer outro elemento da equipa, isso cria perten\u00e7a, independentemente do tipo de contrato.\u00a0Vemos muitos exemplos disso: os profissionais que se sentem bem numa institui\u00e7\u00e3o regressam regularmente. Algumas unidades de sa\u00fade at\u00e9 j\u00e1 t\u00eam os seus \u201cenfermeiros favoritos\u201d que s\u00e3o aqueles que conhecem os servi\u00e7os, s\u00e3o reconhecidos pela equipa e com quem se cria uma rotina de confian\u00e7a. \u00c9 uma escolha m\u00fatua. O v\u00ednculo, aqui, constr\u00f3i-se pela pr\u00e1tica e pelo ambiente de trabalho, n\u00e3o pelo formalismo contratual.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cA digitaliza\u00e7\u00e3o deve ser uma aliada, n\u00e3o um substituto da rela\u00e7\u00e3o humana.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Mas essa rotatividade n\u00e3o poder\u00e1, ainda assim, promover precariedade na profiss\u00e3o? Sobretudo pela aus\u00eancia de estabilidade contratual?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[T\u00e2nia Sim\u00f5es] <\/strong>A ideia de que o v\u00ednculo formal \u00e9 o que garante estabilidade \u00e9, em muitos casos, ilus\u00f3ria. J\u00e1 vi muitos profissionais com contrato efetivo sa\u00edrem no primeiro m\u00eas e j\u00e1 vi outros a contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os manterem colabora\u00e7\u00f5es regulares e duradouras com as mesmas institui\u00e7\u00f5es.\u00a0O que determina a continuidade \u00e9 a qualidade da rela\u00e7\u00e3o e o alinhamento com os valores da unidade de sa\u00fade. Claro que a instabilidade pode existir, mas n\u00e3o \u00e9 exclusiva deste modelo. Um contrato sem termo n\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, garantia de perman\u00eancia nem de envolvimento. A estabilidade verdadeira vem de boas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, respeito m\u00fatuo e prop\u00f3sito partilhado.<\/p>\n<p><strong>Existe aqui uma linha t\u00e9nue, n\u00e3o \u00e9? Entre preencher falhas estruturais do sistema e, de certa forma, depender delas para crescer. Como \u00e9 que a MyCareForce equilibra esse paradoxo \u00e9tico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[Jo\u00e3o Hugo Silva] <\/strong>N\u00f3s n\u00e3o cri\u00e1mos um problema, somos o resultado dele. E n\u00e3o temos qualquer interesse que ele se perpetue. Ali\u00e1s, se um dia a MyCareForce deixasse de fazer sentido porque o sistema est\u00e1 plenamente funcional e eficiente, isso seria uma excelente not\u00edcia para todos.\u00a0Mas enquanto esse desequil\u00edbrio existir, e infelizmente existe, acreditamos que temos o dever de construir solu\u00e7\u00f5es que mitiguem os seus efeitos. O nosso crescimento n\u00e3o \u00e9 movido pela explora\u00e7\u00e3o de uma falha, mas pela resposta a uma necessidade real, urgente e persistente. \u00c9 diferente de criar um problema para depois o vender como solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E depois \u00e9 importante ver o outro lado da moeda: se plataformas como a nossa n\u00e3o estivessem a garantir servi\u00e7os m\u00ednimos em hospitais como o Garcia de Orta ou o Beatriz \u00c2ngelo, que impacto real teria isso no cuidado ao doente? Quem estaria l\u00e1 para fazer a triagem? Para estar presente junto do utente, que passa a maior parte do tempo com o profissional de enfermagem?<\/p>\n<p><strong>Na sua perspetiva, tamb\u00e9m enquanto enfermeira, de que \u00e9 que o setor da sa\u00fade precisa, estruturalmente, para garantir que projetos como a MyCareForce n\u00e3o sejam apenas &#8220;solu\u00e7\u00f5es-tamp\u00e3o\u201d?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[T\u00e2nia Sim\u00f5es] <\/strong>O primeiro passo \u00e9 deixarem de nos ver como tal. O setor precisa de uma mudan\u00e7a de mentalidade, sobretudo ao n\u00edvel da gest\u00e3o hospitalar. Estas solu\u00e7\u00f5es devem ser vistas como ferramentas estrat\u00e9gicas, tanto para benef\u00edcio dos utentes, como dos pr\u00f3prios profissionais e da sustentabilidade das institui\u00e7\u00f5es.\u00a0Dou um exemplo: se num servi\u00e7o de internamento tenho quatro profissionais escalados e apenas dez utentes, o r\u00e1cio fica inflacionado e estou a desperdi\u00e7ar recursos. Com uma gest\u00e3o mais flex\u00edvel\u00a0\u2014 e aqui entra a tecnologia \u2014 \u00e9 poss\u00edvel alocar profissionais onde s\u00e3o realmente necess\u00e1rios, nomeadamente em picos sazonais, como no ver\u00e3o, quando urg\u00eancias fecham e h\u00e1 maior press\u00e3o noutros pontos do sistema.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que os hospitais ainda funcionam em silos. Um profissional \u00e9 contratado para um servi\u00e7o espec\u00edfico, e n\u00e3o para a institui\u00e7\u00e3o como um todo. Falta uma vis\u00e3o mais integrada, mais \u201chol\u00edstica\u201d da gest\u00e3o, como aquela com que os enfermeiros s\u00e3o treinados para ter em rela\u00e7\u00e3o ao doente. Tal como n\u00e3o podemos olhar para o doente em partes, tamb\u00e9m n\u00e3o podemos continuar a olhar para os hospitais como conjuntos de departamentos isolados. A gest\u00e3o tem de evoluir nesse sentido.<\/p>\n<blockquote><p><strong>\u201cA MyCareforce oferece aos profissionais o quando, o onde e o como querem trabalhar. (\u2026) Isso \u00e9 bastante favor\u00e1vel.\u201d<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Principalmente depois da pandemia, vimos v\u00e1rios setores acelerarem a digitaliza\u00e7\u00e3o e repensarem os seus modelos de trabalho. Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o para o futuro do trabalho na sa\u00fade? Acredita que caminhamos para algo mais descentralizado, digital e\/ou sob demanda?<\/strong><\/p>\n<p><strong>[T\u00e2nia Sim\u00f5es] <\/strong>Sem d\u00favida. Estamos a caminhar para um modelo cada vez mais digital, com a intelig\u00eancia artificial (IA) a desempenhar um papel crescente, seja ao n\u00edvel das consultas seja at\u00e9 em interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, algumas das quais j\u00e1 come\u00e7am a ser feitas remotamente com apoio tecnol\u00f3gico. Na presta\u00e7\u00e3o de cuidados diretos, no contacto f\u00edsico e emocional com o doente, ainda h\u00e1 muito que n\u00e3o pode ser substitu\u00eddo. Mas nas fases de diagn\u00f3stico, triagem ou apoio \u00e0 decis\u00e3o, acredito que a IA poder\u00e1 oferecer respostas mais r\u00e1pidas e assertivas do que esperar horas por um resultado ou por um parecer cl\u00ednico.<\/p>\n<p>Ainda assim, \u00e9 essencial avan\u00e7armos com cuidado. A digitaliza\u00e7\u00e3o deve ser uma aliada, n\u00e3o um substituto da rela\u00e7\u00e3o humana. Podemos atualizar a forma como cuidamos, mas nunca perder de vista que \u00e9 de pessoas que estamos a falar \u2014 e pessoas precisam de pessoas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Num setor assente em turnos extenuantes, grelhas r\u00edgidas e escassez cr\u00f3nica de profissionais, a MyCareforce surgiu com uma&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":9832,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[83],"tags":[88,89,90,32,33],"class_list":{"0":"post-9831","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-empresas","8":"tag-business","9":"tag-economy","10":"tag-empresas","11":"tag-portugal","12":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9831","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9831"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9831\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9832"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9831"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9831"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9831"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}